Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004

Quando um bruto encontra um bruto

O primeiro assunto a abordar neste blog teria inevitavelmente de ser o que aconteceu em Beslan a semana passada. Para começar, quero deixar bem claro que, enquanto pacifista, condeno totalmente qualquer tipo de violência. Estou perfeitamente consciente de até que ponto a minha posição é utópica (mas Gandhi também o era...), mas considero que qualquer conflito pode e deve ser resolvido de modo pacífico. Para tal, basta os homens mostrarem ser razoáveis. É precisamente da irrazoabilidade e irracionalidade humanas que partem todos os conflitos.
No entanto, ao mesmo tempo que condenor veementemente todo e qualquer conflito armado, penso que há conflitos que, embora inaceitáveis, são mais compreensíveis que outros - não por serem de alguma forma legítimos, mas por partirem de um ponto de vista legítimo. Há uma diferença fulcral entre os meios empregues e o fim a alcançar. Se para mim o fim não justifica os meios, faz alguma diferença como factor de compreensão o facto de o fim ser para mim legítimo ou não. Embora condenando-os a todos, compreendo melhor os bombistas palestinianos do que a intervenção americana no Iraque; é-me mais compreensível a luta pela autodeterminação da Tchetchénia ou de Euskadi do que a violência no Darfur.
Agora, mesmo simpatizando com as causas elas perdem toda a razão ao recorrer à violência. "O que não vai à palavra não vai à pancada", dizia a minha mãe quando era nova à minha avó.
Posta esta longa introdução, e concretamente falando do que aconteceu na Ossétia do Norte, é exactamente este ponto de vista que quero trazer à reflexão - daí o título. É absolutamente monstruosa a acção dos terroristas, sem pejo em atirar sobre crianças, mulheres, inocentes. Ao mesmo tempo, existem ainda dúvidas sobre a conduta dos militares russos que "libertaram" (já pouco havia a libertar...) a escola. Sabemos que historicamente a acção dos militares russos neste tipo de situação deixa algo (muito) a desejar. Podemos mesmo afirmar, porque é um facto, que todos os casos deste tipo na Rússia redundaram em tragédia, com dezenas ou centenas de mortos - todos se devem ainda lembrar do mais mediático destes casos, o ano passado num teatro moscovita. Neste caso em particular, importantes pontos restam ainda por esclarecer: será que o ataque à escola foi mesmo despoletado pelo facto de os terroristas terem explodido o ginásio? Há quem tenha dúvidas e ponha a possibilidade de terem sido os militares russos a desencadear tudo, só que para prevenir a condenação da opinião pública divulgou a versão de que o primeiro passo foi a explosão do ginásio.
Independentemente disto, a maior parte dos analistas concorda que a acção militar foi mal planeada e pior executada. Mesmo partindo do pressuposto que só em último caso os militares estariam dispostos a recorrer à força, é normal as forças especiais terem planos de contingência - o vulgo "Plano B" - precisamente para quando algo imprevisto ocorre. O que vimos em Beslan foi uma descoordenação gritante. Muitas crianças fugiam da escola sem ninguém que as amparasse, chegavam ao exterior e olhavam em redor, ficavam perdidos porque não havia quem os consolasse, quem os encaminhasse para uma ambulância, quem lhes desse apoio. Em muitos casos tiveram de ser os familiares a levar os feridos para o hospital... Não acredito que tenham sido os militares a dar o primeiro passo. Não consigo imaginar sequer o abjecto cinismo que para tal seria necessário; não que os Russos não tenham esse cinismo, mas depois do que aconteceu no teatro em Moscovo no ano passado duvido a atenção mediática é redobrada, e isso - provavelmente só isso - terá sido o suficiente para evitar a reincidência. Claro que só o facto de se admitir este tipo de possibilidades é suficientemente significativo...
Outro ponto que me suscita bastantes dúvidas é a política do "tiro na nuca": o ano passado, na crise do teatro de Moscovo, todos os terroristas foram mortos no próprio teatro, a maior parte precisamente com um tiro na nuca, ou seja, foram executados sumariamente. Agora parece que o mesmo sucedeu novamente. Apenas sobreviveu um dos terroristas, sendo que a sua versão dos acontecimentos não é totalmente plausível. Acho bastante estranho as forças militares não tentarem capturar pelo menos alguns dos terroristas vivos. Não seria de extrema utilidade tudo aquilo que lhes poderiam contar (mesmo sob tortura, que é algo a que não tenho que os Russos recorreriam...)? Não aprenderiam mais sobre o funcionamente das células terroristas que desenvolvem este tipo de operações? Ou até sobre a guerrilha tchetchena, já que mesmo com a colaboração de nacionais de outras repúblicas vizinhas (Inguchétia, Ossétia - parece-me sem dúvida a tentativa tchetchena de transnacionalizar o seu conflito, no que de resto têm tido pleno sucesso) não há dúvidas que estes ataques são obra da linha dura do nacionalismo tchetcheno. Aparentemente, os responsáveis russos já sabem tudo o que há a saber sobre os terroristas e sobre os guerrilheiros (não é exactamente a mesma coisa)... aparentemente arrogam-se a posição de Deus omnisciente, que plana sobre o território da Tchetchénia - mas parecem ignorar pelo menos o facto de que é precisamente essa arrogância - que aliás já vem dos tempos soviéticos - que está na origem de todo o conflito.
Um último ponto tem a ver com a tentativa russa de "Al-Qaedizar" o conflito. Tentaram-no com o sequestro de Beslan, afirmando que boa parte dos terroristas era árabe - o que era duvidoso porque pouco plausível. Acredito que a Al-Qaeda tenha contactos na Tchetchénia, sim. Já é para mim altamente duvidoso que tenham qualquer papel na orquestração dos planos ou sequer na sua execução. Creio que, quando muito, têm um estatuto de observadores. Mas esta tentativa russa de manipular a opinião pública é significativa em si mesma. Parece por vezes estranho como é que um presidente que, como Putin, toma decisões que levam à morte de centenas de inocentes (independentemente do sucesso do ponto de vista da neutralização da ameaça e dos terroristas), tem tão altos níveis de popularidade, crescentes de resto a cada caso destes. Compreende-se melhor o aparente paradoxo quando se atenta no panorama audiovisual russo, totalmente controlado pelo Kremlin. É Putin ou os seus colaboradores que decidem que notícias podem sair para o público, e de que forma podem sair. Ainda há um par de dias foi demitido o director do "Izvestia" (por ordem emanada das mais altas cúpulas do poder), jornal controlado por Putin mas que tomou a ousadia de utilizar a palavra "guerra" na caracterização da tragédia de Beslan. Assim sendo, e dado que os media considerados independentes - porque os há - têm pouca divulgação no interior da Rússia (somos nós, mundo ocidental, que ironicamente mais lhes dá atenção e crédito), é inevitável que a opinião pública russa fique do lado de Putin e que lhe dê, quando de eleições, maiorias que poderíamos qualificar de soviéticas. É a democracia à russa...
Regresso assim ao ponto inicial: a brutalidade. Temos brutos de um lado - os terroristas - que tentam, ou dizem tentar, tornar a Tchetchénia independente, pressionando Putin directamente ou de forma indirecta, através da simpatia da opinião pública. Quer de uma forma ou de outra, este tipo de acção terrorista só lhes granjeia precisamente o contrário, uma ilimitada antipatia. Quando Putin diz que vai "caçar os bandidos até nas retretes" o povo russo aplaude. Do lado russo da barricada, entretanto, temos também brutos. Brutos quando tentam esmagar pela força a resistência no próprio terreno da Tchetchénia, brutos quando capturam sequestradores. Respondem à brutalidade com mais brutalidade. E perdem a superioridade moral que poderiam eventualmente ter sobre os terroristas. Porque o que fazem é apenas uma outra forma, mais subtil, mais insidiosa, de terrorismo.
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