Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

Alpha Centaurus

Corria, corria sempre, cada vez mais depressa. A escuridão do corredor apertava-a, corria sempre mais depressa, mas ao fundo nada mais que uma vaga luz.
Corria, Penélope corria sempre, tentava aproximar-se da luz, mas ela continuava difusa e distante. O corredor era negro e comprido, esvaziado de sentido, nada mais importava que aquela luz. Na mão apertava um frasco com um líquido azulado, era a cura, ela sabia-o. E sempre aquelas palavras martelando-lhe a cabeça: Miss Penélope Cruz, é favor dirigir-se com urgência ao posto médico. Com urgência… Era Ramón, ela sabia-o, ele estava a morrer e ela era a única que o poderia ajudar.
Penélope continuava a correr… Agora a luz parecia aproximar-se dela, tornava-se mais nítida. Cada vez mais depressa… Na mão apertava o antídoto, corria para o salvar. Ele estava a morrer, ela sentia-o, uma dor dilacerando-lhe o peito, cada vez mais forte à medida que se aproximava da luz.
A cada passo se sentia mais cansada, exausta, incapaz de prosseguir, mas sabia que não podia parar. Seria o fim de tudo… Miss Cruz, é favor dirigir-se com urgência ao posto médico.
A luz aproximava-se. Podia já distinguir a porta alguns metros à sua frente. Mais um esforço e conseguiria. Apertava cada vez com mais força aquele líquido precioso, ao ponto de fazer doer todos os músculos da mão. Uma melodia invadia-lhe o espírito, uma espécie de banda sonora que caracterizava aquele corredor, a sua corrida contra o tempo, a escuridão atrás de si.
Hold on. Hold on tightly. Hold on and don’t let go of my love.
Talvez demasiada força, ou talvez apenas o suor que lhe escorria pelas mãos… O frasco escapava-se-lhe da mão, caía, rolava na direcção da porta.
NÃÃOOO!! As palavras pareciam-lhe distantes, como se tivessem sido proferidas por alguém que não ela, como se tudo aquilo fosse apenas um sonho.
Penélope atirava-se para o chão, deslizava, tentava agarrar de novo a salvação. O pequeno frasco continuava a rolar, até se imobilizar contra a porta, perdido na penumbra, entre a luz que brilhava à sua frente e a escuridão devastadora atrás de si. O líquido continuava intacto… Agarrou-o rapidamente e, antes de abrir a porta, não conseguiu evitar olhar por cima do ombro, ver uma vez mais aquela escuridão que não se limitava a apertar o coração à sua volta, aquela escuridão que parecia persegui-la, quase alcançá-la, agarrá-la, impedindo-a de abrir a porta, aquele frio que a rodeava, lhe tolhia os movimentos, cobrindo-a como um cobertor do qual não se conseguisse livrar.
Despertando daquele cenário hipnotizante, olhou de novo a luz e relembrou a sua missão. Entrou rapidamente no posto médico, onde um cenário desolador a esperava. Todas as macas disponíveis estavam ocupadas com corpos inanimados, alguns cobertos por um lençol negro, outros à espera dessa cobertura, mas não havia ninguém para o fazer. Duas enfermeiras jaziam por cima de uma das macas, cobrindo o corpo de um rapaz. Agarrado ao intercomunicador, um dos médicos gemia ainda, balbuciando algumas palavras dificilmente compreensíveis momentos antes de desistir desse derradeiro esforço. Envolvendo todo o compartimento, uma luz difusa que não podia ser descrita nem como claridade nem como penumbra, uma espécie de bruma que filtrava a luz proveniente das lâmpadas que, por cima de Penélope, ainda funcionavam.
As suas emoções eram confusas, dividida entre o horror perante aquele cenário semi-dantesco e a obrigação de o achar. E sempre aquele frio que rodeava todos os objectos, que emanava das paredes, parecendo ter nela o seu único alvo. Tudo aquilo era irreal, os objectos não eram nítidos, pareciam afastar-se dela, ao mesmo tempo que as paredes pareciam tornar o compartimento cada vez mais pequeno. A sua mente corria com rapidez, mas os pensamentos atropelavam-se, não conseguia fixar-se numa só ideia. Uma figura apareceu-lhe de repente no espírito, uma silhueta apenas, mas que ela reconheceria entre mil. Era o suficiente para a fazer reagir: tinha de o encontrar, nada mais lhe restava.
Aqueles corpos imóveis… Estariam todos mortos? Não… Não podiam, tinha de haver sobreviventes, pelo menos um, pelo menos ele. Nenhum dos corpos descobertos era o dele, por isso começou a destapar os lençóis negros que encobriam as feições de homens, mulheres, crianças, os escondiam, ocultando-os da visão de Penélope, como se já não fizessem parte deste mundo…
No meio daquele silêncio sepulcral, um gemido. Ergueu rapidamente a cabeça, imobilizando-se, à procura daquele som. Um novo gemido, desta vez mais longínquo, fê-la aproximar-se de um dos cantos da sala, do lado oposto à porta por onde tinha entrado. Mais um som, não era exactamente um gemido, era quase uma palavra, um pedido de ajuda cada vez mais distante. Ao lado de um homem cujas feições revelavam a agonia dos seus últimos momentos de vida, duas enfermeiras cobriam completamente uma das macas, como que uma protecção perante o indefensável… Era dali que provinham os gemidos, cada vez mais fracos à medida que Penélope tentava retirar os corpos das duas mulheres de cima de um lençol que não era negro, nem branco, nem de nenhuma cor, derradeiro bastião da vida no meio da bruma que apertava as suas garras sobre ela, tentava extingui-la finalmente. Num derradeiro esforço, conseguiu arrastar os dois cadáveres, que caíram no chão com um baque surdo revelando as faces horrorizadas de duas jovens que tentavam fugir a um destino que as tinha envolvido cedo demais… Por debaixo do lençol, um último gemido, antes de descobrir o corpo.
Ali deitado, todos os seus músculos tensos, uma máscara de sofrimento-quase-horror, já não era um ser humano, era a esperança que se desvanecia, a vida que cedia, a luz que dava lugar às trevas. Era provavelmente tarde demais… Com a cara coberta de lágrimas, Penélope acariciou-lhe a cara coberta de suor, afagou-lhe o queixo, fê-lo abrir a boca, vertendo nela o líquido que tão ciosamente transportara. Talvez ainda fosse possível… Não conseguia sequer avaliar se o líquido fora engolido, pois o corpo continuava imóvel, nem um músculo se movia, apenas mais um gemido débil, como se estivesse já longe, arrastado pela escuridão irresistível, cada vez mais longe.
Penélope segurava-lhe ainda a mão, acariciava-lhe a face, sussurrava-lhe palavras que nem ela sabia quais seriam, recusava-se a desistir, tinham de resistir, tinham de sobreviver, expulsar aquela bruma, iluminar de novo aquele corredor…
Hold on tightly…
Um último gemido, não mais que um som dificilmente articulado. Penélope olhava-o fixamente, como se desviar os olhos das suas feições por um momento sequer significasse o fim, reduzisse a nada todo o seu esforço, todo o seu desespero… E no entanto era o nada que se aproximava, ela sentia-o, a mão que agarrava ainda subitamente esvaziada de sentido, não era já o corpo daquele que ela tão desesperadamente amara, era uma coisa inerte, depósito de coisa nenhuma. Olhar aquelas feições já nada significava, os olhos de Penélope aperceberam-se disso antes dela, enchendo-se de lágrimas enquanto o corpo soluçava. Agarrava-se então àquele corpo inerte, aquele não-ser, agarrava-o com força, fechava os olhos para suster as lágrimas, escuridão que a rodeava agora também a ela.
A cara mergulhada no seu peito, soluçava, chorava convulsivamente, gritava sons inarticulados, de repente incapaz de se mover, deitada ao lado daquele corpo, partilhando aquele leito, o derradeiro leito. Os olhos fechados, a maca já não estava ali, fora transportada para longe. O corpo completamente tenso, Penélope chorava ainda, sem consciência do local onde estava, da sua situação, sequer das suas lágrimas. Gradualmente começou-se a aperceber de que não conseguia mexer um músculo, aflitivamente queria correr para longe mas não conseguia. Cerrando as pálpebras com força, moveu um braço, tentou abraçar o corpo que jazia ao seu lado.
Ramón já não estava lá. A realidade atingiu-a com um golpe seco, duramente premente. No lugar do corpo que deveria estar ao seu lado, apenas o lençol frio.
Ramón, gritou, enquanto se levantava de um movimento só da cama. Com um rápido menear de cabeça, percorreu todo o quarto. Ele não estava ali… Penélope correu para a porta, fechou-a atrás de si, e de repente o sonho fora transportado para a realidade. Aquele corredor escuro de novo à sua frente, aquela escuridão oprimindo-a de novo, a sua garganta sufocava, não conseguia respirar, incapaz de reagir. Tacteou a parede e encontrou uma saliência familiar: premindo o interruptor, o sonho desvaneceu-se de vez. As sombras fugiam rapidamente, levadas pela luz artificial do corredor, as paredes alargavam-se, já não era um corredor opressivo, era um mero ponto de passagem…
Em pé, imóvel, braços cruzados em frente de grande janela, os olhos fixando o firmamento que os rodeava, Ramón não reagiu. Continuava a perscrutar o céu, sem se mover, apenas um contorno, um vulto depois de Penélope apagar de novo a luz. Dirigiu-se para ele e abraçou-o, acariciando-lhe as costas, abraçava-o com mais força do que desejaria, último vestígio do sonho que a abalara.
Tive tanto medo, amor, disse finalmente, depois de alguns minutos de silêncio, também ela contemplando o firmamento à sua frente, uma paisagem que se estendia até ao infinito.
Medo de quê? Nenhum deles olhava o outro, ambos fixavam ainda as estrelas à sua frente, não era necessário olharem-se, contemplar as estrelas era como verem-se um ao outro.
Que não estivesses aqui, que não estivesses em lado nenhum… Acordei de repente, não me conseguia mexer, não estavas ao meu lado, pensei que tivesses desaparecido, como…
Como no teu sonho?
Sim. Não te vi, assustei-me, depois descobri-te aqui, imóvel, tu e o universo… Amo-te.
Ramón descruzou enfim os braços, abraçou-a, na escuridão olharam-se sem se ver, nenhum deles vendo os lábios do outro aproximarem-se mas sentindo-o, um beijo apaixonado, como todos, diferente no entanto de todos os outros… como sempre.
Abraçados ainda por um momento, depois apenas de mãos dadas, olharam de novo o espaço. Como em tantas ocasiões antes daquela, o mesmo pensamento surgiu-lhes simultaneamente, emergindo do silêncio. Uma imagem, uma frase, uma mistura única de som e imagem que alguém criara séculos atrás. Um homem contemplando o universo à sua volta, subjugado pelo infinito, uma frase apenas proferida antes do fim.
Meu Deus, tantas estrelas...
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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