Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

Receita para fazer um político de sucesso

Retirada desse livro de políticas receitas culinárias que é o Público (a falta de maiúsculas já estava no texto que está no Público online):

"poderemos talvez trocar as entranhas das aves pelas campanhas eleitorais em curso na frança e nos eua. a receita dos candidatos que tiverem sucesso será copiada. foi assim, nos seus tempos de glória, com blair. há-de ser assim com ségolène ou sarkozy, ou com hillary clinton, barak ou giuliani. valerá por isso a pena examinar desde já algumas tendências do pronto-a-vestir político americano e francês. (...)
o primeiro truque da receita é, portanto, encontrar um político batido e sem ingenuidades. depois, todavia, convém recorrer a tantas operações plásticas quantas as necessárias para, seja qual for o seu cadastro, fazê-lo parecer fresco e inovador. repare-se que até sarkozy, depois de cinco anos no governo, reclama o papel de challenger. aqui, o aspecto físico ajuda. (...)
mais do que ideias novas, é essencial uma cara nova. pode ser injusto. mas vem assim na receita. (...)
quanto a convicções, a receita é aqui complicada: é preciso metê-las no cozinhado, mas de modo que não ofendam o paladar de ninguém. para isso, os melhores cozinheiros recomendam que se evite o doutrinarismo outrora atribuí-do a thatcher. todos se lembrarão como, há dois anos, angela merkel se deu mal com isso na alemanha. o perigo é maior para os políticos de direita, onde ainda se acredita em "ismos" com bibliografia e programa. os candidatos da esquerda, cujos partidos de governo há muito limparam os armários de qualquer vestígio de socialismo, estarão mais à vontade. o truque é preferir uma longa e variada lista de medidas a qualquer plano conciso e coerente. e, acima de tudo, fazer da imprecisão uma prova de grandeza de alma. a melhor receita, neste aspecto, é a de barak, que se propõe ultrapassar divisões e reconciliar os seus compatriotas. como se o conflito, em política, resultasse apenas da incompreensão dos políticos, e não da incompatibilidade das opções. daí que convenha ao candidato ideal, em qualquer tema, falar pelos dois lados e também contra os dois lados. (...)
aqui, a velha sebenta de sincretismo do professor blair é ainda de aproveitar. (...)
finalmente, talvez não seja necessário imitar o basismo de ségolène, mas ficará bem ao candidato dar aos seus ouvintes a impressão de que só lhes está a falar porque, antes, os ouviu. para reforçar esse efeito de identificação, dará jeito ao candidato ter uma história que faça do seu eventual sucesso, não apenas um triunfo pessoal, mas uma marca da vida nacional. (...)
a receita não resolve todas as dificuldades. as duas maiores estão nas "máquinas", isto é, nas estruturas capazes de enquadrar e mobilizar activistas e eleitores, e nas "grandes questões", nos temas ditados pelo noticiário ou pela curiosidade da imprensa. ségolène estragou um pouco a sua imagem ao ter de saciar o velho esquerdismo do ps e arranjar lugar para os seus marretas. mas era o preço do partido. nos eua, hillary clinton não consegue sacudir a sombra iraquiana.
a política, mesmo com as melhores receitas, não é fácil. como saturno, tem uma tendência para devorar os seus filhos. talvez os aspirantes ao sucesso pudessem experimentar a ser um pouco menos digeríveis, mais duros."
(Rui Ramos)
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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Um genocídio é um genocídio é um genocídio

O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), órgão permanente das Nações Unidas, decidiu: Srebrenica, essa palavra ominosa, quase espectral (não mais, nunca mais, apenas uma cidade), constituiu um acto de genocídio. Por outro lado, embora reconhecendo a responsabilidade por omissão do então estado jugoslavo ao nada ter feito para impedir o massacre - com as consequências que tal "culpa por omissão" acarreta - o TIJ reconhece que não é possível considerá-lo como culpado.
A culpa de Srebrenica é, portanto, para o TIJ acima de tudo individual, daqueles que no terreno ordenaram e executaram a matança. A culpa é de Karadžić, de Mladić (de Milošević - senão por acção, pelo menos por inacção - já não se saberá até onde o era), a culpa é da então infante Republika Srpska e das suas autoridades ou proto-autoridades, como é dos militares holandeses, da própria ONU.
Importante agora é não esquecer, importante é, por isso e acima de tudo, fazer com que os culpados sejam de uma forma ou de outra julgados, seja capturando e julgando Karadžić, Mladić e seus sequazes, seja responsabilizando pela opinião pública os restantes responsáveis morais. Precisamente o contrário do que aconteceu com a vergonha da condecoração aos soldados holandeses, o que aliado à não captura - e sobretudo falta de vontade em fazê-lo - dos responsáveis que ainda andam a monte, dos quais os mais gritantes são os próprios "bosses of it all", Karadžić e Mladić, me fazem pensar que essa responsabilização, jurídica ou moral, corre riscos de nunca acontecer, e com isso atirar para o esquecimento o próprio massacre.
A memória dos povos é fraca perante a vergonha e a vontade de esquecer, demasiado selectiva, demasiado curta, e é por isso perigoso quando não comporta sequer 15 anos, muito menos 60...
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Cartoons da semana




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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

A nova guerra fria

Extractos seleccionados de um artigo do Público de ontem, que sumariamente inventaria os passos da recente escalada de tensão entre os colossos geopolíticos americano e russo, e que prenuncia que, depois do mundo bipolar da guerra fria e do período unipolar que lhe sucedeu, vivemos hoje os primeiros passos rumo a um mundo como nunca multipolar : Estados Unidos, uma Rússia "putinizada" e que renasce das cinzas, mas também China, talvez Índia, Irão...
E se o adjectivo "multipolar" era habitualmente utilizado como positivo (pensava-se há 15 anos que seria desejável que à divisão do mundo entre Estados Unidos e União Soviética sucedesse um mundo dominado por múltiplos pólos, nenhum deles com supremacia sobre os restantes) hoje ele é cada vez mais visto como uma sombria incógnita...


"O ministro checo dos Negócios Estrangeiros, Karel Schwartzenberg, declarou ontem que o seu país não se deixaria "intimidar" e que falharão as tentativas de "chantagem" russa para impedir a instalação de um sistema de radar no seu país e de uma bateria de mísseis antimísseis americanos na Polónia. "Os checos sabem agora que o "escudo" é cada vez mais necessário".
(...) É o mais recente episódio duma "guerra fria" de palavras, iniciada em Janeiro pelo pedido americano de instalar dispositivos do escudo nos dois países. Seguiram-se as declarações do secretário da Defesa americano, Robert Gates, que, a 8 de Fevereiro, no Congresso, tratou a Rússia como inimigo potencial, logo seguidas do virulento discurso de Vladimir Putin na conferência de segurança de Munique.
"Um país, os Estados Unidos, sai das fronteiras nacionais em todos os domínios. É muito perigoso: já ninguém se sente em segurança, porque ninguém encontra refúgio no direito internacional."
(...) o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, general Iuri Baluevski, afirmou que "a Rússia e a China são os verdadeiros alvos do escudo antimísseis americano" e não ameaças vindas do Irão ou da Coreia do Norte.
O mesmo ministro Serguei Ivanov declarava ao Kommersant: "O aparecimento do escudo antimísseis americano na Europa de Leste não nos agrada, mas não terá impacto na segurança da Rússia, pois temos novos mísseis móveis Topol-M que suplantam qualquer sistema antimísseis." Exactamente o que dizem os americanos: a ameaça não é militar.
O Nezavissimaia Gazeta põe o dedo na ferida: "A Rússia e os Estados Unidos reconheceram que deixaram de ser parceiros estratégicos." (...) o que provoca a exasperação de Putin é o novo teor das relações entre a Rússia e o Ocidente.
A Rússia teme fundamentalmente duas coisas. Primeiro o regresso da pressão americana no seu "estrangeiro próximo", da Ucrânia à Ásia Central. E, em segundo lugar, a ruptura do actual equilíbrio de forças na Europa em seu desfavor.
(...) O jogo não está definitivamente consumado. Abre fissuras na União Europeia. A questão suscita... divergências na Polónia e na República Checa, onde a opinião pública desaprova a decisão dos governos (...)
Cerca de 30 países dispõem já de mísseis balísticos, o que levou a uma procura geral de sistemas de defesa antimíssil, não só entre as grandes potências, mas também em países que se sentem vulneráveis, como o Japão, Israel, os do Golfo, Coreia do Sul ou Taiwan (clientes dos EUA) ou o Irão, China, Síria e Argélia (clientes da Rússia)."
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

O desporto, esse mundo ainda tão cristalizado na homofobia...

...de uma homofobia demasiado gritada - demasiado capa protectora (e sobre isto tanto haveria a dizer), ousaria dizer. A verdade é que o desporto ainda é encarado como um reduto másculo em que a homossexualidade é estereotipada como ameaça, como anti-masculinidade. Por isso mesmo, actos de coragem como o que retirei do caderno P2 do Público são importantes, pedradas no charco que tentam desmontar esse estereotipo e mostrar que a homossexualidade nada tem de anti-másculo, aliás nada tem de anti-nada - nem é mais masculina nem mais feminina; é, apenas, diferente.

"John Ameochi decidiu sair do armário"

"Acabaram-se os rumores. O antigo jogador da NBA assumiu a sua homossexualidade. Na biografia Man in the Middle, o britânico de ascendência nigeriana veio causar um abalo no mundo masculino do desporto profissional nos Estados Unidos. "Um mundo homofóbico", acusa. (...) "Os balneários da NBA são a coisa mais extravagante que já vi na vida. Homens a exibirem os seus corpos perfeitos. A vangloriarem-se das suas façanhas sexuais. A enfeitarem-se em frente ao espelho, cheios de água de colónia e a porem carradas de gel no cabelo. Experimentam os seus fatos de 10 mil dólares cada um, admiram os seus anéis e fios. Não podia deixar de pensar: "E eu é que sou o gay"".
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Reflectir sobre a abstenção: um comentário "na mouche"

Retirado da última página do Público de hoje, esta crónica de Helena Matos acerta em cheio ao analisar as causas do fenómeno abstencionista, que ao contrário do que muitas vezes se pensa não é exclusivo de Portugal...
Este comentário, aliás, vai na linha de muito que se tem dito por . Em relação a isto, a minha posição pró-voto e anti-abstencionismo mantém-se intocada, mas artigos como este lançam luz para a necessária reflexão sobre as causas da abstenção, e como combatê-la e dessa forma também o mais insidioso e perigoso desinteresse - e até repúdio - pela democracia como instituição.


"Realidade virtual

"Enquanto escrevo decorre em Espanha o referendo ao estatuto da Andaluzia. A abstenção quase atinge os 67 por cento. Contudo a discussão dos líderes políticos em torno deste estatuto foi gigantesca. Na verdade quase tão gigantesca quanto a abstenção. E se da Andaluzia passarmos para Portugal, França, Brasil, encontraremos este mesmo abismo entre as preocupações dos povos e a agenda que lhes é imposta pelos seus dirigentes. De alguma forma o ex-líbris desta clivagem entre o mundo visto a partir dos gabinetes governamentais e das casas das pessoas comuns foi o referendo sobre a limitação da aquisição de armas que teve lugar no ano de 2005, no Brasil. O resultado foi devastador: 63,94 por cento dos brasileiros responderam negativamente à pergunta "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" Os brasileiros não têm certamente nenhum interesse perverso no comércio e posse de armas mas é preciso desprezar absolutamente quer a violência de que são vítimas quer a inoperância das forças policiais para supor que eles iriam responder a esta pergunta tal como se vivessem na Suécia ou em Portugal.
Na UE as perguntas felizmente são de outra natureza, mas vale a pena interrogarmo-nos se, à excepção da nomenclatura bruxeleense, existirá algum cidadão da UE que sinta necessidade de uma Constituição europeia? Ao contrário do que se diz, os eleitores não estão desinteressados. Simplesmente não reconhecem interesse naquilo que lhes é proposto. Ou, pior ainda, começam a entender que aquilo que de facto os preocupa, como a segurança social, o serviço nacional de saúde, a carga fiscal ou a política de segurança pública, não é colocado sequer à sua discussão quanto mais ao seu escrutínio directo. Aliás, o receio de que os portugueses impusessem assuntos excêntricos aos das reluzentes agendas partidárias levou à exigência de 75 mil assinaturas para que uma proposta de referendo seja simplesmente apresentada à AR, que pode sempre rejeitá-la, enquanto bastam 7500 assinaturas para se constituir um partido ou formalizar uma candidatura à Presidência.
Suponhamos que, em vez do faz-de-conta do costume, os portugueses eram solicitados a discutir o futuro da segurança social. Por exemplo, perguntar-lhes se preferem manter o actual status quo mesmo que isso implique situações futuras de ruptura. E por que não discutir com as populações o fecho ou a manutenção de esquadras?
Mas podemos ficar pelo "suponhamos" porque nessas matérias, tal como noutras, quer os sucessivos governos quer as sucessivas oposições esperam que nos mantenhamos suficientemente distraídos com a realidade virtual que diariamente nos recomendam."

PS - Os inconformistas e armadilhadores do blog bi-linkado lá em cima que me perdoem, mas os seus escritos continuam a ser a minha principal fonte de comentários anti- o que que quer que seja...
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Cartoon da semana: Bush, o cabeleireiro

O cabeleireiro Bush apara as pontas do cabelo de Kim Jong Il... com Ahmadinejad a espreitar sorrateiramente... Poderia haver melhor resumo para a semana que passou?




Via Cagle cartoons, um desenho de Petar Pismetrovic para o jornal Kleine Zeitung da Áustria.
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um discurso de Abraracourcix às 10:53
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Sonae - 2, PT - 1: com mais um euro por acção se escreve a palavra OPA

Quase de surpresa (ontem já era possível desconfiar de que algo ia suceder), a Sonae anunciou que vai aumentar o preço por acção oferecido na OPA em curso sobre a Portugal Telecom, de 9,5 euros para 10,5 euros. Desta forma, praticamente assegura o sucesso da operação, que ao preço anterior estava a ser crescentemente dificultado pela administração da PT e pelas pressões dos accionistas, ansiosos em realizar mais-valias significativas (não é por acaso que a cotação da PT tem andado sempre acima de 10 euros), e que agora vêm bem sucedidos os seus esforços e a intensa pressão que estavam a efectuar sobre a Sonae.
Como já aqui escrevi antes, sou assumida e fortemente favorável a tudo o que seja contra a Portugal Telecom, que é para mim uma das empresas mais mal geridas de Portugal (não que as outras grandes empresas sejam exemplo de boas práticas...).
No entanto, os meus sentimentos em relação à OPA são ambivalentes. Por um lado, aplaudo uma operação que fará, agora quase certamente (a probabilidade é agora tão alta como na altura do lançamento da oferta, tendo vindo entretanto a atenuar-se, fruto das tais pressões accionistas), com que uma empresa que eu detesto mude de donos e de gestão. Por outro lado, acho um erro tremendo a operação ter sido aprovada pela Autoridade da Concorrência, AdC (aprovação que é reveladora da sua falta de independência e permeabilidade às pressões governamentais), sem que a TMN e a Optimus sejam separadas: a solução preconizada, a sua fusão e posterior venda de uma das licenças, em nada serve o interesse dos consumidores e o nível de concorrência no mercado em causa.
Com esta revisão das condições da oferta, volto no entanto a repetir, é praticamente certo o seu sucesso, com mais ou menos concorrência. Sócrates, que desde o início viu a operação como estimuladora da economia portuguesa e por isso fez o possível para garantir o seu sucesso, incluindo as tais pressões sobre a AdC, deve estar a esfregar as mãos de contente...
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Xeque - Irão virtual vencedor do xadrez nuclear

Há poucas semanas Jacques Chirac cometeu a enorme gaffe de dizer o que pensava (o que sempre resulta suicidário em política) ao afirmar em entrevistas, pensando estar off the record, que não haveria grande mal de o Irão possuir "uma ou duas" bombas atómicas (declarações debalde desmentidas pela diplomacia francesa; o mal já estava feito).
Agora foi a vez do responsável pela política externa da União Europeia, Javier Solana, admitir num relatório confidencial distribuído aos líderes diplomáticos dos países-membros que foi divulgado pelo Guardian que "será muito difícil impedir o Irão de aceder, mais cedo ou mais tarde, à arma atómica".
Histéricas, as diplomacias europeias apressaram-se a disfarçar o incómodo mas, uma vez, mais, o mal está feito. Constitui também um autêntico tiro no pé e uma estratégia suicidária numa altura em que os Estados Unidos tentam pressionar a UE a aumentar as sanções económicas contra o Irão. É claro que, com declarações destas, não há sanções que resultem. Esta parece ser, muito pragmaticamente, a conclusão de Solana - já que a reconheça é, neste complexo xadrez nuclear que se joga entre Teerão e as capitais do Ocidente, um autêntico xeque a si próprio.
Ahmadinejad pode pois dormir sossegado, pois o seu plano de reforço (a nível externo mas com assunções destas de inferioridade também a nível interno a sua imagem sai reforçada), em todas as esferas - política, económica, diplomática,  - do prestígio e poder iranianos está a resultar na perfeição.
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

Entre liberdade individual e saúde, o Estado português é que sabe - Big Brother is watching you

A semana passada, pelo meio do ruído da campanha para o referendo, passaram praticamente despercebidas declarações de Cavaco Silva que são muito mais graves do que o destaque que tiveram e que merecem a nossa maior consternação.
Numa sessão da Academia Portuguesa de Medicina para que foi convidado, Cavaco aproveitou o tema da saúde dos portugueseses para pedir à Assembleia da República que se debruçasse sobre "a necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vida sedentários".
Teremos então dentro de pouco tempo, a fazer fé no zelo legislador dos deputados e na sua vontade de cair nas boas graças presidenciais, a proibição total de fumar. Com um pouco de sorte, haverá bares autorizados a serem excepções à Lei Seca que será decretada. Tudo em nome da saúde dos portugueses, claro, e porque estes, sabendo que o tabaco e o álcool são prejudiciais, precisam que o Grande Irmão os faça deixar de consumi-los, pois por si só nunca conseguiriam - e que cidadão responsável e ajuizado poderá querer continuar e a fumar sabendo que isso é mau para a sua saúde? Ajudemo-lo portanto e proibamos o tabaco e o álcool!
Claro que os nossos restaurantes, churrasqueiras e outros estabelecimentos especializados em feijoadas, rodízios, cozidos à portuguesa, rojões à minhota, chanfanas, tripas à moda do Porto, morcelas assadas, alheiras de Mirandela e demais patuscadas tipicamente portuguesas terão também de sofrer restrições, em nome do combate à obesidade. Quem consegue imaginar que um responsável e ajuizado cidadão português possa preferir um prato saboroso, típico e servido nas doses cavalares da praxe, quando sabe que a nossa comida típica engorda tanto?
Arriscamo-nos mesmo a ver batalhões de portugueses a correr disciplinada e militarmente pelas ruas, ar cabisbaixo e t-shirt do Clube do Stress - em nome, claro está, de um estilo de vida saudável e do fim do sedentarismo? Pois qual seria o cidadão português responsável e ajuizado que preferiria ficar alapado no sofá a ver a bola ou os Morangos com Açúcar, de cerveja na mão (proibidíssima claro!!), quando sabe que isso aumenta os riscos de morrer de ataque cardíaco?
Isto parece uma ficção exagerada - e é - adaptando fantasiosamente a trama de 1984. Mas se tão canino zelo legislativo não corre o risco de se tornar realidade, são estas as liberdades que estão em causa. De momento regozijamos com uma liberdade recém-conquistada, senão para todos pelo menos para as mulheres, mas isso não nos pode nem deve impedir de nos alarmarmos com o caminho, que já começou a ser trilhado, para que outras fundamentais liberdades sejam cerceadas.

Voltando a Cavaco , confesso que só fui alertado para estas declarações por uma amiga, que me disse que apenas Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá, em crónicas distintas no Público, falaram disto. Confesso não apreciar as personagens, mas fui à procura das crónicas para melhor perceber o que estava em causa.
E é de facto grave, sobretudo por tudo isto ter passado por entre as gotas da chuva... e como Constança Cunha e Sá (VPV também) o diz melhor que eu - colocando a tónica não só na restrição das liberdades individuais, mas também na sacralização da saúde que está por trás deste zelo big-brotheriano - aqui ficam os excerto da crónica mais relevantes:
"A religião do Estado

"A intromissão do Estado nos hábitos privados dos cidadãos tornou-se um lugar-comum das sociedades contemporâneas.
O Estado, que tanto incomoda em questões morais como o aborto, transforma-se, consensualmente, num polícia de costumes, quando o que está em causa é a saúde dos cidadãos.
Mantendo o seu silêncio de Estado sobre o referendo ao aborto, o Presidente da República aproveitou uma sessão da Academia Portuguesa de Medicina para se debruçar, com inexcedível zelo, sobre a saúde dos portugueses. Entre o direito à vida, a dignidade da mulher e o alarido inconsequente deste estafado debate, o prof. Cavaco Silva optou prudentemente por um tema mais consensual, defendendo - e passo a citar - "a necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vida sedentários". Como é natural, as palavras do Presidente passaram mais ou menos desapercebidas. A intromissão do Estado nos hábitos privados dos cidadãos tornou-se um lugar-comum das sociedades contemporâneas. O Estado, que tanto incomoda em questões morais como o aborto, transforma-se, consensualmente, num polícia de costumes, quando o que está em causa é a saúde dos cidadãos.
(...) Aparentemente, ninguém acha estranho (ou sequer levemente suspeito) que o Presidente nos queira obrigar, através de "procedimentos administrativos claros", a trocar o almoço pelo ginásio e o conforto do sofá pelo esforço de uma corrida diária.
Depois do antitabagismo primário que invadiu a Europa a partir dos Estados Unidos e do combate mais recente contra a obesidade infantil e a má alimentação das criancinhas, só faltava preencher esta lacuna legislativa e obrigar os cidadãos a abandonar os seus "estilos de vida sedentários" (...)
... é difícil prever os extremos a que chegará este culto recente pela saúde que faz da longevidade um bem em si mesmo e transforma a forma física num valor universal e absoluto. Por razões misteriosas, o Estado que não tem dinheiro para nos pagar a reforma obriga-nos a ter uma vida longa e saudável e a morrer tarde e a más horas, com os pulmões limpos e os músculos em forma. Para eliminar a doença e não sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde com intervenções desnecessárias, decorrentes dos vícios dos utentes e dos seus irreparáveis maus hábitos? Infelizmente, a doença não se elimina: a crença numa espécie humana saudável e asséptica, livre das fraquezas que a caracterizam, é um mito contemporâneo que abre a porta aos mais perigosos delírios.
Mas, nos tempos que correm, o medo do inferno foi substituído pelo horror à doença e a crença na eternidade deu lugar ao sonho de uma longa e saudável vida na terra. A saúde é que nos resta, num mundo donde o sagrado desapareceu, deixando em seu lugar uma crença alimentada pelo medo da morte e pelos progressos da medicina. No Ocidente laico e tolerante, onde as religiões tradicionais foram remetidas a uma esfera puramente privada, a saúde transformou-se na religião oficial do Estado, que impõe coercivamente os seus valores através, como diria o prof. Cavaco Silva, de "procedimentos administrativos claros". Ninguém põe em causa os dogmas da saúde - porque só na saúde se encontra ainda uma verdade única e universal, regulamentada por um Estado que tem o dever de zelar pelos hábitos dos seus cidadãos.
Não admira que numa sociedade dominada pelo culto da saúde, promovido e imposto pelo Estado, os hospitais se encham de multidões de "crentes" que entopem as Urgências perante o mais leve sintoma e que não prescindem dos últimos avanços da medicina. O que já é de admirar é que o Estado, que impulsiona esta fé e este insustentável estado de coisas, se sinta depois no direito de impor taxas moderadoras - fingindo não perceber que a necessidade de moderação decorre do desespero que é por si próprio impulsionado. Se o Estado exige que os seus cidadãos vivam até aos cem anos, livres de achaques e de mazelas, não pode depois esperar que estes não se deixem contagiar por esta dolorosa fantasia. Os hospitais são as igrejas dos nossos dias."

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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

Chegou o Guardian português

A nova imagem do Público foi hoje estreada, depois de anunciada há algum tempo através de uma campanha publicitária. Ao atentar no exemplo de primeira página anunciado, e lendo que a equipa que desenhou esta nova imagem é a mesma que tinha já concebido o novo design do Guardian (da qual aliás gosto bastante e que até ganhou prémios de design), não posso deixar de rir ao notar semelhanças bastante notórias...
Vamos a um jogo de "Descubra as Diferenças"?
  • Vemos, por exemplo, que o Público alterou o seu estilo de letra, passando a escrever os textos com uma fonte devidamente patenteada que é parecida à utilizada no Guardian.
  • Também passa a haver um destaque a artigos do segundo caderno no topo da primeira página, ao lado e por cima do logotipo do jornal, tal como verificamos no Guardian.
  • O Público passa também a ter um segundo caderno, em substituição do Local (onde apareciam as notícias de âmbito regional, distintas para Lisboa, Centro e Porto e que passam a incorporar o caderno principal), que será na descrição do próprio jornal "um lugar com espaço para novos temas" (cultura, tendências, etc.) e que se chama P2. E onde é que já vimos isto? Quem aprecia a imprensa britânica - mas quem nunca leu facilmente adivinha a resposta - saberá: também o Guardian tem um segundo caderno com o mesmo tipo de conteúdos e que se chama... adivinharam... G2!
Isto, note-se, não é uma crítica forçosamente negativa, pois eu até gosto do Guardian: é o jornal que normalmente compro quando quero receber uma impressa lufada de ar britânico - para além de a par do The Times ser o que mais facilmente se encontra em Portugal, é tendencialmente de esquerda mas não tanto como o The Times (e eu tenho antipatia a jornais demasiado tendenciosos) - e apreciei desde o início a sua "moderna" imagem. Honra seja feita a José Manuel Fernandes, director do Público, ultra-liberal e "mais laranja que a própria laranja", por ousar inspirar a imagem do seu jornal na de um jornal de referência de esquerda.
Para tornar este jogo de "Descubra as diferenças" mais apetitoso, aqui ficam as primeiras páginas dos dois cadernos de hoje de ambos os jornais, para verem por vocês próprios as semelhanças e constatarem (ou não) que não sendo claramente uma cópia do jornal britânico, a nova imagem do Público é claramente inspirada na do Guardian.


    


  
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Referendo - até que enfim, um país moderno!

Ontem, tal como escrevi no post abaixo, foi um bom dia para a liberdade, um bom dia para Portugal como país. A abstenção esteve dentro dos parâmetros que eu esperava (50-55% se estivesse bom tempo, o que não aconteceu; 55-60% se chovesse), o que como é natural e atendendo às declarações políticas na noite pós-referendo, não impedirá a mudança da lei (a não ser que o sr. Silva decida puxar dos seus galões...), mas a dimensão da vitória do Sim excedeu as minhas expectativas mais optimistas.
Afinal - e correndo o risco de este se tornar um post excessiva e puerilmente optimista - em 8 anos em que pelo menos os dois partidos do "bloco central", bem como as ditas "elites" deste país, "deslizaram" para o lado do Sim (cheguei a estranhar, face a este deslizar, que a fazer fé nas sondagens as intenções de voto não o acompanhasse), afinal também a sociedade acompanhou esse movimento.
Apesar de toda a guerrilha verbal, apesar de o país continuar a apresentar uma "fractura social" que se reflecte nesta questão (é só olhar para o mapa com as vitórias do Sim e do Não por concelho, que de resto espelha de forma quase perfeita o mesmo mapa relativo a 1998; a diferença foram a proporção entre o Sim e o Não, pois os concelhos que já eram por um dos lados mantiveram na sua esmagadora maioria o sentido de voto), o Sim ganhou 10% em relação ao pretérito referendo.
A lei vai por isso mesmo mudar. Afinal, os portugueses evoluem. Finalmente (nem que seja por uns dias, deixem-me regozijar com isto), um país moderno!
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um discurso de Abraracourcix às 09:34
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A great day for freedom

On the day the wall came down
we threw the locks onto the ground
and with glasses high we raised a cry
for freedom had arrived...
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um discurso de Abraracourcix às 09:22
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

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Cartoon da semana - Sim à despenalização do aborto!

Pelo Sim, pois claro! "Reciclagem" de cartoon já aqui publicado anteriormente.

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um discurso de Abraracourcix às 12:10
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Neste blog é permitido fumar





Be an Ocean Defender

Os melhores javalis


O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

As odisseias de Abraracourcix



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