Sábado, 21 de Outubro de 2006

Rosalhague

Um estranho silêncio invadiu o ar quando a porta se fechou por trás do último cliente. O crepúsculo já quase por completo se transformara em noite e as ruas estavam, como era habitual àquelas horas, praticamente desertas. As únicas pessoas que povoavam ainda as ruas, movendo-se rapidamente a caminho dos seus refúgios, eram mesmo os insones mais retardatários. A maior parte regressava provavelmente de uma discreta visita à livraria de André e Vince ou a alguma das poucas lojas que, como aquela, vendia ainda artigos dos Dias do Fim da História. Ninguém gostava de ser visto na rua depois do pôr-do-sol, a uma hora em que toda a gente já regressara a casa depois do emprego. Eram essas praticamente as únicas deslocações socialmente aceitáveis, e qualquer um que quebrasse essa regra tácita mas particularmente rígida seria automaticamente catalogado como “pessoa pouco recomendável” – como se depois de o sol se pôr só os vampiros pudessem caminhar nas ruas parisienses…
Ao ver a livraria deserta, Vince respirou fundo, descomprimindo a tensão. Aquele fora um dia particularmente concorrido, o que normalmente o deixaria contente – por uma questão financeira mas também filantrópica, pois significava que mais pessoas se haviam interessado pelos artigos culturais que disponibilizava – mas naquele dia o tornara impaciente. Preferiria ter a loja vazia, ou quase, para não correr o risco de afugentar a esperada visita. Não conseguia deixar de pensar no significado do que ela lhe traria… Era o componente mais importante para o veículo espacial que ele e os companheiros estavam prestes a concluir, mas também praticamente o último – pelo menos a julgar pela simples explicação que Ramón, Tamara e Romeo lhe haviam dado e que em vista dos seus escassos conhecimentos de engenharia aeroespacial era sem dúvida suficiente. Ele era, acima de tudo (para além de alguns projectos simples, como o desenho dos comandos da nave), o homem dos contactos, encarregue de falar com as pessoas certas para obter, de modo legal mas o mais discretamente possível, todas as peças necessárias. De todas as vezes que algo tinha sido necessário, tinha falado com uma pessoa diferente e tinham sido outros ainda que tinham vindo à loja para fazer a transacção.
Nenhuma dessas pessoas lhe havia parecido tão cautelosa como aquela derradeira visita, e não era caso para menos, reflectia agora, pois pelo que aprendera era uma peça extremamente cara, sensível e difícil de obter. Tinham-lhe dito que era uma pessoa muito discreta e que deveria ter cuidado para não haver possibilidade de serem vistos, por isso Vince preferira pedir para que o visitante viesse mesmo antes do anoitecer e ficar sozinho na loja para o receber. Nem mesmo André, a quem pedira para sair mais cedo sem explicar o motivo, sabia que seria naquele dia que o visitante viria… se bem que André provavelmente o adivinhara, mesmo que conscientemente não o soubesse.
Vince deambulava pela loja, dando lentos passos de um lado para o outro dos corredores bordejados de altas prateleiras, tentava assim em vão acalmar os nervos. Lá fora a luz solar já praticamente se extinguira. Os candeeiros das ruas já há muito estavam acesos, camuflando um céu violeta carregado, quase já da cor da noite. O silêncio mantinha-se, parecendo a Vince cada vez mais pesado, cada vez mais insuportável… Já tinha pegado em vários livros e folheado ao acaso, sem prestar atenção ao que lá estava escrito, já tinha percorrido todos os corredores de uma ponta à outra várias vezes, minutos que pareciam não ter fim, tempo que parecia dilatar-se infinitamente…
Vince virou-se ao ouvir um ligeiro rumor do lado de fora da porta e viu um vulto vestido de cinzento parado a olhar para ele, já do lado de dentro. A pessoa começou a caminhar para ele com passos lentos e medidos que ecoavam surdamente no soalho… Vince ficou parado, expectante, aguardando que chegasse suficientemente perto dele para lhe conseguir distinguir as feições, mas fosse da forma como se vestia ou da posição em que se colocara em relação à luz, aquele vulto era em tudo impessoal. A roupa era totalmente cinzenta e também a cara o parecia ser, como se olhos, nariz, faces, cabelo, tudo fosse amorfo… Eram feições totalmente impessoais, que Vince tinha a certeza que jamais conseguiria reconhecer na rua.
A pessoa parara à sua frente e olhara para ele. Só percebeu que era homem quando ele finalmente falou, uma voz também ela indistinguível de milhentas outras.
Isto é a encomenda. O homem olhava ainda para ele enquanto pousava à sua frente um pacote revestido de papel de embrulho. Quem olhasse para Vince na rua pensaria que era um presente de aniversário…
Como quer a sua metade do pagamento? A voz de Vince saiu hesitante, contrária à firmeza que pretendia.
Não pense sequer em pagar-me agora. Na parte de dentro do embrulho escrevi um número e um endereço de caixa postal. Meta notas de baixo valor até totalizar o número dentro de uma caixa de cartão e envie amanhã para a caixa postal. Compreendido?
Sim. Vince já só viu as costas do cinzento vulto quando acabou de pronunciar a palavra. Teve a sensação de que a porta se tinha somente entreaberto para o deixar passar e um momento depois deixou de o ver. Vince sabia que, como nos filmes de outrora – os filmes de quando havia filmes – se saísse naquele para a rua naquele momento e olhasse em qualquer direcção, a pessoa teria desaparecido completamente…
Olhou para o embrulho à sua frente e pegou nele: era então aquilo. Era grande e comprido, estranhamente leve, pelo menos mais leve do que o que esperava. Vince imaginara que seria algo pesadíssimo e difícil de transportar, mas era afinal um pacote que facilmente conseguiria encaixar debaixo do braço e, melhor ainda, que passaria facilmente despercebido no metro.
Findo aquele breve e estranho encontro, Vince sentiu toda a adrenalina que durante o dia contivera espalhar-se pelo corpo. Não conseguia já conter a excitação, só queria chegar a casa o mais depressa possível, sorrir para os outros e levantar o embrulho nos braços, qual troféu de uma importante vitória…
Apressou-se a fechar a loja e praticamente correu no curto caminho até ao metro. Ao descer as escadas rumo à subterrânea estação, a sua mente revivia aqueles últimos meses, tudo o que tinham feito desde os primeiros vagos projectos… lembrava com carinho as acesas discussões que tinham tido ao início, todas as miríficas ideias que tinham tido quanto ao veículo que utilizariam… só ao fim de cerca de um mês e de várias reuniões improdutivas se tinham lembrado da mais simples solução: alguém, Vince já não se lembrava quem, tinha dito como à-parte que traduzindo à letra a palavra inglesa para nave espacial, spaceship, fica barco do espaço – e assim nasceu o conceito que iriam aproveitar. Já que não tinham a possibilidade de utilizar nada que lhes fosse estranho, iriam, qual ovo de Colombo, adaptar a péniche em que viviam para ser simultaneamente barco e veículo espacial. Vince recordava especialmente as caras de alívio e de imensa alegria com que todos ficaram quando a ideia surgiu: tinha sido afinal bastante simples a solução para o primeiro grande problema concreto.
Sem pensar sequer no caminho que seguia, um itinerário que já tinha feito milhares de vezes e que seguia automaticamente, Vince desfiava mentalmente os momentos que, quais fotogramas de um filme, tinham ficado gravados na sua memória durante aqueles meses de intenso labor. Caminhou ao longo do átrio da estação enquanto recordava as sessões privadas de  Ramón, Tamara e Romeo, semanas a fio enquanto projectavam todas as adaptações de que necessitariam, discussões a que ninguém mais assistia apenas porque a linguagem que utilizavam era totalmente incompreensível aos outros quatro e que então olhavam uns para os outros com expressões de ignara cumplicidade… Ao entrar no metro reviveu todas as viagens que tinha feito, como aquela, com estranhos pacotes debaixo do braço, os olhares desconfiados por cima do ombro dos poucos utilizadores do metro às horas a que normalmente nele viajava, e todas as pequenas aventuras dos seus companheiros na aquisição dos materiais que utilizavam na péniche.
Vince fez, o seu piloto automático interior sempre ligado, o transbordo entre duas linhas de metro, a sua mente traçando o paralelo com todos os dias em que chegara, umas vezes com André, outras sozinho, a casa. As adaptações eram invisíveis do exterior mas impossíveis de disfarçar no interior (quem passasse no cais apenas pensaria que o dono daquele barco o estava a remodelar), e Vince relembrava o seu maravilhamento sempre que abria a porta e constatava os progressos que tinham sido feitos, as adaptações em que todos trabalhavam ganhando consistência, crescendo progressivamente, corporização do sonho que aquele grupo partilhava, o ritmo de construção elevando-se à medida que prosseguiam, o crescente entusiasmo de todos à medida que o que sonhavam se tornava palpável…
Foi apenas quando viu a luz dos candeeiros na rua que percebeu que acabara de subir as escadas da estação de metro onde como sempre saíra e que estava a poucos minutos de, qual guerreiro de Maratona, chegar ao seu quartel-general e transmitir as notícias, mostrar o derradeiro troféu daquela guerra – só que ao contrário do milenar corredor o destino não seria morrer de cansaço nem as notícias trariam consternação… Imaginava as caras dos seus companheiros quando entrasse em casa, tentava antecipar a extensão dos seus sorrisos, a velocidade a que se levantariam para o abraçar, se André o conseguiria beijar antes de também os outros o cobrirem de fraternais beijos, exercitava a imaginação adivinhando quanto tempo Ramón demoraria a montar a peça e quantos dias faltariam para tudo ficar pronto e poderem enfim levantar voo… Com os enormes sorrisos dos seus amigos a preencher todo o seu espírito, Vince chegou à péniche, imóvel na noite que debutava, sereno, como que também ele aguardando a boa nova… Ao abrir a porta e olhar para os seus expectantes companheiros, ao sorrir e erguer para eles a peça que são e salva acabara de transportar, a forma como reagiam aos seus gestos trouxe-lhe uma inevitável e intensa sensação de déja-vu
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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