Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

Aldebaran (1)

Fogo fátuo

“Ouvimos falar da vossa aventura. Sabemos tudo. Estávamos à espera de vocês… Fantasmas do passado assombram-nos. Ajudem-nos a exorcizá-los.”
O silêncio. Durante alguns minutos, nada a não ser silêncio. E aquelas palavras ecoando uma e outra vez, repetindo-se, entrechocando-se… Ninguém se mexeu, ninguém conseguia mover um só músculo, articular um só pensamento.
Demorou alguns minutos até começarem a interiorizar o significado daquelas palavras, a recordarem-se de onde vinham, tentar perceber porquê. Nenhum deles pensava sequer que alguém os poderia contactar dali…
Não… não compreendo… Penélope, tremendo, abanava a cabeça em sinal de incredulidade. Pensava que já não… pensava que tinham todos regressado, que a colónia estava totalmente abandonada… O que quer… o que querem estas palavras dizer?
Pelos vistos, Pen, ainda há vida em Marte… Romeo tentava racionalizar o que acabara de se passar, sintetizar tudo para compreender a razão. Era suposto todos os colonos terem regressado à Terra no início da última não-guerra, foram todos convocados… Pelo menos foi o que saiu nas notícias na altura.
Mas se houve pessoas na Terra, como nós, que conseguiram escapar, é possível que em Marte tenha acontecido o mesmo.
Mas não faz sentido, Vince. Pen continuava céptica, parecia querer acreditar que o que tinham ouvido tinha sido apenas uma alucinação, mas as palavras que ecoavam ainda pela nave com intervalos de alguns minutos não a deixavam acreditar naquilo que a sua mente a tentava fazer crer… Se todas as naves partiram para a Terra, com certeza levaram tudo o que lá havia… Como é que os que ficaram sobreviveram? Estiveram estes anos todos sozinhos, sem comida, sem nada… é impossível…
Parece impossível, Pen, mas tem de haver uma explicação. Ramón abraçava-a, como se os dois unidos pudessem descobrir a chave do enigma. E quanto a mim só vamos descobrir se acedermos ao pedido que nos fazem, se formos ter com eles… Vince, tens a certeza que não é possível responder? E a origem da mensagem é mesmo Marte, não poderá ser alguma cilada, sei lá, para nos fazerem voltar à Terra?
Não, não faz sentido… porque raio nos haviam de enviar uma mensagem de supostos sobreviventes marcianos se a ideia fosse fazerem-nos voltar? E a mensagem é mesmo de Marte, não há engano possível… É frustrante não podermos responder! Porque é que não instalámos também um transmissor-emissor, em vez só do receptor?
André aproximava-se de Vince, afagava-lhe o cabelo para o consolar. Não vale a pena culpabilizarmo-nos, amor. Foi de comum acordo que decidimos não instalar um emissor porque sempre pensámos que não faria falta… as únicas pessoas a quem poderíamos transmitir seriam os que estão na Terra, e a esses nós não queríamos, não tínhamos nada para dizer… o nosso acto de rebeldia foi silencioso, simbólico… é suposto os nossos actos valerem por eles mesmos, e se não nos compreenderem pelo que estamos a fazer não vale a pena…
Aliás, se bem me lembro, só pusemos o receptor para ouvir a reacção deles quando descobrissem a nossa fuga, o nosso plano… Tamara juntava-se aos outros, todos debruçados sobre o painel de comandos, como se olhar para o rádio-receptor lhes trouxesse todas as respostas de que necessitavam…
O Ramón tem razão, seja como for… Só vamos obter algumas respostas se formos ter com eles. Por isso quanto a mim só há duas alternativas: ou arriscamos e pousamos em Marte para descobrir o que se passa, ou esquecemos as nossas interrogações e continuamos o nosso caminho como até aqui.
A Pen tem razão. Vince, tomando a liderança do grupo, virou costas aos controlos e caminhou para o centro da nave, como que pedindo aos outros para olharem para ele. Não vale a pena ficarmos aqui horas a fazermo-nos perguntas que por enquanto não têm respostas. Precisamos de decidir. A mim parece-me que as palavras têm um tom de desespero… como se houvesse realmente algo de ameaçador prestes a acontecer… Por mim mudamos já a rota e vamos para Nova Babilónia. Aterramos o mais suavemente possível, e não saímos da nave enquanto não tivermos a certeza absoluta de que vamos poder regressar. Seja como for, a nossa Argo levanta voo suficientemente depressa, se for preciso fugirmos ou algo do género. Olhava carinhosamente para os comandos da nave que ele próprio desenhara e não conseguiu impedir um ligeiro sorriso de orgulho pela sua obra. Quem concorda comigo?
Tens razão, como sempre, Vince. Se não fosse o teu espírito prático ficávamos aqui horas a discutir só para no fim decidirmos o mesmo. Lisa olhava em volta para ver as reacções dos outros. Todos acenavam com a cabeça e faziam gestos de aprovação. Vamos para Marte então!
As horas seguintes foram de uma ansiedade extrema, de tensão como já não sentiam desde as primeiras horas da viagem. Depois da descolagem todos tinham estado nervosos, temendo alguma possível represália, algum castigo pela sua fuga, algum plano ardiloso para os reter na Terra. Tinham pensado em mísseis, em naves que os perseguiriam, em pedidos desesperados das autoridades com promessas de que tudo iria ser diferente para eles se regressassem… mas nada disso tinha acontecido. As pessoas estavam ainda ou demasiado incrédulas para reagir ou simplesmente não haviam dado qualquer importância ao caso – ou pelo menos teria de ser essa a imagem pública a transparecer…
Quando se tornou claro que nada iria acontecer a tensão desapareceu totalmente, e a partir daí a viagem tinha sido calma. Todos se tinham entregue aos seus passatempos tranquilamente, conversavam, discutiam o que ficara para trás e o que os esperaria no futuro. Reinou durante dias a fio um imenso bom humor na nave, todos se aprendiam a conhecer ainda melhor, se maravilhavam com cada pequena coisa que aprendiam acerca dos outros. Pouco havia que fazer para comandar a nave, pois a rota havia sido pré-determinada e não era suposto ser alterada até poucos dias antes da chegada. Tudo o que havia a fazer era confirmar que a nave não se desviava do caminho que tinham traçado e verificar que todos os indicadores estavam normais: a filtragem de ar, o oxigénio, a temperatura, a gravidade… Tudo mecanismos extremamente simples concebidos por Ramón e passados à prática pelo “sr. engenhocas”, como carinhosamente tratavam Vince.
Com o passar dos dias, no entanto, o bom humor tinha-se desvanecido aos poucos, levado pelo excesso de ócio e por dias e dias a fio passados num espaço originalmente desenhado para ser um barco habitado por duas pessoas e que tinha sido transformado numa nave – com o que isso significava de espaço útil consumido pelos comandos e pelos mecanismos de voo e de apoio à vida dos tripulantes – a que estavam confinadas sete pessoas. O “síndroma de cabine”, como era hábito chamar-se aos efeitos prolongados de viver em permanência com outras pessoas num local de reduzidas dimensões, começara a causar algumas discussões. Lisa passava por vezes longas horas sozinha e sem falar com ninguém, com ciúmes de Ramón e Penélope, ou então era esta que se juntava a Lisa de costas voltadas para Ramón, Tamara e Romeo, como que ostentando a sua indiferença em relação às suas animadas discussões sobre Física Quântica. Felizmente todos eram capazes de relativizar estas pequenas tensões e de compreender porque aconteciam, e assim a amizade daqueles sete aventureiros saía sempre fortalecida e todos acabavam a rir do que se tinha passado.
Quando a mensagem fora recebida, todos intimamente respiraram de alívio por algo diferente finalmente estar a acontecer, algo que quebrava a rotina, que os faria agir. A decisão de rumar a Marte tinha sido tomada por cada um deles em silêncio no momento em que ouviram a mensagem, mas ao mesmo tempo tinham medo… medo de que aquele imprevisto os impedisse de prosseguir a sua odisseia, de que não fosse possível chegar a Zooropa… E por isso se sentiam tensos, porque as energias acumuladas os faziam prestar uma atenção desmesurada a cada centímetro que Marte crescia visto das janelas, a cada piscar de um dos comandos, e porque o medo de que o que parecia ser um pedido de ajuda se tornasse num contratempo inultrapassável os fazia pensar em miríades de hipotéticos cenários e rocambolescas peripécias dignas dos romances de aventuras que há sete séculos ninguém escrevia e que deslumbrados haviam lido na loja de André e Vince…

(continua...)
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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