Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Arcturus (2)

(cont.)
Tamara e Romeo passeavam de mãos dadas rumo ao enorme arco rectangular, indiferentes à amálgama de pessoas de todas as nações que, como abelhas cheirando pólen, se movimentavam incessantemente, pousando por momentos num sítio para logo voarem rumo a outro local onde então se detinham nunca por mais de um minuto. Os dois olhavam por vezes para trás, em linha recta na direcção do outro arco dois séculos mais velho, para logo olharem novamente em frente, como se as estruturas entre os dois lados do arco fossem alienígenas olhos que os hipnotizassem…
Seriam eles os únicos a pensar que aquele arco bizarro era verdadeiramente belo? Seriam os únicos a contemplá-lo, abstraídos do seu histórico significado que todos pareciam simplesmente ignorar? Num silêncio absoluto, não pensavam sequer, como quase sempre durante quase todos os dias, nessas questões: por ora, e enquanto estivessem sob a influência daquela construção multiforme, nada mais importava.
Se tivesse asas, seria um insecto gigante. Sem tirar os olhos do estranho edifício cada vez mais próximo, Tamara atrevia-se assim a falar.
É um insecto gigante, só que sem asas… para não voar para longe, para ficar sempre aqui, à nossa mercê e nós à dele… se voasse, já teria partido há muito tempo, encontrá-lo-íamos de certeza ao chegar a Zooropa…
La Défense.. é por isso que não voa, está-nos a defender…
Sim… quem quiser, por ele será defendido… quem souber, nele encontrará abrigo… contra este enxame de gente irrequieta e cega, que olha para ele como uma coisa…
Romeo e Tamara eram forçados a olhar cada vez mais para cima, pescoços torcidos, mãos ainda dadas… cada vez mais para cima… de forma a olharem ao mesmo tempo o arco e o céu, cada vez mais céu…

Olhando através de uma janela, Penélope e Ramón conseguiam ver, ao longe, a enigmática pirâmide de vidro. Olharam-na ainda por alguns momentos, depois um para o outro. Trocaram um breve e saboroso beijo e voltaram-se de novo para dentro, começando a caminhar pelos corredores sem fim.
De cinco em cinco metros eram forçados a parar, para verem mais um quadro, outra estátua ao mesmo tempo igual e diferente das centenas que já tinham visto. Mais cinco metros, outro quadro, outros cinco metros e um quadro maior, outros cinco e um mais pequeno. Outro corredor, mais arte, mais prazer estético, mais beleza… Corredores atrás de labirínticos corredores, câmaras após antecâmaras, escadarias que levavam a todo o lado e a lado nenhum… Retratos de damas já milenares, deuses ancestrais, olhos hipnóticos fitando quem contempla de todos os ângulos possíveis… overdose dos sentidos…
Admite, estamos perdidos, disse Penélope em ar de gozo.
Completamente perdidos… Já estou farto de ver arte, tenho arte em todos os meus poros, mas ao mesmo tempo não me consigo fartar de estar perdido aqui… é tudo tão belo… tão excessivamente belo que se torna quase banal…
Podíamos estar semanas perdidos aqui, amor, sem nunca pisarmos duas vezes o mesmo corredor. Voltaremos aqui muitas vezes, temos tempo para isso. Agora era bom encontrarmos a saída, temos de ir a Montmartre ter com os outros.
Ver finalmente a loja de antiguidades do Vince! Ramón, até ali por completo imerso no espírito da Musa, recordava de súbito o que seria o culminar daquele intenso dia. Já estamos em Paris há uma semana e ele insiste que até agora não estávamos preparados…
Mas compreendo-o… Achei estranho quando ele nos fez perder pela cidade fora, cada um para seu lado, porque era assim que iríamos descobrir Paris…
E é verdade, sei agora que só assim a podíamos ter descoberto, a Cidade da Luz, a cidade e a Luz…
Estava a pensar há pouco como é engraçado como a palavra “arte”, há tantos séculos esquecida, não impede esta gente de se atafulharem num museu repleto de arte… Não compreendem, mas mesmo assim não deixam de se sentir atraídos…
Como moscas para o mel… É um instinto ancestral do homem, pode ser remetido para o inconsciente, pode deixar de racionalmente ser entendido, mas nem por isso deixa de fazer parte de nós enquanto seres humanos… A civilização durou demasiado tempo para se poder assim eliminar um conceito que bebe tão fundo na alma humana…
Olha, aqueles japoneses já não estão a tirar fotografias, de certeza que é porque se vão embora! Vamos atrás deles!

No topo da colina, a alva catedral parecia silenciosamente aguardar quem até ela chegasse, quem subindo as escadarias a ela ascendesse… Silenciosa mesmo no rumor da citadina inquietação, parecia um virginal bastião do espírito…
Sacré Cœur… o coração sagrado da cidade… Lisa, ofegando com o esforço da subida, mal conseguia falar, mudamente maravilhada com a quietude que a imponente basílica impunha a quem dela se ia aproximando… André e Vince, cúmplices conhecedores dos segredos da cidade, mantinham-se em silêncio, caminhando dois passos atrás.
Não entraram na catedral – não ousaram, era preferível espicaçar a reverencial atracção para apenas a satisfazer mais tarde – antes passaram ao lado dela, iniciando um mergulho no bastião onde, com atenção, se podia ainda sentir os espíritos de escritores e artistas mortos há muito, há demasiado tempo.
E mergulharam… Vince e André, de mãos dadas, trocando enamorados beijos, iam olhando para aqui e para ali, relembrando, despertando doces memórias… Lisa deixava-os, percebia que num certo sentido aquele bairro era o seu mundo, que nele muito haviam partilhado… De qualquer forma, nenhuma palavra conseguiria articular o que sentia, assombrada como estava, sentindo absínticos poetas, boémios pintores e carnavalescos dançarinos perpassar-lhe a carne, atravessar-lhe o corpo, causando um frio arrepio à sua passagem mas deixando para trás algum precioso resquício, algum pequeno tesouro dentro de Lisa guardado como lembrança da sua passagem… Sentia-se assim também artista, também escritora, pintora, escultora, dançava num cabaret repleto de montmartrianos espíritos que a aclamavam como uma deles, sentia-se também ela uma habitante daquela era, misturando o tempo presente com o espírito daquele  bairro de há sete, oito, nove séculos atrás…
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 07:07
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