Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

Pollux

Sob um céu completamente negro, apenas o vago luar, por trás de um manto de nuvens, iluminava os edifícios da praça, que assim ganhavam contornos ainda mais fantasmagóricos. De dia aquelas pedras impunham o respeito que se tem pelas coisas místicas, carregadas de um simbolismo que apenas se pode pressentir. De noite, aquela catedral anciã, as arcadas sob as colunas a toda a volta da praça ganhavam uma vida espectral, como que habitadas por espíritos noctívagos…
Semi-oculto por uma dessas colunas, um vulto invisível espreitava, aguardava. Olhava fixamente para o espaço aberto no meio da praça histórica – amplo mas sobrenaturalmente claustrofóbico naquela noite de silenciosos espíritos, como que encerrada por uma cúpula de inclinados telhados, pináculos e campanários que pareciam inclinar-se sobre os espíritos que nessa praça se encontravam.
No meio da praça, todos vestidos de negro por uma subconsciente combinação com o próprio espaço, cinco vultos discutiam em voz baixa. Pareciam planear algo, pensava o vulto sob a arcada. Há algum tempo que ali se tinha imobilizado, suspendendo a sua solitária e quotidiana deambulação pela Firenze vampírica… Tentava ganhar coragem para se dirigir a eles, apresentar-se, incluir-se no grupo, pôr cobro à sua solidão. Aqueles seres eram noctívagos como ele, não deviam sequer dormir… Estariam a traçar algum plano para acabar com as suas insónias? Talvez o pudessem ajudar a redescobrir também o sono… Era um passo arriscado, considerava o vulto. Se as suas impressões estivessem erradas, se aqueles seres fossem apenas fantasmas, se o silêncio ritual da noite florentina fosse rompido, poderia ser desmascarado, quem sabe até detido pelas autoridades nos calabouços do desespero… e aí tudo estaria para ele perdido, nunca regressaria para o seu amado…
Vincent… suspirou, talvez algo mais alto que um sussurro, porque sem dar por isso tinha avançado pela praça dentro e estava a escassos passos dos fantasmas vestidos de negro, que num sobressalto de temor se viraram para ele.
Ficaram alguns segundos imóveis. O vulto no meio da praça sentia-se um anjo caído (como numa ancestral e melódica imagem do tempo do
Fim da História), observado por cinco pares de olhos cheios de uma temerosa curiosidade que os tornava afinal humanos.
Tamara, lentamente, avançou dois passos e tocou-lhe ao de leve no braço.
És de carne e osso… És real…
Vocês também…
Tínhamos a estranha sensação de que alguém nos observava, mas pensámos que fossem os espíritos deste lugar… Enquanto falava, os outros aproximavam-se, rodeando-o, sem dar por isso, fraternalmente. Estavas a olhar-nos há muito tempo?
Sim… Via-vos aqui a conversar, mas também eu tinha a impressão de que eram espíritos… Queria aproximar-me, mas tinha medo…
Agora estamos aqui contigo, disse Ramón. E como vês somos tão humanos como tu.
Sim, tão humano como vocês… humanos, sim, vejo-o agora, mas há tão poucas pessoas humanas que não ousava… Mas algo subliminar aproximou-me, porque sem dar conta estava a dois passos de vocês…
Como te chamas, anjo caído? Na boca de Tamara, as palavras “anjo caído” fizeram-no tremer… eles também conheciam aquela imagem… eles também sonhavam…
André. Sim, sou um anjo caído, e ao chamarem-me assim sei que são como eu, insones.
Sim… cinco insones à procura de sonhos… de um sonho… Penélope tinha a impressão de estar a falar demais – afinal, tinham conhecido aquele anjo triste minutos atrás – mas de alguma forma sentia – e sentia que todos o sentiam – que podia falar, podia dizer tudo. E sentia-se estranhamente impelida a fazê-lo…
Ao vê-los ao longe, pareciam estar a planear algo… uma conjura…
Podes chamar-lhe isso, se quiseres… Conta-nos o teu mundo, André, rapaz anjo, disse Lisa com tanta vontade como os outros de logo ali o abraçar, de o confortar de uma mágoa desconhecida mas premente. Tenho a impressão de que acabámos de ganhar o sexto membro da nossa Sociedade.
André ficou admirado, quase assustado, como se julgasse que não era possível naquela era existir uma sociedade fosse do que fosse. Vocês… têm uma associação? Formaram um grupo para sonhadores?
Sim… não sei se existem outros grupos como nós, mas temos sempre a sensação de sermos os únicos. Por isso temos sempre de ter imensas cautelas, por isso somos apenas cinco (tenho a  certeza de que poderíamos ser muitos mais – bastaria procurar – mas seria demasiado arriscado, estaríamos demasiado vulneráveis a sermos descobertos).
Não sei se querem ou se podem falar… Mas eu também não durmo. Também sonho. Fiquei sozinho nesta cidade há duas semanas, e desde aí que não posso falar, desde então que procuro com quem partilhar, mesmo que fugazmente, a minha insónia.
Ficaste sozinho? Aconteceu algo? Tamara receava a resposta, por intimamente já a saber (sentia já que entre ela e André se formara uma estranha ligação, que nunca precisaria de perguntar para saber algo, porque sempre antes de o fazer saberia… será que acontecia também o contrário, que André sabia as suas perguntas antes dela as formular?), mas não conseguiu evitar ser directa na pergunta.
Não sei se vocês vão compreender… (mas, intimamente, sabia que pelo menos Tamara, que apesar de mal conhecer sentia ser a irmã que nunca teve, compreenderia) Eu tenho um namorado…
Percebo o teu receio em assumir essa posição… Não o podes fazer abertamente mas, acredita, connosco estás completamente à vontade. Tamara, enquanto falava, abraçava André, visivelmente abalado pela falta de incompreensão daquele grupo.
Vocês sabem do que estou a falar?
Claro que sim, anjo André, meu irmão. Nenhum de nós é homossexual –nem conhecíamos antes de ti alguém que o tivesse assumido perante nós – mas isso não faz qualquer diferença. Estás apaixonado, nota-se nos teus olhos tristes.
Estou… o Vince é a minha alma gémea… Ao olhar Tamara nos olhos, ao sentir o carinho que deles irradiava na sua direcção, ao sentir que também ele devia estar a emanar as mesmas ondas de afecto pela sua irmã recém-encontrada, sentia que aquelas palavras já não eram exactamente verdadeiras… a partir daquele momento, tinha outra alma gémea… E ao fitar os seus olhos era como se também os olhos dela ficassem tristes, não por empatia ou simples conforto, mas genuinamente partilhando da mesma tristeza. Ao olhar André, Tamara mergulhava na tristeza dos seus olhos, ela tornava-se parte de si…
Também Romeo o sentia, de alguma forma ao apertar a sua mão essas lágrimas não choradas transmitiam-se também a ele… Sabia que de uma estranha forma estava a ser deixado de fora, a relação entre aqueles os dois, anjo e protectora, não tinha lugar para si. Apesar disso, não se sentia excluído: a sua relação com Tamara não sairia minimamente afectada daquele encontro com um anjo. Os laços que tão subitamente haviam sido estabelecidos eram mais como os de irmãos – irmãos espirituais, sim, mas por isso mesmo unidos na mais pura fraternidade. Tamara e André juntos eram como dois anjos que acabavam de se conhecer – e, Romeo sabia-o bem, os anjos não têm sexo…
Todos nós sabemos o que isso é, maninho, todos o sentimos. Enquanto falava, Tamara dirigia o olhar para os olhos de Romeo que fitavam os dela, enquanto os olhares de Penélope e Ramón se encontravam também e Lisa os olhava carinhosamente, apertando nas suas as mãos de ambos.
Moramos em Paris, contou André. Estávamos de viagem, vagabundeando pela Itália, conhecer esta terra com tanta história, este país por quem tantos se sentem atraídos sem saber porquê, porque não sabem nada de História.
Como disse um sonhador outrora, aqui aprende-se a beleza outra vez, interrompeu Ramón.
Exactamente. Mas o Vince teve de voltar para Paris, problemas com a nossa loja de antiguidades. Pediu-me para não ir com ele, para ficar em Firenze, pelo menos até acabar o livro de poemas que secretamente escrevo. O Vince tinha a certeza de que iríamos descobrir o Sonho aqui. E estava certo…
O Sonho ainda não… mas sonhadores encontraste. O Sonho, que na nossa “Planetary Society” chamamos Zooropa, é o nosso objectivo, o nosso projecto.
Zooropa, como…
Sim, como cantavam antigamente, naquele grupo de derradeiros sonhadores.
Um grupo de seis espectros começou então a caminhar pela praça, seis vultos negros trocando sonhos. André falou-lhes de Vince, de Paris, da Luz, baça mas ainda Luz. Os cinco amigos contaram-lhe tudo. A “Planetary Society”. Sagan, o pioneiro. Os Quatro de Dublin. Os sonhadores de há sete séculos atrás e a profunda inspiração que para todos representavam. O seu sonho, o seu projecto, Zooropa. Disseram passagens do Livro dos Sonhos que sabiam de cor. Tamara e Romeo, abraçados, falavam embevecidos da sua relação, Penélope e Ramón da sua e, olhando ternamente para Lisa, da sua irmã. (Naquele momento, André soube o que todos eles souberam, a certeza de que ele e Vince seriam verdadeiramente mais dois naquele grupo de enamorados.) Falaram de tudo o que partilhavam juntos – aos pares, em trio ou em quinteto. Avançavam pela noite escura. A Lua desaparecia, e enquanto caminhavam foram-se gradualmente unindo num só abraço, transformando-se em sexteto. De vez em quando olhavam em vão o céu em busca de estrelas, que dormiam para além das nuvens. A madrugada caminhava com eles, o seu nevoeiro envolvia-os, e então eram apenas seis espectros observados pelos edifícios que sobre eles pendiam, eram seis espíritos mergulhando no labirinto das ruas, rodeados por uma bruma que, quando enfim amanhecesse, os faria desaparecer da vista de todos excepto deles mesmos…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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