Sexta-feira, 13 de Outubro de 2006

Procyon

Zooropa. O mundo podia voltar a girar. O mundo girava de novo, o pequeno mundo daquele quarto girava, rodopiava, perdia sentido. As dimensões físicas deixavam de existir, submergidas também elas por aquela vertigem, aquela torrente de emoções enfim libertadas. Os corpos libertavam-se também, perdiam o seu elemento corpóreo, mais não eram do que meros testemunhos de uma partilha, de uma fusão que não poderia caber em nenhum corpo. Abraçados, unidos, Penélope e Ramón deixavam de ser indivíduos, os seus nomes deixavam de marcar a sua identidade, eram apenas partes, duas partes, ou uma só, porque ambos eram o mesmo…
Não deixavam de se abraçar, de se beijar, enquanto perdiam noção do seu próprio corpo, enquanto ele deixava de existir. Vertigem… O mundo girava de novo, sem dúvida. Os lençóis enrodilhados e abandonados, os cigarros fumados não eram despojos, mas testemunhas de algo mágico que perdurava para além dos corpos. Um alívio, um imenso alívio intangível como éter, fluía dos corpos cada vez mais cansados para as mentes, fazendo-as transbordar, fazendo o mundo voltar a ter sentido. E enfim a vertigem derradeira, os gritos não suprimidos. Enfim os cigarros, os olhos um do outro, a contemplação, a constatação de que algo, de facto, mudara. Ainda eram capazes de sonhar. Eram, de novo, capazes de sonhar. Sabiam, antes mesmo de o saberem, que as insónias não mais voltariam, os pesadelos não mais os assombrariam.
Zooropa. Um sonho. Um sonho de início imperceptível, depois apenas murmurado. Um sonho enfim sonhado.
Zooropa… Ramón segredava baixinho.
Be all that you can be, respondeu Penélope.
Overground.
Overground. Overground!
As suas mãos unidas cerraram-se mais, vagas sucessivas de beijos selando aquele segredo por enquanto partilhado apenas por eles. Haviam de o estender… Haviam de fazer outros compreender, mostrar-lhes aquela saída possível, mostrar que era possível sonhar. Primeiro aos amigos, persuadindo-os para a aventura que sonhavam. Se conseguissem, se um punhado de insones conseguisse voltar a sonhar, se conseguissem gritar ao mundo “Nós sonhámos! Nós conseguimos!”, então as pessoas não mais poderiam manter-se cegas. E o mundo voltaria a girar também para eles, a era glaciar terminaria, o homem voltaria a merecer o seu nome, deixaria de ser uma curiosa espécie de urso em hibernação.
Com quem vamos falar primeiro? Os planos jorravam, exigindo ser concretizados.
Com a Lisa, propôs Ramón. Acho que seria o ideal ela ser a primeira. Conhece imensa gente, tem imensos amigos, alguns deles de certeza insones como nós.
E talvez tenha melhor noção da dificuldade que vamos ter em falar com as outras pessoas, como devemos abordar o assunto, os melhores argumentos… Vamos combinar um café com ela, hoje à noite?
Sim! Estou ansioso por poder contar os nossos planos a alguém, por poder partilhar isto tudo. Enquanto falava, Ramón deitava-se por cima de Penélope, cobria-lhe o pescoço de beijos, sentindo as suas mãos percorrendo-lhe as costas. Vamos telefonar já!
Merda, exclamou Penélope. Vamos esperar pela hora de jantar. Tenho de me despachar, já estou atrasada para as fotografias.
É verdade, tens os nus para acabar! Que desgraça a de um homem, sujeitar-se a que a mulher esteja com outros homens nus…
Tolo! Sabes que depois te compenso sempre… disse Penélope com um sorriso maroto, beijando-lhe os lábios.
Vais ter de me compensar, e muito! Estou roído de ciúmes… Sou muito ciumento, sabias?
Tens ciúmes de tudo… Anda cá, meu ciumentozinho… Penélope continuava a brincadeira, beijando-o sem parar.
Socorro! Ajudem-me! Já chega, já chega, já estou compensado! Sai de cima de mim, chata! Também tenho de me despachar, senão não tenho tempo para o Romeo e a Tamara antes da aula. É espectacular aquela turma, os olhos deles brilham quando estou a falar, também são sonhadores…
Não podes falar também com alguns deles? Com o Romeo e a Tamara, por exemplo? Também são insones, não são?
Falo… Sim, claro… Eles entusiasmam-se, tenho a certeza… Mas primeiro falamos com a Lisa, precisamos de ajuda para concretizar isto tudo.
Claro! Mas vai apalpando o terreno, vê que tal…
É, vou fazer isso. Vamos lá, senão não tenho tempo para falar com eles, depois da aula é complicado.

A chuva caía, indiferente a todos os males. Firenze molhada era ainda mais especial. Todos os edifícios, os arranha-céus do mesmo modo que os palacetes do centro histórico, todos pareciam envoltos numa transparente película, como se a chuva os quisesse proteger. Sob o céu de um cinzento uniforme, também a cidade era uniforme. Os séculos, a História nada significavam…
Ramón caminhava rapidamente pelas ruas, como que indiferente à chuva que o molhava cada vez mais. Não usava guarda-chuva – há muitos anos que deixara de utilizar aquele artefacto que considerava pouco mais que inútil, e de qualquer forma bem mais incómodo que a chuva. Se não fosse, apesar de tudo, o desconforto que lhe causava, ficaria parado no meio da rua, contemplando a rua encharcada, ouvindo os veículos passarem sobre a película de água que se ia formando. Adorava os sons da chuva… sempre o tinham fascinado. O tamborilar rítmico da chuva miudinha contra a janela atraía-o como se de música se tratasse. No fundo, sempre considerara a chuva como música, a melodia da Natureza num mundo que já não lhe pertencia. E, no entanto, mantinha-se como natural, algo que simplesmente acontece, moldando tudo à imagem da sua humidade. Ou talvez moldasse apenas a visão de tudo…
Tudo parecia uniforme e cinzento como o céu. Não eram as nuvens, era a própria chuva que filtrava a luz, criando a sua própria luminosidade particular, coando o quotidiano, as pessoas, os edifícios, precipitando-se sobre tudo e tudo alterando. O mundo à chuva era, em definitivo, diferente, pelo menos na aparência, pelo menos no modo de ser visto pelas pessoas. Talvez, naquela manhã, fosse mesmo diferente…
Enquanto se aproximava da universidade, ia pensando. Sim, falaria com Romeo e Tamara. Era só uma questão de escolher a melhor forma de abordar o assunto com eles, porque de certeza que adeririam de imediato ao sonho de Zooropa e nele se empenhariam como em tudo o que acreditavam profundamente. Adorava aquele par! Para além de, no seu entendimento perfeito – diria quase simbiose – lhe fazerem lembrar ele mesmo e Penélope quando estudavam, eram os membros mais activos do colectivo da Amnistia Internacional da qual os quatro faziam parte – colectivo que, como tudo o que cheirava a pensamento livre – a pensamento tout court – se tinha de reunir clandestinamente… Tamara e Romeo eram, para além disso, os alunos mais interessados do curso, tudo o que dizia respeito às estrelas ia-lhes direito à alma… sem dúvida, pareciam a réplica, dez anos mais nova, de si e de Penélope.
Absorvido como sempre nos seus pensamentos, o mundo exterior penetrando na sua mente mas mantendo-se assim mesmo, exterior, subira já a escadaria da universidade. Apenas tomou disso consciência ao passar entre as colunas que ladeavam a entrada e se perguntar por que razão parara de chover: “ah, já cheguei!”
Dirigiu-se ao bar dos alunos, bem mais agradável que a elitista cafetaria dos docentes, onde toda a gente parecia estar constantemente a avaliar o comportamento, as palavras, de todos. Não se importava de ser visto como um estranho entre os alunos que menos vezes estavam no bar, pois os restantes já estavam habituados a vê-lo ali – e, de resto, com o seu ar jovial e semi-lunático, facilmente o tomavam por um aluno mais velho – falando como um dos seus, e naturalmente tratavam-no como camarada e não como professor.
Tamara e Romeo já ali estavam, sentados numa mesa junto à parede.
Olá, chegaram há muito tempo?
Não, mesmo agora. Oh, professor, está completamente encharcado! Quando se decide a comprar um guarda-chuva? Sabe que eles são magnéticos, não tem sequer de segurar no cabo…
Que mania que vocês têm, tratem-me por tu, pelo nome. Chamo-me Ramón, e não Professor. Somos amigos aqui, não professor e alunos. Entre nós os três, isso é só quando entramos na sala de aula.
Ok, pá, não te chateies, pá! Tamara gozava com ele. É o hábito, já sabes.
Esperaram por mim para o café?
Claro, mas estamos desesperados… completamente coffeeless.
Somos todos uns cafeinómanos… Eu vou buscar.
Enquanto esperava pelo vital primeiro café matinal, ansiava por poder puxar de um cigarro, como todos os dias religiosamente aguardando pelo primeiro gole de café. Para se distrair, olhava pela janela, a chuva caindo sem cessar… Ouvindo as gotas a martelar nos vidros ecoaram dentro de si palavras ancestrais…
On and on the rain will fall like tears from a star… On and on the rain will say how fragile we are…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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