Terça-feira, 3 de Outubro de 2006

Os portugueses, o aborto, a SIDA e o princípio da avestruz

Ontem, escrevi isto em comentário a um post do armadilhas acerca do aborto:

"Os portugueses têm uma particularidade (não sei se isto se verifica noutros povos): não querem que lhes digam coisas desagradáveis; fogem como podem de verdades desagradáveis; mesmo quando no seu íntimo sabem a verdade desagradável, escondem-na de si mesmos; em suma, tornam-se avestruzes. E os portugueses acham que o aborto é uma coisa desagradável. Sabem que é uma questão premente que é preciso resolver, mas não querem que lho digam frontalmente."

Deparei-me hoje com um artigo do Público da passada quinta-feira que, à luz deste, chamemos-lhe assim, "princípio da luso-avestruz", ganha nova relevância.
A relevância da minha reflexão é a aplicação deste princípio não só ao referendo sobre o aborto, como no comentário anterior, mas às elevadas taxas de infecção de HIV em Portugal e ao fracasso das campanhas de sensibilização e alteração de mentalidades.
O artigo fala de um livro lançado a semana passada, onde se chega à conclusão que os portugueses negam para si mesmos a probabilidade de contrair SIDA tem e a importância de se protegerem - porque é algo que "só acontece aos outros", aos "drogados", aos "maricas", às "putas". Acima de tudo, é desagradável que lhes digam que não é assim, que o que é relevante são comportamentos de risco onde se inclui as relações sexuais desprotegidas.
É desagradável que lhes digam "vocês também podem contrair o HIV". E como é desagradável, gera-se um mecanismo mental que remete essa informação para um cantinho ignorado do cérebro - o "cantinho da avestruz", de elevadíssimas proporções nos portugueses.
Excertos do artigo:

"Sida desencadeou mecanismo psicológico de negação"

"Que um homem nascido na década de 1950-60 - quando a iniciação sexual se fazia muitas vezes com uma prostituta - desconheça as formas de contágio da sida e tenha comportamentos de risco entende-se; que "jovens nascidos da era da sida" façam o mesmo é motivo de estranheza, defendem os autores de A sida em Portugal e o contexto sociopolítico, que hoje é lançado em Lisboa.
O livro tenta explicar por que razões falharam as campanhas de prevenção da epidemia. Portugal mantém-se como um dos Estados-membros da União Europeia com piores índices da infecção. Isto mais de 20 anos depois do primeiro caso no país, em 1983.
Os autores pegam num exemplo. Num estudo de 2004 provou-se que o risco de contágio associado aos serviços de saúde é sobrevalorizado pelos portugueses. Na realidade, "o risco é mínimo mas a população não se convence disso", lamenta um dos autores, Fausto Amaro, sociólogo e professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
Desde o início da epidemia houve uma associação entre o HIV/sida e grupos de risco: homossexuais, toxicodependentes e prostitutas. Embora a epidemia esteja hoje a crescer sobretudo entre os heterossexuais, a associação a grupos estigmatizados permaneceu. Os inquéritos foram revelando que, muitas vezes, é ignorado o risco de contágio pessoal por pessoas que se julgam invulneráveis por não pertencerem a estes grupos.
As autoridades de combate à epidemia decidiram, há cerca de uma década, mudar o vocabulário, para tentar criar a ideia de que todos correm risco: passou-se a falar de "comportamentos de risco" em vez de "grupos de risco". Mas a "bem intencionada alteração" não veio contrariar crenças arreigadas. "A sida desencadeou em Portugal um mecanismo de negação da doença que deu origem à deficiente percepção do risco de infecção pelo VIH", defendem.

"Os autores passam em revista as várias campanhas anti-sida levadas a cabo pelo Estado e associações como a Abraço. O tom variou entre o informativo, dramático e até humorístico. Ora, são já vários os estudos - no campo do tabaco, obesidade, álcool ou drogas - que demonstram que a informação não basta para mudar comportamentos. E o medo também não, explicam os autores. A pessoa evita captar mensagens que lhe são incómodas. E campanhas para assustar "podem levar a mecanismos de negação da doença ou de estigmatização dos indivíduos atingidos", lê-se na obra.
(...) Fausto Amaro afirma que existe "falta de um plano sistemático e de campanhas de sensibilização contínua". (...) Os autores passam em revista o processo de desenvolvimento do indivíduo desde a infância, quando se começa a desenvolver a identidade pessoal e social, que vai influenciar comportamentos futuros. "A educação da criança é um todo. A educação para a saúde deve começar nas escolas primárias", incutindo-se desde o início, por exemplo, "o sentido de responsabilidade individual, a promoção do respeito entre rapazes e raparigas", sublinha Louise Cunha Teles. É nesta fase que se começa a mudar comportamentos."

(Catarina Gomes)
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