Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

Caph (2)

(cont.)
Se calhar todos nós passámos pelo mesmo… Todos nós talvez não conseguíssemos vencer a saudade e por isso ela nos mantinha acordados… Eu imaginei-me numa montanha coberta de neve, trepando penedos, olhando as copas das árvores a perder de vista, o seu verde coberto pelo branco da neve… Por isso acho que se trata de qualquer coisa que tivemos de vencer, porque ao concluirmos que há algo deste planeta que estará sempre connosco reconciliamo-nos com ele e deixa de haver razão para a saudade… pelo menos a parte triste dela… Vocês concordam? Era uma pergunta retórica, pois intimamente Vince já sabia que todos haviam passado por experiências em tudo paralelas.
Sim, sem dúvida… Lisa estava ainda abraçada aos seus dois companheiros, o conforto dessa comunhão secando-lhe as lágrimas do que não havia sido dito, do que não tinha sido preciso ser dito… era, então, o intenso amor entre os três que a confortava… Foi um misto de luta para que a saudade desaparecesse e de união com a parte boa dessa saudade… a mim foi o vento que me tranquilizou… senti-me à beira do mar, num promontório, de braços abertos sentindo o vento fustigar-me o corpo, abraçando-me ao mesmo tempo…
O que eu acho é que todos nós sentimos a necessidade de termos um companheiro etéreo. Ramón olhava todos os seus amigos, sabia que tudo o que dizia era tanto tirado da sua insónia na noite passada como da insónia de todos eles, e que eles sabiam que ele sabia o que eles também sabiam… Precisamos de manter na viagem que vamos fazer alguma coisa que para nós se transforma numa entidade, que neste planeta sempre sentiu para nos acompanhar nalguns momentos especiais e que precisamos que nos continue a acompanhar… A minha companheira secreta, íntima, é a noite… uma espécie de feitiço que às vezes se apodera de mim, que levarei sempre comigo… sei que vamos viajar pela noite eterna, mas é como se precisasse de algo das noite terrestres… E quase adivinhava aquilo que tu imaginaste, Pen, e que vais levar contigo…
O mar, claro… haverá sempre mar dentro de mim mesmo no mais recôndito lugar deste sistema solar… haverá sempre o som das ondas, o eterno rumor das ondas contra a costa… Se não fosse isso, se não pudesse imaginar o mar quando estivermos lá longe tenho a certeza que acabaria por enlouquecer…
Para mim será uma outra espécie de mar… Tamara e Romeo sentiam que também eles deviam revelar o seu amigo imaterial, e ele deixou de a abraçar para poder falar no seu típico modo italiano, feito tanto das palavras como dos gestos que as acompanhavam. Para mim é o deserto… eterno como o mar, instável, misterioso como o mar… o deserto é também circular, é isso que nele me fascina… o apelo do deserto, como se sempre que longe dele estivesse a ele tivesse rapidamente de voltar… o apelo do deserto como o apelo das sereias, o mesmo horizonte ondular confundindo-se ao longe com o céu… mas agora sei que levo comigo esse apelo, mas que ele não me fará querer voltar ao deserto, antes é ele que voltará a mim quando precisar… levo comigo o meu coração de beduíno…
E eu levo no meu o coração das cidades… Tamara falava agora, fechando o círculo das confissões, os sete elementos eternos que faziam parte deles agora unindo-se de alguma forma tal como eles os sete, abraçando-se num círculo cerrado, se uniam – se haviam já unido – também. Levo comigo a noite das cidades, aquelas alturas em que vejo o horizonte dos prédios, as luzes das ruas, o silêncio, aqueles momentos em que ninguém existe na cidade para além de mim, em que ninguém existe para além de mim e da cidade, eu e ela tornados um só… Quem me tirar as cidades tira-me tudo, costumava sempre pensar, e agora sei que não mais haverá forma de mas tirarem…
Juntos num fraternal abraço, deixaram as palavras de Tamara ecoarem, perderem-se pelos ares… E foi como se todos pretendessem seguir com o olhar essas mesmas palavras, cada vez mais esparsas, levadas pelo vento até aos prédios em seu redor, até ao horizonte citadino… E ao olharem assim de novo a cidade em seu redor, os prédios do outro lado do rio, olhavam as cidades de Tamara, e foi como se as suas palavras tivessem, ao tocar em cada janela, despertado a cidade… porque algo acontecera naquele momento numa cidade onde já nada acontecia…
Todos eles sentiram a descarga eléctrica, a pilha montada por Vince causando o planeado curto-circuito no desejado momento… vários quarteirões à sua volta ficaram completamente às escuras… todos sentiram a escuridão despertar as pessoas… porque instintivamente sentiam que algo estava para acontecer… porque algo estava a acontecer…
Os sete companheiros desapareceram de vista, dividiam-se nas tarefas previamente combinadas para aquele fulcral momento… Em poucos minutos o barco mudou completamente de aspecto exterior… o parapeito onde ainda há pouco conversavam já não existia, as janelas pareciam cobertas por uma camada de qualquer material de aparência tão inquebrável como fulgente…
Nos prédios subitamente mergulhados nas trevas as pessoas surgiam (talvez pela primeira vez em anos) às janelas, tentando descortinar que estranho evento os privara da tão querida e narcótica televisão… como se de uma hipnose se tratasse, todas as pessoas que àquela hora tardia estavam ainda a pé assomavam às janelas… despertando estremunhados, os que dormiam queriam saber que trágico cataclismo os havia acordado, e apareciam também às janelas, olhavam o plácido Sena à sua frente, silencioso naquela noite como em todas as outras… E de repente todos viram algo levantar-se das águas… um estranho aparelho voador içava-se, subia aos céus, lentamente ganhava altitude, muito lentamente, para que todos o pudessem ver, para que todos percebessem o que se passava… para que todos soubessem que algo escapava à gravidade terrestre… algo escapava ao torpor da vida terrestre, algo levantava voo… alguém… (a palavra existiria ainda no léxico dos parisienses, constaria ainda dos dicionários de todas as línguas?) … alguém imaginara uma forma de escapar… alguém quisera escapar… alguém ousara sonhar…

Olhavam pelas janelas da péniche transformada em nave, viam a cidade cada vez mais distante, cada vez mais pequena… Sentiam a curiosidade, a confusão das pessoas que os olhavam… porque sabiam que eram observados por toda a gente nos bairros à sua volta, talvez em toda a cidade…
Sabiam que a curiosidade continuava latente mesmo nos espíritos entorpecidos, e por isso todos tinham acorrido às janelas, todos os tinham visto levantar-se nos céus, tentando – em vão, ainda – compreender o que se passava. O aparelho de rádio transmitia-lhes as primeiras notícias veiculadas depois da surpresa inicial dos parisienses… Enquanto contemplavam o mundo terrestre a diminuir, as palavras do rádio ecoavam difusamente nas suas mentes… Um misterioso aparelho voador ergue-se neste momento nos céus de Paris… De origem desconhecida, aparenta ser um barco, uma péniche de alguém que habitava nas margens do Sena, transformada em veículo espacial… obra de alguém que… não sei bem as palavras… alguém que pretende viajar pelo espaço, sabe-se lá com que intentos… Talvez terroristas… gente que julgávamos extinta, gente que pretende sabotar o nosso mundo, o nosso querido modo de vida, a nossa segurança eterna… ficaremos atentos, caros ouvintes, não deixaremos de os informar sobre as causas destas pessoas que pretendem, acto ignóbil!, despertar-vos do sossego do vosso lar, pretendem fazer-vos pensar, supor, imaginar possibilidades, em suma pretendem consumir-vos e consumir-nos a todos com pensamentos que para nada servem a não ser para vos acordarem…
Não são assim tão obtusos… comentou Penélope… se continuarem nesta linha chegam lá depressa…
E quando receberem a nossa mensagem, o nosso último recado para o mundo, terão uma ajudinha… Ramón entretinha-se com os comandos da nave, preparava a mensagem que iriam difundir, via satélite, para todos os canais de todo o mundo, a sua “declaração de intenções”, como gostava de lhe chamar, que transmitiria assim que atingissem a altitude certa.
À excepção de Ramón (pelas suas qualificações unanimemente eleito como piloto), todos olhavam ainda a Torre Eiffel, vigilante sobre Paris, olhavam a cidade cada vez mais ao longe, cada vez mais perdida no meio dos campos à volta, viam já outras cidades, que por sua vez se tornavam apenas concentrados de pontos luminosos, viam a Europa, viam o oceano banhando a Europa… Olharam para cima e viram então as estrelas, todas as estrelas do céu, o oceano que banhava Zooropa…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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