Domingo, 22 de Outubro de 2006

Castor (1)

Os lençóis revoltos. As paredes. O tecto, iluminado pela ténue luz da cidade nocturna que entrava pela janela que aberta, tentava em vão afastar o calor estival, tão insinuante no seu corpo que Penélope sentia como se o inferno estivesse para cair sobre ela naquela derradeira noite.
A insónia, de novo a maldita insónia, mas desta vez ela tinha uma razão de ser, era palpável, um nervosismo que por mais que mergulhasse no limbo entre a consciência e o sono não conseguia esconjurar… Por um lado, sentia já saudades – do futuro que se entreabria enfim, mas também da cidade que os acolhera e os tornara seus, a cidade luminosa na qual passava pela última vez uma noite.
A cidade da Luz… mas, naquela noite, não era a luz que a encantava mas sim a sua ausência, ou antes, a difusa mistura entre a escuridão da sua insónia e os reflexos dos nocturnos bastiões da luz – os ondulantes reflexos da iluminação das ruas e das casas sobre o rio, e o reflexo destes reflexos criando pequenas marés projectadas no tecto e nas paredes do quarto. Penélope entretinha-se a olhar essas silhuetas de ondas, imaginava-se por elas transportada para fora daquele asfixiante quarto, flutuava pela janela fora, deixava-se levar rio abaixo, lentamente, na esperança de que este a levasse a terras de sonho que assim a adormecessem, pois apenas assim elas seriam verdadeiramente sonhos e adquiririam o seu literal significado.
Lentamente flutuava rio abaixo, esperando desaguar no imenso mar do sono, mas em lugar disso encontrava-se agora na foz dos seus próprios pensamentos, reflexões que lhe eram já estranhas por há tanto tempo não virem à tona. O mar…
O  mar, as ondas, o ruído da maré espraiando-se por um areal deserto, e Penélope contemplando o marítimo horizonte na orla da praia, do cimo dos rochedos que há algumas horas eram o seu promontório, o seu solitário posto de observação. Imóvel olhava o imenso azul, deixando-o submergir os seus próprios pensamentos, ao ponto de sentir erodir-se o seu invólucro de pessoa, ao ponto de se tornar não mais que um rochedo entre outros rochedos, uma estátua de sal, uma sereia petrificada.
Do profundo mar das recordações vinha-lhe a memória daquelas brumas, daquele vulto que de súbito distinguira ao longe caminhando na praia, apenas fumo, depois gradualmente materializando-se, pouco a pouco aproximando-se da sua solidão sobre as rochas, aos poucos partilhando-a consigo. Doravante sabia que o seu refúgio do mundo, o seu pequeno farol erguido sobre as ondas deixava de ser só seu. Doravante alguém a acompanharia na vigilante busca do mar – como se só ele pudesse trazer a solução para um futuro que, assim que virava costas ao oceano e estava em terra firme, se tornava angustiante.
Fora à beira daquele mar, ouvindo aquelas ondas arremetendo contra as rochas, fora caminhando descalço sobre aquela areia que chegara até si aquele estranho anjo que a olhava nos olhos, que a fizera imediatamente neles se perder, fora aquele cavaleiro das águas que lhe pegara na mão, a fizera saltar dos rochedos e com ela caminhara areal fora, dois vultos cada vez mais difusos, perdendo-se de novo nas brumas, de mãos dadas a partir daquele momento unindo para sempre as suas existências – e o mar, sempre o mar como única testemunha.
Aquele dia em que Ramón fora ter com ela ao mar do fim da terra, com ela caminhara naquela finisterra e com ela, sem dizer uma palavra, partilhara todos os seus sonhos, fora a primeira vez em que com ele tinha verdadeiramente estado, poucos dias depois de se terem conhecido. E fora aquele olhar que tudo dissera (os sonhos, as ideias, os projectos que descobrira terem em comum), a sua silhueta com o mar por trás agarrando-lhe as mãos, aquele silencioso passeio, fora naquele lugar avassaladoramente dominado pelo mar que se apaixonaram.
O mar… O mar que testemunhara a sua união e que jamais iria voltar a ver… Será que alguma vez voltaria a ver um mar de qualquer espécie? E será que esse mar se poderia comparar ao mar de Finisterra na plenitude que envolvia os corpos que perante ele se detinham a contemplá-lo? Aquela sensação de impotência que os invadia mas ao mesmo tempo a força que lhes transmitia, a serenidade no meio de tempestuosas vagas? A saudade, a imensa, total saudade… e simultaneamente o sentimento de que tudo o que importa está ali, dali partiu e ali irá regressar… A saudade, indo e regressando com as ondas, como as ondas… Saudades daquele mar do início e do fim de tudo, daquela terra – Finisterra. Que nome perfeito para o local onde tudo acabara e tudo principiara, o fim da saudade e o início do sonho, o fim da solidão e o início da comunhão… como o mar e as rochas, eternamente juntos no fim da terra… o local que para eles – para ela que agora o recordava – marcara o início caminhada para o fim da Terra onde deixariam de caminhar e o início do mar – do infinito oceano de estrelas… O fim da saudade e o início do sonho… e agora, anos depois, na derradeira noite, ao recordar aquele dia primeiro, o início da saudade e o fim da espera… como a maré alta das estrelas a alcançar que segue a maré baixa da inexpugnável insónia, como a maré alta da comunhão com o planeta natal que precede a maré baixa da saudade… fluxo e refluxo… eternamente…

A noite… essa estranha entidade, qual selénica feiticeira, mostrava todas as suas forças encantatórias, como se soubesse que aquela era a derradeira vez em que teria consigo Ramón… Pelo menos aquela noite, pensava ele, pois tinha a certeza que no dia seguinte, quando mergulhassem na noite infinita, as estrelas, o nocturno negro manteria sempre sobre ele um intenso fascínio. Não seria porém a mesma noite, algo daquele apelo nocturno era intrinsecamente terrestre: o argênteo reflexo da Lua, talvez, ou o tremeluzente brilho das poucas estrelas visíveis através da poalha das luzes humanas… ou talvez isso mesmo, o eco das luzes terrestres reflectidas na cúpula celeste…
Perdido em reflexões que se cruzavam, entrechocavam e precocemente o deixavam, Ramón mantinha os olhos abertos, fixamente olhando através da janela sobre a silhueta de Penélope que, deitada a seu lado, sabia também não dormir. Seria então talvez alguma espécie de osmose que dela se desprendia, embora Ramón não conseguisse deixar de distinguir, escondida num recôndito canto da sua mente, a figura de uma nocturna divindade que, com a sua flauta de estrelas e cometas feita, tocava o canto de uma sereia enfeitiçada pela Lua. Possessiva, teimando em não o libertar naquela última vez que com ele o teria, tocava a sua derradeira flauta…
Ramón não pronunciou uma palavra, não se virou para Penélope, sabia que tal como ela seria na sua própria mente, na sua própria memória que teria que encontrar a chave para o sono… A noite era uma amante caprichosa, não os deixaria procurar juntos o conforto que os levaria para além daquela última insónia…
Das profundezas da sua memória, o canto da noite fazia emergir recordações de momentos indelevelmente cravados na sua mente, surreais, momentos que em parte o haviam tornado nele mesmo, momentos de comunhão em que, sozinho na noite, ambos haviam quase sido um só. Frescos de noites em que nada mais existira senão o seu vulto coberto por um manto que o aconchegava, o fazia sentir-se menos só, como se parada a seu lado estivesse realmente uma amante que para todo o sempre e para todos os lugares o seguiria… Frescos de noites que eram sempre a mesma noite, porque era sempre a mesma figura que o aconchegava, era a Noite, sua amante naquelas horas de hipnose, a Noite que tentava torná-lo sua, não o deixar partir quando o primeiro brilho da aurora quebrasse o feitiço que mantinha Ramón preso ali, segurando a mão da Noite.
No desespero da sua insónia, vivia de novo aquelas noites, as que mais o haviam  marcado, as ocasiões em que a sua simbiose com a sua amante nocturna fora quase perfeita – quase… se ela não tivesse oprimido um pouco o seu coração quando o tivera nas suas mãos, se ele tivesse podido esquecer que aqueles encontros tinham irremediavelmente o seu fim quando os primeiros prenúncios da luz solar perturbavam aquela comunhão… se a noite não fosse tão avassaladora e não lhe causasse por isso medo, se a noite pudesse ser eterna e aqueles encontros assim pudessem durar eternamente, então Ramón nunca se desprenderia dos braços da sua amante, cairia fatalmente no seu abismo, seria presa no seu labirinto, não mais se libertaria dos selénicos poderes da noite, para sempre desapareceria do mundo dos mortais… Porque quem vive de noite não tem existência terrena, antes faz parte de um grupo de estranhos vampiros que parecem alimentar-se da própria noite, seres que por vezes acidentalmente as pessoas vislumbram e dos quais por isso desviam o olhar e fogem, porque têm medo de serem mordidas por tais vampiros e assim se tornarem num dos seus – no fundo as pessoas têm medo dos poderes da noite…
De entre todas as recordações que revivia e cujas impressões simultaneamente sentia, alguns encontros em particular com a nocturna divindade ganhavam corpo… De súbito Ramón não estava já naquele barco flutuando placidamente na margem do Sena, via-se de novo a caminhar sozinho na noite, descendo uma rua completamente vazia… nenhum carro, nenhuma pessoa, nenhum ruído… apenas o rumor do silêncio, o silêncio da noite que era o seu mais poderoso encanto. E então Ramón, que caminhava rapidamente, era obrigado a parar, perdia a respiração, entrava em êxtase, abria os braços como que para mais intensamente sentir a sua companheira que o envolvia. Durante minutos a fio não se conseguia mexer, imóvel na vazia rua nocturna, sentindo o vento passar por si, sentindo a noite rodeá-lo, levantá-lo no ar, e a materialidade da rua deixava de existir… E depois um carro passava, ou um qualquer ruído quebrava a extática comunhão entre si e a noite, e apenas restavam os despojos da sua união, quais lençóis revoltos…
Findo aquele encontro, Ramón já não estava na rua, via-se agora dentro de uma casa, entrando numa sala a meio da noite… o mesmo silêncio, ainda mais poderoso se possível, atraindo-o para a janela, via de novo as silhuetas dos prédios sob a fosforescente iluminação das ruas, abria a janela, respirava fundo para deixar entrar dentro de si a noite, levá-la ao seu âmago… e Ramón não conseguia respirar, sufocava de tão premente ser aquela noite… colocava os auscultadores nos ouvidos, ligava o leitor de discos, todos os poros da sua pele arrepiados perante a vastidão da noite incomensurável, ao sentir os primeiros acordes da música penetrarem os seus sentidos fechava os olhos e deixava lágrimas escorrerem-lhe pela face…
Love is blindness, I don’t wanna see… Won’t you wrap your arms around me… Oh my heart… blindness…

Maelström. Sob os seus pés, contra a falésia que à sua frente vertiginosamente caía sobre o mar, as ondas entrechocavam-se violentamente, abatiam-se com fúria sobre as rochas, enremoinhavam-se, criavam invencíveis correntes que giravam em todos os sentidos ao mesmo tempo, afogando as rochas que salpicavam a costa, pobres espectadoras indefesas contra uma raiva milenar.
No topo do promontório, o vento parecia querer rivalizar com o mar lá em baixo. Cabelos louros ao vento, braços abertos, Lisa na borda do promontório transfigurava-se em inerte farol. De olhos fechados, sentindo o vento dentro de si, uma só palavra lhe ocorria. Maelström. A literária e lendária fúria dos elementos, a sua fatalidade e obstinação em subjugar os homens. Era a única palavra que poderia descrever o seu estado de espírito naquele momento. O torvelinho interior dos seus sentimentos tornava-se parte de um caos maior que, ultrapassando-o, o absorvia. Naquele momento, Lisa queria exactamente isso: abandonar-se à fúria dos elementos, ser absorvida pelos ventos.
Sozinha no cabo do mundo, procurava deixar de pensar. Abriu os olhos e viu o horizonte inevitavelmente enevoado, como que ocultando o que do futuro surgiria, como que negando qualquer hipótese de sebastiânica ressurreição. Sentia a morrinha salgada colar-se-lhe na pele, nas pálpebras que cerrava por longos momentos, o sal que o vento trazia do furioso mar substituindo as lágrimas que sob esse mesmo vento secavam, eram levadas para longe, tornando-se parte integrante da interminável morrinha. Mais um ciclo se cumpria, pensava Lisa… A tristeza do mar, a desolação do vento tornava-se a sua própria desolação, a sua tristeza tornava-se a tristeza do próprio vento…
Maelström. E o vento soprava… Lisa não era mais que uma rocha entre rochas, imóvel à beira do precipício, assolada por todos os lados por rajadas de um vento que parecia querer arrancá-la da terra… Abriu mais os braços, levantou a palma das mãos para o ar, para receber ainda mais em si o vento redentor… o vento que lhe arrancava a espessa crosta de sal da imensa tristeza, que lhe fustigava a face e que dolorosamente, estranhamente, se parecia com enormes dedos acariciando-a… aconchegavam-na, como que a convidavam a ser uma de entre os seus, fúria entre as fúrias, prometiam-lhe que se tornaria por esta metamorfose em tornado, furacão, ciclone, giraria sem cessar sobre si mesma, titânica, majestática perante a pequenez dos problemas do mundo aos seus pés que arrancaria pela raiz… o vento gritava insidiosos apelos ao seu ouvido, prometia-lhe a omnipotência… e Lisa acreditava… acreditava que o futuro seria bem mais feliz quando voasse pelos ares a seu bel-prazer, venceria todos os males, esqueceria a foice alada da morte que de premente passaria a pequenina, insignificante…
Debruçada na varanda do barco, vendo a ligeira oscilação do Sena – tão pequeno também ele comparado com o vento que acordada sonhara – admirando os abstractos desenhos do fumo do tabaco afastarem-se devagar na noite, Lisa sorria ao transportar aquela recordação para o presente… Naquele momento em que, após a morte do pai, se afastara de todos e procurara a solidão, quando sozinha, desoladoramente sozinha, julgara que jamais aquela chaga se curaria, quando se abandonou ao vento e este a abraçou como sua companheira e, preenchendo o vazio no seu coração, fechou a sua ferida, naquele momento o Vento tornou-se o seu talismã, o seu protector inseparável… Lisa pensava como era engraçado que, naquela louca noite de Verão insone, o vento fosse uma vez mais o seu conforto, o elemento que faltava para a pacificar e a deixar dormir… Sorria porque aquela era a noite derradeira, a última vez que poderia contar com a loucura do vento para debelar a sua própria insanidade perante o mundo, tornando-a de novo sã ao arrancar-lhe a temporária loucura… E sorria também ao imaginar que ao levantar voo depois daquela última noite de provação, quando o seu barco no Sena se transfigurasse em Ícaro rumo às estrelas, seria também o seu amigo vento que com os seus dedos, na palma das suas mãos, os içaria nos céus e os transportaria até ao vazio do espaço… Sorria ainda ao imaginar os contornos etéreos da gigantesca mão, após os depositar sãos e salvos no seu caminho rumo ao sonho, vendo essa mão soerguer-se e acenar ligeiramente, dizendo adeus…

(continua...)
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 07:07
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!


Neste blog é permitido fumar





Be an Ocean Defender

Os melhores javalis


O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

As odisseias de Abraracourcix



create your own visited countries map

Abraracourcix o chefe falou sobre

11 de setembro(18)

aborto(28)

admirável mundo novo(5)

aeroporto(3)

afeganistão(1)

alemanha(1)

altermundo(9)

ambiente(14)

amnistia(1)

austrália(1)

birmânia(1)

brasil(1)

camarate(1)

cambodja(1)

cartoons(31)

chile(4)

china(4)

cinema(15)

coreia do norte(4)

cuba(1)

cultura(29)

dakar(1)

democracia(10)

desporto(29)

economia(13)

educação(2)

egipto(1)

espanha(3)

frança(8)

futebol(4)

gaulesa aldeia(20)

h2homo(7)

holanda(4)

hungria(1)

igreja(6)

imigração(3)

incêndios(2)

índia(1)

indonésia(1)

internacional(151)

irão(7)

iraque(18)

irredutíveis gauleses(16)

japão(1)

kosovo(1)

laos(1)

líbano(16)

lisboa(1)

literatura(3)

madeira(2)

mauritânia(1)

media(8)

méxico(1)

música(7)

nacional(102)

nuclear(7)

odisseias(4)

palestina(4)

paquistão(1)

peru(3)

política(13)

polónia(2)

porto(1)

prémios(13)

reino unido(1)

religião(7)

rússia(6)

saúde(13)

síria(1)

sociedade(37)

sócrates(4)

somália(5)

srebrenica(5)

sudão(1)

tailândia(2)

tchetchénia(2)

tibete(5)

timor(2)

todas as estrelas do céu(26)

turquemenistão(1)

turquia(4)

ue(10)

uk(6)

ulster(2)

usa(21)

videos(6)

vietname(1)

zimbabwe(2)

todas as tags

procurar nos discursos

 

discursos recentes

Abraracourcix e a sua ald...

O fim do petróleo - cenár...

Não às detenções secretas

Razões antropológicas par...

Altermundo reaberto

Vive la France

Bem vindos ao Turquemenis...

Break my arms...

Editors

O PCP e o Tibete: a minha...

O PCP e o Tibete: respost...

Mais um pouco de luz para...

Luz ao fundo do túnel par...

Mail por mim enviado ao P...

Eleitoralismo precoce

discursos antigos

Julho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Janeiro 2005

Outubro 2004

Setembro 2004

habitantes: