Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Capella (1)

O ponto de encontro que tinham combinado com os outros era a placa de metro que agora viam já à sua frente, vetustamente verde, decadentemente degradada mas ainda irradiando uma espectral simpatia, como se aquela simples pequena placa, à entrada daquela estação de metro agora como em tempos raramente utilizada, como se pudesse ser o ex libris daquele anacrónico bairro…
 Não podia, pensava Lisa, já suficientemente próxima para ler a palavra “Métropolitain” escrita em letra que outrora se designara como art nouveau. Nenhum ponto era o ex libris porque aquele bairro valia pelo seu conjunto, nada se destacava acima do resto, tudo, até o mais ínfimo pormenor (como aquela modesta placa) se encaixava na atmosfera do mais onírico bairro de Paris.
Afinal ainda conseguimos chegar antes deles, disse Vince ao chegarem. Era uma bem disposta indirecta a Lisa que, caminhando sempre à frente, os havia feito perderem-se por ruelas que nem os dois parisienses conheciam.
De certeza que eles também se perderam, disse Lisa, olhando para Vince, como que dizendo que não era a única, não era menos “parisiense” que os outros.
No metro não se perdem, é impossível seja quem for perder-se no nosso metro, disse André com (por uma vez) acertado chauvinismo. Mas ao contrário, no Louvre é impossível não se perderem…
Por sobre as águas-furtadas e os telhados baixos, o céu começava a escurecer, o sol brilhando por momentos nas clarabóias.
Bom, serve para estarmos na loja de noite, é bem mais interessante…
Também nunca ninguém lá aparece de dia. Vince, corroborando o namorado, afagava-lhe o louro cabelo. Raramente abrimos antes disso.
Estou tão curiosa… estamos todos, vocês não param de falar em vermos a vossa loja de antiguidades, mas estão sempre a adiar o momento.
Como vos disse, era preciso perderem-se em Paris primeiro, conhecê-la, senão nunca seria a mesma coisa.
E já não vais esperar muito, aí vêm eles!
Encontrámo-nos nos Champs Elysées, por acaso! Subindo as escadas do metro, os quatro sorriam já abertamente, também eles ansiosos por verem a loja de Vince e André e de como raio eles conseguiam sobreviver à custa da venda de antiguidades… e que antiguidades seriam? A explicação que lhes tinham dado não era completamente convincente… Não podiam acreditar que havia assim tantos insones, tanta gente naquela cidade que quisesse comprar antiguidades, recordações do tempo em que o Tempo fazia sentido… A opinião de André era que algo do antigo esprit des arts parisiense subsistia ainda e, inconscientemente, atraía a si muitos insones vindos de todo o mundo. Era por isso que a maior parte dos clientes da loja aparecia de noite, o que fazia pensar que eram como eles sonhadores, e que como tal procuravam sinais de outros que como eles haviam ousado. E que sítio mais adequado a essa busca que uma loja que vendia produtos da era em que o Homem ainda sonhava?
Tamara concordava com o seu irmão em espírito, mais por sentir, como ele, que a resposta passava por aí, do que por propriamente acreditar na explicação. Mas a verdade é que Lisa chegava agora a uma conclusão semelhante, sentindo um arrepio nas costas à medida que o próprio pensamento era formulado, recordando todas as sensações que a haviam literalmente atravessado no seu périplo por Montmartre. Talvez aquilo que em si ficara depositado andasse de certa forma à solta pelo ar, talvez de forma mais débil outros sonhadores, noutras cidades próximas ou longínquas, sentissem um certo apelo que não sabiam explicar e viessem – como eles acabaram por vir – ter a Paris… Era apesar de tudo uma teoria encorajadora: significava que havia afinal de contas muitos colegas de insónia, companheiros de angústia que não iriam participar directamente na expedição mas que teriam um papel preponderante a desempenhar numa fase posterior. Seriam esses insones os primeiros a saber e a ver Zooropa, a apreender o que realmente significava aquela viagem, aquela descoberta. Seriam por isso os primeiros a emulá-los, a tentar eles também chegar a Zooropa – a mesma ou qualquer outra Zooropa… Seriam eles que, sem o saber ainda, ficariam encarregues de ajudar a acordar o mundo. Eles os sete apenas estavam a dar o primeiro passo, a encorajar e a propiciar as condições para que os outros caminhassem – mas teria de ser cada um a aprendê-lo por si.
Bom… André suspendeu a frase, mantendo todos em suspenso. Vamos?
Iam lentamente caminhando, contando uns aos outros as impressões daquele dia sobrenatural, Tamara abraçada a André falando sem cessar do grande insecto da Défense enquanto o seu irmão anjo a beijava repenicadamente na testa, Lisa e Penélope discutindo quem se tinha perdido mais, Romeo e Ramón tentando decidir se a placa de metro era verde clara ou verde escura – todos, no fundo, tentando-se distrair da irrequieta curiosidade que já não conseguiam calar.
É aqui, proclamou Vince.
Do outro lado da pequena praça, por entre as ramagens das árvores que as povoavam, um letreiro brilhava já na derradeira luz do crepúsculo:
“Le Bouquiniste de Montmartre”
Todos pararam de súbito, imobilizados pela surpresa. Um bouquiniste! As antiguidades de que André e Vince falavam com desmesurado carinho nada mais eram que escritos registos dos pensadores e sonhadores de eras antigas!
Livros! Penélope, de boca aberta, sorria em êxtase. Vocês vendem livros!
Antiguidades… claro… estas são as coisas antigas que mais vale a pena preservar!
Enquanto o dia adormecia, os nocturnos candeeiros iam-se iluminando nas ruas, ofuscando as estrelas que no céu se iam estivalmente acendendo. Vince rodou a chave na fechadura da porta e a loja abriu-se enfim. Atrás de Vince e André, os outros cinco entraram naquele mundo…
Penetrando a obscuridade crepuscular, da entrada nada mais se via que não um extenso corredor crivado de mesas onde se amontoavam, numa aparente desordem de lombadas de variáveis grossuras e comprimentos, centenas de sonhos outrora encadernados, páginas e páginas que só juntas fariam sentido a quem, lendo-as, partilhasse e penetrasse no sonho do criador daquelas histórias… Dos lados do corredor que constituía a quase totalidade da loja, prateleiras ininterruptas acondicionavam ainda mais livros, poeirentos volumes enfileirando-se, como que constituindo um pelotão aguardando revista, impacientando-se porque todos se julgavam dignos de ser distinguidos por quem os revistasse – de verem uma mão erguer-se, retirá-los da prateleira, folheá-los com prazer e então talvez fechá-los com carinho, segurando-os contra si como quem abraça o filho recém-nascido, com a certeza de que não mais se separarão… Iluminados pelos derradeiros raios de sol, quase pareciam mover-se imperceptivelmente, quais soldados em sentido equilibrando-se de um pé para outro, esperando secretamente ser recrutados por alguém para o seu exército de sonhos particular…
André e Vince limitavam-se a sorrir, imóveis de braços atrás das costas, enquanto os amigos muito lentamente se iam espalhando pelas prateleiras e mesas, tacteando com cuidado como se receassem que um simples toque fizesse o livro esfumar-se em pó – fizesse todos os livros esfumar-se, afastarem-se subitamente, então apenas resquícios de um sonho… Mas era o receio que se desvanecia, pois rapidamente todos cederam ao maravilhamento que os assaltara deste o primeiro momento em que tinham entrado na loja.
 Tamara e Romeo olhavam as prateleiras da direita, ora para um lado, ora para outro, incapazes de retirarem qualquer volume e o segurarem nas suas trémulas mãos. Lisa quase não se via, acocorada em frente à mesa mais distante, contemplando reverentemente antigos códices de leis.
Encontrei um!
Eu encontrei mais dois!
Olha este! Penélope e Ramón, aparentemente esquecidos um do outro, deambulavam entre as prateleiras do lado esquerdo e as mesas mais próximas, exclamando em sussurro um para o outro os autores ou os títulos que reconheciam e que assim partilhavam, não conseguindo conter o entusiasmo. Os volumes que iam segurando e empilhando formavam uma coluna que selectamente ia crescendo enquanto as suas exclamações se perdiam no espaço da livraria, dado que ninguém na realidade os estava a ouvir…
Sem que nenhum dos amigos tivesse reparado, a noite caíra já há muito, aprofundava-se, insensivelmente ia penetrando cada canto, cada livro das cinco enormes pilhas que se amontoavam, partindo do chão até quase à altura de cada um deles. Penélope, Ramón, Tamara, Lisa, Romeo estavam extasiados, enfim saciados de novos sonhos, folheando os volumes que cada um deles havia prudentemente seleccionado como seus. Quando Penélope procurou com os olhos os dois anfitriões, Vince e André estavam sentados a um canto, agarrados a um volume mal tratado, a capa quase a cair, a lombada já meio caída deixando ver a encadernação de má qualidade. Se não fossem as letras na lombada pareceria ainda mais antigo que os restantes, mas provavelmente o aspecto do livro devia-se apenas ao facto de ninguém habitualmente pegar nele… A capa erguida contra si permitia-lhe ler o título: Todas as Estrelas do Céu.
Tomás Marinho? Quem é?

(continua...)
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