Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Castor (2)

(cont.)
Silêncio. Na casa escura, uma mera sombra destacava-se contra o negro da noite. Uma mera forma humana, sentada, em silêncio. Um fugaz clarão iluminou por momentos a sala, salientando a silhueta dos móveis, da cama onde se sentava. Depois extinguiu-se. Ficou apenas uma brasa, um cigarro acendido, uma nuvem de fumo turvando o desenho dos prédios e da cidade. Tamara levantou-se, sempre em silêncio caminhou até à janela. A brisa nocturna cumprimentou-a ao passar por ela, e uma pequena porção de cinza libertou-se do cigarro e foi caindo lentamente… Tamara ficou a olhá-la cair, imobilizar-se no chão em frente ao prédio, e então ergueu o olhar e contemplou enfim o horizonte da cidade.
Era assim que em alturas de grande tensão escapava, era sempre assim que deixava uma torrente de emoções libertar-se: o vento, o frio da noite passava por si e levava as suas lágrimas, os seus gritos calados, a sua raiva, levava-os pela cidade para que se diluíssem pelos ares, tornando-se parte da imensa mole de anónimos pensamentos que povoavam o ar, os edifícios, os pássaros adormecidos nos umbrais, o mar ao longe, as campas nos cemitérios, os veículos estacionados em frente às casas, os sem-abrigo tentando dormir nos vãos das escadas, tudo, tudo se misturava e a na noite da cidade tudo era um só… Naqueles momentos era reconfortante sentir que não estava só, saber que quando olhava a cidade também ela era a cidade…
Tamara respirou fundo, fechou os olhos, deixando que o ruído do silêncio fosse tudo à sua volta e tudo dentro de si… silêncio, apenas silêncio, apenas o silencioso rumor de nada a acontecer, o rumor da cidade parada quando nada acontecia, e ao mesmo tempo que o sentia Tamara sabia que algures numa rua erma alguém era assaltado, noutra rua a recolha de lixo era efectuada, num prédio uma luz apagava-se e mais um insone desistia e se rendia ao conforto de um sono sem sonhos…
E no entanto move-se, pensou ela… Adormecida, sim, mas uma cidade que dorme é sempre irrequieta, esperneia, enrola-se nos cobertores de nuvens feitos, tem sonhos belos e pesadelos terríveis, acorda, tem ataques de sonambulismo… Move-se e, no entanto, para quem a contemplasse de uma varanda, para Tamara, a cidade nocturna era a mais plácida visão imaginável, a calma da metrópole silenciosa contagiando-a também a ela…
Acordada na noite parisiense, Tamara terminava o cigarro pensando na noite em Dubrovnik, na sua cidade natal, na noite em tantas cidades por onde tinha passado, Porto, Firenze, Roma, Praga, Amsterdão, Barcelona… Sempre nas noites dessas cidades havia algo em comum, o silêncio nocturno quase tangível, as cidades adormecidas assemelhavam-se sempre aos olhos de Tamara à janela de uma qualquer casa num qualquer prédio numa qualquer rua…
Porque é que então aquela noite parisiense não a acalmava? Era uma noite insone, plena de pensamentos que não conseguia conciliar, uma certa fúria incontida que ao contrário das outras cidades aquela noite em Paris não conseguia aplacar… O que havia então naquela cidade que a tornava tão diferente das outras ao ponto de a sua noite não a deixar dormir? Ou seria aquela noite em particular, independentemente da cidade onde se encontrava? Seja como for, estas interrogações não a ajudavam a vencer a insónia…
A derradeira insónia, ocorreu-lhe então… A última vez em que dormiria sobre a Terra… seria isso que a impedia de convocar o sono à sua mente? A excitação, ou talvez o medo, ou a ansiedade, ou um pouco de tudo junto, conspirando na sua mente para a manter desperta, imersa em pensamentos soltos, linhas de raciocínio sem sentido…
Levantou-se e caminhou até à janela, como faria em Dubrovnik, como havia feito aí e em todas as cidades… Ficou imóvel a olhar pela janela, descalça, sentindo o frio do chão arrefecer-lhe os pés… Ignorou o desconforto. Era bom sentir algo no meio daquele torpor, nem que fosse o frio a invadir-lhe os pés… Pela janela via o rio ondulante, via o contorno dos prédios na margem oposta desenhar-se na água, e uma vez mais a sua mente vogava por todos os prédios de todas as cidades por que já tinha passado. Algo havia na noite que era para si imutável, que a rodeava sempre quando de noite olhava como agora a cidade… talvez a memória das cidades passadas, ou a brisa das noites passadas, ou seria Tamara a testemunha do etéreo namoro entre o espírito da noite e a alma da cidade, dos suaves beijos que trocavam no silencioso rumor da escuridão, amantes secretos, omnipresentes…
Amantes um do outro, sim, mas também os seus amantes secretos, amantes de que Romeo não sentiria ciúmes mas que ao mesmo tempo com ele não poderia partilhar, que apenas podia amar quando só os contemplava… E naquele momento, talvez sentindo o que Tamara sentia, a noite e a cidade pareceram unir-se numa carícia prolongada, e abraçados abraçaram também Tamara, e este amor a três fê-la sentir-se confortável, aqueceu-a por dentro, fê-la sorrir num secreto prazer… e apaziguada sentiu que, fechando os olhos, poderia enfim dormir… Deitada de novo, sentir-se-ia aconchegada, o calor de Romeo, seu companheiro para toda a vida, juntando-se ao estranho calor da cidade e da noite, fecharia os olhos e sonharia… com outras cidades, as cidades que construiriam em Zooropa, com outras noites… com a mesma noite…

De olhos fechados, Romeo sonhava, acordado ainda, mantido desperto pela irritante insónia. Era a derradeira vez que a opressão terrena, a razão pela qual fugia com os seus companheiros para poder sonhar, o impedia de dormir, a última noite assombrada pela surreal lucidez da insónia, repetia para si mesmo, mas nem isso o embalava no sono… como se naquela noite não fosse exactamente isso que o mantinha acordado, como se fosse algo mais que aquilo, alguma outra presença insidiosa… Talvez precisamente o facto de, em sentido literal, ser a última noite sobre a Terra, ou algo que precisava de pacificar dentro de si, algo que ia deixar para sempre naquele planeta e cujo conflito consigo mesmo – ou a saudade dentro de si que sentia dessa presença – precisava de debelar. A saudade… seria antes talvez algo daquele planeta que precisava de consolidar na sua mente, uma recordação, uma presença cujo espírito precisava de serenar em si para que a pudesse consigo transportar através das estrelas…
De olhos fechados, dunas recortavam-se na sua imaginação, autênticas montanhas de areia desenhando-se infinitamente até ao horizonte… Romeo sentia-se sozinho subindo e descendo as dunas, submerso naquele oceano em terra firme… firme, como se houvesse algo menos firme que as areias de um deserto… Romeo serpenteava por entre as dunas em direcção ao pôr-do-sol, sempre em busca do ponto mais alto para que a curva descendente do disco astral demorasse um pouco mais, para que as cores sublimes do céu crepuscular perdurassem um pouco mais em si… Mas do topo de cada duna a seguinte parecia sempre mais alta, e por isso Romeo caminhava sempre, incessantemente… e o sol ia seguindo o seu caminho inexorável rumo ao horizonte, cada vez mais vermelho, e a areia sob a sua luz cada vez mais laranja, reflexos oníricos, sombras fantasmagóricas, cada vez maiores…
Ao seu lado sentiu Tamara levantar-se, caminhar sem dúvida até à janela. Também ela sofria da mesma insónia, afinal… talvez todos os sete estivessem acordados naquele momento, talvez existisse dentro de cada um deles algo que, como nele, precisasse de ser conciliado com a consciência, uma saudade insaciável a mitigar definitivamente para que cada um deles transportasse para Zooropa aquilo que de mais importante existia naquele planeta, para que só depois de vencida a maior saudade que cada um deles tinha pudessem, um a um, dormir… O colchão abanou um pouco quando Tamara se ergueu, transportando-o de volta ao seu deserto – que não era nenhum em particular, continha algo de todos os desertos que Romeo já tinha visitado, muito sem dúvida do Sahara, um pouco do deserto da Arábia, um pouco de Mojave e de Atacama… – o colchão subindo e descendo tornando-se o ondular das dunas sob os seu pés.
O sol estava quase a encetar o seu desaparecimento sob o fio do horizonte quando Romeo finalmente parou no topo de uma duna, nem mais alta nem mais baixa que todas as que se desenhavam entre si e o horizonte poente. O céu ganhava progressivamente todas as gradações de azul que Romeo apreciava acima de tudo no pôr-do-sol, que depois de este desaparecer iriam escurecer lentamente, tornando-se cada vez mais violeta, e depois deslizando em direcção ao negro azulado da noite. À sua frente a sombra das dunas recortava impossíveis desenhos na areia, sombras ondulantes, qual oceano náufrago do mar…
Imóvel no topo da duna, um pé de cada lado do gigantesco erg, Romeo inspirava o vento de deserto, misto de poeira, cheiro de camelos, gritos beduínos, mas acima de tudo o enorme apelo do espírito do deserto… exortando à calma, fazendo-o ver quão ridículo, quão pequeno era tudo o que ficava para trás… Só aquilo importava, só o deserto, apelo mítico que o perseguiria para todo o lado, a cada momento lembrando-o do que realmente importava: continuar a caminhar duna após duna em busca do pôr-do-sol perfeito, sim, mas para além desta frase um tanto banal que era o seu lema, saber que ao abrir-se à presença do deserto, no topo daquela duna, Romeo era um dos eleitos, um dos que transportaria sempre dentro de si o seu deserto pessoal, uma parte daquele deserto original que nunca ninguém, nem mesmo uma noite de insónias, mesmo mil noites de insónia, alguma vez lhe conseguiria arrancar.
O disco solar tocava enfim a longínqua areia que fazia parte do mesmo deserto que Romeo tinha sob os seus pés, terminando enfim o seu périplo quotidiano, deixando o mundo descansar, deixando as dunas respirar enfim, libertas do opressor calor… e era àquela hora que os espíritos do deserto exalavam o seu primeiro suspiro, erguendo-se do meio das dunas, e Romeo ouvia-os respirar… eram seus irmão agora, todos reféns do mesmo apelo místico… e quando partisse, sabia que um espírito mais se libertaria daquelas areias a cada pôr-do-sol… O deserto seria sempre seu como ele seria sempre deserto, sempre o apelo beduíno dentro de si impelindo-o em direcção ao sol poente – e agora, pensava, de volta ao seu leito, era o mesmo apelo que o impelia em direcção ao próprio Sol, rompendo o firmamento por entre as estrelas até chegar à sua própria estrela, Zooropa… Em paz enfim, Romeo deslizava lentamente para o sono, ouvindo em seu redor o vento do Sahara, o seu assobio transportando até si longínquos sons berberes… tudo estava bem consigo naquele momento, e mesmo antes de adormecer em definitivo julgou ouvir ao longe alguém dizendo isso mesmo…
Waha…

(continua...)
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