Sábado, 14 de Outubro de 2006

Altair

Escuridão. No quarto totalmente escuro, de súbito uma chama. Apagada a chama, um pequeno clarão alaranjado, depois um segundo e um terceiro. Do lado de fora da persiana cerrada até acima, a chuva continuava a cair, como lágrimas de estrelas…
Penélope, Lisa e Ramón, deitados na mesma cama, ficaram silenciosos por um momento. Depois da longa conversa, de todas as impressões trocadas e planos traçados, de sentirem que a sua ideia louca ganhava os primeiros contornos, que Zooropa deixava de ser a estrela vermelha da utopia e começava a tornar-se tangível, depois da loucura das ideias e da loucura inebriante dos corpos, os três, nus sob os cobertores, experimentavam o primeiro momento de silêncio daquele dia – pausa necessária para que se apercebessem, como que olhando de fora, das dimensões e dos contornos do seu projecto.
Intermitentemente, os clarões alaranjados tornavam-se mais vivos, quando um deles levava o cigarro aos lábios, fazendo os olhos fixados uns nos outros brilhar por momentos. Abraçavam-se ainda, regressavam lentamente à terra depois do voo esfusiante dos sentidos.
Carl Sagan… disse enfim Lisa. O que faria ele se vivesse no nosso século?
Provavelmente, respondeu Ramón depois de uma pausa, algo de parecido com o que nós queremos fazer… A “Planetary Society” não pretendia apenas a divulgação. Também financiou alguns projectos que para o séc. XXI eram bastante loucos…
Acho que fizemos bem em chamar à nossa organização “Planetary Society”. Somos tão loucos, visionários, sonhadores, como os que no séc. XXI receberam a herança de Sagan. E também nós, como ele, pretendemos que todos compreendam o nosso sonho.
Não te esqueças de falar amanhã com os teus amigos. Lisa, interrompendo Penélope, olhava com cumplicidade para o amigo. Com a Tamara e o Romeo já somos cinco. Para começar, já dá para muita coisa.
Estamos os três ansiosos por começar a trabalhar nisto. Nem mais um dia podemos perder… Falo com eles amanhã, com o primeiro café. Da outra conversa que tive com eles deu para perceber que não nos ficarão atrás em empenhamento.
Tenta combinar uma reunião, para nos encontrarmos os cinco. Saber as impressões deles e definirmos o que cada um vai fazer.
Não é difícil, interveio Penélope, olhando ternamente Lisa, acariciando-lhe a pele. Tu tratas da parte legal: os financiamentos para começarmos, a parte mais administrativa. O Romeo trata da engenharia – tratas dos esboços de naves, para depois mostrares a quem na universidade concluirmos que estará disposto a juntar-se a nós. E eu… sou uma espécie de relações públicas. Vou tentar no meu meio underground procurar mais insones.
Também nisso nos completamos… Um professor de Astrofísica, uma advogada e uma fotógrafa. Para começar, cobrimos praticamente tudo o que precisamos.
O Romeo e a Tamara também nos podem dar uma ajuda com os primeiros desenhos. Sem contar que nos meios estudantis não falta quem sonhe com estrelas…
É verdade. Apenas eles, como nós, dão tanto interesse àqueles anos em que o legado de Carl Sagan conseguiu sobreviver, aqueles poucos anos em que o Homem atingiu o apogeu. Agora a sociedade considera loucos os que se interessam por aquela era… Penélope fechava os olhos, sentindo os dedos de Ramón acariciarem levemente os seus seios.
É a loucura dos insones. Lisa, a sua pele colada à de Ramón, olhava a cumplicidade entre o seu amigo e irmão e Penélope.
Como adorava aquele casal, como se embevecia sempre que, embora como que de fora (a sociedade, apreciadora intemporal de etiquetas, diria passiva), tomava parte na sua intimidade – que então se tornava uma intimidade partilhada a três, etapa última de uma amizade tão avassaladora que se tornava amor, e por isso aquela intimidade dos corpos era o culminar da perfeição. Amor… fazer amor… como até isso podia ser tão relativo… Poucos – por ventura ninguém – compreenderia a sua maneira de fazer amor com aqueles dois… Não podia nem queria “foder” com eles, que seria o que qualquer um a quem tentasse explicar aquela intimidade lhe diria. Não, Lisa nunca iria foder com Ramón e Penélope, nem sequer só com Ramón, trocando de lugar com Penélope. Foder – como odiava a palavra, tão restritiva, tão inadequada! – faziam-no os seus amigos. Ela ficava de fora, observava-os, envolvia-os nos seus braços, estimulava-os e a si (e quantas vezes não precisava sequer de se estimular nem que a estimulassem, quantas vezes abraçá-los era o suficiente para se sentir tão próxima deles, tão dentro da sua carne e da sua loucura que atingia também o orgasmo, não com os sentidos, mas um êxtase quase ascético, envolvendo o êxtase deles…). Era o terceiro elemento daquela trindade que assim, completa, se tornava imaterial, um limbo. Era a perfeição dos sentidos que então se compunha, sentia-se então perfeita. E como antes de pela primeira vez terem assim partilhado a sua união absoluta, antes de essa união absoluta ser deles os três, como tantas vezes invejara a relação de Penélope e Ramón, como desejara ter alguém como eles se tinham um ao outro, pôr fim a uma sucessão vazia de amantes solitários… E a sua amizade tão íntima com Ramón a sua irmandade, fazendo-a por vezes baralhar as coisas, e por isso aquele desejo vivido a três lhe era duplamente querido, era enfim também para ela o fim do caminho, a sua Ítaca. Como era bom haver espaço para três naquela ilha… Sometimes it can take three to tango…
Escuridão. Os cigarros apagavam-se, os três tocavam de novo a terra. Lisa, nos seus pensamentos, no seu carinho por Penélope e Ramón acariciando-se, entrelaçando os dedos das mãos, retomava o fio perdido da conversa.
A loucura dos insones… Nunca compreenderão por que nos interessamos tanto por aqueles anos.
Quando estivermos em Zooropa, quando nos virem, talvez também percebam isso. Ramón acariciava-lhe a face enquanto falava.
Antes e depois de 2000, disse Penélope virando-se também para Lisa, apoiando-se no corpo de Ramón enquanto falava por sobre o seu corpo, foi a era que chegaram a designar por fim da História. Antes dos radicalismos e da primeira não-guerra viveu a geração que conheceu o grau máximo de civilização – de Humanidade – a que o Homem chegou. A partir daí, inaugurou-se a era das não-guerras, e fomos sempre a descer. Como não nos interessarmos por essa época quando o nosso objectivo é voltar a subir, ao menos, à mesma altura que eles? E como nos poderiam compreender se a nossa é também a era da não-História? Lá fora a História, como o resto, deixou de contar… pelo simples facto de nos interessarmos por História já somos uns esotéricos!
Do lado de fora daquele quarto, escuro como se fosse secreto, a chuva continuava a cair, levemente, insidiosa, penetrando a noite. Lá fora, sabiam-no, todos à excepção de outros insones dormiam, despreocupados, inconscientes, nem consciência nem pensamentos… No quarto subitamente invadido pelo silêncio Lisa levantou-se e pôs música a tocar… música-Zooropa, música dos tempos que uma vez designaram por fim da História…
In a little while this hurt will hurt no more… I’ll be home, love…
Na vaga luz surgida no quarto, Ramón contemplava o corpo de Lisa, nua, que regressava à cama. Olhando as suas formas, despojado de erotismo, pensava
When the night takes a deep breath
“minha irmã…”
Como se tivesse escutado o seu pensamento, Lisa, de novo deitada, olhava para os olhos do amigo, suavemente beijou-o nos lábios.
Amo-te, sussurrou. Amo-vos. Amo-vos por terem partilhado estes sonhos comigo. Amo-vos por fazerem amor comigo, por fazer amor com vocês. Amo-vos por serem tão bonitos. Amo-nos aos três por sermos tão bonitos… Amo-vos, irmão e irmã, por me terem falado de Zooropa, porque sei que vamos conseguir, porque sei que amanhã começaremos a sonhar em pleno dia e daremos corpo a estes sonhos. Amo-vos, Ramón, Penélope, irmão, irmã, partes de mim e eu de vocês, amo-vos. Amo-vos porque esta noite vou dormir com vocês… deixámos de ser insones, irmãos, camaradas refundadores da “Planetary Society”… Amo-vos…
Lisa beijou longamente Penélope na boca, depois Ramón. Os três, abraçados, fecharam juntos os olhos e dormiram, sonhando estrelas vermelhas, embalados pela música…
Slow down, my beating heart… A man dreams one day to fly, he takes a rocket ship into the skies… He lives on a star that’s dying in the night and follows in the trail, the scatter of light… Turn it on…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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