Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Relatório da CIA - o que já todos sabiam menos Bush

Reprodução na íntegra de uma análise feita na edição de ontem do Público ao relatório da CIA e de outras agências de serviços secretos, o qual diz aquilo que é para todos óbvio - menos para Bush. Pior, diz aquilo que todos sabiam há muito tempo - menos Bush. Pior ainda, diz aquilo que muitos, antes mesmo dos acontecimentos, previram que ia acontecer - muitos, mas não Bush e a sua entourage (alguns deles sabiam-no, mas ou não quiseram ver ou não quiseram falar, para não perder possíveis benefícios futuros...).
Parece mesmo tratar-se - tal como na tese do "choque de civilizações", de que aliás a "guerra ao terrorismo" é instrumental - de mais um caso daquilo a que se chamou self-fulfilling prophecy: ao querer evitar mais terrorismo e insegurança, invade-se, bombardeia-se (nos países errados, já agora), saqueia-se, prende-se, tortura-se, e no fim causa-se mais terrorismo e insegurança do que se nada tivesse sido feito.
Isto é perfeitamente claro para qualquer observador que, em primeiro lugar, seja atento, e que, em segundo lugar, esteja deste lado do Atlântico. Que Bush não o tenha visto só prova, em definitivo, que em primeiro lugar não é - não o pode ser dadas, digamos assim, as suas idiossincrasias intelectuais - um observador atento e que, em segundo lugar, os EUA são um país de História curta que lhes confere uma visão historicamente curta...

O artigo então, para dar mais profundidade a esta minha análise:

"UMA ESTRATÉGIA QUE FALHOU NO COMBATE AO TERRORISMO E ENFRAQUECEU OS EUA

O fracasso da "guerra ao terror" de Bush, assente no uso da força militar, é inseparável
da tentativa de imposição de uma hegemonia indiscutida no Médio Oriente, através da doutrina da "mudança de regime". Hoje, os americanos perderam a iniciativa, enquanto o inimigo Irão surge como o grande beneficiário da sua aventura iraquiana.
Cinco anos depois do lançamento da "guerra ao terror" e, sobretudo, após a invasão do Iraque, o terrorismo parece de boa saúde, os EUA estão atolados em Bagdad, os taliban renascem no Afeganistão, Israel está mais ameaçado, o Irão começou a assumir o papel de potência regional e todo o Ocidente está em risco de ver enfraquecida a sua margem de manobra no mundo e não apenas no Médio Oriente.

1. O relatório das 16 agências de informação traz menos novidade do que parece. A CIA há muito produziu idênticas análises. Em Junho de 2005, constatou que o Iraque se tornara num território de recrutamento e treino para o terrorismo jihadista mais importante que o Afeganistão dos taliban. Antes disso, Samuel Huntington concluíra que "a invasão do Iraque foi vivida pelos muçulmanos como uma guerra contra o islão" e que, nestes termos, "os Estados Unidos vão gerar cada vez mais terroristas". O valor do relatório está na sua "autoridade": os serviços secretos preferem a informação à apologia ideológica.
O texto constata que o jihadismo de influência Al-Qaeda "se desenvolve e adapta aos esforços antiterrorismo" e que os seus grupos aumentam, tanto em termos de número como de dispersão geográfica". "A jihad no Iraque formou uma nova geração de dirigentes e agentes terroristas." É evidente que não foi o Iraque que criou o terrorismo. O que acontece é que a ocupação de Bagdad, em lugar de erradicar o terror, o veio alimentar.
O relatório tem passagens menos negras. "A maior fraqueza dos jihadistas é que o seu objectivo último é impopular para a grande maioria dos muçulmanos." Esse objectivo é criar sociedades fundamentalistas baseadas numa aplicação ultraconservadora da sharia (lei islâmica). O que suscita a interrogação sobre o melhor método de o combater. O modelo europeu terá sido mais eficaz.
O islamólogo francês Gilles Kepel explicou que os movimentos islamistas radicais, do Egipto à Argélia, falharam nos anos 1990 por não conseguirem mobilizar as massas à volta do seu programa. O 11 de Setembro - diz - traduz uma mudança de estratégia por iniciativa da Al-Qaeda, a tentativa de "galvanizar as massas" através de atentados espectaculares, a começar pelo coração da América.
A resposta americana, a "guerra ao terror", privilegiando a acção militar, terá tido "o efeito perverso de mobilizar largas franjas da opinião no mundo árabe e muçulmano contra os EUA, em particular, e o Ocidente em geral". A questão da tortura abalou o que restava do capital moral americano.

2. A "grande estratégia" da Administração Bush, esboçada antes do 11 de Setembro, era ambiciosa e "revolucionária". Aliava duas vertentes. Por um lado, erradicar as causas do terrorismo, o que levará ao projecto do Grande Médio Oriente para democratização e modernização do mundo árabe. Por outro, consolidar a hegemonia americana na região. As duas vertentes eram unidas pela doutrina da "mudança de regime", que tanto ameaçava os aliados sauditas, como os adversários Iraque ou Irão. O acento tónico era posto na força militar, quando ninguém ousava desafiar o poderio americano. Esta mistura vai perder a Administração Bush.
A conquista do Iraque não criou um "modelo virtuoso", tornou-se num desastre de engenharia geopolítica. Quase tudo falhou (para os americanos, não para os iraquianos xiitas e curdos). À desordem, seguiu-se a revolta sunita e a explosão do terrorismo jihadista. Hoje, a questão central é a ameaça de guerra civil. Para se retirarem sem perder a face, os americanos necessitariam de deixar um Iraque estável, já não necessariamente democrático. Uma saída em debandada afundaria a credibilidade da "hiperpotência" por muitos anos e permitiria à Al-Qaeda proclamar vitória.
A guerra no Afeganistão tinha outra lógica e foi apoiada pelos aliados como resposta ao regime que albergava a Al-Qaeda. A progressiva deterioração deve-se em boa medida à obsessão iraquiana de Bush, que depressa esqueceu Cabul. Cinco anos perdidos criaram um terreno de "apodrecimento" e insegurança que os taliban aproveitam para regressar. Antes de militar, o problema é político e económico. Mas, mesmo no plano militar, os EUA não têm já recursos para intervir e a Europa está no limite da sua capacidade. Um fiasco será grave para a NATO.
O evidente e paradoxal vencedor foi o Irão. Os EUA eliminaram os seus dois inimigos: Saddam Hussein e os taliban. O desastre iraquiano permitiu-lhe emergir como potência regional dotada de imenso poder de desestabilização. Acaba de fazer a demonstração no Líbano. Teerão não só resistiu à ameaça americana como surge hoje como uma potência bivalente: capaz de organizar um frente radical antiamericana ou, se os EUA escutarem as suas propostas, ajudarem-nos a sair do Iraque e a estabilizar a região. O seu preço é seguramente alto e o clima não ajuda a um entendimento. No entanto, há dias, Bush disse ao Washington Post coisas insolitamente simpáticas sobre Teerão.
Em suma: para lá do impasse no terrorismo, a estratégia de Bush provocou um desastre político. Os EUA perderam a iniciativa e parecem hoje condenados a reagir aos acontecimentos."
(Por Jorge Almeida Fernandes)
:
Abraracourcix o chefe falou sobre: , ,
um discurso de Abraracourcix às 09:22
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
8 comentários:
De js a 29 de Setembro de 2006 às 16:16
...depois de ver extractos do documentário W(t)C conspiração interna ... fiquei com dúvidas ...muitas dúvidas se efectivamente houve atentado ... (há qualquer coisa que não cheira muito bem na questão) mas mesmo que tivesse havido atentado não nos podemos esquecer que Bin Laden é uma personagem criada pelos EUA nas suas políticas de dá armas para atacar um e á armas a outro para atacar o primeiro ... enfim quem produz armas a dar com pau tem que arranjar modo de escoar a sua produção...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt
De Abraracourcix a 29 de Setembro de 2006 às 16:50
Obrigado pelo encorajamento. Mais uma vez reafirmo que não acredito em teorias da conspiração. E esta é demasiado rebuscada para ter credibilidade. Claro que Bin Laden é uma nemesis criada pelos Estados Unidos, isso todos sabem, mas muitos enterram a cabeça na areia... São os excessos da realpolitik, que tem estado em discussão aqui e no armadilhaparaursosconformistas, e um dos motivos pelos quais eu me recuso a apoiar qualquer acto ditado pela realpolitik - excepto onde não houver qualquer outra alternativa.
De activist a 30 de Setembro de 2006 às 02:08

Já agora, o filme que falam, não é uma teoria de conspiração. É um documentário.
Ou seja, teorias de conspiração, tem por base, poucas fontes crediveis, etc,
O documentário, era quase todo ele, com base em fotos , imagens, etc. Depois , cada um é que tira as conclusões que quer .
O titulo em Português, "conspiração interna", é diferente do original, e de como é chamado nos eua, no meio..... que , seria do tipo "operação interna".
Mas, como em portugues, ficava meio esquesito, ou mesmo chocante, ou forte demais, optaram pra " conspiração interna"

note-se, que não estou a dizer, em que acredito, ou não.Costumo dizer que o Poder Paternal, faz muitas vitimas, e provamente, é uma "operação interna".
E esta provado
Joanas, Vanessas, Monicas, meu filho... tudo vitimas escusadas, entre muitas
Portugal- n1 maus tratos a crianças. fonte UNICEF
De activist a 30 de Setembro de 2006 às 16:33
onde escrevi " dizer que o Poder Paternal, faz muitas vitimas, e "provamente*....
queria dizer obviamente, "provadamente". Obrigado

De Abraracourcix a 2 de Outubro de 2006 às 10:58
Teorias da conspiração há de muitos tipos... por exemplo, sendo um documentário, acho que o "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore, é claramente uma teoria da conspiração porque, apresentando alguns argumentos com que até concordo, os mistura com outros que são montados em redor de factos que são distorcidos para apoiar esses mesmos argumentos. E isso torna a sua tese pouco credível. É isso que acontece também com este documentário - independentemente do título português, que eu nem sabia.
Já agora, não percebi a relação disto com os maus tratos a crianças em Portugal...
De activista a 8 de Outubro de 2006 às 23:31
Ohh que raio, espero estar a responder no sitio certo
Pois, da conversa resulta clarividencia, e embora não tenha visto o "Fahrenheit 9/11", vi o Columbine não sei quantos, e a minha opinião (embora o tema nada tenha a ver, obvio), é a mesma. Michael Moore apresenta factos espetaculares, e mistura com coisas que depois nada têm a ver.
Mas, é salutar termos estes documentários. Acho o columbine brilhante, no bom que tem. O "superficial", mesmo que discordemos qual seja, é indiferente.

Qual a relação disto com os maus tratos a crianças?
Bem, tudo e nada.
Nada, no que diz respeito ao assunto.
Isso saberás

O que tem a ver? Bem, esses documentários, etc, quer acreditemos ou nao, e fora a parte mais "sensacionalista", levam a pesquisas, analizes, etc.
Alguns, foram feitos por grupos de Direitos Humanos, etc, mesmo que haja falhas.

Ora, eu pertenço, mais uns carolas, a um grupo de activistas, mas de outro genero, que é de Pais Separados (e maes, ) e pais vitimas, e activistas.
Ou seja, estudamos o "triste fenomemo", das crianças em Portugal.... Independentemente, sem governos, nem lobbys
E, com a quantidade de queixas que recebemos, e erros que se vê (quem desviar a atenção das partes do sangue), cada vez que mprre uma criança, bem, houve um pai que disse que o Poder Paternal, era uma conspiração interna..

Por exemplo, a Angelina, a ultima criança que morreu, pouca gente repara que o Pai não conseguia ver a filha há 6 meses. Mas o violador sim. E nem foi avisado da morte, etc.
De Meco a 14 de Junho de 2007 às 14:29
Sendo que os terroristas, não são mais que mercenários à conta das grandes máfias que são os estados, e que no final desta merda toda, somos nós que pagamos tudo isso... não será que é altura de acabar com as bostas que estão na base disto tudo: Políticos e Religiosos!?
De Meco a 14 de Junho de 2007 às 14:30
Sendo que os terroristas, não são mais que mercenários à conta das grandes máfias que são os estados, e que no final desta merda toda, somos nós que pagamos tudo isso... não será que é altura de acabar com as bostas que estão na base disto tudo: Políticos e Religiosos!?

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