Domingo, 15 de Outubro de 2006

Vega

“Primeira página. Escrevo as primeiras palavras deste livro que substitui o que na “Era do Fim da História se designava como livro de actas (cheio de formalismos que não saberíamos aplicar e que consideramos supérfluos) e que chamaremos Livro dos Sonhos ou, simplesmente, Zooropa ou, em família, “o livro”. Nesta era em que o acto de ler um livro pelo simples prazer de o ler é considerado vão e, até, desprezível, este livro-Zooropa pretende demarcar-se dos demais.
O que é Zooropa? É o planeta que decidimos fundar, nós que ousamos sonhar? É apenas o nosso petit nom para o segundo satélite de Júpiter, vulgarmente conhecido (para os que ainda o conhecem) por Europa? É o nome de uma canção escrita na era das últimas canções por um punhado de sonhadores? É um poema velho de sete séculos? É um desabafo, uma confissão de desilusão com os outros e consigo mesmo? É um sopro, uma tentativa de redenção? É uma promessa de não quebrar, de não ceder? Zooropa é tudo isto e é, ao mesmo tempo, muito mais. Zooropa é a junção de tudo isto, é o todo tornado maior que a soma das partes, é uma profecia, é um objectivo, é um caminho. Zooropa é o sonho. Zooropa somos nós.
Aqui reunidos, nós (eu, Ramón, Lisa, Tamara e Romeo), companheiros de longa data, almas gémeas ou simplesmente amigos, tornámo-nos camaradas, comparsas de uma conspiração de esperança. Queremos que o nosso sonho seja uma profecia, a reabilitação da condição humana e o retorno da promessa da Humanidade – a promessa de crescer, crescer sempre, de através do espírito vencer os ditames da matéria, de perdurarmos no tempo, de não esquecer a nossa missão: viver, conviver, pensar e por isso ser, sonhar. É uma profecia porque é um caminho que incessantemente temos percorrido, sabendo que existe sempre uma luz que brilha mais além, tentando sempre alcançá-la sabendo que nunca a alcançaremos, sabendo que o importante é o caminho por onde andamos, sabendo que caminhar sempre significa a busca de nós próprios e, por isso, o assumir de que somos nós próprios, e que é através disso que somos Homens, que formamos, juntos na partilha da condição humana, a Humanidade.”

Penélope Cruz (fotógrafa)
7 de Novembro de 2707, Firenze


“Serviu esta primeira reunião para pela primeira vez nos encontrarmos todos e juntos trocarmos opiniões. Simbolicamente, foi o acto inaugural da nova “Planetary Society”. Em substituição da que há sete séculos existiu sob a sombra da memória do sonhador Carl Sagan, pretendemos adoptar do que a pioneira “Society” fez e sonhou o que pensamos adaptar-se à nossa era sem História, em geral, e ao nosso sonho de, pela restauração desta Sociedade, restaurarmos o que ela de mais importante teve, o sonho.
A designação de “Planetary Society” é em certa medida arbitrária, uma entre várias possíveis, mas é por outro lado também ela simbólica. Restaurá-la é, ambicionamo-lo, restaurar o sonho. É uma designação, como nenhuma outra, adequada a este grupo de amigos que decidiu sonhar e que definiu como sonho as estrelas e os planetas. Nós que agora nos reunimos somos, por isso, uma sociedade: porque decidimos agrupar-nos com um objectivo comum, partilhando um sonho; e porque o fazemos fraternalmente, enquanto amigos e porque o sonho comum esses laços vem reforçar. Sociedade Planetária porque, como disse, sonhamos com as estrelas, com o planeta que pretendemos fundar e com o espaço que nos separa dele.
Talvez um dia, se o nosso projecto se concretizar, este livro sirva de guia a quem pretende seguir as nossas pegadas – a quem quiser sonhar – rumo ao farol por enquanto longínquo, perdido no espaço, rumo a Zooropa. Agora, enquanto o escrevemos, servirá apenas de diário de bordo, como registo do nosso sonho e como reflexão sobre o que formos fazendo e tivermos feito para trás, como guia dos passos que formos dando.
Embora chegar a Zooropa seja o nosso objectivo último, não é o nosso objectivo primeiro: esse é, apenas, sonhar. Sonhar que é possível uma nova sociedade, um novo planeta, e que o nosso sucesso acorde o mundo da sua letargia e o faça, como nós, sonhar. Que o faça juntar-se a nós, sob a sombra do gigante joviano, num astro que rebaptizámos, entre nós, de Zooropa, ou então que, decidindo ficar neste planeta, aqui acordem para o sonho, para a vida, reencetando o caminho da Humanidade onde ele ficou bloqueado há setecentos anos. Terão, então também, chegado a Zooropa.”

Ramón Goya (professor de Astrofísica na Universidade de Firenze)
7 de Novembro de 2707, Firenze


“É justo que Penélope e Ramón aqui tenham escrito após a nossa primeira reunião. Lançámos então a primeira pedra da materialidade do nosso sonho, e por isso apenas os primeiros a acordar foram os primeiros a escrever.
Agora, findo o segundo encontro da “Planetary Society”, a reflexão começa a adquirir diferentes moldes. Os meus amigos de longa data (mais que isso, companheiros e irmãos) ocuparam as primeiras páginas deste nosso livro de bordo com o sonho. As palavras de um de nós os três são, quase sempre, as palavras dos outros, e por isso nada mais tenho a acrescentar.
Zooropa, a canção… foi a nossa inspiração, o “clique” que nos permitiu pôr fim ao nosso desassossego, dormir sonhando, sem insónias. É uma canção que critica o estado das coisas – o cinzento e a confusão (daí o título, “Zoo+Europa”), não só da sociedade mas também interior…Ao mesmo tempo, promete não desistir de sonhar, e pede que o Outro acorde, que sonhe de novo. “Let’s go overground!” é um pedido e uma promessa… Pedido e promessa que volvidos tantos séculos aqui retomamos. Por isso, Zooropa é mais que o leit motiv que preside à nossa Sociedade, é a sua própria razão de ser, que poderia  justamente ter esse nome. Mas não quisemos confundir conceitos, e por isso decidimos destacar a importância do sonho (Zooropa) mas também a importância de sonhar em conjunto (a “Planetary Society”).
A canção, que não conseguimos tirar das nossas mentes, começa com uma guitarra que parece chorar… Formada esta Sociedade, não choramos já – estamos a meio da canção, quando uma bateria simboliza o despertar, o empenho em não desistir. Cumpre-nos, agora, ouvir o resto da canção: projectar a nossa nave, construí-la, entrar nela, descolar deste planeta, mergulhar no espaço e nas estrelas, chegar à nossa Zooropa joviana. Estamos a caminho… Estamos a sonhar… a meio da canção… no fim, o ruído cessará, e faremos nossas as palavras finais da canção centenária… Dream out loud…”

Lisa Sabatelli (advogada)
10 de Novembro de 2707, Firenze


“Três reuniões. Apenas três reuniões. O suficiente, contudo, para termos a convicção de que conseguiremos, pelo menos, levantar voo. Em sentido figurado, já o estamos a fazer. Em sentido concreto, assalta-nos a certeza que o faremos. Assentámos os nossos sonhos, unimo-los, agora construímos. Por isso estas palavras não são de sonho como as da Penélope, do Ramón e da Lisa, mas antes de alegria. Escrevo o prazer de sonhar, o prazer de esta convosco, camaradas de sonho!
Os nossos planos começam a tomar corpo, e por isso sentimos que já estamos a caminhar, que não poderemos ser parados. Não, encetado o caminho, esboçado o primeiro gesto, erguido o primeiro martelo sobre a primeira estaca, não nos poderão mais parar. Não somos no entanto loucos ao ponto de considerar que não nos impediriam de levar avante o nosso projecto. Não poderiam deixar de o fazer… simplesmente seremos suficientemente cuidadosos para que não sejamos descobertos a não ser quando for demasiado tarde (e aí faz parte do nosso plano sermos descobertos, para que se fale de nós e se saiba o que vamos fazer; só assim nos poderão dar atenção se chegarmos ao fim com sucesso).
Infelizmente, essas precauções implicam fazermos sacrifícios, tomarmos decisões que muito nos custam, pois mexem com uma das partes mais importantes do nosso sonho, que é a divulgação: mostrarmos aos outros, ao mundo, que eles também podem sonhar… Chegámos hoje à conclusão que teremos de ser muito poucos a levantar voo deste planeta rumo às estrelas. Um projecto de grande envergadura, em que muitas pessoas tomassem parte (não temos dúvidas de que não nos seria difícil encontrar suficientes insones com vontade de sonhar) seria também muito mais fácil de descobrir. Tomámos por isso uma decisão dolorosa, mas que será vital para nos fazer chegar a Zooropa: limitar o número de membros da “Planetary Society” ao mínimo indispensável.  Todos vertemos lágrimas quando chegámos a essa conclusão, mas temos a consciência de que quando decidimos, ditámos talvez o sucesso do nosso projecto – pelo menos da primeira parte… Somos neste momento cinco. Para que fique registado (este livro é também, como já foi dito pela Penélope, o nosso único registo oficial), o nosso objectivo será mantermo-nos apenas cinco. Só em casos muito especiais poderemos admitir que sejamos mais. Todos juntos seremos dramaticamente poucos… mas por isso mesmo demasiado insignificantes para que nos dêem a devida importância. A nós bastar-nos-á que nos vejam quando partirmos e que se lembrem de nós quando chegarmos. Se tal acontecer, teremos vencido a batalha.”

Romeo Garibaldi (estudante)
13 de Novembro de 2707, Firenze


“Li, antes de começar a escrever estas linhas, as primeiras que inscrevo neste nosso diário de bordo (será por isso que a minha mão tanto treme?), o que foi aqui dito pelo Romeo. Ele tem razão: se chegarmos a Zooropa, teremos vencido a primeira batalha – mas não, temo, a guerra. E foi esse o medo que hoje surgiu ao de cima. Foi porventura a nossa reunião menos produtiva, por dois motivos (sou a primeira a aqui escrever como se fosse um diário na verdadeira acepção do termo…). Primeiro, já sabemos o que queremos construir, que funcionalidades deverá ter e como as instalar. Chegámos então a um muro: não temos o que usar, nada que possamos adaptar à nossa medida. Um carro seria demasiado pequeno, um autocarro teria demasiados pequenos mecanismos de voo, condução aérea e no solo, etc., que seria necessário desmantelar completamente e então montar de novo… Uma nave não precisaria de adaptações, mas é impossível arranjar uma a não ser que a roubássemos – e todos concordámos que nada faremos de ilegal enquanto estivermos neste planeta (depois da partida, claro, e talvez também durante a partida, será impossível não desrespeitar as autoridades… mas que autoridade terão então elas sobre nós?). Não temos nenhuma ideia… Espero que o sol que lá fora enfim desponta nos possa inspirar…
Em segundo lugar, sermos tão poucos coloca-nos sérios problemas de sobrevivência uma vez chegados a Zooropa… Penso ter sido a primeira a colocar a questão em termos tão práticos e duros. Os olhares dos meus companheiros (e até o meu próprio olhar) pareciam recriminar-me por me atrever a formular semelhante pensamento. A verdade é que, aqui, quantos mais formos mais hipóteses temos de ser descobertos, mas na nossa lua quantos menos formos menos hipóteses temos de sobreviver. Começo a imaginar: cinco pessoas sozinhas numa lua imensa, desconhecida, inóspita, fria. Ou temos uma nave extremamente bem apetrechada (é aqui que os dois problemas começam a juntar-se) e temos muita sorte ou morremos rapidamente. Todos (e eu mais que todos) se assustaram quando disse isto – ficámos em silêncio, nem sequer ousando olhar uns para os outros… foi o final de reunião mais triste da Sociedade… todos naquele momento nos sentimos sós… mas é preciso pensarmos nisto, termos esta abordagem prática, antes de levantarmos voo.
O sol, o primeiro que temos em Firenze há várias semanas, pouco durou. A noite começou a cair. Bom. A noite sempre foi a minha melhor companheira.”

Tamara Dović (estudante)
20 de Novembro de 2707, Firenze
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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