Sexta-feira, 6 de Outubro de 2006

Prémios Ig Nobel - a outra face da investigação científica

Para além dos prémios da Medicina e da Física, sobre os quais escrevi, já foi anunciado o vencedor do Nobel da Química, premiando mais um trabalho relacionado com a área da Genética.
Em paralelo, foram também já entregues outro tipo de prémios, aos quais todos os anos, como pessoa bem humorada que sou (dizem-no todos, excepto os meus amigos ;)), presto atenção: os Prémios Ig Nobel (queria fazer o link, mas parece que a página está em baixo), destinados segundo a Annals of improbable Research (a organização que os confere) a "distinguir trabalhos que façam primeiro rir e depois pensar".
Estes foram os premiados deste ano (a descrição foi retirada do Público). Leiam, riam... e depois pensem.

Ornitologia
Ivan Schawab, da Universidade de Davis, Califórnia, e Philip May, da Universidade de Los Angeles, explicaram porque é que os pica-paus não têm dores de cabeça. Os autores consideraram que o pica-pau é um modelo natural para investigar os mecanismos de lesões na cabeça e a sua prevenção. O estudo anatómico preliminar da cabeça do pica-pau sugere que poderá ser útil explorar sistemas de protecção de impacto radicalmente diferentes dos que são habitualmente utilizados.

Nutrição
Wasmia Al-Houty, da Universidade do Kuwait, e Faten Al Mussalam, da Autoridade Ambiental Pública do Kuwait, venceram o IgNobel por mostrarem que a espécie de besouros Scarabaeus cristatus prefere alimentar-se das fezes de cavalo em detrimento das de camelo, ovelha, cão ou raposa. Aparentemente, a preferência relaciona-se com a maior fluidez das fezes equídeas. Muitas espécies animais evoluíram a praticar coprofagia, a prática de comer fezes, que apenas em raros casos é praticada por humanos.

Paz
Howard Stapleton, galês de 39 anos, foi contemplado pela invenção de um repelente de adolescentes e por, mais tarde, usar a mesma tecnologia para vender toques de telemóvel não audíveis pelos professores. As crianças conseguem ouvir sons com frequências mais altas do que os adultos. O aparelho, chamado Mosquito (é pequeno e irritante) emite um som de alta-frequência que pode ser ouvido por quase todas as pessoas com menos de 20 anos e por quase ninguém com mais de 30. O som foi concebido para irritar jovens. É apresentado pela empresa britânica Compound Security como a solução para o eterno problema de reuniões indesejadas de jovens em centros comerciais, lojas e outros sítios onde causem problemas.

Acústica
Lynn Halpern, Randolph Blake e James Hillenbrand, receberam um IgNobel pelo trabalho Psicoacústica de um som irritante, que descreve experiências conduzidas para perceber porque é que as pessoas não gostam do som de unhas a raspar num quadro de ardósia. Um grupo de voluntários foi sujeito à audição de 16 sons e classificaram o raspar de unhas num quadro como o mais desagradável. Posteriormente, os voluntários foram expostos à audição de várias versões modificadas do som. A conclusão é que são as componentes com frequências nas gamas intermédias de frequências auditivas que mais contribuem para associação a uma sensação desagradável. As altas-frequências não são necessárias nem suficientes. Fica por esclarecer a razão por que estes sons são tão insuportáveis para o ouvido.

Matemática
Nic Svenson e Piers Barnes, da Organização de Ciência e Investigação da Commonwealth Australiana, foram premiados pelo cálculo do número de fotografias que é necessário tirar quando se quer fazer um retrato de grupo para garantir que ninguém fica de olhos fechados. Trata-se de um modelo estatístico baseado no número médio de piscadelas de olho por minuto de alguém que está a posar para uma fotografia (10), na duração de uma piscadela (250 milissegundos) e no tempo de exposição do obturador da câmara em boas condições de luz interior (oito milissegundos). Num grupo de 30 pessoas, nunca pense em menos de 15 fotos para ter 99 por cento de confiança que tem uma em que todos estão com os olhos abertos. Se for com más condições de luz, e consequentemente velocidades de obturação mais baixas, vá para as 30. Nas últimas é capaz de ter alguns bocejos.

Literatura
Daniel Oppenheimer, da Universidade de Princeton, foi contemplado pela autoria do relatório Consequências do vernáculo erudito utilizado a despeito da necessidade: problemas da utilização desnecessária de palavras longas. O autor procura estudar a eficácia da utilização deliberada de vocabulário complexo para dar a impressão de inteligência. Não obstante o título do trabalho conter inquestionavelmente algum vernáculo erudito, a conclusão é negativa, ou seja: a utilização propositada de vocabulário complexo não transmite ao leitor uma sensação de inteligência, antes pelo contrário.

Medicina
Francis Fesmire, da Universidade do Tennessee, recebeu um IgNobel pelo relatório do caso médico Paragem de soluços incuráveis com uma massagem rectal digital; e a Majed Odeh, Harry Bassan e Arie Oliven, do Centro Médico Bnai Zion, em Israel, foi entregue o prémio por terem feito um relatório posterior com o mesmo título. Neste último caso, um paciente de 60 anos internado numa clínica em Haifa desenvolveu soluços persistentes após a remoção de um tubo nasogástrico. Foram tentados vários fármacos e manobras sem sucesso, até que foi realizada uma massagem com os dedos no recto, que resultou na paragem imediata dos soluços. Várias horas mais tarde ocorreu novo episódio de soluços, imediatamente terminado com uma segunda massagem. Mais nenhuma recorrência foi registada.

Física
Basile Audoly e Sebastien Neukirch, da Universidade Pierre e Marie Curie em Paris, receberam o IgNobel por um estudo que explica por que é que quando se dobra esparguete seco este se parte frequentemente em mais do que dois bocados, tipicamente três ou quatro. É sem dúvida uma experiência simples que poderá realizar em casa. Já o modelo mecânico que a explica é mais complicado.

Química
António Mulet, José Javier Benedito e José Bon, da Universidade de Valência, e Cármen Rosselló, da Universidade da Ilhas Baleares, Palma de Maiorca, foram escolhidos por um trabalho que demonstra que a velocidade dos ultrassons no queijo Cheddar é dependente da temperatura. Os ultrassons são sons com uma frequência maior do que o limite superior da audição humana, aproximadamente 20 kilohertz. O Cheddar é um queijo amarelo pálido com um sabor intenso, originalmente produzido na localidade inglesa de Cheddar. Estes resultados poderão ser usados para fazer correcções a métodos de controlo de qualidade por ultrassons em processos de tecnologia alimentar.

Biologia
Bart Konols e Ruurd de Jong, da Universidade Agrícola de Wageningen, Holanda, foram seleccionados pela demonstração de que o mosquito fêmea da malária (Anopheles gambiae) é atraído igualmente pelos cheiros do queijo Limburger e dos pés humanos. O Limburger é um queijo de vaca curado, com um forte odor, originário da Bélgica e da Holanda. O queijo contém uma bactéria que também pode ser encontrada nos pés humanos. Um interesse importante do estudo das moléculas que atraem insectos é desenvolver armadilhas atractivas que possam substituir os pesticidas.
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Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 17:29
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
5 comentários:
De A.Teixeira a 7 de Outubro de 2006 às 11:55
Muito divertido!

No mesmo espírito, valerá a pena acrescentar o episódio em que a organização Nobel entregou o Prémio a alguém pela descoberta de algo que... afinal não existe?
De Macambuzia Jubilosa a 8 de Outubro de 2006 às 22:52
ehehhehe

Também li isto no Público e também me ocorreu colocar no blog... mas depois passou-me...


E dentro desta linha, mas virado para o cinema também há os Razzie, que premeia os piores filmes do ano.
De Abraracourcix a 9 de Outubro de 2006 às 10:03
Todos os anos eu presto atenção a estes prémios. São sempre de partir o coco a rir! Os Razzies também conheço, mas esses são mais para gozar com algumas figurinhas... estes sempre têm um intuito construtivo lol!
A. Teixeira, stôr, explica lá essa do prémio por algo que não existia...
De A.Teixeira a 9 de Outubro de 2006 às 11:59
Tenho que pedir desculpa porque não suspeitava que a controversia fosse afinal tão discreta quanto o é. Tem a ver com o Prémio Nobel da Física de 1917. Mas como, para armar devidamente a intriga, vou precisar de fazer um link ou dois para a sustentar, terei de pedir o obséquio ao chefe Abraracourcix de, um dia destes, fazer uma visita ao campo romano onde mora o herdeiro de Flávio Aécio .
De Abraracourcix a 9 de Outubro de 2006 às 12:10
É discreta é... eu lembro-me de ler algo sobre isso há muito muito tempo, mas já não me recordo do que seja... E faço o obséquio de visitar o teu campo entrincheirado com todo o gosto! :)

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