Terça-feira, 31 de Outubro de 2006

Gacrux (2)

(cont.)
Sentindo os passos cautelosos de Ramón atrás de si enquanto ele entrava a medo na primeira sala, Penélope caminhava pesadamente até à porta seguinte. Cada passo que dava era mais penoso que o anterior, os seus pés mais tolhidos pelo medo… Lisa permanecia do seu lado esquerdo, estendia-lhe a mão numa oferta de apoio mútuo, silenciosamente dizendo que também ela seria incapaz de prosseguir sozinha, que as duas entrariam juntas em cada sala que encontrassem. Penélope apertou com toda a força de que era capaz a mão da companheira e sentiu-a retribuir da mesma forma. Ficaram assim imóveis por momentos, sentindo incomensuráveis vagas de carinho aquecerem os seus assustados corpos, sossegarem os seus acelerados corações.
Lisa e Penélope olharam-se nos olhos por um fugaz instante e, numa manifestação de empatia, deram ao mesmo tempo o derradeiro passo em direcção à sala à sua frente. A porta estava escancarada, deixando um rectângulo de luz baça desenhar-se no chão. Entraram hesitantemente na sala e olharam em seu redor. Era um compartimento de aspecto desconfortável, impessoal, as paredes imaculadamente brancas – quem quer que a utilizasse não podia tê-la abandonado há muito tempo. A única mobília era uma secretária e uma cadeira estofada, também elas impecavelmente limpas.
Isto só pode ter sido o escritório de alguém, disse Lisa baixinho, verbalizando a óbvia dedução que ambas tinham rapidamente feito.
Sim, e tão limpo que não pode ter sido deixado há muito tempo… Mas o que terá acontecido para fazer toda a gente fugir?
Não sei… Seja como for, não está ninguém aqui. É melhor passarmos à próxima sala.
Quase a medo, as duas amigas viraram costas à sala, tentando rejeitar um medo absurdo de que algo ou alguém as poderia de repente atacar pelas costas. Caminharam pelo corredor até à porta seguinte, que ficava bastante mais afastada. À medida que se aprofundavam no edifício a luz ia-se esbatendo. O átrio por onde tinham entrado, a única fonte de luz, estava cada vez mais longe, tornando os contornos das portas mais baços, cada vez mais difíceis de distinguir, desvanecendo-se numa penumbra crescente quando olhavam a sucessão de portas ao longo do corredor.
Estranhamente, a curta caminhada até à porta seguinte fazia-as sentirem-se mais seguras, como se o efeito tranquilizador de andarem sempre de mãos dadas estivesse a dar os seus frutos, como se ambas tivessem inconscientemente concluído que se algum perigo ali houvesse ele já teria ocorrido. Também esta porta, bastante mais longa que as anteriores, estava aberta. De mãos sempre dadas mas agora menos apertadas, entraram num enorme salão onde filas e filas de cadeiras se sucediam à sua frente, num declive acentuado que culminava, do lado oposto da sala, num pódio que abrangia toda a largura da divisão.
Isto parece uma sala de conferências ou algo do género, arriscou Penélope, examinando atentamente toda a sala que, em toda a aparência, estava também deserta.
Sem dúvida… e sem dúvida que aquele pódio ao fundo parece um bom abrigo para alguém se esconder… embora isto tenha um ar tão desolado como tudo o resto que já vimos aqui dentro.
Tens razão, mas não custa nada descermos e darmos uma espreitadela àquele pódio, disse Penélope enquanto, impulsionando o corpo para a frente, convidava a amiga a descerem as escadas.
Desceram ao mesmo tempo o primeiro degrau, apenas para de súbito se imobilizarem, o sangue gelando-se-lhes rapidamente ao ouvirem um ruído ininteligível vindo da entrada do edifício, uma espécie de restolhar, gritos, passos apressados. Viraram-se ao mesmo tempo para saírem da sala mas mais uma vez o medo deteve-as após os primeiros passos: parada à porta da sala de conferências, uma silhueta recortava-se contra a penumbra. Alguém olhava para elas.

O espaço por trás da porta estava completamente escuro. A cabeça de Ramón foi emergindo lentamente, a medo tentando distinguir o que quer que fosse – tarefa impossível, pois a difusa luz que emanava do átrio de entrada era bloqueada pela porta e pelo seu próprio corpo. Sentia-se ridículo, ali parado, olhando para um canto escuro de uma sala deserta, mas ao mesmo tempo obcecado, como se algo dentro dele soubesse que havia coisas ali à espera de serem descobertas… Ramón agachou-se por trás da porta e tacteou hesitantemente o chão, quase sentindo o contacto com um qualquer objecto desconhecido, quase antecipando o frio contra os seus dedos…
Não havia nada. Aquele recanto, como o resto da sala, estava vazio. Perguntou-se então por que motivo aquele sítio preciso o havia atraído, não o tinha deixado seguir em frente, abandonar a sala. Abandonar a sala… seria então isso? Estaria o seu instinto a dizer-lhe que havia algo ali que merecia a pena examinar? Olhando para a direita, distinguia, a contraluz, a fila de gavetas do armário prolongando-se até à parede oposta. Tinha o aspecto de uma qualquer espécie de arquivo, pensou Ramón, decidindo contrariar a sua ideia inicial e examinar o conteúdo do armário.
Ainda infantilmente receoso, como se temesse que um monstro saltasse de dentro do armário, abriu lentamente a gaveta mais próxima, ao nível dos seus braços, o deslizar dos rolamentos rasgando o sepulcral silêncio. A gaveta estava de facto repleta de fichas de arquivo, pequenas pastas que pareciam registos de dados de pessoas. Se cada ficha correspondesse a uma pessoa, calculou por alto, aquele armário poderia conter os dados de todos os habitantes da colónia… O mais estranho era, contudo, o facto de o próprio arquivo existir, o facto de alguém se ter preocupado em reunir por escrito todas aquelas informações quando elas eram guardadas informaticamente. Ramón nunca tinha visto nenhum tipo de registo que não projectado num écran de computador. Sabia que era possível imprimir dados, mas sempre pensara que era apenas uma reminiscência de tempos antigos, tempos em que as pessoas, por receio de alguma avaria informática ou até por preferência, escolhiam manusear papel em vez de simplesmente consultarem um computador. Não conseguia imaginar, de resto, nenhum motivo para, no século em que viviam, alguém se ter preocupado em obter registos escritos fosse do que fosse… a não ser que tivesse motivos fundados para recear que os computadores deixassem de funcionar…
Sem conseguir imaginar que motivos poderiam ser esses – a última avaria informática historicamente registada fora já há mais de cem anos – Ramón retirou ao acaso um pequeno molho de fichas da gaveta e abriu a capa da primeira. Tratava-se aparentemente de um registo médico: identificação do paciente, resultados de exames, observações… todas as folhas tinham sido impressas a partir do computador clínico, as letras a preto imaculadamente recortadas contra o branco do papel, perfeitamente alinhadas… com excepção, notou Ramón, de uma anotação manuscrita no fim do processo.
Isso corroborava a tese de que algo tinha impedido a utilização dos computadores, pois era o único motivo que levaria alguém a dar-se ao trabalho de escrever o que quer que fosse à mão. Tentou ler as breves linhas, mas a caligrafia era totalmente ilegível. Talvez o médico escrevesse assim normalmente, ou talvez o tivesse escrito apressadamente. Não conseguiu reprimir um arrepio que lhe invadiu todo o corpo enquanto a sua imaginação dominava de novo o seu lado racional e o fazia mentalmente enumerar possíveis cenários dantescos que explicassem o que tinha nas mãos…
Não chegou a qualquer conclusão, pois o seu raciocínio foi interrompido: ruídos estranhos, gritos, passos apressados irrompiam na rua, perto da entrada do edifício. Deixando a gaveta aberta, Ramón precipitou-se para fora da sala e correu, o molho de fichas ainda nas mãos, na direcção oposta à entrada. Tinha de encontrar Lisa e Penélope, saber se estavam bem. Escassos segundos tinham passado quando Ramón, depois de sem parar de correr ter entrado na primeira sala, verificado que estava vazia, tornado a sair e percorrido o espaço até à segunda sala, se imobilizou à entrada do que lhe pareceu ao primeiro relance uma sala para grandes reuniões. À sua frente, ao nível da última fila de cadeiras, Penélope e Lisa, de mãos dadas e imóveis, olhavam assustadas na sua direcção mas não para ele – como se ele fosse um intruso, um agressor, como se tivesse sido ele o causador daqueles perturbadores ruídos.
Ramón distinguiu-lhes o impulso de se virarem para trás e correrem em busca de um refúgio, os músculos contraídos preparados para a fuga. Ficaram no entanto ali, imóveis como ele estava imóvel, frente a frente, ninguém conseguindo fazer o primeiro gesto. Sons abafados, indistinguíveis, interpunham-se no silêncio do espaço que os separava, tornando a situação ainda mais irreal: três companheiros, sem se reconhecerem mutuamente, parados, em silêncio, sem sequer ouvir os sons que até eles chegavam da rua, ruídos que prenunciavam perigo.
Pen, Lisa, sou eu. Após o longo silêncio, Ramón falou enfim, com uma voz calma, fria, como se nada se passasse. Não sei o que está a acontecer lá fora.
Ramón, assustaste-nos! Penélope corria para os braços do companheiro, precedendo Lisa na busca de algum conforto.
Eu percebi. Não me estavam a reconhecer. Abraçando Penélope com um braço e Lisa com o outro, sentindo-as contra os seus ombros, percebia como estavam assustadas – como ele próprio estava assustado… Não serve de nada ficarmos aqui. Vamos ver o que se passa.
Lado a lado, cada passo dando-lhes coragem para o seguinte, os três percorreram o espaço que os separava da entrada do edifício, preparando-se para o cenário mais inesperado possível. Tentando não hesitar, chegaram à porta da entrada do edifício e foram detidos pelo espanto do que na rua estavam a ver: nenhum pensamento os podia ter preparado para uma cena tão surreal…
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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Gacrux (1)

O vento. Parados em frente à nave, sozinhos no meio do que outrora parecia ter sido uma avenida, nada mais existia que o vento. À sua frente, em seu redor, dentro de cada um deles, um vento rodopiante, dominador, fustigador, enchia tudo, cada partícula de ar, cada pequeno orifício, nada mais podia existir que não o vento. Nos breves minutos passados desde que tinham saído da nave, uma pequena duna de areia tinha-se já formado em frente à porta. Tinham a forte impressão que se voltassem dali a umas horas não encontrariam o seu veículo espacial, mas simplesmente uma duna de curiosa forma, curiosa também porque plantada no meio de uma rua, no meio de uma cidade deserta…
Continuaram imóveis durante largos minutos, por um lado rendidos ao poder simultaneamente tirânico e sedutor do vento, por outro indecisos sobre o que fazer. Como habitualmente, o simples som da voz de um deles foi o suficiente para quebrar a letargia geral.
A mim isto parece-me uma cidade de facto deserta. Se há pessoas aqui, estão escondidas e bem escondidas. Ao falar, Penélope olhava em seu redor, não fixando o olhar em nada nem em nenhum dos seus companheiros, a sua própria voz parecendo mais dirigir-se ao ar à sua volta do que a alguém em particular.
Pois, o problema é escondidas de quê…
Ou de quem… Ao completar o receio de Romeo, Tamara abraçava-lhe instintivamente o braço ao mesmo tempo que olhava todos em seu redor, apenas confirmando que as suas palavras verbalizavam aquilo em que todos pensavam.
Seja como for, não temos muitas alternativas. Penélope retomava o fio do raciocínio interrompido. Temos de encontrar alguém. Proponho entrarmos nos edifícios, um por um, revistar cada compartimento. Cada pequena sala pode estar a servir de refúgio, mesmo os mais recônditos cantos.
Sobretudo os mais recônditos, completou Vince, como sempre pronto para entrar em acção e a liderar o grupo, o seu ar resoluto – mesmo que apenas camuflagem do mesmo medo que todos sentiam – servindo de exemplo. Não nos esqueçamos que se esta gente se está de facto a esconder, o mais provável é escolherem locais abrigados, o mais discretos e escondidos possível.
Proponho dividirmo-nos em dois grupos. Se formos todos juntos demoramos muito tempo, e também acho que ninguém quer andar por aí sozinho ou mesmo aos pares… Ramón,  enquanto homem da ciência, tentava também encontrar a solução mais lógica para os tirar rapidamente  daquela situação e ao mesmo tempo vencer o receio que os tolhia.
Boa ideia. Vince ladeava Ramón enquanto defensor de uma rápida solução. Cada grupo fica com um dos lados da avenida. Eu, o André e vocês os dois ficamos com o lado direito. Pen, Ramón, Lisa, vocês ficam com o lado esquerdo. Começamos com estes edifícios aqui ao lado e depois vamos subindo naquela direcção. Vince apontava o final da rua à sua frente, no final de um declive ligeiramente ascendente. Estão todos de acordo?
Sim. Ramón falava por todos, observando o afirmativo menear dos outros. Encontramo-nos mesmo no fim da rua, aquilo parece ser uma espécie de praça, é perfeito como ponto de encontro. Vamos! Sem querer perder mais tempo, avançou em direcção ao edifício mais próximo do seu lado esquerdo, seguido por Penélope e Lisa, de mãos dadas tentando sacudir os temerosos arrepios pelos três partilhados. Sentiam o silêncio impondo-se, os passos de Vince, André, Tamara e Romeo cada vez mais difusos por entre as rajadas de vento, à medida que cada um dos grupos se aproximava dos lados opostos da rua.
Lisa caminhava mesmo nos calcanhares de Ramón, observando os músculos tensos do companheiro, admirando a resolução que o seu corpo transmitia, os seus braços acompanhando o andar, mesmo que um ligeiro tremor das mãos o traísse… Apertava com força a mão de Penélope, sentia que esta também apertava a sua com força. Tentavam que a coragem das duas, assim unidas, fosse suficiente para as fazer avançar, mas sabiam que era apenas a inércia do andar que as mantinha em movimento… À medida que o edifício mais próximo crescia à sua frente, as janelas, as portas deixavam transparecer um enorme vazio, combatendo o insuportável zunir do vento que ia ficando para trás… Apertando a mão da amiga ainda com mais força, sentia que ela fazia o mesmo. Instintivamente caminhavam cada vez mais próximas, sentia o braço gelado de Penélope junto ao seu. Pensamentos soltos atropelavam sem controlo a sua mente, ora a assustando mais, ora a confortando. Pensava em fantasmas saltando-lhes ao caminho, formas fátuas de enormes bocas que os engolissem. Imaginava-se abraçada a Penélope, as duas juntas perecendo, esfumando-se fantasmaticamente, tornando-se num único fátuo ser. Estranhamente, confortava-a esse pensamento, de que ela e Penélope ficariam unidas para a eternidade, o fantasma de Ramón abraçando-as ambas…
Quando retomou o sentido da realidade, abraçava ainda a amiga. Sentia os braços de Ramón envolvendo-as às duas e a sua cara, consternada, quase preocupada, muito próxima.
Vocês estão bem? Pergunta apenas retórica, Ramón sabia-o, pois a palidez de Penélope e Lisa respondia por elas. Uma porta enorme – ou antes, o espaço do que havia sido uma porta – abria-se à sua frente, um rectângulo de luz projectando-se no interior, um tapete de areia marcando a fronteira entre o espaço dominado pelo vento e a escuridão… Vamos entrar? Ou querem parar um pouco para respirar, ganhar coragem?
Por fora, o edifício era em tudo semelhante aos que o rodeavam, constituindo aliás parte de uma fachada única, toda ela construída no mesmo tipo de pedra – uma matéria durável mas que ao mesmo tempo era facilmente erodida pela acção do vento: havia curvas irregulares cavadas nas paredes nos locais onde o vento tinha corroído mais fundo. Para além da força irregular da erosão, cada edifício apenas se distinguia dos seus vizinhos pela diferente forma e ordenação de portas e janelas, pois a tinta, a ter existido, tinha já sido totalmente arrancada pelo vento, deixando apenas a cor da pedra, ocre como a areia – como se os próprios edifícios fossem feitos de areia, como se com o seu ar instável se fossem desmoronar a qualquer momento.
Vamos entrar já. Embora continuasse pálida, a voz de Lisa transmitia a sua repentina certeza, tentando ao falar daquela forma sacudir para longe o medo. Se esperarmos apenas vamos perder a pouca coragem que temos. Mas por favor, Ramón, dá-me a mão e não a largues… Antes mesmo de poder corresponder ao pedido da amiga Penélope agarrava-lhe uma das mãos, olhando ternamente para ele, silenciosamente formulando o mesmo pedido.
De mãos dadas a ambas, Ramón ajudou-as a darem alguns cautelosos passos, vencendo a areia que se acumulava contra a parede interior do átrio do edifício. Parecia ter sido utilizado como um qualquer tipo de recepção, talvez a entrada de um prédio de escritórios, pois era semelhante aos que na Terra serviam esse propósito. A desolação era total. Dos lados da porta, duas janelas – o espaço alongado do que outrora haviam sido janelas – não ofereciam também qualquer protecção ao vento, dunas de areia formando irregulares rectângulos do lado de dentro do prédio. À medida que o vento se deixava de sentir, também o seu chicoteante assobio se ia desvanecendo, deixando no seu lugar um ainda mais insuportável silêncio. Acentuando ainda mais o contraste com o exterior, nenhum som, nenhum pequeno movimento se discernia naquela divisão.
Não vos parece que isto foi abandonado há pouco tempo? Ramón fazia os possíveis por pensar logicamente, mantendo-se dessa forma ligado à realidade, evitando o assalto de quaisquer pensamentos terríficos, de quaisquer assombrações…
Realmente não parece assim muito degradado. Penélope corroborava o companheiro: aquele átrio tinha de facto o ar de ter sido recentemente utilizado, embora não conseguisse perceber porquê.
À velocidade a que a areia invade tudo, acho que já devia haver autênticas dunas aqui dentro. E apenas se vê quadrados de areia mais ou menos definidos junto à porta e às janelas… como se até há bem pouco tempo algo as tivesse tapado…
Ou como se alguém tivesse deixado de limpar o chão! Isto parece-se com uma recepção de uma empresa, pela lógica devia estar sempre limpo enquanto houvesse alguém a utilizá-lo. Lisa aderia também ao pensamento racional, única forma de manter a lucidez por entre toda aquela desolação.
Isso quer dizer que a fuga das pessoas foi recente… Percorrendo com o olhar as arestas do átrio e as fronteiras entre o chão e a areia, Ramón limitava-se a pensar em voz alta. Pelo menos de quem trabalhava aqui.
Mas isso não quer dizer que não haja ninguém escondido numa das salas. Penélope olhava para o longo corredor atrás do átrio que parecia levar ao resto do edifício, tentando imaginar quantas salas haveria. Seria um bom esconderijo.
Tens razão. Lisa avançava já cautelosamente em direcção ao corredor. Convém darmos uma espreitadela em cada uma das salas.
Vamos então. Mas vamo-nos separar, para ser mais rápido. Ramón chegava já à primeira sala e abria lentamente a porta… Se as salas estiverem vazias não percam tempo. Temos uma rua inteira de prédios destes para revistar…
Enquanto entrava pé ante pé na sala, sentia Lisa e Penélope fazendo o mesmo na divisão contígua. Todos desejavam encontrar algo – alguém – mas ao mesmo tempo tinham um imenso medo de que qualquer surpresa lhes saltasse em cima.
A sala em que Ramón entrava não tinha luz própria. Era apenas iluminada pela claridade que vinha do exterior, o que lhe dava um ar ainda mais tenebroso. O coração rufando de medo, Ramón sentia vagas de sangue gelado percorrendo-lhe o corpo uma após outra. Sabia que não podia vacilar, sabia que só conseguiria resistir ao temor, só conseguiria evitar que as suas pernas o levassem a correr dali para fora e o trancassem, tremendo na nave, se se mantivesse concentrado em pensamentos racionais – por exemplo, intuindo a função de cada uma daquelas salas para perceber onde seria mais lógico um hipotético fugitivo esconder-se.
Do lado direito da porta, uma secretária de madeira e uma cadeira de estofo pareciam ter sido deixadas minutos antes pelo seu utilizador. As paredes da sala estavam despidas, com excepção de um armário de metal do lado esquerdo da porta que se prolongava por trás desta. Aparentemente, aquela tinha sido uma espécie de arquivo, onde se guardavam qualquer tipo de ficheiros que Ramón não teria tempo de examinar. Só para ter a certeza de que a sala estava vazia, espreitou lentamente para o recanto escuro atrás da porta…


(continua...)
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Domingo, 29 de Outubro de 2006

Regulus

O medo… No meio do mais profundo dos silêncios, o medo tornava-se quase palpável, como se uma qualquer criatura surgida das profundezas daquele planeta inóspito fosse a qualquer momento arrancar a porta da nave e sugá-los um a um para o exterior, onde de súbito desapareceriam sem deixar rasto, tornados eles também um dos invisíveis seres, também eles assim condenados a para sempre assombrar quem naquele planeta aparecesse…
Intimamente imaginavam tais seres dançando em redor da nave, executando uma qualquer dança ritual cuja mensagem era a de que aqueles estranhos no interior do círculo eram agora também parte da mesma tribo assombrada. Imaginavam a silhueta de cada um deles esbatendo-se gradualmente, tornando-se fluida, até nada mais ser senão a fronteira de seres incorpóreos… Desta forma transformados, olhavam os que os haviam condenado a tal destino e, fitando os ocos globos oculares, o que outrora havia sido os seus olhos, reconheciam nesse vazio que também aqueles seres tinham um dia tido um corpo, tinham um dia caminhado naquelas areias. Os olhos vazios que os aterrorizavam eram, descobriam-no então, apenas o derradeiro traço de que aqueles seres haviam sido, numa época pretérita, os habitantes daquele rubro planeta, de que também eles tinham, antes da chegada daqueles forasteiros, sido da mesma forma sugados para aquele eterno destino, condenados por um qualquer impenetrável desígnio a destruir os corpos e prender as almas de todos quantos pisassem as areias do planeta vermelho…
Todos imaginavam cenários semelhantes a este, olhavam-se nos olhos como que pedindo aos outros que dissessem que não era verdade, que não existiam fantasmas, que nada lhes iria acontecer, que era apenas a sua imaginação incontrolável que transformava o desconforto que aquele cenário lhes transmitia numa história de terror…
Este é o tipo de sensação que se tem no deserto, disse Romeo muito baixinho. Este abandono, as presenças, os espíritos que quase nos parecem sussurrar ao ouvido… Parece que o deserto, aquilo que eu mais amo na Terra, foi transportado para aqui, quase me pergunto se vocês estão a ver o mesmo que eu, ou se cada um de vocês está a ver o vosso cenário terrestre preferido, aquilo que de mais querido se recordam na Terra…
Não, Romeo, disse Tamara quase em murmúrio, segurando-lhe levemente a mão. Nós também vemos um deserto… uma cidade-fantasma no meio do deserto…
Só que na Terra, prosseguiu Romeo, as presenças que sentia eram confortáveis, como se me quisessem dizer que tudo estava bem, que eu não era mais que um entre eles, e eu sentia-me por isso verdadeiramente em casa… Aqui sinto o mesmo, mas há algo nas presenças que sinto que as deturpa, as torna o exacto contrário do que era suposto serem… sinto que elas nos vêm como invasores, como seres estranhos que nunca deviam estar aqui e que devem desaparecer, de uma forma ou de outra… suponho que todos estamos a sentir o mesmo, pergunto-me se seria a isto que se referia a mensagem que recebemos…
Não sei, pode ser tudo fruto da nossa imaginação… Ramón tentava racionalizar o que sentia, mas sem por isso se conseguir sentir mais confortável. Este silêncio, esta desolação… o que eu me pergunto é onde estão as pessoas, porque é que não vieram ter connosco… pergunto-me se…
Se ainda há pessoas… Ao completar a frase de Ramón, Penélope sentiu um arrepio incontrolável que contagiou os companheiros, uma vaga de frio gelando-lhe o sangue…
Será que eles nos viram, será que os detectores deles funcionam? É possível que se tenham avariado, e que por isso não tenham forma de saber que estamos aqui…
É possível, Ramón. Vince tentava também racionalizar as coisas, propondo possíveis explicações, tentando encontrar soluções que lhes permitissem agir. Na sua forma de ser era sempre a acção que o fazia desbloquear e vencer o medo, a angústia. Ou se calhar estão demasiado longe e não têm forma de rapidamente chegarem aqui… se calhar até já estão a caminho…
Ou então estão escondidos algures e a mesma presença que nós estamos a sentir não os deixa abandonar o esconderijo… Penélope juntava-se também à luta contra aquele medo paralisador, esforçando-se em agir. Não me parece que sirva de algo ficarmos aqui parados, por isso eu proponho sairmos da nave, explorarmos as ruas, ver se encontramos qualquer coisa.
Há um problema, Pen. Não sabemos se a cúpula atmosférica está a funcionar, e se não estiver não podemos sair… os fatos espaciais que trouxemos estão preparados para as condições de Zooropa, em Marte não nos serviriam de nada.
Mas não podemos calibrá-los para a atmosfera marciana? André olhava Vince com um pedido de que respondesse que sim estampado na face.
Podemos, claro, mas demora tempo… e era preciso sabermos exactamente as condições da atmosfera lá fora… ninguém se lembrou de reunir informação sobre isso, porque obviamente ninguém pensou que iríamos ter de estar aqui…
Há uma solução, propôs Ramón para um grupo que o olhou avidamente. Sei mais ou menos as características da atmosfera marciana, afinal leccionei essa matéria vezes e vezes sem conta. Infelizmente não sei os valores de cor, por isso não podemos calibrar os fatos. Mas o que eu sei, e é um princípio geral, é que mesmo que a cúpula da colónia não esteja a funcionar, neste momento os nossos geradores de ar estão a funcionar. Se entreabrirmos a porta só por um momento, vai entrar um pouco de ar marciano, que é irrespirável mas que se dilui no ar que temos aqui dentro e que é bom para nós. É possível que nos sintamos asfixiados por uns momentos, mas só isso, os nossos filtros limpam o ar impuro rapidamente.
Tens a certeza do que estás a propor?
Sim, é bastante simples, não acham, Tamara, Romeo?
Claro, professor… desculpe… desculpa… Ramón! Todos se riram com aquele pequeno lapso de formalismo linguístico, uma pequena lufada de bom humor que serviu para descomprimir o ambiente e para que todos se sentissem novamente prontos para o que fosse preciso.
Bom, Ramón, acho que é a única alternativa razoável que temos… ou isso ou sentamo-nos e ficamos eternamente à espera… vou abrir a porta… só um bocadinho…
Tem cuidado! André caminhou instintivamente na direcção de Vince que, junto à porta, se preparava já para rodar a fechadura.
Não, fiquem desse lado, é melhor ficarem o mais longe possível. André recuou obedientemente, juntando-se aos outros no canto oposto do compartimento. Vou abrir agora…
Todos olhavam apreensivos para Vince à medida que reflexos avermelhados projectavam uma estreita coluna de luz que começava na porta. Mantinham-se completamente imóveis e em silêncio, aguardando uma reacção, que algo acontecesse. Um sopro gelado percorreu toda a nave, alguns grãos de areia ocre conseguiram penetrar pela frincha da porta, mas para além disso nada mais sucedeu. Ainda imóveis, viram a cara de Vince aproximar-se lentamente da porta entreaberta, parar por uns momentos e depois a coluna projectada pelos reflexos do exterior tornando-se lentamente mais larga, até desenhar um claro rectângulo ocre no chão da nave, à medida que jactos de areia lhes eram lançados contra o corpo e ficavam agarrados às roupas.
Não aconteceu nada. A cara de Vince virou-se para eles, um largo sorriso desenhando-se nas faces. Podemos sair!
E depressa, esta areia dá cabo dos circuitos se entrar nalgum orifício. Ramón, dando o exemplo, dirigiu-se a passos largos para a porta, seguido nos calcanhares por todos os outros.
O vento assobiava-lhes nos ouvidos enquanto, imóveis, olhavam tudo em seu redor, as ermas avenidas, os abandonados edifícios… Ramón virou-se para os outros para se certificar de que todos tinham saído e fechou a porta da nave. Um ruído seco produziu nas expressões de todos o mesmo efeito: estavam sozinhos agora, estavam por conta própria… Olhando em seu redor, a paisagem da cidade-deserto impunha-se, expulsava tudo o resto até só ficar ela, a cidade abandonada ao furioso vento. Quase parecia que não tinha habitantes simplesmente porque se habitava a ela própria, e o vento nada mais era que o seu amante, rodopiando em redor dos seus contornos, preenchendo todos os ângulos da sua silhueta, a cidade habitada pela cidade era quase plausível, quase… se não fosse por uma indizível sensação de que pessoas tinham usado aquela cidade, tinham também namorado com ela até terem sido expulsos pelos intempestivos avanços do amante vento…
Não sei como é possível pessoas terem sobrevivido num sítio destes…
Também me custa a acreditar, Lisa. Penélope afagava o já poeirento cabelo de amiga para a reconfortar, mostrar-lhe que partilhava a mesma incredulidade, a mesma sensação de abandono… Mas a não ser que tenham sido fantasmas a enviar-nos aquela mensagem, e acho que nenhum de nós acredita minimamente nisso, existem mesmo pessoas por aqui… É difícil imaginar como sobreviveram, mas tenho a sensação de que muito rapidamente vamos saber…
Também sinto o mesmo. Algo me diz que vamos ser surpreendidos… Enquanto falava, Tamara punha a mão no ombro de Penélope, como que selando a tríade feminina daquele grupo, as três juntas naquele momento simbolizando a presença da intuição feminina.
Concordo contigo, Tamara. André, abraçado por Vince, dava a mão à sua amiga-irmã. Tenho a estranha sensação de estarmos a ser vigiados…
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Sábado, 28 de Outubro de 2006

Aldebaran (2)

(cont.)
Marte… o assombroso planeta vermelho que tantas vezes ao longo dos séculos tinha sido amado, sublimado, cantado e odiado pelos homens em vista de toda a carga simbólica que tinha, num misto de intenso fascínio e temeroso respeito – o planeta da morte, o planeta-deus da guerra, o deserto a povoar, a missão última do Homem, os marcianos – exercia gradualmente o seu poder de hipnose todos os tripulantes da nave. À medida que a rubra esfera marciana ia enchendo o horizonte e que tudo se cobria de reflexos acobreados, nenhum deles conseguia pensar em nada que não fosse aquele planeta ainda tão misterioso… Era fácil perceber a razão de tantos se terem sentido atraídos por Marte, e ao mesmo tempo por que o tinham depois abandonado: a partir daquela altura, todos os sete sabiam que mesmo que quisessem não conseguiriam voltar para trás, e esse pensamento enchia-os de curiosidade e ao mesmo tempo de medo… O silêncio, um duro silêncio, perdurou durante aqueles minutos sem que ninguém estivesse dele ciente, pois Marte era tudo, enchia cada pequena partícula de existência, como se a gravidade do planeta se materializasse e substituísse tudo o que fosse corpóreo na nave, como se o próprio planeta possuísse vida… Todo o horizonte era agora vermelho, nada se via a não ser a superfície marciana, e o relevo ia ganhando pormenores cada vez mais nítidos…
Olympus Mons, a montanha mais alta do sistema solar, proclamou Ramón quando passaram sobre o gigantesco vulcão. Aquela pequena nota de fascínio quebrou a hipnose colectiva em que todos haviam caído e despertou-os para as pequenas tarefas que tinham de desempenhar para preparar a aterragem. Nova Babilónia, a primeira – e única – colónia terrestre não era muito longe. O local havia sido escolhido propositadamente, para que o grande Monte Olimpo dominasse a paisagem da cidade mas não a enchesse por completo, deixando ver o contraste entre a montanha e a planície em seu redor.
Tudo pronto, malta. Vince, sentado em frente aos comandos, olhava todos os mostradores uma e outra vez, obsessivamente preocupado que todos se mantivessem dentro dos limites normais. Espero que já tenham dado por nós e que se lembrem de nos enviar uma mensagenzita rádio, dava jeito uma ajuda para aterrar como deve ser…
Realmente, Vince, sem a ajuda deles não sei onde vamos aterrar… Ramón olhava preocupado pela janela. O solo parece todo plano, mas é traiçoeiro… é muito rochoso, cheio de pequenos declives e com muita erosão, se não tivermos o máximo de cuidado acontece-nos o mesmo que tantas vezes antes de nós, despenhamo-nos e nem damos conta do que nos aconteceu…
Como que em resposta às suas palavras, o rádio começou a emitir, mas nada era perceptível a não ser interferência e estática. Todos olharam em uníssono para o receptor, mas se alguma palavra constava da transmissor tinha-se perdido nas poucas centenas de metros que os separavam das primeiras habitações da colónia.
Suponho que serão eles a tentar comunicar algo. Penélope batia nervosamente com os dedos no aparelho como se isso tornasse a comunicação nítida. Não há nada a fazer, só podemos contar connosco…
Vamos dar o nosso melhor. Vince, novamente assumindo o comando, esqueceu-se dos mostradores e concentrava-se unicamente dos controlos de pilotagem. Pen, Ramón, vão para a janela e descubram um sítio desimpedido para aterrar, o antigo espaçoporto por exemplo. Os outros, vejam se todas as bagagens estão seguras, não quero nada solto a passear-se por aí. E segurem-se também… não há cintos de segurança mas improvisem!
Daquela distância já se distinguiam perfeitamente os edifícios, enormes arranha-céus erguendo-se na planície como fantasmas saudando os que chegavam, os seus reflexos de cobre tornando Nova Babilónia numa autêntica cidade do deserto. Ramón e Penélope, atentos aos prédios e às ruas em busca do desejado espaçoporto, quase se esqueciam que estavam em Marte e não numa qualquer cidade abandonada do Sahara, sítios outrora habitados e florescendo de vida mas há séculos vazios, desérticos, fazendo parte do deserto em seu redor… Também a colónia parecia abandonada havia séculos, tal era o grau de deterioração das casas… e o silêncio, o tenso silêncio, era como que a confirmação de que fantasmas habitavam realmente aquele local, quase os conseguiam ver erguendo-se das ruas na sua direcção…
Para aquele lado parece que as ruas se tornam mais largas, não achas Pen?
Sim… suponho que o espaçoporto será para ali. Vince, vira, às dez horas.
Sim, minha comandante, brincou Vince enquanto fazia uma continência. Este vocabulário militar tem uma certa piada… e não há dúvida que imaginar um relógio para saber para onde virar é extremamente prático. Vêm alguma coisa?
Nada que se pareça com um espaçoporto. Mas estamos a passar mesmo por cima de uma enorme avenida, isto é suficientemente largo para aterrarmos.
Estou a ver! Ficamos já aqui, é um lugar tão bom como outro qualquer. Vamos lançar a âncora do nosso navio espacial. Segurem-se, é a primeira vez que estou a praticar a aterragem…
Que engraçadinho que tu és! André ficava sempre enternecido com as ironias de Vince, e teve de se conter para não o abraçar naquele momento… É pena é não ser a única que farás… mas estás a ir lindamente, só tens de continuar assim.
Está quase… quase… isso… ligeiramente para a esquerda… não, para a direita… não, a outra direita… Todos se multiplicavam em pequenas indicações totalmente desnecessárias e que Vince não ouvia, concentrando-se unicamente nos comandos e no que via pela janela à sua frente, o solo aproximando-se mais e mais, devagar, muito devagar… e com um pequeno solavanco a nave imobilizou-se, totalmente ilesa.
Conseguimos!!! No momento seguinte todos pulavam e corriam pela nave fora, abraçando-se, beijando-se, gritando o seu alívio de estarem a salvo. Uma enorme histeria colectiva que foi abrandando a pouco e pouco, à medida que se iam apercebendo de que nada acontecia em seu redor, que os prédios se mantinham tão vazios como antes, que ninguém vinha ter com eles… E o silêncio de novo instalando-se…
Todos olhavam pelas janelas, inspeccionavam minuciosamente todas as vazias janelas de todos os inóspitos prédios para encontrarem apenas ausência… ausência de tudo, de vidros nas janelas das casas, de veículos, de tudo o que pudesse sugerir que aquela cidade era povoada ou sequer que o fora alguma vez… o vento, apenas o vento parecia habitar a cidade-deserto, soprando a seu bel-prazer pelas desérticas ruas, transportando areia, pedras, formando pequenas dunas contra os prédios, tornando a colónia parte do deserto que a rodeava.
Romeo conseguia sentir a presença dos espíritos que moravam no deserto, como se não estivesse em Marte mas sim perdido no Sahara, refugiando-se numa cidade construída milénios antes contra o agreste deserto, protegendo os seus antigos habitantes como agora o protegia a si das tempestades de areia… O deserto, aquilo que mais amava na Terra, estava também ali, o deserto marciano era a Presença que trouxera consigo do planeta-natal… e sentia-se estranhamente confortável… como se não fosse necessário ninguém vir ao seu encontro… como se a sua simples presença ali fosse o suficiente para exorcizar os fantasmas de que a mensagem no rádio falara, como se nada pudesse existir que não apenas o Deserto… Mas ao mesmo tempo, gradualmente Romeo apercebeu-se de que os espíritos que sentia não eram exactamente os mesmos, não eram as almas beduínas que o confortavam com o seu chamamento, era antes um sub-reptício desconforto, como se presenças alienígenas tivessem contaminado a pureza do deserto… e começou a sentir medo…
Todos os sete sentiam-no avançando sobre eles, abraçavam-se, procurando proteger-se da fantasmática presença que todos sentiam. Ninguém vinha ao seu encontro… sem ousar exprimir os seus receios – como se ao pronunciá-los os tornassem verdadeiros – todos intimamente pensavam no que poderia ter acontecido, interrogavam-se se a insinuante ameaça fantasma de que falara a transmissão rádio teria já vencido as últimas resistências dos desesperados colonos. O medo do que desconheciam tomava conta deles, tornava-se também o seu medo… imaginavam cenários de pesadelo para o que não sabiam mas podiam já pressentir, viam-se prisioneiros de alguém ou algo sem forma mas que sabiam que seria, mais tarde ou mais cedo, a sua morte…
As ruas continuavam vazias, o vento continuava a soprar, indiferente ao novo corpo que se atravessara no seu caminho e contra o qual já começara a erguer pequenos diques de areia… Unidos no mesmo abraço, continuaram à espera, aguardando que alguém chegasse para os saudar… grãos de areia iam-se colando contra as janelas, turvando gradualmente a visão do exterior, como se os prédios e as ruas estivessem a ser lentamente imergidos num estranho nevoeiro ocre…
Esperavam, em silêncio, no meio do deserto-cidade… esperavam, unidos pelo abraço, juntos no silêncio… no medo…
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Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

Aldebaran (1)

Fogo fátuo

“Ouvimos falar da vossa aventura. Sabemos tudo. Estávamos à espera de vocês… Fantasmas do passado assombram-nos. Ajudem-nos a exorcizá-los.”
O silêncio. Durante alguns minutos, nada a não ser silêncio. E aquelas palavras ecoando uma e outra vez, repetindo-se, entrechocando-se… Ninguém se mexeu, ninguém conseguia mover um só músculo, articular um só pensamento.
Demorou alguns minutos até começarem a interiorizar o significado daquelas palavras, a recordarem-se de onde vinham, tentar perceber porquê. Nenhum deles pensava sequer que alguém os poderia contactar dali…
Não… não compreendo… Penélope, tremendo, abanava a cabeça em sinal de incredulidade. Pensava que já não… pensava que tinham todos regressado, que a colónia estava totalmente abandonada… O que quer… o que querem estas palavras dizer?
Pelos vistos, Pen, ainda há vida em Marte… Romeo tentava racionalizar o que acabara de se passar, sintetizar tudo para compreender a razão. Era suposto todos os colonos terem regressado à Terra no início da última não-guerra, foram todos convocados… Pelo menos foi o que saiu nas notícias na altura.
Mas se houve pessoas na Terra, como nós, que conseguiram escapar, é possível que em Marte tenha acontecido o mesmo.
Mas não faz sentido, Vince. Pen continuava céptica, parecia querer acreditar que o que tinham ouvido tinha sido apenas uma alucinação, mas as palavras que ecoavam ainda pela nave com intervalos de alguns minutos não a deixavam acreditar naquilo que a sua mente a tentava fazer crer… Se todas as naves partiram para a Terra, com certeza levaram tudo o que lá havia… Como é que os que ficaram sobreviveram? Estiveram estes anos todos sozinhos, sem comida, sem nada… é impossível…
Parece impossível, Pen, mas tem de haver uma explicação. Ramón abraçava-a, como se os dois unidos pudessem descobrir a chave do enigma. E quanto a mim só vamos descobrir se acedermos ao pedido que nos fazem, se formos ter com eles… Vince, tens a certeza que não é possível responder? E a origem da mensagem é mesmo Marte, não poderá ser alguma cilada, sei lá, para nos fazerem voltar à Terra?
Não, não faz sentido… porque raio nos haviam de enviar uma mensagem de supostos sobreviventes marcianos se a ideia fosse fazerem-nos voltar? E a mensagem é mesmo de Marte, não há engano possível… É frustrante não podermos responder! Porque é que não instalámos também um transmissor-emissor, em vez só do receptor?
André aproximava-se de Vince, afagava-lhe o cabelo para o consolar. Não vale a pena culpabilizarmo-nos, amor. Foi de comum acordo que decidimos não instalar um emissor porque sempre pensámos que não faria falta… as únicas pessoas a quem poderíamos transmitir seriam os que estão na Terra, e a esses nós não queríamos, não tínhamos nada para dizer… o nosso acto de rebeldia foi silencioso, simbólico… é suposto os nossos actos valerem por eles mesmos, e se não nos compreenderem pelo que estamos a fazer não vale a pena…
Aliás, se bem me lembro, só pusemos o receptor para ouvir a reacção deles quando descobrissem a nossa fuga, o nosso plano… Tamara juntava-se aos outros, todos debruçados sobre o painel de comandos, como se olhar para o rádio-receptor lhes trouxesse todas as respostas de que necessitavam…
O Ramón tem razão, seja como for… Só vamos obter algumas respostas se formos ter com eles. Por isso quanto a mim só há duas alternativas: ou arriscamos e pousamos em Marte para descobrir o que se passa, ou esquecemos as nossas interrogações e continuamos o nosso caminho como até aqui.
A Pen tem razão. Vince, tomando a liderança do grupo, virou costas aos controlos e caminhou para o centro da nave, como que pedindo aos outros para olharem para ele. Não vale a pena ficarmos aqui horas a fazermo-nos perguntas que por enquanto não têm respostas. Precisamos de decidir. A mim parece-me que as palavras têm um tom de desespero… como se houvesse realmente algo de ameaçador prestes a acontecer… Por mim mudamos já a rota e vamos para Nova Babilónia. Aterramos o mais suavemente possível, e não saímos da nave enquanto não tivermos a certeza absoluta de que vamos poder regressar. Seja como for, a nossa Argo levanta voo suficientemente depressa, se for preciso fugirmos ou algo do género. Olhava carinhosamente para os comandos da nave que ele próprio desenhara e não conseguiu impedir um ligeiro sorriso de orgulho pela sua obra. Quem concorda comigo?
Tens razão, como sempre, Vince. Se não fosse o teu espírito prático ficávamos aqui horas a discutir só para no fim decidirmos o mesmo. Lisa olhava em volta para ver as reacções dos outros. Todos acenavam com a cabeça e faziam gestos de aprovação. Vamos para Marte então!
As horas seguintes foram de uma ansiedade extrema, de tensão como já não sentiam desde as primeiras horas da viagem. Depois da descolagem todos tinham estado nervosos, temendo alguma possível represália, algum castigo pela sua fuga, algum plano ardiloso para os reter na Terra. Tinham pensado em mísseis, em naves que os perseguiriam, em pedidos desesperados das autoridades com promessas de que tudo iria ser diferente para eles se regressassem… mas nada disso tinha acontecido. As pessoas estavam ainda ou demasiado incrédulas para reagir ou simplesmente não haviam dado qualquer importância ao caso – ou pelo menos teria de ser essa a imagem pública a transparecer…
Quando se tornou claro que nada iria acontecer a tensão desapareceu totalmente, e a partir daí a viagem tinha sido calma. Todos se tinham entregue aos seus passatempos tranquilamente, conversavam, discutiam o que ficara para trás e o que os esperaria no futuro. Reinou durante dias a fio um imenso bom humor na nave, todos se aprendiam a conhecer ainda melhor, se maravilhavam com cada pequena coisa que aprendiam acerca dos outros. Pouco havia que fazer para comandar a nave, pois a rota havia sido pré-determinada e não era suposto ser alterada até poucos dias antes da chegada. Tudo o que havia a fazer era confirmar que a nave não se desviava do caminho que tinham traçado e verificar que todos os indicadores estavam normais: a filtragem de ar, o oxigénio, a temperatura, a gravidade… Tudo mecanismos extremamente simples concebidos por Ramón e passados à prática pelo “sr. engenhocas”, como carinhosamente tratavam Vince.
Com o passar dos dias, no entanto, o bom humor tinha-se desvanecido aos poucos, levado pelo excesso de ócio e por dias e dias a fio passados num espaço originalmente desenhado para ser um barco habitado por duas pessoas e que tinha sido transformado numa nave – com o que isso significava de espaço útil consumido pelos comandos e pelos mecanismos de voo e de apoio à vida dos tripulantes – a que estavam confinadas sete pessoas. O “síndroma de cabine”, como era hábito chamar-se aos efeitos prolongados de viver em permanência com outras pessoas num local de reduzidas dimensões, começara a causar algumas discussões. Lisa passava por vezes longas horas sozinha e sem falar com ninguém, com ciúmes de Ramón e Penélope, ou então era esta que se juntava a Lisa de costas voltadas para Ramón, Tamara e Romeo, como que ostentando a sua indiferença em relação às suas animadas discussões sobre Física Quântica. Felizmente todos eram capazes de relativizar estas pequenas tensões e de compreender porque aconteciam, e assim a amizade daqueles sete aventureiros saía sempre fortalecida e todos acabavam a rir do que se tinha passado.
Quando a mensagem fora recebida, todos intimamente respiraram de alívio por algo diferente finalmente estar a acontecer, algo que quebrava a rotina, que os faria agir. A decisão de rumar a Marte tinha sido tomada por cada um deles em silêncio no momento em que ouviram a mensagem, mas ao mesmo tempo tinham medo… medo de que aquele imprevisto os impedisse de prosseguir a sua odisseia, de que não fosse possível chegar a Zooropa… E por isso se sentiam tensos, porque as energias acumuladas os faziam prestar uma atenção desmesurada a cada centímetro que Marte crescia visto das janelas, a cada piscar de um dos comandos, e porque o medo de que o que parecia ser um pedido de ajuda se tornasse num contratempo inultrapassável os fazia pensar em miríades de hipotéticos cenários e rocambolescas peripécias dignas dos romances de aventuras que há sete séculos ninguém escrevia e que deslumbrados haviam lido na loja de André e Vince…

(continua...)
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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

Caph (2)

(cont.)
Se calhar todos nós passámos pelo mesmo… Todos nós talvez não conseguíssemos vencer a saudade e por isso ela nos mantinha acordados… Eu imaginei-me numa montanha coberta de neve, trepando penedos, olhando as copas das árvores a perder de vista, o seu verde coberto pelo branco da neve… Por isso acho que se trata de qualquer coisa que tivemos de vencer, porque ao concluirmos que há algo deste planeta que estará sempre connosco reconciliamo-nos com ele e deixa de haver razão para a saudade… pelo menos a parte triste dela… Vocês concordam? Era uma pergunta retórica, pois intimamente Vince já sabia que todos haviam passado por experiências em tudo paralelas.
Sim, sem dúvida… Lisa estava ainda abraçada aos seus dois companheiros, o conforto dessa comunhão secando-lhe as lágrimas do que não havia sido dito, do que não tinha sido preciso ser dito… era, então, o intenso amor entre os três que a confortava… Foi um misto de luta para que a saudade desaparecesse e de união com a parte boa dessa saudade… a mim foi o vento que me tranquilizou… senti-me à beira do mar, num promontório, de braços abertos sentindo o vento fustigar-me o corpo, abraçando-me ao mesmo tempo…
O que eu acho é que todos nós sentimos a necessidade de termos um companheiro etéreo. Ramón olhava todos os seus amigos, sabia que tudo o que dizia era tanto tirado da sua insónia na noite passada como da insónia de todos eles, e que eles sabiam que ele sabia o que eles também sabiam… Precisamos de manter na viagem que vamos fazer alguma coisa que para nós se transforma numa entidade, que neste planeta sempre sentiu para nos acompanhar nalguns momentos especiais e que precisamos que nos continue a acompanhar… A minha companheira secreta, íntima, é a noite… uma espécie de feitiço que às vezes se apodera de mim, que levarei sempre comigo… sei que vamos viajar pela noite eterna, mas é como se precisasse de algo das noite terrestres… E quase adivinhava aquilo que tu imaginaste, Pen, e que vais levar contigo…
O mar, claro… haverá sempre mar dentro de mim mesmo no mais recôndito lugar deste sistema solar… haverá sempre o som das ondas, o eterno rumor das ondas contra a costa… Se não fosse isso, se não pudesse imaginar o mar quando estivermos lá longe tenho a certeza que acabaria por enlouquecer…
Para mim será uma outra espécie de mar… Tamara e Romeo sentiam que também eles deviam revelar o seu amigo imaterial, e ele deixou de a abraçar para poder falar no seu típico modo italiano, feito tanto das palavras como dos gestos que as acompanhavam. Para mim é o deserto… eterno como o mar, instável, misterioso como o mar… o deserto é também circular, é isso que nele me fascina… o apelo do deserto, como se sempre que longe dele estivesse a ele tivesse rapidamente de voltar… o apelo do deserto como o apelo das sereias, o mesmo horizonte ondular confundindo-se ao longe com o céu… mas agora sei que levo comigo esse apelo, mas que ele não me fará querer voltar ao deserto, antes é ele que voltará a mim quando precisar… levo comigo o meu coração de beduíno…
E eu levo no meu o coração das cidades… Tamara falava agora, fechando o círculo das confissões, os sete elementos eternos que faziam parte deles agora unindo-se de alguma forma tal como eles os sete, abraçando-se num círculo cerrado, se uniam – se haviam já unido – também. Levo comigo a noite das cidades, aquelas alturas em que vejo o horizonte dos prédios, as luzes das ruas, o silêncio, aqueles momentos em que ninguém existe na cidade para além de mim, em que ninguém existe para além de mim e da cidade, eu e ela tornados um só… Quem me tirar as cidades tira-me tudo, costumava sempre pensar, e agora sei que não mais haverá forma de mas tirarem…
Juntos num fraternal abraço, deixaram as palavras de Tamara ecoarem, perderem-se pelos ares… E foi como se todos pretendessem seguir com o olhar essas mesmas palavras, cada vez mais esparsas, levadas pelo vento até aos prédios em seu redor, até ao horizonte citadino… E ao olharem assim de novo a cidade em seu redor, os prédios do outro lado do rio, olhavam as cidades de Tamara, e foi como se as suas palavras tivessem, ao tocar em cada janela, despertado a cidade… porque algo acontecera naquele momento numa cidade onde já nada acontecia…
Todos eles sentiram a descarga eléctrica, a pilha montada por Vince causando o planeado curto-circuito no desejado momento… vários quarteirões à sua volta ficaram completamente às escuras… todos sentiram a escuridão despertar as pessoas… porque instintivamente sentiam que algo estava para acontecer… porque algo estava a acontecer…
Os sete companheiros desapareceram de vista, dividiam-se nas tarefas previamente combinadas para aquele fulcral momento… Em poucos minutos o barco mudou completamente de aspecto exterior… o parapeito onde ainda há pouco conversavam já não existia, as janelas pareciam cobertas por uma camada de qualquer material de aparência tão inquebrável como fulgente…
Nos prédios subitamente mergulhados nas trevas as pessoas surgiam (talvez pela primeira vez em anos) às janelas, tentando descortinar que estranho evento os privara da tão querida e narcótica televisão… como se de uma hipnose se tratasse, todas as pessoas que àquela hora tardia estavam ainda a pé assomavam às janelas… despertando estremunhados, os que dormiam queriam saber que trágico cataclismo os havia acordado, e apareciam também às janelas, olhavam o plácido Sena à sua frente, silencioso naquela noite como em todas as outras… E de repente todos viram algo levantar-se das águas… um estranho aparelho voador içava-se, subia aos céus, lentamente ganhava altitude, muito lentamente, para que todos o pudessem ver, para que todos percebessem o que se passava… para que todos soubessem que algo escapava à gravidade terrestre… algo escapava ao torpor da vida terrestre, algo levantava voo… alguém… (a palavra existiria ainda no léxico dos parisienses, constaria ainda dos dicionários de todas as línguas?) … alguém imaginara uma forma de escapar… alguém quisera escapar… alguém ousara sonhar…

Olhavam pelas janelas da péniche transformada em nave, viam a cidade cada vez mais distante, cada vez mais pequena… Sentiam a curiosidade, a confusão das pessoas que os olhavam… porque sabiam que eram observados por toda a gente nos bairros à sua volta, talvez em toda a cidade…
Sabiam que a curiosidade continuava latente mesmo nos espíritos entorpecidos, e por isso todos tinham acorrido às janelas, todos os tinham visto levantar-se nos céus, tentando – em vão, ainda – compreender o que se passava. O aparelho de rádio transmitia-lhes as primeiras notícias veiculadas depois da surpresa inicial dos parisienses… Enquanto contemplavam o mundo terrestre a diminuir, as palavras do rádio ecoavam difusamente nas suas mentes… Um misterioso aparelho voador ergue-se neste momento nos céus de Paris… De origem desconhecida, aparenta ser um barco, uma péniche de alguém que habitava nas margens do Sena, transformada em veículo espacial… obra de alguém que… não sei bem as palavras… alguém que pretende viajar pelo espaço, sabe-se lá com que intentos… Talvez terroristas… gente que julgávamos extinta, gente que pretende sabotar o nosso mundo, o nosso querido modo de vida, a nossa segurança eterna… ficaremos atentos, caros ouvintes, não deixaremos de os informar sobre as causas destas pessoas que pretendem, acto ignóbil!, despertar-vos do sossego do vosso lar, pretendem fazer-vos pensar, supor, imaginar possibilidades, em suma pretendem consumir-vos e consumir-nos a todos com pensamentos que para nada servem a não ser para vos acordarem…
Não são assim tão obtusos… comentou Penélope… se continuarem nesta linha chegam lá depressa…
E quando receberem a nossa mensagem, o nosso último recado para o mundo, terão uma ajudinha… Ramón entretinha-se com os comandos da nave, preparava a mensagem que iriam difundir, via satélite, para todos os canais de todo o mundo, a sua “declaração de intenções”, como gostava de lhe chamar, que transmitiria assim que atingissem a altitude certa.
À excepção de Ramón (pelas suas qualificações unanimemente eleito como piloto), todos olhavam ainda a Torre Eiffel, vigilante sobre Paris, olhavam a cidade cada vez mais ao longe, cada vez mais perdida no meio dos campos à volta, viam já outras cidades, que por sua vez se tornavam apenas concentrados de pontos luminosos, viam a Europa, viam o oceano banhando a Europa… Olharam para cima e viram então as estrelas, todas as estrelas do céu, o oceano que banhava Zooropa…
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Caph (1)

A cidade parecia flutuar… Vista da amurada do barco, as silhuetas nocturnas dos prédios cintilavam como pirilampos, turvadas pelas ondas de calor que se desprendiam, findo o dia, do solo… Vistos ao longe, os arranha-céus pareciam fantasmas, espectros vindos de propósito àquele local como se soubessem o que se ia passar…
Seis seres debruçavam-se lado a lado sobre o leito do Sena, naquela noite invulgarmente fluído, como se também ele soubesse o que se ia passar e pretendesse assim dizer que não os prenderia ali, que a sua viscosidade, que normalmente o tornava pastoso, não seria um obstáculo… Seis vultos silenciosos, olhando a cidade do outro lado do rio, os rostos tensos, todos pensando no mesmo mas nenhum ousando falar…
Paris na noite era de facto um gigantesco fantasma, naqueles tempos em que não se sonhava um enorme e escuro silêncio. As luzes dos cartazes publicitários continuavam a ser pirilampos intermitentes, os arranha-céus continuavam a brilhar e a encandear a cúpula celeste, tapando com a sua diáfana luz o eterno e distante fulgor estelar, mas ninguém havia que os contemplasse, as ruas daquele tempo transformadas em desertos urbanos pelos que em casa dormiam abúlicos sonos… Mesmo aqueles seis espíritos pareciam perdidos na noite parisiense, anónimos porque ninguém era testemunha da sua angústia, meras presenças que não pertenciam àquele sítio como não pertenciam a sítio nenhum…
Todos olhavam na mesma direcção, quase era possível ver pequenas setas de ansiedade desprendendo-se dos seus olhares, voarem sobre o rio, cravarem-se na margem oposta. Se alguém por aquelas ruas passeasse pensaria à primeira vista pareceria que contemplavam apenas a nocturna visão parisiense, a desoladora paisagem urbana de um tempo em que tudo era sono e nada era sonho… Deserta daquela forma a cidade parecia como que um vestígio arqueológico, mero testemunho de pretéritos tempos em que a Luz nela reinava… Se alguém houvesse para além deles que naquela noite não conseguisse dormir talvez pudesse então, num olhar mais atento, perceber que aqueles olhares se cravavam não na mórbida contemplação da Luz adormecida, mas antes em algo que se passava do outro lado do rio… Alguém se movia de facto na outra margem, alguém dava asas a desígnios obscuros como noutros literários e sangrentos tempos…
Os seis seres que se debruçavam sobre o parapeito do seu barco-habitação não desprendiam os olhos daquele outro ser, inquietando-se nitidamente com algo que secretamente estava a ser levado a cabo na margem oposta.
Porque demora ele tanto? André falava baixinho, como que para si mesmo, tentando não romper o silêncio tenso que se estabelecera. Do outro lado do rio, Vince continuava a sua actividade secreta, mexendo aqui, caminhando para acolá, como se procurasse o sítio certo, como se por algures por baixo da rua marginal ao rio estivesse escondido um tesouro de corsários… Quando finalmente Vince levantou algo do chão e desapareceu de súbito por um buraco que ele próprio assim criara no pavimento, os seis que o observavam não puderam deixar de esboçar um ligeiro sorriso de contentamento, mas ao mesmo tempo os seus corpos tornavam-se ainda mais tensos… agora não o podiam ver… Apenas podiam imaginar, cada um por si, o que o amigo estaria a fazer naquele momento, nenhum deles reparando que todos imaginavam em voz alta e que o que assim mentalmente viam se tornava a continuação do que imediatamente atrás tinha sido pensado e proferido…
Agora ele está a tactear no escuro, por baixo da calçada, procurando a caixa eléctrica…
Mas ele não quer ser electrocutado, não é estúpido, acendeu a lanterna, e encontrou logo o sítio para onde os cabos confluem…
Que cabos enormes! Cada um deles é suficientemente potente para iluminar um quarteirão inteiro, e todos seguem na mesma direcção…
O Vince está a caminhar lentamente na mesma direcção onde os cabos se vão tornando mais próximos… já consegue distinguir ao longe a grande caixa distribuidora onde todos se juntam… só mais um pouco…
Aqui está! É isto que queremos… agora ele está a unir o revestimento de todos os cabos com o fio condutor… é tão fino, será que chega para os interromper a todos? Ah, ele está a enrolar mais fio, juntando-o, unindo-o à pilha-relógio… Quanto tempo? Uma hora? Tanto tempo… e ao mesmo tempo tão pouco… E se ele fica ali preso, se não consegue sair?
Não, ele já ligou o relógio, já começou a contar, já virou costas àquela tralha toda, está a voltar…
Já aqui estou! Os seis companheiros estavam tão absortos na própria imaginação do que Vince estaria a fazer que não o viram regressar, bem mais rápido do que nas suas mentes, não o ouviram sequer entrar no barco nem chegar perto deles e exultantemente interromper o silêncio. O resultado foi o mais lógico: todos saltaram de susto, contendo-se a custo para não gritar de pânico… Vince, claro, não conseguiu evitar rir-se perdidamente…
Desculpem, mas isto é mesmo cómico! Se vissem as vossas caras, como se tivessem visto um fantasma!
Mas foi quase como se víssemos, Vince, e não tem graça nenhuma. André fingia-se chateado para assim conseguir mais rapidamente que Vince o abraçasse. Começámos todos a imaginar os teus passos depois de desapareceres por aquela conduta adentro, de forma tão real que era como se o que víamos estivesse mesmo a acontecer… pelo menos nós acreditávamos que estava a acontecer…
Quando chegaste e falaste mesmo por trás de nós estávamos a imaginar-te a acabar de montar o relógio e a regressar… completou Tamara, a voz ainda embargada com o que restava do medo.
Ok, já percebi, fui mais rápido que a vossa imaginação! Vocês subestimam-me, meus caros… eu, super-Vince, mais rápido que o pensamento! Os gestos patéticos de Vince, fingindo que voava a velocidade supersónica foram suficientemente cómicos para todos se rirem abertamente, sacudindo toda a recordação do enorme susto.
Isso quer dizer que temos o quê, uns cinquenta minutos? Ramón arriscava o palpite, olhando o relógio, tentando calcular o tempo que Vince demorara a atravessar o rio e regressar ao barco.
Mais ou menos isso… disse Vince. Tempo de mais, não acham?
Sim, tempo a mais… Penélope agarrava a mão de Ramón, não querendo largá-lo nem por um momento naquele derradeiro acto… Mas se queres que te diga, comparado com a noite passada não vai ser nada…
Tu também? Romeo acenava com a cabeça, como que dizendo que também ele demorara uma eternidade a adormecer. A mim também me custou imenso a adormecer… alguma coisa me distraía sempre, me impedia de perder consciência dos meus próprios sentidos…
Exactamente, eu senti o mesmo… E sabia que a Pen também estava a passar por isso, mas havia algo que me impedia sequer de a abraçar… tinha de ser ela só a vencer aquela insónia, tinha de ser eu só a descobrir a forma de adormecer… Ramón agarrava ainda mais a mão de Penélope, gestualmente dizendo-lhe que, mesmo que os dois tivessem tido de lutar a sós, de alguma forma ele sentira o desespero dela juntando-se, acumulando-se ao seu.
Eu sei o que querem dizer… Tamara, embora querendo falar para todos, não conseguia deixar de olhar os olhos de Romeo, também eles assim se descobrindo cúmplices na solidão daquela noite sufocante. Sentia que, embora soubesse que o Romeo estava tão aflito como eu, tinha de estar sozinha, não podia ter a ajuda de ninguém…
Aparentemente todos passámos pelo mesmo… Lisa era a única que não tinha ninguém que abraçar naquela comunhão dos casais, e os seus olhos, saltando intermitentemente entre todos eles, diziam isso mesmo… Talvez também alguma tristeza latente, porque todos se sentiram impelidos a abraçá-la, e Ramón e Penélope mais que todos, tomando-a nos seus braços, como se naquele momento ela não fosse mais que o seu bebé desprotegido… Lisa sentia todo o carinho dos seus amigos perpassando todos os seus poros, e foi com lágrimas nos olhos que acabou o que queria dizer. Eu era a única que não tinha ninguém ao meu lado, que não sabia se mais alguém estava a passar pelo mesmo… Mas acho, agora que estamos aqui a falar sobre isto, que todos nós tínhamos – temos – algo em nós que precisamos absolutamente de transportar na nossa longa e incerta viagem, qualquer coisa do nosso passado que estava em conflito connosco mesmos e que precisávamos de aplacar para a podermos levar dentro de nós…
É, parece mesmo que todos passámos pelo mesmo… Vince olhava para André, ternamente recordando a maneira como depois da insónia haviam adormecido juntos. Tu também, amor, não foi?
Sim… André sorria beatificamente, sentindo de novo aquele abraço especial na noite anterior. E eu senti-te também acordado, mas foi como a Tamara disse, tinha de ser eu sozinho a vencer aquela espécie de fantasma… Mas não concordo que fosse algo que tivéssemos de vencer, para mim teve mais a ver com saudade… Foi quando me veio à cabeça aquilo de que mais gosto neste mundo, o que eu de mais querido levarei dentro de mim, que me consegui pacificar… Imaginei-me no topo de uma montanha, sentia-me no cimo e no centro do mundo… Montanhas a toda a minha volta… é essa a imagem que levo comigo, que simboliza o que sem dúvida estará sempre comigo.

(continua...)
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

Castor (3)

(cont.)
Os lençóis queimavam. Naquela noite abrasadora, terminado o êxtase dos sentidos, o voo das almas, André não conseguia sequer ter sobre si o fino lençol. Sentia ainda o corpo suado após o derradeiro e maravilhoso, após o seu corpo e o de Vince se terem separado do seu abraço etéreo. Estava tanto calor que o suor não se evaporava, antes se colava aos seus poros.
De olhos ainda abertos, olhava o vulto do seu companheiro deitado a seu lado. Resquícios dos beijos, das carícias, da partilha dos corpos povoavam ainda o seu pensamento, apenas lentamente se desvanecendo… André nunca conseguia fechar os olhos imediatamente depois de fazer amor com Vince, ficava sempre algum tempo imóvel, o corpo nu sobre os lençóis, sentindo-se arrefecer devagar, o corpo relaxando… Naquela noite porém havia algo mais, sentia-o, que não o deixava fechar os olhos… como se houvesse qualquer coisa que precisava fazer antes de adormecer, antes de deixar aquele mundo e rumar às estrelas… Talvez Vince sentisse o mesmo, talvez não dormisse também, mas como era do seu feitio permaneceria de qualquer forma de olhos fechados, imóvel, tentando conciliar o sono ou apenas meditando… O que o atormentava era algo que precisava de fazer sozinho, como se algo dentro de si precisasse de sair, de ser libertado, para que não o levasse para outro mundo. Sem saber exactamente o quê, André sentia esse algo dentro de si a revolver, tentando descobrir a saída. Deixou-se embalar pelos seus pensamentos, sabendo que acabaria por descobrir o que o incomodava…
As águas do Sena iam, ondulantes, serenando o seu espírito, transportando-o pelos recantos da sua própria psique… Recordações, reflexões, medos iam deslizando por si, imagens surreais sucedendo-se como se fosse um quadro de um pintor que há muitos séculos havia pintado figuras saídas de sonhos… Voava sempre, passando por baixo de um gigantescos arcos branco erguido sobre as águas do mar, logo em seguida vendo materializar-se à sua frente uma gigantesca falésia que o fazia subir no seu voo para encontrar, no seu topo, uma verde planície onde druidas haviam erguido dólmenes em honra do ciclo sagrado do sol… depois passava por rios que serpenteavam de forma impossível, contornando cidades de abissais arranha-céus branco-azulados e amazónicas selvas de colossais árvores de um verde esmeralda… a paisagem sob o seu voo de anjo ia-se alterando a cada momento, transformando-se completamente a cada onda do Sena sob o seu leito…
Agora era uma montanha, mais alta que as altas montanhas à sua volta… André pousava no topo vendo apenas rocha em seu redor, escarpas, faldas, proeminentes picos… Estava no topo de um maciço montanhoso, milhares de metros acima do nível do mar, mas não havia neve, tudo era pedra, cinzento de granito ou avermelhado… André abria os braços, sentia o vento uivando contra si, a sua cara queimando com o contacto do ar gélido… Estava imóvel mas sentia que rodopiava em torno de si mesmo, ou talvez fossem as montanhas que giravam à sua volta… as mesmas montanhas que estavam presentes para todos os lados para onde olhava, perdendo-se no horizonte, ao longe perdendo nitidez, fundindo-se aos poucos com o céu e as nuvens… como se estivesse no topo do mundo, ao nível das nuvens, ao nível do céu… ali, na terra montanhosa que parecia ser o centro do mundo, o sítio de onde tudo o resto havia brotado… Ao mesmo tempo que esta sensação o entontecia dava-lhe também uma estranha sensação de pusilanimidade, como se o simples facto de ali ter chegado lhe tivesse conferido poderes especiais… Poder para fazer o mundo girar à sua volta, porque naquele momento nada mais importava senão a sua presença no topo do mundo, no centro do centro do mundo… quase sentia que se agitasse os braços, se fingisse que empunhava uma varinha mágica que executaria as suas ordens podia mudar o mundo a seu bel-prazer… Como se fosse um anjo, um anjo todo-poderoso…
E então de repente a mesma sensação de êxtase fê-lo sentir-se mais pequeno, cada vez mais pequeno, insignificante no meio de toda aquela imensidão… sozinho perante a demonstração de força do mundo, que havia erguido aqueles maciços, sentia-se de súbito humilde… Solitário no topo da montanha, não era agora anjo, mas apenas um extravagante eremita… E no entanto, qual Zaratustra, mesmo ciente da indiferença do mundo perante a sua presença ali, sentia-se imbuído de uma qualquer mensagem, como se a montanha tivesse acabado de lhe transmitir ensinamentos importantes que urgia mostrar ao mundo… Sentia-se estranhamente realizado, mas ao mesmo tempo invadido por uma terrível frustração por não ter ainda ensinado ao mundo as lições da Montanha… lições que nem ele sabia exactamente quais seriam, e continuaria sem o saber até as palavras brotarem dos seus lábios, ou até a missão de que fora encarregado começar a ser realizada pelos seus braços, sem que ele soubesse sequer porque os movia…
André sentia-se o profeta da montanha, importante porque através de si, depois de si, o mundo viveria melhor… Sentia-se ao mesmo tempo angustiado porque se sabia incapaz de realizar a tarefa para a qual a Montanha o enviava… Ou talvez tudo aquilo fosse apenas a bizarra sensação de algo de grande que interiorizara, que seria apenas seu e que o faria uma pessoa mais consciente… só com o tempo iria aprender consciente do quê… Por ora, e até que essa espécie de omnisciência se concretizasse, seria apenas como que um anjo caído sobre o mundo…
Curioso, lembrava-se agora André, a Tamara chamou-me isso mesmo da primeira vez que me viu… Estranha espécie de empatia entre nós… Tamara, minha amada irmã… juntos, eu, o Vince, tu e os nossos amigos cumpriremos enfim a profecia da Montanha… o sonho de um mundo melhor, onde todos seremos conscientes, onde todos teremos a oportunidade de o melhorar, para nós e para os outros… amanhã, Tamara, partimos para esse mundo, em busca da perfeição, da nossa perfeição… Obrigado, Montanha, por me fazeres perceber o que faltava, o meu lugar entre estes sete magníficos, a minha missão particular… Boa noite, Tamara, minha doce irmã…
Virou-se automaticamente de lado, já meio a dormir, abraçando Vince pelas costas, beijando-lhe suavemente o pescoço, como todas as noites…
Boa noite amor…

Vince sentia-se a voar. Abraçava André com força, os seus corpos unidos, extáticos. Aquela união era como que mágica, fazia-o sentir que algo de sobrenatural acontecia, algo que escapava ao seu controlo… Nada podia, nada queria fazer perante aquela sensação de que algo queimava dentro de si, e era esse algo que o fazia voar… Amor era a única palavra que conhecia que o podia escrever, mas uma palavra descrevia tão pouco…
Dois corpos suados sobre os lençóis abraçavam-se, beijavam-se, cada vez mais loucamente, trocavam de posições para que ambos pudessem sentir de outra forma o mesmo prazer, dois corpos entrechocavam-se na loucura daquela comunhão, e então não eram só os corpos que enlouqueciam, era toda a alma que vibrava… gritos abafados reflectindo um imenso prazer partilhado a dois e que não poderia admitir mais ninguém senão aqueles dois… Por duas vezes um grito mais audível escapou à clausura das paredes e ecoou discretamente pelo resto do barco, primeiro André, mais tarde Vince, não conseguindo evitar aquela exclamação do derradeiro êxtase dos sentidos, êxtase da própria alma…
Terminada a partilha, chegava a altura do descanso, merecido repouso de dois corpos que haviam voado por altas paragens… Contrariamente ao habitual Vince não se sentia totalmente pacificado, tornava-se difícil impedir a sua mente de vaguear sem destino por ermos pensamentos… Pensava sem cessar, pensava sem sentido, uma ideia não durando mais do que alguns segundos, como se a sua mente procurasse no seu âmago o pensamento que pretendia, um e um só em particular que o permitiria sentir-se totalmente em paz…
Imagens de casas, ruas, estradas, rios, florestas iam-se sucedendo alucinantemente, como se a sua mente tivesse de sua própria iniciativa uma viagem que só ela sabia onde iria terminar… Florestas… sim, seria isso então… A cor verde tomou de assalto a sua imaginação, verde por todo o lado, alternando com o branco, altos pinheiros cobertos de neve, um manto branco que tudo cobria, deixando apenas a descoberto algumas ramagens… Vince e André corriam por entre as árvores, atiravam bolas de neve um ao outro como se fossem ainda crianças, de novo tornados crianças, riam sem cessar… Vince trepava aos penedos mascarados de branco, saltando cautelosamente de rochedo em rochedo, o espesso manto da neve permitindo-lhe também pisar os ramos das árvores que só assim suportavam o seu peso, usá-los e à espessa neve que os cobria para chegar mais alto, uma incontrolável pulsão levando-o sempre a subir, fugindo de André ao princípio e, depois de este desistir da perseguição, em busca de uma vista melhor, ou talvez apenas porque não se conseguia impedir de subir…
Chegado enfim ao topo do penedo olhava pela primeira vez para trás, para baixo, via toda a floresta a seus pés, a copa das árvores prolongando-se pelas montanhas fora, verde e branco sempre, um leve nevoeiro dando à floresta uma aura um pouco fantasmagórica no silêncio apenas quebrado por eles os dois… André olhava-o muito em baixo, um pouco assustado mas sabendo que era impossível impedir o seu companheiro de subir a todos os montes que lhe pareciam apetecíveis… eram os seus genes da sua família paterna, dizia sempre a rir-se, do seu pai criado na montanha, embora Vince só por raras vezes na sua infância tivesse passeado por aquelas altitudes…
No cume do monte Vince sentia-se completamente realizado, como se toda a sua vida se resumisse a uma busca por aquele local em particular, aquela paisagem vista do cimo daquela rocha, como se sem o saber todas as suas acções nada mais tivessem como objectivo senão chegar ali, vencer aquela subida e enfim parar, respirar fundo, abrir os braços, sentir o vento gelando-lhe as faces, ver a sua respiração condensada juntando-se ao nevoeiro, e o silêncio… o silêncio daquele frio que lhe queimava a pele e ao mesmo tempo as entranhas, como se de repente todo ele fosse feito de gelo… Deitou-se de costas sobre a neve e ficou ali, de braços abertos olhando as copas das árvores rasgando o céu, tentando cercá-lo… De braços abertos, afundados na neve, abarcando todo o alvo céu, protegendo-o contra a investida do arbóreo verde, e na distância pareciam ser apenas as suas mãos a segurar os ramos para que estes não ferissem o céu…
Fechou então os olhos e imaginou-se gigante, os seus braços segurando de facto as copas dos pinheiros, olhando o céu, contemplando o nevoeiro espraiando-se frente às níveas montanhas, branco contra branco, e este contra o verde… Mas ao mesmo tempo nenhuma oposição existia, tudo se completava e formava uma incomensurável placidez… toda a paz do mundo reunida ali sobre os olhos fechados de Vince… e este imbuído dessa enorme paz, o vento da montanha soprando contra os vidros do barco, aplacando o calor do Sena… e Vince já não tinha consciência se estava ainda na montanha ou apenas sobre os lençóis húmidos, já não ouvia André ao longe chamá-lo do sopé do penedo, já não ouvia o vento serpenteando por entre as árvores… tal como, sonhando já, não ouviu André ao seu lado na cama murmurar-lhe ao ouvido uma derradeira palavra de amor antes do sono, ou julgou que era o André que tinha ficado na montanha, ou parte do seu sonho já… Mas no seu sono respondeu-lhe, e não saberia se apenas no sonho falou ou se naquele quarto…
Boa noite, dorme bem, sonhos lindos, até amanhã… e não soube também se o braço de André apertando-se mais contra o seu peito era também parte do seu sonho ou apenas o carinho da sua alma gémea adormecendo ao mesmo tempo a seu lado…
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 07:07
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Castor (2)

(cont.)
Silêncio. Na casa escura, uma mera sombra destacava-se contra o negro da noite. Uma mera forma humana, sentada, em silêncio. Um fugaz clarão iluminou por momentos a sala, salientando a silhueta dos móveis, da cama onde se sentava. Depois extinguiu-se. Ficou apenas uma brasa, um cigarro acendido, uma nuvem de fumo turvando o desenho dos prédios e da cidade. Tamara levantou-se, sempre em silêncio caminhou até à janela. A brisa nocturna cumprimentou-a ao passar por ela, e uma pequena porção de cinza libertou-se do cigarro e foi caindo lentamente… Tamara ficou a olhá-la cair, imobilizar-se no chão em frente ao prédio, e então ergueu o olhar e contemplou enfim o horizonte da cidade.
Era assim que em alturas de grande tensão escapava, era sempre assim que deixava uma torrente de emoções libertar-se: o vento, o frio da noite passava por si e levava as suas lágrimas, os seus gritos calados, a sua raiva, levava-os pela cidade para que se diluíssem pelos ares, tornando-se parte da imensa mole de anónimos pensamentos que povoavam o ar, os edifícios, os pássaros adormecidos nos umbrais, o mar ao longe, as campas nos cemitérios, os veículos estacionados em frente às casas, os sem-abrigo tentando dormir nos vãos das escadas, tudo, tudo se misturava e a na noite da cidade tudo era um só… Naqueles momentos era reconfortante sentir que não estava só, saber que quando olhava a cidade também ela era a cidade…
Tamara respirou fundo, fechou os olhos, deixando que o ruído do silêncio fosse tudo à sua volta e tudo dentro de si… silêncio, apenas silêncio, apenas o silencioso rumor de nada a acontecer, o rumor da cidade parada quando nada acontecia, e ao mesmo tempo que o sentia Tamara sabia que algures numa rua erma alguém era assaltado, noutra rua a recolha de lixo era efectuada, num prédio uma luz apagava-se e mais um insone desistia e se rendia ao conforto de um sono sem sonhos…
E no entanto move-se, pensou ela… Adormecida, sim, mas uma cidade que dorme é sempre irrequieta, esperneia, enrola-se nos cobertores de nuvens feitos, tem sonhos belos e pesadelos terríveis, acorda, tem ataques de sonambulismo… Move-se e, no entanto, para quem a contemplasse de uma varanda, para Tamara, a cidade nocturna era a mais plácida visão imaginável, a calma da metrópole silenciosa contagiando-a também a ela…
Acordada na noite parisiense, Tamara terminava o cigarro pensando na noite em Dubrovnik, na sua cidade natal, na noite em tantas cidades por onde tinha passado, Porto, Firenze, Roma, Praga, Amsterdão, Barcelona… Sempre nas noites dessas cidades havia algo em comum, o silêncio nocturno quase tangível, as cidades adormecidas assemelhavam-se sempre aos olhos de Tamara à janela de uma qualquer casa num qualquer prédio numa qualquer rua…
Porque é que então aquela noite parisiense não a acalmava? Era uma noite insone, plena de pensamentos que não conseguia conciliar, uma certa fúria incontida que ao contrário das outras cidades aquela noite em Paris não conseguia aplacar… O que havia então naquela cidade que a tornava tão diferente das outras ao ponto de a sua noite não a deixar dormir? Ou seria aquela noite em particular, independentemente da cidade onde se encontrava? Seja como for, estas interrogações não a ajudavam a vencer a insónia…
A derradeira insónia, ocorreu-lhe então… A última vez em que dormiria sobre a Terra… seria isso que a impedia de convocar o sono à sua mente? A excitação, ou talvez o medo, ou a ansiedade, ou um pouco de tudo junto, conspirando na sua mente para a manter desperta, imersa em pensamentos soltos, linhas de raciocínio sem sentido…
Levantou-se e caminhou até à janela, como faria em Dubrovnik, como havia feito aí e em todas as cidades… Ficou imóvel a olhar pela janela, descalça, sentindo o frio do chão arrefecer-lhe os pés… Ignorou o desconforto. Era bom sentir algo no meio daquele torpor, nem que fosse o frio a invadir-lhe os pés… Pela janela via o rio ondulante, via o contorno dos prédios na margem oposta desenhar-se na água, e uma vez mais a sua mente vogava por todos os prédios de todas as cidades por que já tinha passado. Algo havia na noite que era para si imutável, que a rodeava sempre quando de noite olhava como agora a cidade… talvez a memória das cidades passadas, ou a brisa das noites passadas, ou seria Tamara a testemunha do etéreo namoro entre o espírito da noite e a alma da cidade, dos suaves beijos que trocavam no silencioso rumor da escuridão, amantes secretos, omnipresentes…
Amantes um do outro, sim, mas também os seus amantes secretos, amantes de que Romeo não sentiria ciúmes mas que ao mesmo tempo com ele não poderia partilhar, que apenas podia amar quando só os contemplava… E naquele momento, talvez sentindo o que Tamara sentia, a noite e a cidade pareceram unir-se numa carícia prolongada, e abraçados abraçaram também Tamara, e este amor a três fê-la sentir-se confortável, aqueceu-a por dentro, fê-la sorrir num secreto prazer… e apaziguada sentiu que, fechando os olhos, poderia enfim dormir… Deitada de novo, sentir-se-ia aconchegada, o calor de Romeo, seu companheiro para toda a vida, juntando-se ao estranho calor da cidade e da noite, fecharia os olhos e sonharia… com outras cidades, as cidades que construiriam em Zooropa, com outras noites… com a mesma noite…

De olhos fechados, Romeo sonhava, acordado ainda, mantido desperto pela irritante insónia. Era a derradeira vez que a opressão terrena, a razão pela qual fugia com os seus companheiros para poder sonhar, o impedia de dormir, a última noite assombrada pela surreal lucidez da insónia, repetia para si mesmo, mas nem isso o embalava no sono… como se naquela noite não fosse exactamente isso que o mantinha acordado, como se fosse algo mais que aquilo, alguma outra presença insidiosa… Talvez precisamente o facto de, em sentido literal, ser a última noite sobre a Terra, ou algo que precisava de pacificar dentro de si, algo que ia deixar para sempre naquele planeta e cujo conflito consigo mesmo – ou a saudade dentro de si que sentia dessa presença – precisava de debelar. A saudade… seria antes talvez algo daquele planeta que precisava de consolidar na sua mente, uma recordação, uma presença cujo espírito precisava de serenar em si para que a pudesse consigo transportar através das estrelas…
De olhos fechados, dunas recortavam-se na sua imaginação, autênticas montanhas de areia desenhando-se infinitamente até ao horizonte… Romeo sentia-se sozinho subindo e descendo as dunas, submerso naquele oceano em terra firme… firme, como se houvesse algo menos firme que as areias de um deserto… Romeo serpenteava por entre as dunas em direcção ao pôr-do-sol, sempre em busca do ponto mais alto para que a curva descendente do disco astral demorasse um pouco mais, para que as cores sublimes do céu crepuscular perdurassem um pouco mais em si… Mas do topo de cada duna a seguinte parecia sempre mais alta, e por isso Romeo caminhava sempre, incessantemente… e o sol ia seguindo o seu caminho inexorável rumo ao horizonte, cada vez mais vermelho, e a areia sob a sua luz cada vez mais laranja, reflexos oníricos, sombras fantasmagóricas, cada vez maiores…
Ao seu lado sentiu Tamara levantar-se, caminhar sem dúvida até à janela. Também ela sofria da mesma insónia, afinal… talvez todos os sete estivessem acordados naquele momento, talvez existisse dentro de cada um deles algo que, como nele, precisasse de ser conciliado com a consciência, uma saudade insaciável a mitigar definitivamente para que cada um deles transportasse para Zooropa aquilo que de mais importante existia naquele planeta, para que só depois de vencida a maior saudade que cada um deles tinha pudessem, um a um, dormir… O colchão abanou um pouco quando Tamara se ergueu, transportando-o de volta ao seu deserto – que não era nenhum em particular, continha algo de todos os desertos que Romeo já tinha visitado, muito sem dúvida do Sahara, um pouco do deserto da Arábia, um pouco de Mojave e de Atacama… – o colchão subindo e descendo tornando-se o ondular das dunas sob os seu pés.
O sol estava quase a encetar o seu desaparecimento sob o fio do horizonte quando Romeo finalmente parou no topo de uma duna, nem mais alta nem mais baixa que todas as que se desenhavam entre si e o horizonte poente. O céu ganhava progressivamente todas as gradações de azul que Romeo apreciava acima de tudo no pôr-do-sol, que depois de este desaparecer iriam escurecer lentamente, tornando-se cada vez mais violeta, e depois deslizando em direcção ao negro azulado da noite. À sua frente a sombra das dunas recortava impossíveis desenhos na areia, sombras ondulantes, qual oceano náufrago do mar…
Imóvel no topo da duna, um pé de cada lado do gigantesco erg, Romeo inspirava o vento de deserto, misto de poeira, cheiro de camelos, gritos beduínos, mas acima de tudo o enorme apelo do espírito do deserto… exortando à calma, fazendo-o ver quão ridículo, quão pequeno era tudo o que ficava para trás… Só aquilo importava, só o deserto, apelo mítico que o perseguiria para todo o lado, a cada momento lembrando-o do que realmente importava: continuar a caminhar duna após duna em busca do pôr-do-sol perfeito, sim, mas para além desta frase um tanto banal que era o seu lema, saber que ao abrir-se à presença do deserto, no topo daquela duna, Romeo era um dos eleitos, um dos que transportaria sempre dentro de si o seu deserto pessoal, uma parte daquele deserto original que nunca ninguém, nem mesmo uma noite de insónias, mesmo mil noites de insónia, alguma vez lhe conseguiria arrancar.
O disco solar tocava enfim a longínqua areia que fazia parte do mesmo deserto que Romeo tinha sob os seus pés, terminando enfim o seu périplo quotidiano, deixando o mundo descansar, deixando as dunas respirar enfim, libertas do opressor calor… e era àquela hora que os espíritos do deserto exalavam o seu primeiro suspiro, erguendo-se do meio das dunas, e Romeo ouvia-os respirar… eram seus irmão agora, todos reféns do mesmo apelo místico… e quando partisse, sabia que um espírito mais se libertaria daquelas areias a cada pôr-do-sol… O deserto seria sempre seu como ele seria sempre deserto, sempre o apelo beduíno dentro de si impelindo-o em direcção ao sol poente – e agora, pensava, de volta ao seu leito, era o mesmo apelo que o impelia em direcção ao próprio Sol, rompendo o firmamento por entre as estrelas até chegar à sua própria estrela, Zooropa… Em paz enfim, Romeo deslizava lentamente para o sono, ouvindo em seu redor o vento do Sahara, o seu assobio transportando até si longínquos sons berberes… tudo estava bem consigo naquele momento, e mesmo antes de adormecer em definitivo julgou ouvir ao longe alguém dizendo isso mesmo…
Waha…

(continua...)
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Domingo, 22 de Outubro de 2006

Castor (1)

Os lençóis revoltos. As paredes. O tecto, iluminado pela ténue luz da cidade nocturna que entrava pela janela que aberta, tentava em vão afastar o calor estival, tão insinuante no seu corpo que Penélope sentia como se o inferno estivesse para cair sobre ela naquela derradeira noite.
A insónia, de novo a maldita insónia, mas desta vez ela tinha uma razão de ser, era palpável, um nervosismo que por mais que mergulhasse no limbo entre a consciência e o sono não conseguia esconjurar… Por um lado, sentia já saudades – do futuro que se entreabria enfim, mas também da cidade que os acolhera e os tornara seus, a cidade luminosa na qual passava pela última vez uma noite.
A cidade da Luz… mas, naquela noite, não era a luz que a encantava mas sim a sua ausência, ou antes, a difusa mistura entre a escuridão da sua insónia e os reflexos dos nocturnos bastiões da luz – os ondulantes reflexos da iluminação das ruas e das casas sobre o rio, e o reflexo destes reflexos criando pequenas marés projectadas no tecto e nas paredes do quarto. Penélope entretinha-se a olhar essas silhuetas de ondas, imaginava-se por elas transportada para fora daquele asfixiante quarto, flutuava pela janela fora, deixava-se levar rio abaixo, lentamente, na esperança de que este a levasse a terras de sonho que assim a adormecessem, pois apenas assim elas seriam verdadeiramente sonhos e adquiririam o seu literal significado.
Lentamente flutuava rio abaixo, esperando desaguar no imenso mar do sono, mas em lugar disso encontrava-se agora na foz dos seus próprios pensamentos, reflexões que lhe eram já estranhas por há tanto tempo não virem à tona. O mar…
O  mar, as ondas, o ruído da maré espraiando-se por um areal deserto, e Penélope contemplando o marítimo horizonte na orla da praia, do cimo dos rochedos que há algumas horas eram o seu promontório, o seu solitário posto de observação. Imóvel olhava o imenso azul, deixando-o submergir os seus próprios pensamentos, ao ponto de sentir erodir-se o seu invólucro de pessoa, ao ponto de se tornar não mais que um rochedo entre outros rochedos, uma estátua de sal, uma sereia petrificada.
Do profundo mar das recordações vinha-lhe a memória daquelas brumas, daquele vulto que de súbito distinguira ao longe caminhando na praia, apenas fumo, depois gradualmente materializando-se, pouco a pouco aproximando-se da sua solidão sobre as rochas, aos poucos partilhando-a consigo. Doravante sabia que o seu refúgio do mundo, o seu pequeno farol erguido sobre as ondas deixava de ser só seu. Doravante alguém a acompanharia na vigilante busca do mar – como se só ele pudesse trazer a solução para um futuro que, assim que virava costas ao oceano e estava em terra firme, se tornava angustiante.
Fora à beira daquele mar, ouvindo aquelas ondas arremetendo contra as rochas, fora caminhando descalço sobre aquela areia que chegara até si aquele estranho anjo que a olhava nos olhos, que a fizera imediatamente neles se perder, fora aquele cavaleiro das águas que lhe pegara na mão, a fizera saltar dos rochedos e com ela caminhara areal fora, dois vultos cada vez mais difusos, perdendo-se de novo nas brumas, de mãos dadas a partir daquele momento unindo para sempre as suas existências – e o mar, sempre o mar como única testemunha.
Aquele dia em que Ramón fora ter com ela ao mar do fim da terra, com ela caminhara naquela finisterra e com ela, sem dizer uma palavra, partilhara todos os seus sonhos, fora a primeira vez em que com ele tinha verdadeiramente estado, poucos dias depois de se terem conhecido. E fora aquele olhar que tudo dissera (os sonhos, as ideias, os projectos que descobrira terem em comum), a sua silhueta com o mar por trás agarrando-lhe as mãos, aquele silencioso passeio, fora naquele lugar avassaladoramente dominado pelo mar que se apaixonaram.
O mar… O mar que testemunhara a sua união e que jamais iria voltar a ver… Será que alguma vez voltaria a ver um mar de qualquer espécie? E será que esse mar se poderia comparar ao mar de Finisterra na plenitude que envolvia os corpos que perante ele se detinham a contemplá-lo? Aquela sensação de impotência que os invadia mas ao mesmo tempo a força que lhes transmitia, a serenidade no meio de tempestuosas vagas? A saudade, a imensa, total saudade… e simultaneamente o sentimento de que tudo o que importa está ali, dali partiu e ali irá regressar… A saudade, indo e regressando com as ondas, como as ondas… Saudades daquele mar do início e do fim de tudo, daquela terra – Finisterra. Que nome perfeito para o local onde tudo acabara e tudo principiara, o fim da saudade e o início do sonho, o fim da solidão e o início da comunhão… como o mar e as rochas, eternamente juntos no fim da terra… o local que para eles – para ela que agora o recordava – marcara o início caminhada para o fim da Terra onde deixariam de caminhar e o início do mar – do infinito oceano de estrelas… O fim da saudade e o início do sonho… e agora, anos depois, na derradeira noite, ao recordar aquele dia primeiro, o início da saudade e o fim da espera… como a maré alta das estrelas a alcançar que segue a maré baixa da inexpugnável insónia, como a maré alta da comunhão com o planeta natal que precede a maré baixa da saudade… fluxo e refluxo… eternamente…

A noite… essa estranha entidade, qual selénica feiticeira, mostrava todas as suas forças encantatórias, como se soubesse que aquela era a derradeira vez em que teria consigo Ramón… Pelo menos aquela noite, pensava ele, pois tinha a certeza que no dia seguinte, quando mergulhassem na noite infinita, as estrelas, o nocturno negro manteria sempre sobre ele um intenso fascínio. Não seria porém a mesma noite, algo daquele apelo nocturno era intrinsecamente terrestre: o argênteo reflexo da Lua, talvez, ou o tremeluzente brilho das poucas estrelas visíveis através da poalha das luzes humanas… ou talvez isso mesmo, o eco das luzes terrestres reflectidas na cúpula celeste…
Perdido em reflexões que se cruzavam, entrechocavam e precocemente o deixavam, Ramón mantinha os olhos abertos, fixamente olhando através da janela sobre a silhueta de Penélope que, deitada a seu lado, sabia também não dormir. Seria então talvez alguma espécie de osmose que dela se desprendia, embora Ramón não conseguisse deixar de distinguir, escondida num recôndito canto da sua mente, a figura de uma nocturna divindade que, com a sua flauta de estrelas e cometas feita, tocava o canto de uma sereia enfeitiçada pela Lua. Possessiva, teimando em não o libertar naquela última vez que com ele o teria, tocava a sua derradeira flauta…
Ramón não pronunciou uma palavra, não se virou para Penélope, sabia que tal como ela seria na sua própria mente, na sua própria memória que teria que encontrar a chave para o sono… A noite era uma amante caprichosa, não os deixaria procurar juntos o conforto que os levaria para além daquela última insónia…
Das profundezas da sua memória, o canto da noite fazia emergir recordações de momentos indelevelmente cravados na sua mente, surreais, momentos que em parte o haviam tornado nele mesmo, momentos de comunhão em que, sozinho na noite, ambos haviam quase sido um só. Frescos de noites em que nada mais existira senão o seu vulto coberto por um manto que o aconchegava, o fazia sentir-se menos só, como se parada a seu lado estivesse realmente uma amante que para todo o sempre e para todos os lugares o seguiria… Frescos de noites que eram sempre a mesma noite, porque era sempre a mesma figura que o aconchegava, era a Noite, sua amante naquelas horas de hipnose, a Noite que tentava torná-lo sua, não o deixar partir quando o primeiro brilho da aurora quebrasse o feitiço que mantinha Ramón preso ali, segurando a mão da Noite.
No desespero da sua insónia, vivia de novo aquelas noites, as que mais o haviam  marcado, as ocasiões em que a sua simbiose com a sua amante nocturna fora quase perfeita – quase… se ela não tivesse oprimido um pouco o seu coração quando o tivera nas suas mãos, se ele tivesse podido esquecer que aqueles encontros tinham irremediavelmente o seu fim quando os primeiros prenúncios da luz solar perturbavam aquela comunhão… se a noite não fosse tão avassaladora e não lhe causasse por isso medo, se a noite pudesse ser eterna e aqueles encontros assim pudessem durar eternamente, então Ramón nunca se desprenderia dos braços da sua amante, cairia fatalmente no seu abismo, seria presa no seu labirinto, não mais se libertaria dos selénicos poderes da noite, para sempre desapareceria do mundo dos mortais… Porque quem vive de noite não tem existência terrena, antes faz parte de um grupo de estranhos vampiros que parecem alimentar-se da própria noite, seres que por vezes acidentalmente as pessoas vislumbram e dos quais por isso desviam o olhar e fogem, porque têm medo de serem mordidas por tais vampiros e assim se tornarem num dos seus – no fundo as pessoas têm medo dos poderes da noite…
De entre todas as recordações que revivia e cujas impressões simultaneamente sentia, alguns encontros em particular com a nocturna divindade ganhavam corpo… De súbito Ramón não estava já naquele barco flutuando placidamente na margem do Sena, via-se de novo a caminhar sozinho na noite, descendo uma rua completamente vazia… nenhum carro, nenhuma pessoa, nenhum ruído… apenas o rumor do silêncio, o silêncio da noite que era o seu mais poderoso encanto. E então Ramón, que caminhava rapidamente, era obrigado a parar, perdia a respiração, entrava em êxtase, abria os braços como que para mais intensamente sentir a sua companheira que o envolvia. Durante minutos a fio não se conseguia mexer, imóvel na vazia rua nocturna, sentindo o vento passar por si, sentindo a noite rodeá-lo, levantá-lo no ar, e a materialidade da rua deixava de existir… E depois um carro passava, ou um qualquer ruído quebrava a extática comunhão entre si e a noite, e apenas restavam os despojos da sua união, quais lençóis revoltos…
Findo aquele encontro, Ramón já não estava na rua, via-se agora dentro de uma casa, entrando numa sala a meio da noite… o mesmo silêncio, ainda mais poderoso se possível, atraindo-o para a janela, via de novo as silhuetas dos prédios sob a fosforescente iluminação das ruas, abria a janela, respirava fundo para deixar entrar dentro de si a noite, levá-la ao seu âmago… e Ramón não conseguia respirar, sufocava de tão premente ser aquela noite… colocava os auscultadores nos ouvidos, ligava o leitor de discos, todos os poros da sua pele arrepiados perante a vastidão da noite incomensurável, ao sentir os primeiros acordes da música penetrarem os seus sentidos fechava os olhos e deixava lágrimas escorrerem-lhe pela face…
Love is blindness, I don’t wanna see… Won’t you wrap your arms around me… Oh my heart… blindness…

Maelström. Sob os seus pés, contra a falésia que à sua frente vertiginosamente caía sobre o mar, as ondas entrechocavam-se violentamente, abatiam-se com fúria sobre as rochas, enremoinhavam-se, criavam invencíveis correntes que giravam em todos os sentidos ao mesmo tempo, afogando as rochas que salpicavam a costa, pobres espectadoras indefesas contra uma raiva milenar.
No topo do promontório, o vento parecia querer rivalizar com o mar lá em baixo. Cabelos louros ao vento, braços abertos, Lisa na borda do promontório transfigurava-se em inerte farol. De olhos fechados, sentindo o vento dentro de si, uma só palavra lhe ocorria. Maelström. A literária e lendária fúria dos elementos, a sua fatalidade e obstinação em subjugar os homens. Era a única palavra que poderia descrever o seu estado de espírito naquele momento. O torvelinho interior dos seus sentimentos tornava-se parte de um caos maior que, ultrapassando-o, o absorvia. Naquele momento, Lisa queria exactamente isso: abandonar-se à fúria dos elementos, ser absorvida pelos ventos.
Sozinha no cabo do mundo, procurava deixar de pensar. Abriu os olhos e viu o horizonte inevitavelmente enevoado, como que ocultando o que do futuro surgiria, como que negando qualquer hipótese de sebastiânica ressurreição. Sentia a morrinha salgada colar-se-lhe na pele, nas pálpebras que cerrava por longos momentos, o sal que o vento trazia do furioso mar substituindo as lágrimas que sob esse mesmo vento secavam, eram levadas para longe, tornando-se parte integrante da interminável morrinha. Mais um ciclo se cumpria, pensava Lisa… A tristeza do mar, a desolação do vento tornava-se a sua própria desolação, a sua tristeza tornava-se a tristeza do próprio vento…
Maelström. E o vento soprava… Lisa não era mais que uma rocha entre rochas, imóvel à beira do precipício, assolada por todos os lados por rajadas de um vento que parecia querer arrancá-la da terra… Abriu mais os braços, levantou a palma das mãos para o ar, para receber ainda mais em si o vento redentor… o vento que lhe arrancava a espessa crosta de sal da imensa tristeza, que lhe fustigava a face e que dolorosamente, estranhamente, se parecia com enormes dedos acariciando-a… aconchegavam-na, como que a convidavam a ser uma de entre os seus, fúria entre as fúrias, prometiam-lhe que se tornaria por esta metamorfose em tornado, furacão, ciclone, giraria sem cessar sobre si mesma, titânica, majestática perante a pequenez dos problemas do mundo aos seus pés que arrancaria pela raiz… o vento gritava insidiosos apelos ao seu ouvido, prometia-lhe a omnipotência… e Lisa acreditava… acreditava que o futuro seria bem mais feliz quando voasse pelos ares a seu bel-prazer, venceria todos os males, esqueceria a foice alada da morte que de premente passaria a pequenina, insignificante…
Debruçada na varanda do barco, vendo a ligeira oscilação do Sena – tão pequeno também ele comparado com o vento que acordada sonhara – admirando os abstractos desenhos do fumo do tabaco afastarem-se devagar na noite, Lisa sorria ao transportar aquela recordação para o presente… Naquele momento em que, após a morte do pai, se afastara de todos e procurara a solidão, quando sozinha, desoladoramente sozinha, julgara que jamais aquela chaga se curaria, quando se abandonou ao vento e este a abraçou como sua companheira e, preenchendo o vazio no seu coração, fechou a sua ferida, naquele momento o Vento tornou-se o seu talismã, o seu protector inseparável… Lisa pensava como era engraçado que, naquela louca noite de Verão insone, o vento fosse uma vez mais o seu conforto, o elemento que faltava para a pacificar e a deixar dormir… Sorria porque aquela era a noite derradeira, a última vez que poderia contar com a loucura do vento para debelar a sua própria insanidade perante o mundo, tornando-a de novo sã ao arrancar-lhe a temporária loucura… E sorria também ao imaginar que ao levantar voo depois daquela última noite de provação, quando o seu barco no Sena se transfigurasse em Ícaro rumo às estrelas, seria também o seu amigo vento que com os seus dedos, na palma das suas mãos, os içaria nos céus e os transportaria até ao vazio do espaço… Sorria ainda ao imaginar os contornos etéreos da gigantesca mão, após os depositar sãos e salvos no seu caminho rumo ao sonho, vendo essa mão soerguer-se e acenar ligeiramente, dizendo adeus…

(continua...)
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Sábado, 21 de Outubro de 2006

Rosalhague

Um estranho silêncio invadiu o ar quando a porta se fechou por trás do último cliente. O crepúsculo já quase por completo se transformara em noite e as ruas estavam, como era habitual àquelas horas, praticamente desertas. As únicas pessoas que povoavam ainda as ruas, movendo-se rapidamente a caminho dos seus refúgios, eram mesmo os insones mais retardatários. A maior parte regressava provavelmente de uma discreta visita à livraria de André e Vince ou a alguma das poucas lojas que, como aquela, vendia ainda artigos dos Dias do Fim da História. Ninguém gostava de ser visto na rua depois do pôr-do-sol, a uma hora em que toda a gente já regressara a casa depois do emprego. Eram essas praticamente as únicas deslocações socialmente aceitáveis, e qualquer um que quebrasse essa regra tácita mas particularmente rígida seria automaticamente catalogado como “pessoa pouco recomendável” – como se depois de o sol se pôr só os vampiros pudessem caminhar nas ruas parisienses…
Ao ver a livraria deserta, Vince respirou fundo, descomprimindo a tensão. Aquele fora um dia particularmente concorrido, o que normalmente o deixaria contente – por uma questão financeira mas também filantrópica, pois significava que mais pessoas se haviam interessado pelos artigos culturais que disponibilizava – mas naquele dia o tornara impaciente. Preferiria ter a loja vazia, ou quase, para não correr o risco de afugentar a esperada visita. Não conseguia deixar de pensar no significado do que ela lhe traria… Era o componente mais importante para o veículo espacial que ele e os companheiros estavam prestes a concluir, mas também praticamente o último – pelo menos a julgar pela simples explicação que Ramón, Tamara e Romeo lhe haviam dado e que em vista dos seus escassos conhecimentos de engenharia aeroespacial era sem dúvida suficiente. Ele era, acima de tudo (para além de alguns projectos simples, como o desenho dos comandos da nave), o homem dos contactos, encarregue de falar com as pessoas certas para obter, de modo legal mas o mais discretamente possível, todas as peças necessárias. De todas as vezes que algo tinha sido necessário, tinha falado com uma pessoa diferente e tinham sido outros ainda que tinham vindo à loja para fazer a transacção.
Nenhuma dessas pessoas lhe havia parecido tão cautelosa como aquela derradeira visita, e não era caso para menos, reflectia agora, pois pelo que aprendera era uma peça extremamente cara, sensível e difícil de obter. Tinham-lhe dito que era uma pessoa muito discreta e que deveria ter cuidado para não haver possibilidade de serem vistos, por isso Vince preferira pedir para que o visitante viesse mesmo antes do anoitecer e ficar sozinho na loja para o receber. Nem mesmo André, a quem pedira para sair mais cedo sem explicar o motivo, sabia que seria naquele dia que o visitante viria… se bem que André provavelmente o adivinhara, mesmo que conscientemente não o soubesse.
Vince deambulava pela loja, dando lentos passos de um lado para o outro dos corredores bordejados de altas prateleiras, tentava assim em vão acalmar os nervos. Lá fora a luz solar já praticamente se extinguira. Os candeeiros das ruas já há muito estavam acesos, camuflando um céu violeta carregado, quase já da cor da noite. O silêncio mantinha-se, parecendo a Vince cada vez mais pesado, cada vez mais insuportável… Já tinha pegado em vários livros e folheado ao acaso, sem prestar atenção ao que lá estava escrito, já tinha percorrido todos os corredores de uma ponta à outra várias vezes, minutos que pareciam não ter fim, tempo que parecia dilatar-se infinitamente…
Vince virou-se ao ouvir um ligeiro rumor do lado de fora da porta e viu um vulto vestido de cinzento parado a olhar para ele, já do lado de dentro. A pessoa começou a caminhar para ele com passos lentos e medidos que ecoavam surdamente no soalho… Vince ficou parado, expectante, aguardando que chegasse suficientemente perto dele para lhe conseguir distinguir as feições, mas fosse da forma como se vestia ou da posição em que se colocara em relação à luz, aquele vulto era em tudo impessoal. A roupa era totalmente cinzenta e também a cara o parecia ser, como se olhos, nariz, faces, cabelo, tudo fosse amorfo… Eram feições totalmente impessoais, que Vince tinha a certeza que jamais conseguiria reconhecer na rua.
A pessoa parara à sua frente e olhara para ele. Só percebeu que era homem quando ele finalmente falou, uma voz também ela indistinguível de milhentas outras.
Isto é a encomenda. O homem olhava ainda para ele enquanto pousava à sua frente um pacote revestido de papel de embrulho. Quem olhasse para Vince na rua pensaria que era um presente de aniversário…
Como quer a sua metade do pagamento? A voz de Vince saiu hesitante, contrária à firmeza que pretendia.
Não pense sequer em pagar-me agora. Na parte de dentro do embrulho escrevi um número e um endereço de caixa postal. Meta notas de baixo valor até totalizar o número dentro de uma caixa de cartão e envie amanhã para a caixa postal. Compreendido?
Sim. Vince já só viu as costas do cinzento vulto quando acabou de pronunciar a palavra. Teve a sensação de que a porta se tinha somente entreaberto para o deixar passar e um momento depois deixou de o ver. Vince sabia que, como nos filmes de outrora – os filmes de quando havia filmes – se saísse naquele para a rua naquele momento e olhasse em qualquer direcção, a pessoa teria desaparecido completamente…
Olhou para o embrulho à sua frente e pegou nele: era então aquilo. Era grande e comprido, estranhamente leve, pelo menos mais leve do que o que esperava. Vince imaginara que seria algo pesadíssimo e difícil de transportar, mas era afinal um pacote que facilmente conseguiria encaixar debaixo do braço e, melhor ainda, que passaria facilmente despercebido no metro.
Findo aquele breve e estranho encontro, Vince sentiu toda a adrenalina que durante o dia contivera espalhar-se pelo corpo. Não conseguia já conter a excitação, só queria chegar a casa o mais depressa possível, sorrir para os outros e levantar o embrulho nos braços, qual troféu de uma importante vitória…
Apressou-se a fechar a loja e praticamente correu no curto caminho até ao metro. Ao descer as escadas rumo à subterrânea estação, a sua mente revivia aqueles últimos meses, tudo o que tinham feito desde os primeiros vagos projectos… lembrava com carinho as acesas discussões que tinham tido ao início, todas as miríficas ideias que tinham tido quanto ao veículo que utilizariam… só ao fim de cerca de um mês e de várias reuniões improdutivas se tinham lembrado da mais simples solução: alguém, Vince já não se lembrava quem, tinha dito como à-parte que traduzindo à letra a palavra inglesa para nave espacial, spaceship, fica barco do espaço – e assim nasceu o conceito que iriam aproveitar. Já que não tinham a possibilidade de utilizar nada que lhes fosse estranho, iriam, qual ovo de Colombo, adaptar a péniche em que viviam para ser simultaneamente barco e veículo espacial. Vince recordava especialmente as caras de alívio e de imensa alegria com que todos ficaram quando a ideia surgiu: tinha sido afinal bastante simples a solução para o primeiro grande problema concreto.
Sem pensar sequer no caminho que seguia, um itinerário que já tinha feito milhares de vezes e que seguia automaticamente, Vince desfiava mentalmente os momentos que, quais fotogramas de um filme, tinham ficado gravados na sua memória durante aqueles meses de intenso labor. Caminhou ao longo do átrio da estação enquanto recordava as sessões privadas de  Ramón, Tamara e Romeo, semanas a fio enquanto projectavam todas as adaptações de que necessitariam, discussões a que ninguém mais assistia apenas porque a linguagem que utilizavam era totalmente incompreensível aos outros quatro e que então olhavam uns para os outros com expressões de ignara cumplicidade… Ao entrar no metro reviveu todas as viagens que tinha feito, como aquela, com estranhos pacotes debaixo do braço, os olhares desconfiados por cima do ombro dos poucos utilizadores do metro às horas a que normalmente nele viajava, e todas as pequenas aventuras dos seus companheiros na aquisição dos materiais que utilizavam na péniche.
Vince fez, o seu piloto automático interior sempre ligado, o transbordo entre duas linhas de metro, a sua mente traçando o paralelo com todos os dias em que chegara, umas vezes com André, outras sozinho, a casa. As adaptações eram invisíveis do exterior mas impossíveis de disfarçar no interior (quem passasse no cais apenas pensaria que o dono daquele barco o estava a remodelar), e Vince relembrava o seu maravilhamento sempre que abria a porta e constatava os progressos que tinham sido feitos, as adaptações em que todos trabalhavam ganhando consistência, crescendo progressivamente, corporização do sonho que aquele grupo partilhava, o ritmo de construção elevando-se à medida que prosseguiam, o crescente entusiasmo de todos à medida que o que sonhavam se tornava palpável…
Foi apenas quando viu a luz dos candeeiros na rua que percebeu que acabara de subir as escadas da estação de metro onde como sempre saíra e que estava a poucos minutos de, qual guerreiro de Maratona, chegar ao seu quartel-general e transmitir as notícias, mostrar o derradeiro troféu daquela guerra – só que ao contrário do milenar corredor o destino não seria morrer de cansaço nem as notícias trariam consternação… Imaginava as caras dos seus companheiros quando entrasse em casa, tentava antecipar a extensão dos seus sorrisos, a velocidade a que se levantariam para o abraçar, se André o conseguiria beijar antes de também os outros o cobrirem de fraternais beijos, exercitava a imaginação adivinhando quanto tempo Ramón demoraria a montar a peça e quantos dias faltariam para tudo ficar pronto e poderem enfim levantar voo… Com os enormes sorrisos dos seus amigos a preencher todo o seu espírito, Vince chegou à péniche, imóvel na noite que debutava, sereno, como que também ele aguardando a boa nova… Ao abrir a porta e olhar para os seus expectantes companheiros, ao sorrir e erguer para eles a peça que são e salva acabara de transportar, a forma como reagiam aos seus gestos trouxe-lhe uma inevitável e intensa sensação de déja-vu
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006

Capella (2)

(cont.)
O rio estava particularmente plácido naquela noite. Flutuando suavemente junto à margem, o barco parecia serenamente velar pela intimidade dos seus sete ocupantes, guardando-os contra qualquer imperceptível ameaça exterior que, vinda do céu profundamente negro, sobre eles poderia tombar.
A grande divisão central daquele zeloso lar flutuante estava parcamente iluminada, como que sublinhando a intimidade enclausurada dos sete companheiros de odisseia. Os livros tinham sido por ora esquecidos, pousados desordenadamente junto a uma das paredes. Ramón, recostado no sofá, segurava a mão de Penélope, que com a outra acariciava os seios de Lisa que, seminua, languidamente se abandonava ao carinho da amiga. A seus pés, Tamara e Romeo abraçavam-se, beijando-se suavemente, refeitos de um intenso prazer. No outro sofá, do outro lado da pequena mesa que os separava, André e Vince trocavam secretas volúpias, secretas apenas porque, embora aparentemente juntos pelo espaço físico, pela proximidade, na realidade os três grupos de amantes permaneciam de algum modo imbuídos na sua própria privacidade, separados não pelo mundo físico mas pela sua intimidade, por uma proximidade do sentidos que não poderia nunca ser partilhada.
Ramón, Lisa e Penélope beijavam-se agora os três, abraçados, trocando carícias. De olhos fechados, Lisa sentia uma mão que era de Penélope mas que no momento seguinte poderia ser de Ramón, tocando-lhe levemente os seios, percorrendo a sua pele em direcção à única zona do seu corpo que permanecia por enquanto ainda oculta sob a roupa… Fechava os olhos e sentia o lento vogar do barco, imaginava que este os transportava pelo rio fora, rumo ao mar aberto, distanciava-se no horizonte em direcção à lua cheia e lenta, muito lentamente desaparecia, levantando voo rumo às estrelas dos seus sonhos… e naquele momento, enquanto os amigos com as mãos a estimulavam e com o resto do corpo se amavam, aquela sala, eles os três, Tamara e Romeo, Vince e André, aquele compartimento, não balançavam entre as duas margens da cidade, antes pousava suavemente no destino do sonho, todos saíam da sala e, parados à porta, olhavam o sol do futuro que com o seu brilho os saudava, e eles saudavam o sol, começavam a caminhar na sua direcção, e cantavam
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Capella (1)

O ponto de encontro que tinham combinado com os outros era a placa de metro que agora viam já à sua frente, vetustamente verde, decadentemente degradada mas ainda irradiando uma espectral simpatia, como se aquela simples pequena placa, à entrada daquela estação de metro agora como em tempos raramente utilizada, como se pudesse ser o ex libris daquele anacrónico bairro…
 Não podia, pensava Lisa, já suficientemente próxima para ler a palavra “Métropolitain” escrita em letra que outrora se designara como art nouveau. Nenhum ponto era o ex libris porque aquele bairro valia pelo seu conjunto, nada se destacava acima do resto, tudo, até o mais ínfimo pormenor (como aquela modesta placa) se encaixava na atmosfera do mais onírico bairro de Paris.
Afinal ainda conseguimos chegar antes deles, disse Vince ao chegarem. Era uma bem disposta indirecta a Lisa que, caminhando sempre à frente, os havia feito perderem-se por ruelas que nem os dois parisienses conheciam.
De certeza que eles também se perderam, disse Lisa, olhando para Vince, como que dizendo que não era a única, não era menos “parisiense” que os outros.
No metro não se perdem, é impossível seja quem for perder-se no nosso metro, disse André com (por uma vez) acertado chauvinismo. Mas ao contrário, no Louvre é impossível não se perderem…
Por sobre as águas-furtadas e os telhados baixos, o céu começava a escurecer, o sol brilhando por momentos nas clarabóias.
Bom, serve para estarmos na loja de noite, é bem mais interessante…
Também nunca ninguém lá aparece de dia. Vince, corroborando o namorado, afagava-lhe o louro cabelo. Raramente abrimos antes disso.
Estou tão curiosa… estamos todos, vocês não param de falar em vermos a vossa loja de antiguidades, mas estão sempre a adiar o momento.
Como vos disse, era preciso perderem-se em Paris primeiro, conhecê-la, senão nunca seria a mesma coisa.
E já não vais esperar muito, aí vêm eles!
Encontrámo-nos nos Champs Elysées, por acaso! Subindo as escadas do metro, os quatro sorriam já abertamente, também eles ansiosos por verem a loja de Vince e André e de como raio eles conseguiam sobreviver à custa da venda de antiguidades… e que antiguidades seriam? A explicação que lhes tinham dado não era completamente convincente… Não podiam acreditar que havia assim tantos insones, tanta gente naquela cidade que quisesse comprar antiguidades, recordações do tempo em que o Tempo fazia sentido… A opinião de André era que algo do antigo esprit des arts parisiense subsistia ainda e, inconscientemente, atraía a si muitos insones vindos de todo o mundo. Era por isso que a maior parte dos clientes da loja aparecia de noite, o que fazia pensar que eram como eles sonhadores, e que como tal procuravam sinais de outros que como eles haviam ousado. E que sítio mais adequado a essa busca que uma loja que vendia produtos da era em que o Homem ainda sonhava?
Tamara concordava com o seu irmão em espírito, mais por sentir, como ele, que a resposta passava por aí, do que por propriamente acreditar na explicação. Mas a verdade é que Lisa chegava agora a uma conclusão semelhante, sentindo um arrepio nas costas à medida que o próprio pensamento era formulado, recordando todas as sensações que a haviam literalmente atravessado no seu périplo por Montmartre. Talvez aquilo que em si ficara depositado andasse de certa forma à solta pelo ar, talvez de forma mais débil outros sonhadores, noutras cidades próximas ou longínquas, sentissem um certo apelo que não sabiam explicar e viessem – como eles acabaram por vir – ter a Paris… Era apesar de tudo uma teoria encorajadora: significava que havia afinal de contas muitos colegas de insónia, companheiros de angústia que não iriam participar directamente na expedição mas que teriam um papel preponderante a desempenhar numa fase posterior. Seriam esses insones os primeiros a saber e a ver Zooropa, a apreender o que realmente significava aquela viagem, aquela descoberta. Seriam por isso os primeiros a emulá-los, a tentar eles também chegar a Zooropa – a mesma ou qualquer outra Zooropa… Seriam eles que, sem o saber ainda, ficariam encarregues de ajudar a acordar o mundo. Eles os sete apenas estavam a dar o primeiro passo, a encorajar e a propiciar as condições para que os outros caminhassem – mas teria de ser cada um a aprendê-lo por si.
Bom… André suspendeu a frase, mantendo todos em suspenso. Vamos?
Iam lentamente caminhando, contando uns aos outros as impressões daquele dia sobrenatural, Tamara abraçada a André falando sem cessar do grande insecto da Défense enquanto o seu irmão anjo a beijava repenicadamente na testa, Lisa e Penélope discutindo quem se tinha perdido mais, Romeo e Ramón tentando decidir se a placa de metro era verde clara ou verde escura – todos, no fundo, tentando-se distrair da irrequieta curiosidade que já não conseguiam calar.
É aqui, proclamou Vince.
Do outro lado da pequena praça, por entre as ramagens das árvores que as povoavam, um letreiro brilhava já na derradeira luz do crepúsculo:
“Le Bouquiniste de Montmartre”
Todos pararam de súbito, imobilizados pela surpresa. Um bouquiniste! As antiguidades de que André e Vince falavam com desmesurado carinho nada mais eram que escritos registos dos pensadores e sonhadores de eras antigas!
Livros! Penélope, de boca aberta, sorria em êxtase. Vocês vendem livros!
Antiguidades… claro… estas são as coisas antigas que mais vale a pena preservar!
Enquanto o dia adormecia, os nocturnos candeeiros iam-se iluminando nas ruas, ofuscando as estrelas que no céu se iam estivalmente acendendo. Vince rodou a chave na fechadura da porta e a loja abriu-se enfim. Atrás de Vince e André, os outros cinco entraram naquele mundo…
Penetrando a obscuridade crepuscular, da entrada nada mais se via que não um extenso corredor crivado de mesas onde se amontoavam, numa aparente desordem de lombadas de variáveis grossuras e comprimentos, centenas de sonhos outrora encadernados, páginas e páginas que só juntas fariam sentido a quem, lendo-as, partilhasse e penetrasse no sonho do criador daquelas histórias… Dos lados do corredor que constituía a quase totalidade da loja, prateleiras ininterruptas acondicionavam ainda mais livros, poeirentos volumes enfileirando-se, como que constituindo um pelotão aguardando revista, impacientando-se porque todos se julgavam dignos de ser distinguidos por quem os revistasse – de verem uma mão erguer-se, retirá-los da prateleira, folheá-los com prazer e então talvez fechá-los com carinho, segurando-os contra si como quem abraça o filho recém-nascido, com a certeza de que não mais se separarão… Iluminados pelos derradeiros raios de sol, quase pareciam mover-se imperceptivelmente, quais soldados em sentido equilibrando-se de um pé para outro, esperando secretamente ser recrutados por alguém para o seu exército de sonhos particular…
André e Vince limitavam-se a sorrir, imóveis de braços atrás das costas, enquanto os amigos muito lentamente se iam espalhando pelas prateleiras e mesas, tacteando com cuidado como se receassem que um simples toque fizesse o livro esfumar-se em pó – fizesse todos os livros esfumar-se, afastarem-se subitamente, então apenas resquícios de um sonho… Mas era o receio que se desvanecia, pois rapidamente todos cederam ao maravilhamento que os assaltara deste o primeiro momento em que tinham entrado na loja.
 Tamara e Romeo olhavam as prateleiras da direita, ora para um lado, ora para outro, incapazes de retirarem qualquer volume e o segurarem nas suas trémulas mãos. Lisa quase não se via, acocorada em frente à mesa mais distante, contemplando reverentemente antigos códices de leis.
Encontrei um!
Eu encontrei mais dois!
Olha este! Penélope e Ramón, aparentemente esquecidos um do outro, deambulavam entre as prateleiras do lado esquerdo e as mesas mais próximas, exclamando em sussurro um para o outro os autores ou os títulos que reconheciam e que assim partilhavam, não conseguindo conter o entusiasmo. Os volumes que iam segurando e empilhando formavam uma coluna que selectamente ia crescendo enquanto as suas exclamações se perdiam no espaço da livraria, dado que ninguém na realidade os estava a ouvir…
Sem que nenhum dos amigos tivesse reparado, a noite caíra já há muito, aprofundava-se, insensivelmente ia penetrando cada canto, cada livro das cinco enormes pilhas que se amontoavam, partindo do chão até quase à altura de cada um deles. Penélope, Ramón, Tamara, Lisa, Romeo estavam extasiados, enfim saciados de novos sonhos, folheando os volumes que cada um deles havia prudentemente seleccionado como seus. Quando Penélope procurou com os olhos os dois anfitriões, Vince e André estavam sentados a um canto, agarrados a um volume mal tratado, a capa quase a cair, a lombada já meio caída deixando ver a encadernação de má qualidade. Se não fossem as letras na lombada pareceria ainda mais antigo que os restantes, mas provavelmente o aspecto do livro devia-se apenas ao facto de ninguém habitualmente pegar nele… A capa erguida contra si permitia-lhe ler o título: Todas as Estrelas do Céu.
Tomás Marinho? Quem é?

(continua...)
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Arcturus (2)

(cont.)
Tamara e Romeo passeavam de mãos dadas rumo ao enorme arco rectangular, indiferentes à amálgama de pessoas de todas as nações que, como abelhas cheirando pólen, se movimentavam incessantemente, pousando por momentos num sítio para logo voarem rumo a outro local onde então se detinham nunca por mais de um minuto. Os dois olhavam por vezes para trás, em linha recta na direcção do outro arco dois séculos mais velho, para logo olharem novamente em frente, como se as estruturas entre os dois lados do arco fossem alienígenas olhos que os hipnotizassem…
Seriam eles os únicos a pensar que aquele arco bizarro era verdadeiramente belo? Seriam os únicos a contemplá-lo, abstraídos do seu histórico significado que todos pareciam simplesmente ignorar? Num silêncio absoluto, não pensavam sequer, como quase sempre durante quase todos os dias, nessas questões: por ora, e enquanto estivessem sob a influência daquela construção multiforme, nada mais importava.
Se tivesse asas, seria um insecto gigante. Sem tirar os olhos do estranho edifício cada vez mais próximo, Tamara atrevia-se assim a falar.
É um insecto gigante, só que sem asas… para não voar para longe, para ficar sempre aqui, à nossa mercê e nós à dele… se voasse, já teria partido há muito tempo, encontrá-lo-íamos de certeza ao chegar a Zooropa…
La Défense.. é por isso que não voa, está-nos a defender…
Sim… quem quiser, por ele será defendido… quem souber, nele encontrará abrigo… contra este enxame de gente irrequieta e cega, que olha para ele como uma coisa…
Romeo e Tamara eram forçados a olhar cada vez mais para cima, pescoços torcidos, mãos ainda dadas… cada vez mais para cima… de forma a olharem ao mesmo tempo o arco e o céu, cada vez mais céu…

Olhando através de uma janela, Penélope e Ramón conseguiam ver, ao longe, a enigmática pirâmide de vidro. Olharam-na ainda por alguns momentos, depois um para o outro. Trocaram um breve e saboroso beijo e voltaram-se de novo para dentro, começando a caminhar pelos corredores sem fim.
De cinco em cinco metros eram forçados a parar, para verem mais um quadro, outra estátua ao mesmo tempo igual e diferente das centenas que já tinham visto. Mais cinco metros, outro quadro, outros cinco metros e um quadro maior, outros cinco e um mais pequeno. Outro corredor, mais arte, mais prazer estético, mais beleza… Corredores atrás de labirínticos corredores, câmaras após antecâmaras, escadarias que levavam a todo o lado e a lado nenhum… Retratos de damas já milenares, deuses ancestrais, olhos hipnóticos fitando quem contempla de todos os ângulos possíveis… overdose dos sentidos…
Admite, estamos perdidos, disse Penélope em ar de gozo.
Completamente perdidos… Já estou farto de ver arte, tenho arte em todos os meus poros, mas ao mesmo tempo não me consigo fartar de estar perdido aqui… é tudo tão belo… tão excessivamente belo que se torna quase banal…
Podíamos estar semanas perdidos aqui, amor, sem nunca pisarmos duas vezes o mesmo corredor. Voltaremos aqui muitas vezes, temos tempo para isso. Agora era bom encontrarmos a saída, temos de ir a Montmartre ter com os outros.
Ver finalmente a loja de antiguidades do Vince! Ramón, até ali por completo imerso no espírito da Musa, recordava de súbito o que seria o culminar daquele intenso dia. Já estamos em Paris há uma semana e ele insiste que até agora não estávamos preparados…
Mas compreendo-o… Achei estranho quando ele nos fez perder pela cidade fora, cada um para seu lado, porque era assim que iríamos descobrir Paris…
E é verdade, sei agora que só assim a podíamos ter descoberto, a Cidade da Luz, a cidade e a Luz…
Estava a pensar há pouco como é engraçado como a palavra “arte”, há tantos séculos esquecida, não impede esta gente de se atafulharem num museu repleto de arte… Não compreendem, mas mesmo assim não deixam de se sentir atraídos…
Como moscas para o mel… É um instinto ancestral do homem, pode ser remetido para o inconsciente, pode deixar de racionalmente ser entendido, mas nem por isso deixa de fazer parte de nós enquanto seres humanos… A civilização durou demasiado tempo para se poder assim eliminar um conceito que bebe tão fundo na alma humana…
Olha, aqueles japoneses já não estão a tirar fotografias, de certeza que é porque se vão embora! Vamos atrás deles!

No topo da colina, a alva catedral parecia silenciosamente aguardar quem até ela chegasse, quem subindo as escadarias a ela ascendesse… Silenciosa mesmo no rumor da citadina inquietação, parecia um virginal bastião do espírito…
Sacré Cœur… o coração sagrado da cidade… Lisa, ofegando com o esforço da subida, mal conseguia falar, mudamente maravilhada com a quietude que a imponente basílica impunha a quem dela se ia aproximando… André e Vince, cúmplices conhecedores dos segredos da cidade, mantinham-se em silêncio, caminhando dois passos atrás.
Não entraram na catedral – não ousaram, era preferível espicaçar a reverencial atracção para apenas a satisfazer mais tarde – antes passaram ao lado dela, iniciando um mergulho no bastião onde, com atenção, se podia ainda sentir os espíritos de escritores e artistas mortos há muito, há demasiado tempo.
E mergulharam… Vince e André, de mãos dadas, trocando enamorados beijos, iam olhando para aqui e para ali, relembrando, despertando doces memórias… Lisa deixava-os, percebia que num certo sentido aquele bairro era o seu mundo, que nele muito haviam partilhado… De qualquer forma, nenhuma palavra conseguiria articular o que sentia, assombrada como estava, sentindo absínticos poetas, boémios pintores e carnavalescos dançarinos perpassar-lhe a carne, atravessar-lhe o corpo, causando um frio arrepio à sua passagem mas deixando para trás algum precioso resquício, algum pequeno tesouro dentro de Lisa guardado como lembrança da sua passagem… Sentia-se assim também artista, também escritora, pintora, escultora, dançava num cabaret repleto de montmartrianos espíritos que a aclamavam como uma deles, sentia-se também ela uma habitante daquela era, misturando o tempo presente com o espírito daquele  bairro de há sete, oito, nove séculos atrás…
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

Arcturus (1)

A sombra era enorme. No céu, um azul vítreo parecia espelhar tudo o que em baixo se passava, reflecti-los novamente – luz, ruídos, pensamento, tudo estava enclausurado no interior da enorme cúpula celeste. O próprio chão parecia irradiar luz… Talvez por esse contraste a sombra da Torre parecesse mais nítida, enorme, quase ameaçadora. Ao caminhar pelo chão irradiante, escaldante, e ao entrar na sombra, tinha-se a sensação de que se podia respirar de novo, pensar mais livremente. Imóveis na enorme sombra do sol poente, sete pessoas, de mãos dadas, estavam imóveis há alguns minutos, incapazes de um só movimento, de um só som… Imóveis, olhavam o reflexo insolitamente nítido da Torre centenária nas águas do Sena. Para cinco dessas pessoas era a primeira vez que viam aquela silhueta, o modo como se projectava no rio. Talvez precisamente por ser a primeira impressão lhes fosse tão difícil falar, pronunciar uma palavra que fosse acerca das sensações que a cidade lhes transmitia… Verdade seja dita que, como duas das pessoas já o sabiam e os restantes cinco aprendiam agora, Paris é sempre, em primeiro lugar, uma experiência interior…
Sempre imóveis, contemplavam a cidade em seu redor enquanto o sol se punha lentamente, imóveis ainda enquanto escurecia, o céu mudando de tons de azul para violeta, enfim para a cor da noite, azul-quase-negro…
É a minha hora preferida do dia, depois do pôr-do-sol… esta cor do céu… Quebrado o encanto, desaparecida a imagem flutuante da Torre, o transe findava e Romeo fora o primeiro a quebrar o silêncio.
Sim… retorquiu Tamara, apertando mais a mão do companheiro, fitando ainda, como todos os outros, algum ponto indefinido entre as águas do Sena e o horizonte, para lá das casas e da outra margem do rio. A esta hora nada mais interessa, só a cor do céu, e o mundo a acalmar-se, preparando-se para a noite, silenciando-se…
Começaram a caminhar aos pares e aos trios pelas margens nocturnas, ainda em silêncio, ainda a interiorizar todas as poderosas sensações que Paris lhe estava a oferecer. Era-lhes agora fácil compreender o motivo pelo qual o Impressionismo, à semelhança de todos os grandes movimentos da pintura dos últimos séculos de vida da Arte tal como aqueles sete a concebiam, por que motivo tudo isso tinha germinado em Paris…
Apesar do silêncio, André e Vince sabiam o que o outro sentia apenas por caminharem de mãos dadas; Tamara e Romeo trocavam carícias e sabiam-no também, e Lisa, Ramón e Penélope tudo partilhavam através dos olhares sempre fixos uns nos outros… A cidade anoitecera, esvaziara-se já da turba imensa que a povoava de dia, deixando apenas os seres noctívagos – insones, espíritos vagabundos e pares de namorados, recém-renascidos para Paris ainda em êxtase. Os sete caminhavam lentamente pelas margens, passando por barracas à beira-Sena plantadas vendendo tudo o que só de noite podia ser vendido: música, livros, filmes, tudo o que cheirava à Era do Fim do Mundo (última época em que tais objectos haviam sido concebidos) e a “arte”, esse palavrão depois disso erradicado por completo da sociedade e de quase todos os vocabulários…
Paris é fria de noite, queixou-se Penélope, apertando-se mais entre os braços de Lisa e Ramón, logo corroborada por André, que cerrou mais o braço em torno de Vince.
Estamos quase a chegar. Temos whisky, arranjo um copo para cada um. Mas só um copo, que amanhã vai ser um dia muito preenchido e não podemos correr o risco de estarmos de ressaca. Sobretudo vocês vão precisar de todos os vossos sentidos alerta para desfrutarem ao máximo de tudo o que vão visitar.
Não percebi essa da ressaca… Ramón, brincalhão, fazia-se desentendido. Todos, mas sobretudo ele, sabiam perfeitamente do que Vince falava…
Ainda não nos explicaste onde é que arranjas o whisky, nem porque é que chamam isso àquele líquido incolor misturado com sumos doces… Na garrafa não diz whisky, diz outra coisa qualquer em letras cirílicas… kodva, ou algo do género…
O nome é um segredo nosso, respondeu Vince. Chamem-lhe uma piada privada se quiserem.
Lá que é bom é… disse Penélope com um sorriso brincalhão, olhando com ar cúmplice para Ramón.
Não sei o que queres dizer. Ramón fingia-se desentendido.
Pois, Ramón, intrometeu-se Tamara, no outro dia parecias estar a gostar muito…
Não me lembro de nada.
Isso sabemos nós, no estado em que acordaste! Melhor, no estado em que todos acordámos… Todos, incluindo Ramón, se riram. A verdade era que naquele dia, a primeira vez que experimentaram aquela bebida proveniente dos rigores polares misturada com sumos de sabores tropicais, aquele gosto amargo e doce ao mesmo tempo, todos – e de facto, sobretudo Ramón – se haviam rapidamente convertido aos prazeres do álcool… Todos tinham adormecido nos sofás da sala, pelo chão, abraçados uns aos outros, fraternalmente beijando nem sabiam quem, semidespidos do calor com que a música e a báquica dança enchia os seus corpos…
Naquela noite, porém, o resultado não se repetiria. Todos projectavam já intimamente o dia seguinte, tudo aquilo que iriam ver, tentavam antecipar o que iriam sentir. O prometido copo de whisky seria mesmo só um, e depois todos se iriam deitar. Todos ficariam alguns minutos ainda acordados, demasiado excitados para adormecer, tentando adivinhar se o que iriam ver bateria certo com as expectativas e como cada um intimamente sonhava serem os principais pontos de atracção de Paris. E com esse sonho, com uma determinada imagem na mente, todos adormeceriam, não mais podendo esperar pelo dia seguinte…

(continua...)
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