Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

Post dedicado às ressacas

...da efeméride do 11 de Setembro, e do anúncio da saída de Blair. Apontamentos retirados do artigo de opinião de Teresa de Sousa, como de costume excelente, no Público de ontem (o meu acesso livre ao publico.pt a começar a facturar...), e alguns breves comentários que me suscitaram estas passagens:

"Tony Blair carrega preso ao pescoço, no seu triste ocaso político, o peso tremendo do Iraque e a sua determinação em apoiar, para lá de todas as dúvidas e de todas as discordâncias, a "guerra ao terror" de George W. Bush. A tempestade política que enfrenta em casa foi despoletada, mais uma vez, pela sua decisão de acompanhar as posições americanas na guerra do Líbano. Mesmo assim, vale a pena interrogarmo-nos sobre as razões que levam, ainda hoje, exactamente metade dos britânicos, sempre saudavelmente cépticos e distantes em relação aos seus governantes, a pensar que ele não deve sair já de Downing Street, depois de lhe terem dado uma terceira vitória consecutiva há pouco mais de um ano. Estará aqui certamente a explicação para a tese da revista americana. "Blair morreu. Longa vida ao blairismo." Basta olhar para Londres, hoje transformada numa segunda Nova Iorque, metrópole da oportunidade e do futuro para cada vez mais jovens europeus e de toda a parte. Cidade-mundo, moderna, cosmopolita, enérgica. Capaz de vencer o medo. Plural, aberta, contrastante. A imagem quase perfeita de tudo aquilo que os fundamentalistas islâmicos odeiam e que nunca serão capazes de destruir."

Fui a Londres o ano passado e constatei isso mesmo. Londres é, hoje, o verdadeiro umbigo do mundo. Esta citação só corrobora o que escrevi antes acerca do legado de Blair, da paradoxal dicotomia desse legado, entre o apoio incondicional à política americana no Iraque (e no Líbano) e muito que conseguiu na frente interna.

"É talvez isso que é mais perturbador neste quinto aniversário. O vazio deixado pela superpotência que deveria liderar o mundo contra a nova ameaça do fundamentalismo islâmico. De um lado, uma desordem internacional que nos parece à beira do caos. Do Iraque ao Afeganistão, do Líbano à Palestina, de Darfur à deriva antidemocrática da Rússia, dos bombistas-suicidas, que não compreendemos, à possibilidade assustadora de termos de lidar com as consequências de um Irão nuclear. Do outro, um Presidente em quem já nem os americanos acreditam e uma América que paga hoje muito caro os erros que ele cometeu. Enfraquecida militarmente pelo desastre iraquiano, diminuída moral e politicamente aos olhos do mundo. Por causa do unilateralismo arrogante do primeiro mandato, mas, em primeiro lugar, por causa de Guntánamo, de Abu Graibe, do Patriot Act e dos prisioneiros da CIA, das inevitáveis tragédias humanas das guerras que não são compreendidas como justas. É essa incapacidade de liderar da América que sublinha o caos.
(...) Pior que uma América arrogante e unilateralista, só uma América retirada do mundo, "isolacionista", para usar uma velha expressão caída em desuso. Infelizmente é para aí que as sondagens ao estado de espírito dos americanos parecem apontar, como muitos analistas sublinharam neste 5.º aniversário do 11 de Setembro. Cada vez mais americanos, que, como nós, não sentem que o mundo esteja mais seguro, se inclinam para dizer que o seu país tem de "preocupar-se com os seus problemas" e deixar de ter a pretensão de espalhar a democracia no mundo, a única boa ideia da doutrina Bush. Cada vez mais americanos desejam um calendário para uma rápida retirada do Iraque e menos apoio a Israel.
Sem Blair, mas com uma boa dose de blairismo, com Merkel e, talvez, com Ségolène, será a Europa capaz de entender melhor que pode ter uma chance de ajudar as fazer as coisas melhor? (...)"

Sublinho apenas o meu próprio vaticínio: a Europa dos próximos largos anos vai, para o melhor e o pior, ser marcada por este legado de Blair, pelo que se chama de "blairismo". Em Portugal já o temos (embora quase só na parte má, a parte boa do blairismo ficou esquecida no primeiro governo Guterres...), em Espanha mais a parte boa que a má, em França tê-lo-emos se o PSF se conseguir unir em torno de Ségolène Royal (política amorfa muito do estilo do nosso Sócrates), única forma de derrotar o ultra-ultra-liberal Sarkozy, na Alemanha tê-mo-lo de alguma forma no governo CDU/SPD de Markel, no Reino Unido continuaremos a tê-lo com Gordon Brown, e daqui a dois anos com David Cameron (autêntico clone de Blair, em que a roupagem tory não faz grande diferença excepto talvez na política europeia).
E é este, no fundo, o que Blair nos deixa. O seu legado deverá ser julgado daqui a dez anos, quando verificarmos se, segundo os efeitos que o blairismo produzir na Europa, ela será nessa altura melhor ou pior que agora. Sou pessimista.
:
Abraracourcix o chefe falou sobre: ,
um discurso de Abraracourcix às 11:59
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
9 comentários:
De Pedro silva a 13 de Setembro de 2006 às 13:58
António foste enganado com o artigo da sra teres ad esousa, uma ex MRPP e neoliberal de direita estilo neocon ou pacheco pereira
Sugiro-te isto armadilhaparaursosconformistas.blogspot.com/2006/04/blair-fraude.html

como terapia anti blair e teresas de sousa, que no fundo apenas está a fazer uma apologia das merdas do blarismo...
De Pedro silva a 13 de Setembro de 2006 às 14:01
já agora e para sentires uma intensa vontade de rebentar com os miolos
www.armadilhaparaursosconformistas.blogspot.com/2006/05/palavras-para-qu.html
De Abraracourcix a 13 de Setembro de 2006 às 14:38
O objectivo deste post, não sei se atingido (para ti parece que não foi), não era fazer a apologia do blairismo. Apenas caracterizá-lo como ideologia - ou, mais propriamente, "não-ideologia" - algo que continuará a marcar a Europa nos próximos anos. Também digo no final do post que estou pessimista quanto ao resultado final dessa influência...
Gosto dos artigos de Teresa de Sousa porque, concordando nalguns pontos com o que diz, discordando noutros, faz-me pensar, fazer as minhas próprias reflexões - concederás que é sempre bom ter presentes os "dois lados da barricada"...
Quanto aos posts que me sugeres, não li o segundo com muita atenção (pesado e já tinha lido o primeiro, também pesado...), mas dá para perceber que não diz nada que não se depreenda da leitura quotidiana do teu blog armadilhador de plantígrados: que não gostas mesmo nadinha de socialistas ;)
Quanto ao primeiro post: percebo porque mo sugeriste, concordo com algumas coisas e discordo doutras, mas isso não é assunto para um comentário, nem sequer para um post, dava um livro inteiro... (se quiseres escrevemos um a meias e rumamos à glória do Olimpo intelectual português... ok, admito que não parece muito atractivo)
O teu post, no entanto, caro Pedro Silva, está eivado de um defeito intrínseco muito importante, embora simples, que mina toda a credibilidade do que escreves. Por muitos links que faças, estás a explanar a argumentação de uma revista francesa - que eu conheço há muito tempo e cuja linha fundamental é a crítica cáustica, muito "à la française", estilo Canard Enchaîné mas tentando ser séria (às vezes consegue, às vezes não) - de uma revista francesa, dizia, que compara estatísticas da França e do Reino Unido. Ora tal não pode ser sério, NUNCA.
Quanto à essência do que lá é escrito e descrito, é óbvio que as estatísticas inglesas são manipuladas. Mas uma crítica destas vinda da França, um país que utilizou bastamente a "contabilidade criativa" para conseguir cumprir os critérios de entrada no euro, não é credível. A França também manipula as suas estatísitcas. TODOS os países manipulam as suas estatísticas, uns melhor, outros pior, mas todos o fazem. A estatística, como Churchill já sabia, é o pior tipo de mentira.
Seja como for, e voltando ao início do comentário, o que dizes não muda nada no meu post. O meu intuito não era (cruzes-canhoto-bate-três-vezes-na-madeira) defender Blair. Apenas constatar a marca que deixou na Europa.
De Pedro silva a 13 de Setembro de 2006 às 15:15
António,atenção:
1."aquele " artigo fazia a comparação entre estatisticas de frança e de inglaterra.
2.O que tu citaste da teresa de sousa está a fazer o apologia do Blair.
3. o legado do blairismo é uma farsa e uma invenção. Nada de bom aquilo vai deixar excepto a enorme confusão quer politica quer ideológica.
4. Quanto a questão dos dois lados da barricada eu vejo-os sempre e no caso de Blair o tipo é péssimo.
Quanto à tua comparação com os primeiros tempos do guterrismo esses para mim foram péssimos.
Outra fraude em termos, quer de poíticas sociais ,quer económicas.
Quanto ao eu não gostar de socialistas, não gosto "Destes" socialistas que de socialistas nada tem.
Ali nada existe em termos de ideologia, ou de principios ou de competencia de especie alguma.
O5. segundo post era feito em termos comparativos com um texto completamente ridiculo de um militante socialista
6. Quanto às estatisticas concordo:todos as manipulam. Mas o artigo pareceu-me sério precisamente porque, na pratica estava a dizer certas coisas já estátisticmente filtradas ou seja, após descodificação das estatisiticas britanicas.
7. estás pessimista?
8. Olha eu já te sugeri o seguinte noutro blog: come um franguinho à sombra de uma arvore que isso passa :)
De Abraracourcix a 13 de Setembro de 2006 às 16:52
Isto pede uma resposta ponto a ponto:
1. Sim, a comparação é entre estatísticas. O que eu quero dizer é que cada um as manipula como quer. Se surgisse uma revista britânica a pegar nas mesmas estatísticas, chegaria a conclusões opostas. A minha formação académica ensinou-me a nunca acreditar em ninguém cujos argumentos sejam apenas estatísticos.
2. Eu não disse que a Teresa de Sousa não faz a apologia do Blair - de facto fá-la, em certa medida. O que eu disse foi que o meu post não tem esse objectivo. As citações de TdS apenas servem para suscitar a reflexão e um acto de concordância ou discordância.
3. Também não disse o contrário. Daí o meu pessimismo.
4a. São juizos de valor. Vejo no entanto que concordas, como é óbvio, na pertinência da comparação Blair/Guterres - óbvio porque o Guterres apenas copiou o manifesto da Terceira Via do Blair. Tal como o vivi, até gostei do primeiro governo Guterres: foi o único que fez algo de minimamente decente e com preocupações minimamente sociais. Olhando para trás, não o apelidaria de "bom", mas de "menos mau"...
4b. As políticas sociais desse governo não sei se foram uma fraude (a que te referes em concreto?), as políticas económicas não acho que o tenham sido. Excluindo o actual, foi o único ministro das Finanças que tivemos que sabia o que fazia. Outra coisa que concluí na faculdade foi que, falando estritamente de Economia, não existem duas formas de decidir. Há aquilo que é preciso fazer e pronto. O que há é modos diferentes de compensar (ou não) os efeitos negativos daquilo que se decide economicamente. E é aqui que entra a ideologia, para a Economia ela não é chamada.
4c. Concordo com a tua avaliação "destes" socialistas (?!?) de pacotilha. Subscrevo e apoio.
5. Eu percebi.
6. Ver ponto 1.
7. Ver ponto 3.
8. Famos todos fazer um piquenique à sombra da tal árvore? ;)) Estão todos convidados!! ("todos" refere-se aos 3 ou 4 leitores deste blog, concretamente à metade deles que ler este comentário)
De Pedro silva a 13 de Setembro de 2006 às 20:23
só para dar uma nota:eu perceboo teu ponto em relação às sondagens. Mas nesta coisa em especifico pareceu-me que as comparações não estavam "marteladas".

Quanto ao teu ponto pró Guterres discordo completamente.
Mas tu é mais novo que eu por isso percebo que exista em ti a ideia de que o governo guterres foi bom ,coisa que não foi.
Começaram aí os enormes problemas de que a esquerda política actual padece em portugal, e começou aí ,infelizmente o bloco de esquerda, e começou aí toda uma série de asneiras...
De Abraracourcix a 14 de Setembro de 2006 às 09:37
Ena, só com dois intervenientes incluindo eu, mas é bom ver finalmente uma verdadeira discussão no meu blog! Foi para isto que o criei :)
Das sondagens ok, não vou dizer mais, mas não é preciso serem marteladas para mentirem (ou "fugirem à verdade", como em politiquês se diz).
Quanto a Guterres: é impressão minha ou chamaste-me de "verde"? Tens a mania que és cota... lol
A sério, como te disse são pontos de vista, mas como também te disse olhando para trás percebo de facto alguns dos graves problemas que aí foram originados.
"começou aí ,infelizmente o bloco de esquerda" Olha, eu que estava convencido que eras bloquista! (rettribuição sem escrúpulos do "insulto" de eu ser "verdinho") Afinal não, és mesmo anarquista ;) (remate com outro ainda "pior"! 2-1!)

PS - A metáfora futebolística saiu-me assim, é do sono e do facto de o Sporting ter ganho anteontem! (aí sim, sou verde!)
De Pedro silva a 14 de Setembro de 2006 às 22:24
Amtónio: grande parte dos problemas que existem agora foram gerados nos governos do sr guterres.
Especialmente e precisamente pelo facto de, históricamente aquilo ter sido uma oportunidade de ouro para mudar uma série de coisas e evitar outras e nada saiu dali.
A expectativa que foi criada e a decepção subsequente foram mortais para a "esquerda política" para aideia de esquerda política.
Quanto a eu ser do bloco de esquerda,não ,não sou. Nem sequer simpatizo especialmente com o bloco que é apenas, mais outra oportunidade perdida em termos políticos. Mas a esquerda política é assim:viciada em criar oportunidades políticas e em desperdiça-las umas atrás das outras.
e também não sou anarquista.
Agora em relação ao sr guterres e companhia limitada...muito haveria para dizer... foi péssimo.
Quando as pessoas de esquerda criticam o Cavaco tendo passado por lá, do lado deles, uma coisa como o guterres é só para rir...
De Abraracourcix a 15 de Setembro de 2006 às 09:47
Bom, se a razão do teu ódio ao governo Guterres é a de "históricamente aquilo ter sido uma oportunidade de ouro para mudar uma série de coisas e evitar outras e nada saiu dali", não podia concordar mais. Mas isso só reforça o que te disse: na altura, tal como o vivi, aquele foi o "governo menos mau" que já tivemos; olhando para trás, percebo os problemas causados pela trágica perda de oportunidades que não se repetirão. Seja como for, os governos que vieram antes, e depois, também nada resolveram em relação aos mesmíssimos problemas (têm sido sempre os mesmo de pelo menos há 20 anos para cá, porque nada nunca se faz).

PS - o Guterres iniciou a era, que perdurará, dos dirigentes de esquerda que não são de esquerda.

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