Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006

Sirius

O tecto. A escuridão. O tecto. As paredes. As sombras. A escuridão. O tecto. A janela. As luzes. As sombras. A escuridão. O tecto. A janela. O céu. A lua. A janela. O céu. Todas as estrelas do céu.
A insónia. A frustração, a raiva de não conseguir dormir. Penélope já estava habituada. Quando não eram pesadelos, era aquela lucidez irreal. Querer dormir e não conseguir, pensamentos sucedendo-se a uma velocidade alucinante, caos mental sem solução possível. Não sabia o que era pior, se a vigília, se os seus pesadelos recorrentes, de que acordava sem se conseguir mexer, como se uma qualquer criatura nocturna a tivesse imobilizado durante o fatigante sono.
Dormindo, lutava contra fantasmas, doenças de que não sabia o nome, a morte iminente de Ramón, a prisão no espaço, as estrelas à sua volta infinitamente rodando sobre si, vertigem onde se enredava e de onde não conseguia escapar. Com frequência, nem mesmo acordando esconjurava os espíritos, quando ficava presa sobre os lençóis, sem se conseguir mexer. Procurava então o conforto de Ramón, invariavelmente preso à sua própria insónia, imóvel perscrutando o firmamento. Acordados então os dois, tinham pelo menos o conforto dos braços, o calor fugaz dos beijos. Ficavam depois lado a lado, abraçados, olhando juntos o mundo lá fora, olhares que, juntos, se transformavam num único, esperando assim que a madrugada surgisse e os libertasse.
Insone, os fantasmas continuavam lá, perdendo em onirismo, ganhando em realidade. Bastava olhar por aquela janela para o mundo lá fora. Insones, Ramón e Penélope raramente trocavam palavras, tornadas desnecessárias por um destino também nessa penosa lucidez partilhado. Abraçavam-se apenas, os braços que não conseguiam distinguir o único calor possível daquelas longas noites.
A insónia, os pesadelos partilhados… (porque quando Penélope dormia, Ramón sonhava com ela, sofriam ambos da mesma forma aqueles sonhos tristes, alucinados, desesperados, labirínticos…) Fosse de uma forma ou de outra, os fantasmas não podiam ser esconjurados. Estavam demasiado prementes, demasiado próximos, rodeavam-nos, a cada momento apertando mais as suas tenazes. Era apenas por juntos resistirem que não haviam ainda sucumbido à loucura.
When the night has no end and the day yet to begin, as the room spins around I need your love.
A loucura… A loucura do mundo em que viviam, tão diferente do que um dia tinham sonhado, tão oposto àquele por que tinham lutado… Insanidade… Noite e dia eram irrelevantes, guerra e não-guerra a mesma coisa, realidade à qual ninguém sabia dar nome… O mundo estava em guerra? Ninguém sabia ao certo, ninguém queria saber – porque era impossível responder. Não havia guerra? Mas o que era a “guerra” afinal? Conflito bélico, duas facções tentando mutuamente subjugar-se pela força das armas? Isso não era guerra… Isso havia acabado nas gerações anteriores… Guerra era dominação, e dominação era não poder pensar… O domínio dos que alteravam a realidade do que os outros pensavam… dos que decidiam o que se podia ou não pensar, e o faziam da forma mais insidiosa mas por isso mesmo terrivelmente mais eficaz… Não se tratava de proibir, não se tratava de coagir, nem sequer de convencer… A manipulação era tão silenciosamente pérfida precisamente porque partia de cada um… ninguém objectivamente manipulava ninguém, todos se manipulavam a si mesmos, se convenciam de que era errado formular determinado pensamento, que era melhor agir de determinada forma… E tudo isso resultava sempre, invariavelmente, para proveito dos mesmos, dos que por esta via se apoderavam da realidade… os que decidiam o que essa realidade podia ou não ser…
Guerra era pesadelo, aquele pesadelo… A insónia era a derrota… Se dormissem venceriam, porque as suas mentes, enfim tornadas sãs, não mais tolerariam aquela surda opressão. Assenhoreando-se dos sonhos de forma que talvez nem eles próprios esperariam, os senhores do mundo – os inomináveis senhores do mundo, as mãos invisíveis que puxavam os cordéis – garantiam a sua vitória. Aquela guerra não era por território, por poder, como as do passado. Era a luta de cada um pelo domínio de si. Era a luta pela libertação dos fios invisíveis que tolhiam cada um, pelo fim do marasmo, da inacção, da conformação. Fios que não existiam sequer, que por isso não podiam ser combatidos.
A noite… A noite que não terminava… Porque quando nascesse o dia, o pesadelo terminaria. De dia os fantasmas dormiam. Toda a gente partia para o seu quotidiano: os que de noite dormiam descansados, que não conseguiam conceber a existência de uma opressão invisível, os que se cegavam a si mesmos, não podendo ou não querendo ver; e os insones, que em vão procuravam encontrar a via para a sanidade, os que viam e que eram cada vez menos porque muitos preferiam passar a não ver…
Enfim, a madrugada… Enfim Ramón e Penélope poderiam falar, animadamente discutir os planos para mais um dia de combate. Porque só de dia podia haver combate. A noite apagava tudo, estrelas vermelhas, ilhas da Utopia, pombas brancas, mãos dadas, punhos erguidos, flores, branco, vermelho, tudo a noite cobria… Tudo se tornava noite… Apenas as estrelas, no céu, subsistiam, indiferentes…
Agora, de manhã, tudo voltava a ter sombras, combater voltava a ter sentido. Mas como se combate um inimigo que não existe? Como acordar os que também de dia dormiam? Como fazer ver aos que os acusavam de perturbar o bem-estar público, aos que os perseguiam e apenas lhes deixavam a luta clandestina como opção, como os fazer ver que o mundo deles era a negação de tudo, a negação do homem? Como os fazer despertar da letargia em que se refugiavam para obter conforto? Como os fazer voltar a ser Homens, a reapropriarem-se de si, escolherem o seu próprio destino, mudar o mundo e torná-lo melhor?
É preciso um grande acontecimento, disse Penélope nessa manhã, entre dois goles de café. É preciso um acontecimento tão bombástico que ninguém o possa negar. Só então as pessoas acordarão, só então voltarão a olhar uns para os outros, a dar as mãos, a pensar realmente.
Ramón não respondeu, fixando os olhos de Penélope entre a neblina dos cigarros.
É preciso descobrirmos Zooropa.
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 07:07
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