Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Mail por mim enviado ao PCP em relação à questão do Tibete

Assunto: Carta de repúdio de um militante à posição do PCP na questão do Tibete


Camaradas,

No final da semana passada, foi votado na Assembleia da República um voto de protesto contra a recente irrupção de violência no Tibete, ao qual o PC foi o único partido a opor-se. Escrevo-vos para vos manifestar a minha veemente discordância e o meu repúdio face à vossa posição.
Independentemente de justificações, espúrias ou não, independentemente de alegados ataques à realização dos Jogos Olímpicos, de teorias da conspiração, de campanhas de desinformação (as quais, camaradas, podem ser alegadas pelos dois campos), o que está em causa é a coragem de assumir a defesa de uma posição mesmo que incómoda, mesmo que contrária a afinidades de outra índole. O que está em causa é não se refugiar em teorias da conspiração para não ter de se assumir algo incómodo: que possíveis afinidades ideológicas ou amizades políticas não podem sobrepor-se, nunca, aos mais básicos e absolutos dos direitos - os Direitos Humanos.
São estes os Direitos que devem valer, e estes, quaisquer que sejam os olhos com que se vejam (desde que se queira ver), foram - e são continuadamente desde a ocupação chinesa há mais de 50 anos - barbaramente violados no Tibete.
Do meu ponto de vista, camaradas, perderam toda a legitimidade moral para protestar e opor-se a tantos casos de ilegais invasões de países terceiros, grosseiras violações do Direito Internacional e violações dos Direitos Humanos por esse mundo fora. A questão do Tibete é-me demasiado clara para poder deixar passar em branco mais esta vossa agressão (não, não é a primeira...) àquilo em que mais profundamente acredito.

Camaradas, perderam com este acto o meu afecto e a minha militância. O meu cartão de militante do PCP, nº 36402, que com orgulho ostentava na minha carteira, foi colocado na gaveta. A minha militância também.
Hei-de continuar a chamar-me, a considerar-me, comunista, pois isso tem a ver com aquilo em que se acredita, e não com a pertença a um grupo ou partido. Hei-de ser para sempre comunista. Não posso, neste momento, continuar a ser e a considerar-me membro do PC.

          Cumprimentos,
      
                António Rufino

PS - Esta carta será também colocada no meu blog, altermundo.blogs.sapo.pt, como parte da minha manifestação de repúdio.
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Eleitoralismo precoce

Está confirmado oficialmente (como se necessitasse de confirmação): o Governo está já em campanha eleitoral. A descida do IVA de 21 para 20% foi anunciada por Sócrates como um "sinal" - só que, em meu entender, um sinal no sentido errado.
Do ponto de vista económico (algo de que eu entendo um pouco), esta descida até faria sentido se se pretendesse estimular a economia, numa altura em que paira o espectro de uma nova crise de que ainda não se sabe muito bem a natureza, duração ou dimensão. Deste ponto de vista, os agentes económicos receberiam um pequeno estímulo (mais em termos de expectativas que outra coisa, mas estas em Economia contam muito) a não reduzirem a sua actividade. No entanto, o discurso de Sócrates não foi neste sentido, mas antes de o "sinal" ser de que as maiores dificuldades já passaram.
Ora isto é duplamente mentira. Para além de ser nesta altura impossível prever com alguma certeza como evoluirá nos próximos tempos a economia (a portuguesa, a europeia, a americana, a mundial), qualquer economista minimamente sério (e menos engagé politicamente...) dirá que a redução de impostos só faz sentido quando o défice atingir um patamar bastante mais baixo.
Em termos de dificuldade de aplicação, o que o Governo fez até agora - baixar o défice além dos 3% - é o mais simples. Difícil mesmo é baixar mais ainda, para um nível que seja sustentado no longo prazo (pelo menos entre 1,5 e 2%). Este défice de 2,6% pode muito facilmente resvalar para cima, como já tantas vezes aconteceu em Portugal nos últimos tempos, mais ainda pela tentação eleitoralista. Seria preciso baixar mais ainda para se poder com segurança aplicar este tipo de medidas estimuladoras da economia.
Como nem Sócrates nem Teixeira dos Santos levaram o seu discurso por aqui, e apesar de classificarem a decisão como "prudente" (e é-o apenas porque a descida terá efeitos pouco mais que marginais sobre os preços, embora nem tanto sobre as finanças públicas), sobra apenas a explicação maldosa para esta medida...
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Portishead de honra

Ver os Portishead foi, para começar, o culminar de 10 anos de espera - desde o seu anterior e único até agora concerto em Portugal, numa edição do Sudoeste a que não pude ir (PJ Harvey e Portishead na mesma noite... fiquei choroso e invejoso em casa, a ouvir os concertos na Antena 3, que na altura não se apanhava bem onde morava); desde os dois álbuns anteriores que muito me marcaram.
O concerto foi exactamente aquilo que se esperaria de um concerto dos Portishead, agora ou há 10 anos. Esta seria uma frase não muito positiva se se tratasse da maioria dos grupos, mas não neste caso, porque o que se espera dos Portishead é sempre muito, só pode ser muito. E muito foi o que eles deram...
Já tinha escrito que o novo álbum, "Third", é mais radical, cru, agressivo. Mesmo sem estar à espera da repetição de "Dummy" ou "Portishead", da primeira vez que o ouvi estranhei muito. Da segunda vez, estranhei menos. Da terceira, gostei bastante. Pois bem, em concerto as novas músicas quase parecem "velhas", integrando-se perfeitamente entre os "clássicos" Mysterons, Over, Cowboys, Glory Box ou Wandering Stars - esta em versão mais despida, estilo "todos sentados no chão a tocar".
De resto, para mim os melhores momentos da noite até foram algumas das novas canções - claro que os "clássicos" também estiveram à altura, mas esses trazem-nos os sorrisos de reconhecimento de um velho amigo que não víamos há muito tempo. Fabulosa foi We Carry On (a minha preferida de "Third") a fechar o encore com Beth Gibbons a mergulhar nas primeiras filas de público para de lá só sair vários minutos depois, excelente Machine Gun (a canção mais estranha, que eles fazem questão que venha a ser o single de apresentação por esse mesmo motivo) a encher o coliseu de metralha disparada pela furiosa bateria, de arrepiar Threads e a voz de Beth Gibbons a entrar-nos pela espinha adentro.
Adormeci pois com estas imagens na mente,






acordei hoje ainda com estas canções nos ouvidos e ouço-as ainda enquanto escrevo (mais não seja por estar a ouvir o concerto no Windows Media Player), as guitarras, a bateria, a voz de Beth Gibbons marcando o ritmo a que dedilho o teclado...
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

O fiasco dos Javalis de Ouro 2007

Gaulesas e gauleses, estou triste com vocês. Extremamente desiludido. A vossa participação na designação dos vencedores dos Javalis de Ouro 2007 foi um rotundo zero. Nem um voto...  Digam-me por favor: o que fiz mal? Foi o timing? O site das sondagens não funcionou? Gostaria de saber, para melhorar possíveis erros para a próxima edição...

Bom, já que ninguém votou, cabe-me a mim a democrática decisão (afinal, fui o único que votei) de designar os vencedores dos fabulosos, estelares, Javalis de Ouro. Sendo assim, os vencedores são:

Melhor filme:
In the Valley of Elah


Melhor realizador:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, Persepolis


Melhor argumento:
In the Valley of Elah


Melhor actor:
Daniel Day Lewis, There Will Be Blood


Melhor actriz:
Ellen Page, Juno
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um discurso de Abraracourcix às 17:33
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Sábado, 22 de Março de 2008

It's Portishead time!

Só faltam 4 dias (para mim e para os restantes Portisheadianos portuenses, por uma vez beneficiados em relação aos lisboetas) para o mais aguardado regresso dos últimos 10 anos - os mesmos 10 anos que os Portishead demoraram a regressar...
Como já repararam pela decoração e pela banda sonora desta aldeia, já estou em plena contagem decrescente, em pleno estágio para o que afortunadamente será o primeiro concerto da tournée de apresentação do novo álbum, "Third", ainda não oficialmente disponível - já sabem o que quer aqui dizer "oficialmente"...
(off the record, aqui neste blog recôndito onde ninguém presta atenção, já o tenho: o download demorou 5 minutos - cerca de 60 Mb, façam as contas à velocidade e ao número de fontes disponíveis um mês antes do lançamento do álbum... - e apenas direi aos fâs hard core que não esperem a recriação dos melífluos momentos trip-hop dos dois álbuns anteriores: aqui temos algo muito diferente, radical quase, muito mais cru, tão diferente que vou demorar a entranhar e poder dizer se é bom ou não - para já é apenas diferente, muito diferente)

PS - Vá lá, votem lá nos filmes...
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Apelo à participação democrática

Já há quase uma semana que está disponível a votação para os Javalis de Ouro - melhores filmes de 2007 aqui no Altermundo, e constato para minha grande tristeza que ainda ninguém votou - zero votantes.
Eu bem sei que este ano falhei redondamente o melhor timing para esta iniciativa, que é por altura dos Oscares, mas mesmo assim estão-me a desiludir, caros gauleses! Nem um de vocês se dignou votar?! Realmente, o nível de participação democrática parece espelhar o do país em que vivemos...
Vamos, votem!!
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um discurso de Abraracourcix às 09:57
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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Flames to dust... Arthur C. Clarke (1917-2008)

siseneG

And God said: 'Lines Aleph Zero to Aleph One - Delete'.
   And the Universe ceased to exist.
Then She pondered for several aeons, and sighed.
'Cancel Programme GENESIS', She ordered.
   It never had existed.


Este pequeno conto acima bem podia ser o epitáfio de Arthur C. Clarke, que deixou de existir ontem, aos 90 anos. Claro que ele nunca deixará de existir - o seu nome sobreviverá sempre, como autor de ficção científica, como nome de asteróide, como nome de órbita geoestacionária.
Acima de tudo, a sua influência sobre tantos que leram os seus livros e contos, tantos que viram os filmes inspirados no que escreveu, ficará.
Incluo-me nesse grupo. Posso mesmo dizer que foi Arthur C. Clarke que me mostrou o que era, ou o que podia ser, a ficção científica, que me ensinou a amá-la. Ele é, para mim, a própria definição de ficção científica: não o mero desenrolar de fantasias futurísticas, mas uma chave para, através do entrever de possíveis futuros do Homem, nos fazer pensar em questões políticas, metafísicas, religiosas - da guerra fria ao racismo, da consciência do lugar do Homem no Universo à própria noção de deus.
Em honra desse talvez meu primeiro grande ícone da literatura (porque enquanto a maior parte da ficção científica talvez não seja por muitos considerada literatura, a obra de Arthur C. Clarke é uma das honrosas excepções), que tanto me ensinou, tanto me fez pensar, que moldou tanto da forma como penso, das coisas em que penso, tanto daquilo que sou hoje, em honra de Arthur C. Clarke hoje o Altermundo veste-se de negro, não só como sinal de pesar mas também em honra dos mundos que nos deu a descobrir.
Também Assurancetourix na sua cabana decidiu honrá-lo, mudando por hoje a banda sonora de fundo desta aldeia. Para além disso, fica a imagem da capa da colectânea de todas as suas curtas histórias, perto de 1000 páginas que comprei há anos e nunca acabei de ler - o que me comprometo agora a fazer, junto com alguns dos seus livros que ainda não li.
Para quem esteja curioso sobre a sua obra, aconselho a começarem não pelo óbvio 2001 e sequelas, mas pela trilogia Rama - Rendezvous with Rama, The Garden of Rama e Rama Revealed. Passem depois por Childhood's End, The Songs of Distant Earth e The Fountains of Paradise, e a vossa percepção do Universo, do mundo, do Homem, de vocês próprios, terá mudado para sempre.
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um discurso de Abraracourcix às 17:41
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Flames to dust... (encore altermundístico)

Reunion

People of Earth, be not afraid. We come in peace—and why not? For we are your cousins; we have been here before.
You will recognize us when we meet, a few hours from now. We are approaching the solar system almost as swiftly as this radio message. Already, your sun dominates the sky ahead of us. It is the sun our ancestors and yours shared ten million years ago. We are men, as you are; but you have forgotten your history, while we have remembered ours.
We colonized Earth, in the reign of the great reptiles, who were dying when we came and whom we could not save. Your world was a tropical planet then, and we felt that it would make a fair home for our people. We were wrong. Though we were masters of space, we knew so little about climate, about evolution, about genetics….
For millions of summers—there were no winters in those ancient days—the colony flourished. Isolated though it had to be, in a universe where the journey from one star to the next takes years, it kept in touch with its parent civilization. Three or four times in every century, starships would call and bring news of the galaxy.
But two million years ago, Earth began to change. For ages it had been a tropical paradise; then the temperature fell, and the ice began to creep down from the poles. As the climate altered, so did the colonists. We realize now that it was a natural adaptation to the end of the long summer, but those who had made Earth their home for so many generations believed they had been attacked by a strange and repulsive disease. A disease that did not kill, that did no physical harm - but merely disfigured.
Yet some were immune; the change spared them and their children. And so, within a few thousand years, the colony had split into two separate groups - almost two separate species - suspicious and jealous of each other.
The division brought envy, discord, and, ultimately, conflict. As the colony disintegrated and the climate steadily worsened, those who could do so withdrew from Earth. The rest sank into barbarism.
We could have kept in touch, but there is so much to do in a universe of a hundred trillion stars. Until a few years ago, we did not know that any of you had survived. Then we picked up your first radio signals, learned your simple languages, and discovered that you had made the long climb back from savagery. We come to greet you, our long-lost relatives—and to help you.
We have discovered much in the eons since we abandoned Earth. If you wish us to bring back the eternal summer that ruled before the Ice Ages, we can do so. Above all, we have a simple remedy for the offensive yet harmless genetic plague that afflicted so many of the colonists.
Perhaps it has run its course—but, if not, we have good news for you. People of Earth, you can rejoin the society of the universe without shame, without embarrassment.
If any of you are still white, we can cure you.
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um discurso de Abraracourcix às 17:40
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Sábado, 15 de Março de 2008

Está aberta a caça aos Javalis de Ouro!

Com muito atraso, da minha inteira responsabilidade e preguiça (só agora terminei de ver, com "There Will Be Blood" - recomendo unicamente pela prestação de Daniel Day Lewis, de resto não é grande coisa - os filmes da "colheita" que vai a prémios), coloquei finalmente no Altermundo a votação para os Javalis de Ouro - melhores filmes de 2007/08.
Tal como no ano passado, há 5 categorias (filme, realizador, argumento, actor, actriz), e 5 nomeados em cada uma. Peço-vos que votem, e que sigam os links dos filmes caso não o tenham visto, para pelo menos saberem do que se trata.

Filmes nomeados para este ano pelo excelso chefe Abraracourcix:

4 nomeações:
In the Valley of Elah, filme, realizador (Paul Haggis), argumento, actor (Tommy Lee Jones)

3 nomeações:
Control, filme, realizador (Anton Corbijn), actor (Sam Riley)
Eastern Promises, filme, realizador (David Cronenberg), argumento
Persepolis, filme, realizador (Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud), argumento

2 nomeações:
Shortbus, argumento, actriz (Sook-Yin Lee)

1 nomeação:
Paradise Now, filme
Iklimler (Climas), realizador (Nuri Bilge Ceylan)
Atonement, argumento
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, actor (Casey Affleck)
There Will  Be Blood, actor (Daniel Day Lewis)
No Country for Old Men, actor (Javier Bardem)
4 luni, 3 saptamâni si 2 zile (4 meses, 3 semanas e 2 dias), actriz (Anamaria Marinca)
Juno, actriz (Ellen Page)
Michael Clayton, actriz (Tilda Swinton)
Lust, Caution, actriz (Wei Tang)
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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Lição de democracia (mais uma), versão Espanha

O PSOE, como já era esperado, venceu as eleições legislativas em Espanha, com o resultado e margens de vitória mais ou menos antecipadas pela maioria das sondagens divulgadas. Nada de novo ou sequer inesperado aqui a acrescentar ao que anteriormente escrevi sobre a política à espanhola.
O que me chamou mais a atenção nestas eleições, para além de todos os considerandos sobre resultados, vencedores e vencidos, possíveis acordos de governação, etc., foi, tal como já numa anterior ocasião, o nível de participação dos eleitores. 75% dos espanhóis votou. Menos de 25% de abstenção! Comparem com o nível de participação das mais recentes eleições em Portugal, mesmo as mais importantes...
A política espanhola pode ter muitos defeitos, mas os espanhóis sabem o que politicamente querem, e fazem algo por isso - algo tão simples como deslocar-se a uma escola ou outro edifício público a um domingo, fazer uma cruz num quadrado de papel e metê-lo numa caixa fechada. Algo tão simples mas que os portugueses teimam em achar demasiado complicado, demasiado cansativo.
Cada vez que ocorre uma destas eleições a que em Portugal se dá por algum motivo particular atenção (por ser mesmo aqui ao lado, no caso presente) e surgem estes devastadores - na nossa lusa perspectiva - dados de participação eleitoral, recordo e dou cada vez mais razão a certos e saudosos armadilhadores (agora emigrados para outras e distintas paragens): talvez a democracia como sistema político, plena de vícios como já está, não seja o que era, mas o que está em crise, e em crise grave, é a democracia portuguesa.
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

A gigantesca manif de professores de amanhã

Segundo o Público de ontem, prevê-se a participação de 70 mil professores na manif de amanhã, em Lisboa.

Serão setenta mil, em linguagem de professor de Português.
7 x 104, em linguagem de professor de Matemática.
A maior manifestação de professores de sempre, em linguagem de professor de História.
Um súbito aumento da densidade populacional no centro de Lisboa, em linguagem de professor de Geografia.
Sete zero zero zero zero, em linguagem de professor de Informática.
Setenta mil potenciais novos membros do Clube do Stress, em linguagem de professor de Educação Física.
70 mil divergências dialécticas com a ministra, rejeitando o diálogo socrático, em linguagem de professor de Filosofia.

Todos estes vão estar em Lisboa amanhã. Mesmo eu, que confesso que não concordo com a maior parte dos argumentos dos professores, me sinto sensibilizado.
A ministra não pode dizer que uma tão grande manifestação é unicamente fruto da manipulação sindical, ou da resistência à mudança de interesses instalados. Até porque as manifestações espontâneas que têm despontado em todas as capitais de distrito - mesmo que se saiba quem estará por detrás da primeira SMS enviada, a mobilização não deixa de ser espontânea - refutam essa tese.
Não consigo crer que um nível de descontentamento que consegue mobilizar tantos professores seja apenas fruto da defesa de interesses de classe. Há mais do que isso, embora isso também lá esteja. Há a incapacidade da ministra em dialogar, em envolver as partes afectadas no processo de decisão - isso é o abc de um bom gestor, que um ministro tem sempre de ser - e há mudanças que têm de ser feitas, concordo, mas que estão a ser mal feitas - e mudar só por mudar traz mais desvantagens que benefícios.
Por tudo isto, sinto-me sensibilizado, até impressionado com a gigantesca manif de amanhã.
Tamanha multidão manietará José Sócrates, que querendo defender a ministra perderá apoio público, e que mesmo que quisesse atirá-la à pira não o pode fazer, sob pena de perder toda a credibilidade de líder e de passar a estar para o resto da sua carreira de primeiro-ministro refém de todo e qualquer interesse que consiga moblizar gente.
Sócrates parece-me pois encostado à parede nesta questão, e estu curioso para saber como vai sair daqui. Não será com certeza com o risível comício previsto para o Porto na próxima semana, iniciativa que se alguém tivesse o mínimo sentido do ridículo cancelava imediatamente...
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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

A hilariante política espanhola

Na segunda-feira decorreu o segundo e derradeiro debate entre Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy, candidatos do PSOE e do PP a chefe de governo espanhol nas eleições legislativas do próximo domingo. Acompanhei-o com muita curiosidade, a fim de tentar compreender as idiossincrasias que tornam a política espanhola tão sui generis. Não fiquei muito esclarecido quanto a isso, mas foi interessante perceber como é possível acompanhar um debate eleitoral de sorriso nos lábios - algo totalmente impossível em Portugal. Não pelo brilhantismo retórico ou pelo carisma dos candidatos, mas antes pelo tipo de argumentos que utilizam para se atacarem um ao outro, o que de resto fizeram durante 90% do tempo, em vez de tentar explicar as suas propostas aos eleitores que estariam a assistir ao debate. Desde rodas de bicicleta (Zapatero acusou Rajoy de permitir a legalização de imigrantes ilegais com base no recibo de uma roda de bicicleta) a tabuletas no exterior de lojas (Rajoy acusou Zapatero de fazer com que um comerciante - catalão, claro - seja multado por ter a tabuleta da sua loja em espanhol), tudo serve de armas de arremesso, e todo o passado é rebuscado até ao mais ínfimo detalhe (boa parte do tempo foi passado a discutir se a primeira pergunta de Rajoy no parlamento espanhol em 2004 tinha ou não tido a ver com economia).
Neste aspecto, em Portugal os debates já estão muito à frente da realidade espanhola: a era dos gráficos falaciosos de cores garridas brandidos por candidatos e das batatas em cima da mesa de debate já passou (não que a falácia e a demagogia tenham deixado de ser utilizados, mas agora são apenas verbais, tornaram-se mais requintadas). Talvez isso suceda porque em Espanha a crispação política é tão grande que este foi apenas o primeiro debate televisivo em 12 anos, algo de todo impensável deste lado da fronteira.
Mas de fazer rir mesmo é ouvir os comentadores pós-debate pegar nos mesmíssimos factos e interpretá-los de forma totalmente oposta (e este debate correu sem dúvida alguma melhor a Zapatero) consoante a sua convicção política: para uns uma frase em concreto de Zapatero pode ter sido assertiva, para outros ele foi muito mal educado; um argumento de Rajoy pode ter-se limitado a criticar o oponente sem tentar explicar as suas propostas, ou pode ter sido simplesmente brilhante a explorar os pontos fracos do adversário.
Isto não é no entanto nada de novo em Espanha, pois é exactamente o que fazem nos media  o "El Pais" e o "El Mundo", que todos os dias pintam as mesmas notícias de cores tão diferentes que muitos espanhóis compram diariamente ambos os jornais (tanto um como outro de excelente qualidade, é preciso dizer) para conseguirem ter uma visão razoavelmente imparcial - embora definitivamente esquizofrénica.


PS - A crispação política em Espanha dava sinais de ter abrandado no princípio deste século, mas recrudesceu enormemente entretanto, fruto do apoio à guerra do Iraque e às mentiras do 11 de Março, por um lado; e à legalização do casamento e adopção por homossexuais, ao fim da obrigatoriedade da disciplina de Religião nas escolas e outras políticas sociais, por outro. Para compreender as razões de tão inultrapassável abismo, nada melhor que o aritgo de Pedro Magalhães no Público de segunda-feira. Excertos:

"À partida, pareceria que poucos países poderiam apresentar condições tão desfavoráveis para uma transição pacífica, com elites políticas que se encontravam profunda e historicamente divididas em redor de temas tão centrais como o modelo económico e social, as relações entre o Estado e a Igreja, a inserção geoestratégica do país, a forma de estado ou a forma de governo. Mas, na verdade, as "duas Espanhas travadas em luta incessante", como escreveu Ortega y Gasset, acabaram surpreendentemente por encontrar a paz num processo mil vezes estudado de negociação e conciliação de interesses, à sombra da memória recente de uma das guerras mais selváticas da história da civilização ocidental.
(...) Por estes dias, contudo, Espanha desperta o interesse dos especialistas por razões bastante distintas. Uma das coisas que durante algum tempo se julgou saber sobre o comportamento eleitoral é que a modernização tenderia a enfraquecer a ancoragem social do eleitorado. (...) No máximo, poderiam contar apenas com bases formadas por indivíduos com atitudes e valores semelhantes, mas sem laços sociais claros entre si e, de resto, com opiniões heterogéneas sobre a multiplicidade de temas em jogo numa eleição. E, neste cenário, as escolhas eleitorais reorientar-se-iam cada vez mais para critérios de desempenho e eficiência.
Mas, nos últimos anos, Espanha vem fornecendo uma excelente ilustração de como essas alegadas tendências são tudo menos inexoráveis (...) a classe social a que os eleitores pertencem vem crescendo de importância na explicação do comportamento de voto dos espanhóis, sendo igualmente visível, desde 2000, um aumento de importância da religiosidade como factor explicativo do voto. Um dos reflexos desta crescente ancoragem social do voto é visível quer nos últimos resultados eleitorais, quer nas sondagens para as eleições de 9 de Março próximo: (...) os votantes espanhóis em 2004 e 2008 parecem divididos em dois grandes blocos quase completamente estanques.
(...) A criação desta profunda clivagem que hoje parece atravessar Espanha remonta a 2000 e à vitória do PP por maioria absoluta nas eleições desse ano [fruto da] moderação ideológica e aceitação das regras do jogo da democracia espanhola.
(...) Contudo, o PP decidiu interpretar a vitória de 2000 de outra forma, como sintoma de um realinhamento eleitoral dos espanhóis à direita. O que se viu de seguida foi que a sua moderação, afinal, tinha sido meramente táctica, fruto da circunstância de não dispor de uma maioria absoluta. Entre 2000 e 2004, assistiu-se a um mandato de confrontação total com os sindicatos, com os nacionalismos, com a oposição parlamentar e, no tema do Iraque, com toda a sociedade espanhola.
(...) E como a derrota do PP em 2004 não foi digerida pelo partido como legítima ou até legal, não se tirou dela quaisquer ilações que não fossem a de um reforço da estratégia de confrontação. Nem o PSOE, desde então, tem abdicado de alimentar estas clivagens quando pressente que, mesmo que dividindo a Espanha em duas, pode ficar com a maior parte.
(...) O consenso não é em si mesmo uma virtude, algo que os abundantes (e em grande medida falsos) consensos na política portuguesa e a inacção que deles resultam demonstram amplamente. Mas a ausência de quaisquer bases para um consenso entre os dois maiores partidos espanhóis em temas tão centrais como a defesa e a política externa, a luta contra o terrorismo, os poderes e as competências das comunidades autónomas ou a justiça só pode ser vista como perturbante."
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Clinton vs Obama: baralhar e voltar a dar

Quem acompanha este blog regularmente já deve saber que as primárias americanas são a minha obsessão do momento. Infelizmente ainda não tinha conseguido postar os meus comentários à "mini-super-terça-feira" de há 2 dias.
Por força da batalha sem fim entre Obama e Clinton pela nomeação para as presidenciais de Novembro, os dois maiores estados que votaram na terça-feira (e dois dos maiores em todos os Estados Unidos), Texas e Ohio, eram considerados decisivos para as aspirações de ambos os democratas - do lado republicano, eram vistos apenas como a confirmação aritmética da nomeação de John McCain, o que aliás veio a suceder.
Na segunda-feira tinha já cogitado com os meus botões o que sucederia caso um ou outro ganhassem esses decisivos estados. Concluí que se Obama ganhasse ambos, aumentaria a sua ligeira vantagem mas criaria uma dinâmica e uma aura de vitória tais que Hillary Clinton deixaria de ter hipóteses de nomeação, por muito que ainda viesse a tentar. Se Obama vencesse no Texas e Clinton no Ohio (cenário plausível tendo em vista as sondagens divulgadas), manter-se-ia o status quo de ligeiro favoritismo de Obama. Se Clinton ganhasse ambos os estados, e como era duvidoso que as margens de vitória fossem amplas, apenas iria encurtar um pouco a desvantagem numérica em delegados à convenção democrata de Agosto, mas quebraria a aura de vitória de Obama e voltaria a gritar "Presente".
Tendo este último caso sido o que acabou por acontecer, Hillary Clinton inverte assim em parte a inclinação da dinâmica de favoritismo. Não que ela tenha tornado a ser a favorita, pois Obama mantém quase intacta a vantagem em número de delegados (Clinton ganhou Ohio e Texas, mas ambos por margens razoavelmente curtas, o que pela regra de proporcionalidade na atribuição dos delegados apenas lhe permitiu subir um par de furos face a Obama), mas é um "baralhar e voltar a dar" as cartas políticas, reforçando ainda mais a indecisão que paira sobre os democratas.
É já matematicamente impossível a qualquer dos dois assegurar a nomeação apenas por via das eleições primárias, pelo que tudo será decidido pela capacidade de atracção dos super-delegados (uma espécie de inerências como sucede - ou sucedia - nos partidos aqui do nosso rectângulo, mas à americana). Isto significa que até à lavagem dos cestos na convenção democrata - embora pela recente contundência verbal da campanha seja mais correcto vaticinar uma lavagem de roupa suja - haverá vindima.
Em última análise, este impasse beneficia...  John McCain, que com a nomeação já assegurada se pode concentrar em angariar fundos para Novembro enquanto os seus rivais continuam a gastá-los para se tentarem vencer um ao outro, e ir distribuindo a sua artilharia por Obama ou Clinton, conforme tacticamente mais lhe aprouver. Aliás, nem o próprio tenta guardar segredo que todos os republicanos preferem enfrentar Hillary Clinton, odiada por metade do país e tão fraccionadora deste como George Bush o foi, ou seja, mais potenciadora de galvanizar e mobilizar os eleitores republicanos.
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Neste blog é permitido fumar





Be an Ocean Defender

Os melhores javalis


O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

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As odisseias de Abraracourcix



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