Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

Castor (3)

(cont.)
Os lençóis queimavam. Naquela noite abrasadora, terminado o êxtase dos sentidos, o voo das almas, André não conseguia sequer ter sobre si o fino lençol. Sentia ainda o corpo suado após o derradeiro e maravilhoso, após o seu corpo e o de Vince se terem separado do seu abraço etéreo. Estava tanto calor que o suor não se evaporava, antes se colava aos seus poros.
De olhos ainda abertos, olhava o vulto do seu companheiro deitado a seu lado. Resquícios dos beijos, das carícias, da partilha dos corpos povoavam ainda o seu pensamento, apenas lentamente se desvanecendo… André nunca conseguia fechar os olhos imediatamente depois de fazer amor com Vince, ficava sempre algum tempo imóvel, o corpo nu sobre os lençóis, sentindo-se arrefecer devagar, o corpo relaxando… Naquela noite porém havia algo mais, sentia-o, que não o deixava fechar os olhos… como se houvesse qualquer coisa que precisava fazer antes de adormecer, antes de deixar aquele mundo e rumar às estrelas… Talvez Vince sentisse o mesmo, talvez não dormisse também, mas como era do seu feitio permaneceria de qualquer forma de olhos fechados, imóvel, tentando conciliar o sono ou apenas meditando… O que o atormentava era algo que precisava de fazer sozinho, como se algo dentro de si precisasse de sair, de ser libertado, para que não o levasse para outro mundo. Sem saber exactamente o quê, André sentia esse algo dentro de si a revolver, tentando descobrir a saída. Deixou-se embalar pelos seus pensamentos, sabendo que acabaria por descobrir o que o incomodava…
As águas do Sena iam, ondulantes, serenando o seu espírito, transportando-o pelos recantos da sua própria psique… Recordações, reflexões, medos iam deslizando por si, imagens surreais sucedendo-se como se fosse um quadro de um pintor que há muitos séculos havia pintado figuras saídas de sonhos… Voava sempre, passando por baixo de um gigantescos arcos branco erguido sobre as águas do mar, logo em seguida vendo materializar-se à sua frente uma gigantesca falésia que o fazia subir no seu voo para encontrar, no seu topo, uma verde planície onde druidas haviam erguido dólmenes em honra do ciclo sagrado do sol… depois passava por rios que serpenteavam de forma impossível, contornando cidades de abissais arranha-céus branco-azulados e amazónicas selvas de colossais árvores de um verde esmeralda… a paisagem sob o seu voo de anjo ia-se alterando a cada momento, transformando-se completamente a cada onda do Sena sob o seu leito…
Agora era uma montanha, mais alta que as altas montanhas à sua volta… André pousava no topo vendo apenas rocha em seu redor, escarpas, faldas, proeminentes picos… Estava no topo de um maciço montanhoso, milhares de metros acima do nível do mar, mas não havia neve, tudo era pedra, cinzento de granito ou avermelhado… André abria os braços, sentia o vento uivando contra si, a sua cara queimando com o contacto do ar gélido… Estava imóvel mas sentia que rodopiava em torno de si mesmo, ou talvez fossem as montanhas que giravam à sua volta… as mesmas montanhas que estavam presentes para todos os lados para onde olhava, perdendo-se no horizonte, ao longe perdendo nitidez, fundindo-se aos poucos com o céu e as nuvens… como se estivesse no topo do mundo, ao nível das nuvens, ao nível do céu… ali, na terra montanhosa que parecia ser o centro do mundo, o sítio de onde tudo o resto havia brotado… Ao mesmo tempo que esta sensação o entontecia dava-lhe também uma estranha sensação de pusilanimidade, como se o simples facto de ali ter chegado lhe tivesse conferido poderes especiais… Poder para fazer o mundo girar à sua volta, porque naquele momento nada mais importava senão a sua presença no topo do mundo, no centro do centro do mundo… quase sentia que se agitasse os braços, se fingisse que empunhava uma varinha mágica que executaria as suas ordens podia mudar o mundo a seu bel-prazer… Como se fosse um anjo, um anjo todo-poderoso…
E então de repente a mesma sensação de êxtase fê-lo sentir-se mais pequeno, cada vez mais pequeno, insignificante no meio de toda aquela imensidão… sozinho perante a demonstração de força do mundo, que havia erguido aqueles maciços, sentia-se de súbito humilde… Solitário no topo da montanha, não era agora anjo, mas apenas um extravagante eremita… E no entanto, qual Zaratustra, mesmo ciente da indiferença do mundo perante a sua presença ali, sentia-se imbuído de uma qualquer mensagem, como se a montanha tivesse acabado de lhe transmitir ensinamentos importantes que urgia mostrar ao mundo… Sentia-se estranhamente realizado, mas ao mesmo tempo invadido por uma terrível frustração por não ter ainda ensinado ao mundo as lições da Montanha… lições que nem ele sabia exactamente quais seriam, e continuaria sem o saber até as palavras brotarem dos seus lábios, ou até a missão de que fora encarregado começar a ser realizada pelos seus braços, sem que ele soubesse sequer porque os movia…
André sentia-se o profeta da montanha, importante porque através de si, depois de si, o mundo viveria melhor… Sentia-se ao mesmo tempo angustiado porque se sabia incapaz de realizar a tarefa para a qual a Montanha o enviava… Ou talvez tudo aquilo fosse apenas a bizarra sensação de algo de grande que interiorizara, que seria apenas seu e que o faria uma pessoa mais consciente… só com o tempo iria aprender consciente do quê… Por ora, e até que essa espécie de omnisciência se concretizasse, seria apenas como que um anjo caído sobre o mundo…
Curioso, lembrava-se agora André, a Tamara chamou-me isso mesmo da primeira vez que me viu… Estranha espécie de empatia entre nós… Tamara, minha amada irmã… juntos, eu, o Vince, tu e os nossos amigos cumpriremos enfim a profecia da Montanha… o sonho de um mundo melhor, onde todos seremos conscientes, onde todos teremos a oportunidade de o melhorar, para nós e para os outros… amanhã, Tamara, partimos para esse mundo, em busca da perfeição, da nossa perfeição… Obrigado, Montanha, por me fazeres perceber o que faltava, o meu lugar entre estes sete magníficos, a minha missão particular… Boa noite, Tamara, minha doce irmã…
Virou-se automaticamente de lado, já meio a dormir, abraçando Vince pelas costas, beijando-lhe suavemente o pescoço, como todas as noites…
Boa noite amor…

Vince sentia-se a voar. Abraçava André com força, os seus corpos unidos, extáticos. Aquela união era como que mágica, fazia-o sentir que algo de sobrenatural acontecia, algo que escapava ao seu controlo… Nada podia, nada queria fazer perante aquela sensação de que algo queimava dentro de si, e era esse algo que o fazia voar… Amor era a única palavra que conhecia que o podia escrever, mas uma palavra descrevia tão pouco…
Dois corpos suados sobre os lençóis abraçavam-se, beijavam-se, cada vez mais loucamente, trocavam de posições para que ambos pudessem sentir de outra forma o mesmo prazer, dois corpos entrechocavam-se na loucura daquela comunhão, e então não eram só os corpos que enlouqueciam, era toda a alma que vibrava… gritos abafados reflectindo um imenso prazer partilhado a dois e que não poderia admitir mais ninguém senão aqueles dois… Por duas vezes um grito mais audível escapou à clausura das paredes e ecoou discretamente pelo resto do barco, primeiro André, mais tarde Vince, não conseguindo evitar aquela exclamação do derradeiro êxtase dos sentidos, êxtase da própria alma…
Terminada a partilha, chegava a altura do descanso, merecido repouso de dois corpos que haviam voado por altas paragens… Contrariamente ao habitual Vince não se sentia totalmente pacificado, tornava-se difícil impedir a sua mente de vaguear sem destino por ermos pensamentos… Pensava sem cessar, pensava sem sentido, uma ideia não durando mais do que alguns segundos, como se a sua mente procurasse no seu âmago o pensamento que pretendia, um e um só em particular que o permitiria sentir-se totalmente em paz…
Imagens de casas, ruas, estradas, rios, florestas iam-se sucedendo alucinantemente, como se a sua mente tivesse de sua própria iniciativa uma viagem que só ela sabia onde iria terminar… Florestas… sim, seria isso então… A cor verde tomou de assalto a sua imaginação, verde por todo o lado, alternando com o branco, altos pinheiros cobertos de neve, um manto branco que tudo cobria, deixando apenas a descoberto algumas ramagens… Vince e André corriam por entre as árvores, atiravam bolas de neve um ao outro como se fossem ainda crianças, de novo tornados crianças, riam sem cessar… Vince trepava aos penedos mascarados de branco, saltando cautelosamente de rochedo em rochedo, o espesso manto da neve permitindo-lhe também pisar os ramos das árvores que só assim suportavam o seu peso, usá-los e à espessa neve que os cobria para chegar mais alto, uma incontrolável pulsão levando-o sempre a subir, fugindo de André ao princípio e, depois de este desistir da perseguição, em busca de uma vista melhor, ou talvez apenas porque não se conseguia impedir de subir…
Chegado enfim ao topo do penedo olhava pela primeira vez para trás, para baixo, via toda a floresta a seus pés, a copa das árvores prolongando-se pelas montanhas fora, verde e branco sempre, um leve nevoeiro dando à floresta uma aura um pouco fantasmagórica no silêncio apenas quebrado por eles os dois… André olhava-o muito em baixo, um pouco assustado mas sabendo que era impossível impedir o seu companheiro de subir a todos os montes que lhe pareciam apetecíveis… eram os seus genes da sua família paterna, dizia sempre a rir-se, do seu pai criado na montanha, embora Vince só por raras vezes na sua infância tivesse passeado por aquelas altitudes…
No cume do monte Vince sentia-se completamente realizado, como se toda a sua vida se resumisse a uma busca por aquele local em particular, aquela paisagem vista do cimo daquela rocha, como se sem o saber todas as suas acções nada mais tivessem como objectivo senão chegar ali, vencer aquela subida e enfim parar, respirar fundo, abrir os braços, sentir o vento gelando-lhe as faces, ver a sua respiração condensada juntando-se ao nevoeiro, e o silêncio… o silêncio daquele frio que lhe queimava a pele e ao mesmo tempo as entranhas, como se de repente todo ele fosse feito de gelo… Deitou-se de costas sobre a neve e ficou ali, de braços abertos olhando as copas das árvores rasgando o céu, tentando cercá-lo… De braços abertos, afundados na neve, abarcando todo o alvo céu, protegendo-o contra a investida do arbóreo verde, e na distância pareciam ser apenas as suas mãos a segurar os ramos para que estes não ferissem o céu…
Fechou então os olhos e imaginou-se gigante, os seus braços segurando de facto as copas dos pinheiros, olhando o céu, contemplando o nevoeiro espraiando-se frente às níveas montanhas, branco contra branco, e este contra o verde… Mas ao mesmo tempo nenhuma oposição existia, tudo se completava e formava uma incomensurável placidez… toda a paz do mundo reunida ali sobre os olhos fechados de Vince… e este imbuído dessa enorme paz, o vento da montanha soprando contra os vidros do barco, aplacando o calor do Sena… e Vince já não tinha consciência se estava ainda na montanha ou apenas sobre os lençóis húmidos, já não ouvia André ao longe chamá-lo do sopé do penedo, já não ouvia o vento serpenteando por entre as árvores… tal como, sonhando já, não ouviu André ao seu lado na cama murmurar-lhe ao ouvido uma derradeira palavra de amor antes do sono, ou julgou que era o André que tinha ficado na montanha, ou parte do seu sonho já… Mas no seu sono respondeu-lhe, e não saberia se apenas no sonho falou ou se naquele quarto…
Boa noite, dorme bem, sonhos lindos, até amanhã… e não soube também se o braço de André apertando-se mais contra o seu peito era também parte do seu sonho ou apenas o carinho da sua alma gémea adormecendo ao mesmo tempo a seu lado…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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