Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

Arcturus (1)

A sombra era enorme. No céu, um azul vítreo parecia espelhar tudo o que em baixo se passava, reflecti-los novamente – luz, ruídos, pensamento, tudo estava enclausurado no interior da enorme cúpula celeste. O próprio chão parecia irradiar luz… Talvez por esse contraste a sombra da Torre parecesse mais nítida, enorme, quase ameaçadora. Ao caminhar pelo chão irradiante, escaldante, e ao entrar na sombra, tinha-se a sensação de que se podia respirar de novo, pensar mais livremente. Imóveis na enorme sombra do sol poente, sete pessoas, de mãos dadas, estavam imóveis há alguns minutos, incapazes de um só movimento, de um só som… Imóveis, olhavam o reflexo insolitamente nítido da Torre centenária nas águas do Sena. Para cinco dessas pessoas era a primeira vez que viam aquela silhueta, o modo como se projectava no rio. Talvez precisamente por ser a primeira impressão lhes fosse tão difícil falar, pronunciar uma palavra que fosse acerca das sensações que a cidade lhes transmitia… Verdade seja dita que, como duas das pessoas já o sabiam e os restantes cinco aprendiam agora, Paris é sempre, em primeiro lugar, uma experiência interior…
Sempre imóveis, contemplavam a cidade em seu redor enquanto o sol se punha lentamente, imóveis ainda enquanto escurecia, o céu mudando de tons de azul para violeta, enfim para a cor da noite, azul-quase-negro…
É a minha hora preferida do dia, depois do pôr-do-sol… esta cor do céu… Quebrado o encanto, desaparecida a imagem flutuante da Torre, o transe findava e Romeo fora o primeiro a quebrar o silêncio.
Sim… retorquiu Tamara, apertando mais a mão do companheiro, fitando ainda, como todos os outros, algum ponto indefinido entre as águas do Sena e o horizonte, para lá das casas e da outra margem do rio. A esta hora nada mais interessa, só a cor do céu, e o mundo a acalmar-se, preparando-se para a noite, silenciando-se…
Começaram a caminhar aos pares e aos trios pelas margens nocturnas, ainda em silêncio, ainda a interiorizar todas as poderosas sensações que Paris lhe estava a oferecer. Era-lhes agora fácil compreender o motivo pelo qual o Impressionismo, à semelhança de todos os grandes movimentos da pintura dos últimos séculos de vida da Arte tal como aqueles sete a concebiam, por que motivo tudo isso tinha germinado em Paris…
Apesar do silêncio, André e Vince sabiam o que o outro sentia apenas por caminharem de mãos dadas; Tamara e Romeo trocavam carícias e sabiam-no também, e Lisa, Ramón e Penélope tudo partilhavam através dos olhares sempre fixos uns nos outros… A cidade anoitecera, esvaziara-se já da turba imensa que a povoava de dia, deixando apenas os seres noctívagos – insones, espíritos vagabundos e pares de namorados, recém-renascidos para Paris ainda em êxtase. Os sete caminhavam lentamente pelas margens, passando por barracas à beira-Sena plantadas vendendo tudo o que só de noite podia ser vendido: música, livros, filmes, tudo o que cheirava à Era do Fim do Mundo (última época em que tais objectos haviam sido concebidos) e a “arte”, esse palavrão depois disso erradicado por completo da sociedade e de quase todos os vocabulários…
Paris é fria de noite, queixou-se Penélope, apertando-se mais entre os braços de Lisa e Ramón, logo corroborada por André, que cerrou mais o braço em torno de Vince.
Estamos quase a chegar. Temos whisky, arranjo um copo para cada um. Mas só um copo, que amanhã vai ser um dia muito preenchido e não podemos correr o risco de estarmos de ressaca. Sobretudo vocês vão precisar de todos os vossos sentidos alerta para desfrutarem ao máximo de tudo o que vão visitar.
Não percebi essa da ressaca… Ramón, brincalhão, fazia-se desentendido. Todos, mas sobretudo ele, sabiam perfeitamente do que Vince falava…
Ainda não nos explicaste onde é que arranjas o whisky, nem porque é que chamam isso àquele líquido incolor misturado com sumos doces… Na garrafa não diz whisky, diz outra coisa qualquer em letras cirílicas… kodva, ou algo do género…
O nome é um segredo nosso, respondeu Vince. Chamem-lhe uma piada privada se quiserem.
Lá que é bom é… disse Penélope com um sorriso brincalhão, olhando com ar cúmplice para Ramón.
Não sei o que queres dizer. Ramón fingia-se desentendido.
Pois, Ramón, intrometeu-se Tamara, no outro dia parecias estar a gostar muito…
Não me lembro de nada.
Isso sabemos nós, no estado em que acordaste! Melhor, no estado em que todos acordámos… Todos, incluindo Ramón, se riram. A verdade era que naquele dia, a primeira vez que experimentaram aquela bebida proveniente dos rigores polares misturada com sumos de sabores tropicais, aquele gosto amargo e doce ao mesmo tempo, todos – e de facto, sobretudo Ramón – se haviam rapidamente convertido aos prazeres do álcool… Todos tinham adormecido nos sofás da sala, pelo chão, abraçados uns aos outros, fraternalmente beijando nem sabiam quem, semidespidos do calor com que a música e a báquica dança enchia os seus corpos…
Naquela noite, porém, o resultado não se repetiria. Todos projectavam já intimamente o dia seguinte, tudo aquilo que iriam ver, tentavam antecipar o que iriam sentir. O prometido copo de whisky seria mesmo só um, e depois todos se iriam deitar. Todos ficariam alguns minutos ainda acordados, demasiado excitados para adormecer, tentando adivinhar se o que iriam ver bateria certo com as expectativas e como cada um intimamente sonhava serem os principais pontos de atracção de Paris. E com esse sonho, com uma determinada imagem na mente, todos adormeceriam, não mais podendo esperar pelo dia seguinte…

(continua...)
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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