Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Caph (1)

A cidade parecia flutuar… Vista da amurada do barco, as silhuetas nocturnas dos prédios cintilavam como pirilampos, turvadas pelas ondas de calor que se desprendiam, findo o dia, do solo… Vistos ao longe, os arranha-céus pareciam fantasmas, espectros vindos de propósito àquele local como se soubessem o que se ia passar…
Seis seres debruçavam-se lado a lado sobre o leito do Sena, naquela noite invulgarmente fluído, como se também ele soubesse o que se ia passar e pretendesse assim dizer que não os prenderia ali, que a sua viscosidade, que normalmente o tornava pastoso, não seria um obstáculo… Seis vultos silenciosos, olhando a cidade do outro lado do rio, os rostos tensos, todos pensando no mesmo mas nenhum ousando falar…
Paris na noite era de facto um gigantesco fantasma, naqueles tempos em que não se sonhava um enorme e escuro silêncio. As luzes dos cartazes publicitários continuavam a ser pirilampos intermitentes, os arranha-céus continuavam a brilhar e a encandear a cúpula celeste, tapando com a sua diáfana luz o eterno e distante fulgor estelar, mas ninguém havia que os contemplasse, as ruas daquele tempo transformadas em desertos urbanos pelos que em casa dormiam abúlicos sonos… Mesmo aqueles seis espíritos pareciam perdidos na noite parisiense, anónimos porque ninguém era testemunha da sua angústia, meras presenças que não pertenciam àquele sítio como não pertenciam a sítio nenhum…
Todos olhavam na mesma direcção, quase era possível ver pequenas setas de ansiedade desprendendo-se dos seus olhares, voarem sobre o rio, cravarem-se na margem oposta. Se alguém por aquelas ruas passeasse pensaria à primeira vista pareceria que contemplavam apenas a nocturna visão parisiense, a desoladora paisagem urbana de um tempo em que tudo era sono e nada era sonho… Deserta daquela forma a cidade parecia como que um vestígio arqueológico, mero testemunho de pretéritos tempos em que a Luz nela reinava… Se alguém houvesse para além deles que naquela noite não conseguisse dormir talvez pudesse então, num olhar mais atento, perceber que aqueles olhares se cravavam não na mórbida contemplação da Luz adormecida, mas antes em algo que se passava do outro lado do rio… Alguém se movia de facto na outra margem, alguém dava asas a desígnios obscuros como noutros literários e sangrentos tempos…
Os seis seres que se debruçavam sobre o parapeito do seu barco-habitação não desprendiam os olhos daquele outro ser, inquietando-se nitidamente com algo que secretamente estava a ser levado a cabo na margem oposta.
Porque demora ele tanto? André falava baixinho, como que para si mesmo, tentando não romper o silêncio tenso que se estabelecera. Do outro lado do rio, Vince continuava a sua actividade secreta, mexendo aqui, caminhando para acolá, como se procurasse o sítio certo, como se por algures por baixo da rua marginal ao rio estivesse escondido um tesouro de corsários… Quando finalmente Vince levantou algo do chão e desapareceu de súbito por um buraco que ele próprio assim criara no pavimento, os seis que o observavam não puderam deixar de esboçar um ligeiro sorriso de contentamento, mas ao mesmo tempo os seus corpos tornavam-se ainda mais tensos… agora não o podiam ver… Apenas podiam imaginar, cada um por si, o que o amigo estaria a fazer naquele momento, nenhum deles reparando que todos imaginavam em voz alta e que o que assim mentalmente viam se tornava a continuação do que imediatamente atrás tinha sido pensado e proferido…
Agora ele está a tactear no escuro, por baixo da calçada, procurando a caixa eléctrica…
Mas ele não quer ser electrocutado, não é estúpido, acendeu a lanterna, e encontrou logo o sítio para onde os cabos confluem…
Que cabos enormes! Cada um deles é suficientemente potente para iluminar um quarteirão inteiro, e todos seguem na mesma direcção…
O Vince está a caminhar lentamente na mesma direcção onde os cabos se vão tornando mais próximos… já consegue distinguir ao longe a grande caixa distribuidora onde todos se juntam… só mais um pouco…
Aqui está! É isto que queremos… agora ele está a unir o revestimento de todos os cabos com o fio condutor… é tão fino, será que chega para os interromper a todos? Ah, ele está a enrolar mais fio, juntando-o, unindo-o à pilha-relógio… Quanto tempo? Uma hora? Tanto tempo… e ao mesmo tempo tão pouco… E se ele fica ali preso, se não consegue sair?
Não, ele já ligou o relógio, já começou a contar, já virou costas àquela tralha toda, está a voltar…
Já aqui estou! Os seis companheiros estavam tão absortos na própria imaginação do que Vince estaria a fazer que não o viram regressar, bem mais rápido do que nas suas mentes, não o ouviram sequer entrar no barco nem chegar perto deles e exultantemente interromper o silêncio. O resultado foi o mais lógico: todos saltaram de susto, contendo-se a custo para não gritar de pânico… Vince, claro, não conseguiu evitar rir-se perdidamente…
Desculpem, mas isto é mesmo cómico! Se vissem as vossas caras, como se tivessem visto um fantasma!
Mas foi quase como se víssemos, Vince, e não tem graça nenhuma. André fingia-se chateado para assim conseguir mais rapidamente que Vince o abraçasse. Começámos todos a imaginar os teus passos depois de desapareceres por aquela conduta adentro, de forma tão real que era como se o que víamos estivesse mesmo a acontecer… pelo menos nós acreditávamos que estava a acontecer…
Quando chegaste e falaste mesmo por trás de nós estávamos a imaginar-te a acabar de montar o relógio e a regressar… completou Tamara, a voz ainda embargada com o que restava do medo.
Ok, já percebi, fui mais rápido que a vossa imaginação! Vocês subestimam-me, meus caros… eu, super-Vince, mais rápido que o pensamento! Os gestos patéticos de Vince, fingindo que voava a velocidade supersónica foram suficientemente cómicos para todos se rirem abertamente, sacudindo toda a recordação do enorme susto.
Isso quer dizer que temos o quê, uns cinquenta minutos? Ramón arriscava o palpite, olhando o relógio, tentando calcular o tempo que Vince demorara a atravessar o rio e regressar ao barco.
Mais ou menos isso… disse Vince. Tempo de mais, não acham?
Sim, tempo a mais… Penélope agarrava a mão de Ramón, não querendo largá-lo nem por um momento naquele derradeiro acto… Mas se queres que te diga, comparado com a noite passada não vai ser nada…
Tu também? Romeo acenava com a cabeça, como que dizendo que também ele demorara uma eternidade a adormecer. A mim também me custou imenso a adormecer… alguma coisa me distraía sempre, me impedia de perder consciência dos meus próprios sentidos…
Exactamente, eu senti o mesmo… E sabia que a Pen também estava a passar por isso, mas havia algo que me impedia sequer de a abraçar… tinha de ser ela só a vencer aquela insónia, tinha de ser eu só a descobrir a forma de adormecer… Ramón agarrava ainda mais a mão de Penélope, gestualmente dizendo-lhe que, mesmo que os dois tivessem tido de lutar a sós, de alguma forma ele sentira o desespero dela juntando-se, acumulando-se ao seu.
Eu sei o que querem dizer… Tamara, embora querendo falar para todos, não conseguia deixar de olhar os olhos de Romeo, também eles assim se descobrindo cúmplices na solidão daquela noite sufocante. Sentia que, embora soubesse que o Romeo estava tão aflito como eu, tinha de estar sozinha, não podia ter a ajuda de ninguém…
Aparentemente todos passámos pelo mesmo… Lisa era a única que não tinha ninguém que abraçar naquela comunhão dos casais, e os seus olhos, saltando intermitentemente entre todos eles, diziam isso mesmo… Talvez também alguma tristeza latente, porque todos se sentiram impelidos a abraçá-la, e Ramón e Penélope mais que todos, tomando-a nos seus braços, como se naquele momento ela não fosse mais que o seu bebé desprotegido… Lisa sentia todo o carinho dos seus amigos perpassando todos os seus poros, e foi com lágrimas nos olhos que acabou o que queria dizer. Eu era a única que não tinha ninguém ao meu lado, que não sabia se mais alguém estava a passar pelo mesmo… Mas acho, agora que estamos aqui a falar sobre isto, que todos nós tínhamos – temos – algo em nós que precisamos absolutamente de transportar na nossa longa e incerta viagem, qualquer coisa do nosso passado que estava em conflito connosco mesmos e que precisávamos de aplacar para a podermos levar dentro de nós…
É, parece mesmo que todos passámos pelo mesmo… Vince olhava para André, ternamente recordando a maneira como depois da insónia haviam adormecido juntos. Tu também, amor, não foi?
Sim… André sorria beatificamente, sentindo de novo aquele abraço especial na noite anterior. E eu senti-te também acordado, mas foi como a Tamara disse, tinha de ser eu sozinho a vencer aquela espécie de fantasma… Mas não concordo que fosse algo que tivéssemos de vencer, para mim teve mais a ver com saudade… Foi quando me veio à cabeça aquilo de que mais gosto neste mundo, o que eu de mais querido levarei dentro de mim, que me consegui pacificar… Imaginei-me no topo de uma montanha, sentia-me no cimo e no centro do mundo… Montanhas a toda a minha volta… é essa a imagem que levo comigo, que simboliza o que sem dúvida estará sempre comigo.

(continua...)
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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