Sábado, 28 de Outubro de 2006

Aldebaran (2)

(cont.)
Marte… o assombroso planeta vermelho que tantas vezes ao longo dos séculos tinha sido amado, sublimado, cantado e odiado pelos homens em vista de toda a carga simbólica que tinha, num misto de intenso fascínio e temeroso respeito – o planeta da morte, o planeta-deus da guerra, o deserto a povoar, a missão última do Homem, os marcianos – exercia gradualmente o seu poder de hipnose todos os tripulantes da nave. À medida que a rubra esfera marciana ia enchendo o horizonte e que tudo se cobria de reflexos acobreados, nenhum deles conseguia pensar em nada que não fosse aquele planeta ainda tão misterioso… Era fácil perceber a razão de tantos se terem sentido atraídos por Marte, e ao mesmo tempo por que o tinham depois abandonado: a partir daquela altura, todos os sete sabiam que mesmo que quisessem não conseguiriam voltar para trás, e esse pensamento enchia-os de curiosidade e ao mesmo tempo de medo… O silêncio, um duro silêncio, perdurou durante aqueles minutos sem que ninguém estivesse dele ciente, pois Marte era tudo, enchia cada pequena partícula de existência, como se a gravidade do planeta se materializasse e substituísse tudo o que fosse corpóreo na nave, como se o próprio planeta possuísse vida… Todo o horizonte era agora vermelho, nada se via a não ser a superfície marciana, e o relevo ia ganhando pormenores cada vez mais nítidos…
Olympus Mons, a montanha mais alta do sistema solar, proclamou Ramón quando passaram sobre o gigantesco vulcão. Aquela pequena nota de fascínio quebrou a hipnose colectiva em que todos haviam caído e despertou-os para as pequenas tarefas que tinham de desempenhar para preparar a aterragem. Nova Babilónia, a primeira – e única – colónia terrestre não era muito longe. O local havia sido escolhido propositadamente, para que o grande Monte Olimpo dominasse a paisagem da cidade mas não a enchesse por completo, deixando ver o contraste entre a montanha e a planície em seu redor.
Tudo pronto, malta. Vince, sentado em frente aos comandos, olhava todos os mostradores uma e outra vez, obsessivamente preocupado que todos se mantivessem dentro dos limites normais. Espero que já tenham dado por nós e que se lembrem de nos enviar uma mensagenzita rádio, dava jeito uma ajuda para aterrar como deve ser…
Realmente, Vince, sem a ajuda deles não sei onde vamos aterrar… Ramón olhava preocupado pela janela. O solo parece todo plano, mas é traiçoeiro… é muito rochoso, cheio de pequenos declives e com muita erosão, se não tivermos o máximo de cuidado acontece-nos o mesmo que tantas vezes antes de nós, despenhamo-nos e nem damos conta do que nos aconteceu…
Como que em resposta às suas palavras, o rádio começou a emitir, mas nada era perceptível a não ser interferência e estática. Todos olharam em uníssono para o receptor, mas se alguma palavra constava da transmissor tinha-se perdido nas poucas centenas de metros que os separavam das primeiras habitações da colónia.
Suponho que serão eles a tentar comunicar algo. Penélope batia nervosamente com os dedos no aparelho como se isso tornasse a comunicação nítida. Não há nada a fazer, só podemos contar connosco…
Vamos dar o nosso melhor. Vince, novamente assumindo o comando, esqueceu-se dos mostradores e concentrava-se unicamente dos controlos de pilotagem. Pen, Ramón, vão para a janela e descubram um sítio desimpedido para aterrar, o antigo espaçoporto por exemplo. Os outros, vejam se todas as bagagens estão seguras, não quero nada solto a passear-se por aí. E segurem-se também… não há cintos de segurança mas improvisem!
Daquela distância já se distinguiam perfeitamente os edifícios, enormes arranha-céus erguendo-se na planície como fantasmas saudando os que chegavam, os seus reflexos de cobre tornando Nova Babilónia numa autêntica cidade do deserto. Ramón e Penélope, atentos aos prédios e às ruas em busca do desejado espaçoporto, quase se esqueciam que estavam em Marte e não numa qualquer cidade abandonada do Sahara, sítios outrora habitados e florescendo de vida mas há séculos vazios, desérticos, fazendo parte do deserto em seu redor… Também a colónia parecia abandonada havia séculos, tal era o grau de deterioração das casas… e o silêncio, o tenso silêncio, era como que a confirmação de que fantasmas habitavam realmente aquele local, quase os conseguiam ver erguendo-se das ruas na sua direcção…
Para aquele lado parece que as ruas se tornam mais largas, não achas Pen?
Sim… suponho que o espaçoporto será para ali. Vince, vira, às dez horas.
Sim, minha comandante, brincou Vince enquanto fazia uma continência. Este vocabulário militar tem uma certa piada… e não há dúvida que imaginar um relógio para saber para onde virar é extremamente prático. Vêm alguma coisa?
Nada que se pareça com um espaçoporto. Mas estamos a passar mesmo por cima de uma enorme avenida, isto é suficientemente largo para aterrarmos.
Estou a ver! Ficamos já aqui, é um lugar tão bom como outro qualquer. Vamos lançar a âncora do nosso navio espacial. Segurem-se, é a primeira vez que estou a praticar a aterragem…
Que engraçadinho que tu és! André ficava sempre enternecido com as ironias de Vince, e teve de se conter para não o abraçar naquele momento… É pena é não ser a única que farás… mas estás a ir lindamente, só tens de continuar assim.
Está quase… quase… isso… ligeiramente para a esquerda… não, para a direita… não, a outra direita… Todos se multiplicavam em pequenas indicações totalmente desnecessárias e que Vince não ouvia, concentrando-se unicamente nos comandos e no que via pela janela à sua frente, o solo aproximando-se mais e mais, devagar, muito devagar… e com um pequeno solavanco a nave imobilizou-se, totalmente ilesa.
Conseguimos!!! No momento seguinte todos pulavam e corriam pela nave fora, abraçando-se, beijando-se, gritando o seu alívio de estarem a salvo. Uma enorme histeria colectiva que foi abrandando a pouco e pouco, à medida que se iam apercebendo de que nada acontecia em seu redor, que os prédios se mantinham tão vazios como antes, que ninguém vinha ter com eles… E o silêncio de novo instalando-se…
Todos olhavam pelas janelas, inspeccionavam minuciosamente todas as vazias janelas de todos os inóspitos prédios para encontrarem apenas ausência… ausência de tudo, de vidros nas janelas das casas, de veículos, de tudo o que pudesse sugerir que aquela cidade era povoada ou sequer que o fora alguma vez… o vento, apenas o vento parecia habitar a cidade-deserto, soprando a seu bel-prazer pelas desérticas ruas, transportando areia, pedras, formando pequenas dunas contra os prédios, tornando a colónia parte do deserto que a rodeava.
Romeo conseguia sentir a presença dos espíritos que moravam no deserto, como se não estivesse em Marte mas sim perdido no Sahara, refugiando-se numa cidade construída milénios antes contra o agreste deserto, protegendo os seus antigos habitantes como agora o protegia a si das tempestades de areia… O deserto, aquilo que mais amava na Terra, estava também ali, o deserto marciano era a Presença que trouxera consigo do planeta-natal… e sentia-se estranhamente confortável… como se não fosse necessário ninguém vir ao seu encontro… como se a sua simples presença ali fosse o suficiente para exorcizar os fantasmas de que a mensagem no rádio falara, como se nada pudesse existir que não apenas o Deserto… Mas ao mesmo tempo, gradualmente Romeo apercebeu-se de que os espíritos que sentia não eram exactamente os mesmos, não eram as almas beduínas que o confortavam com o seu chamamento, era antes um sub-reptício desconforto, como se presenças alienígenas tivessem contaminado a pureza do deserto… e começou a sentir medo…
Todos os sete sentiam-no avançando sobre eles, abraçavam-se, procurando proteger-se da fantasmática presença que todos sentiam. Ninguém vinha ao seu encontro… sem ousar exprimir os seus receios – como se ao pronunciá-los os tornassem verdadeiros – todos intimamente pensavam no que poderia ter acontecido, interrogavam-se se a insinuante ameaça fantasma de que falara a transmissão rádio teria já vencido as últimas resistências dos desesperados colonos. O medo do que desconheciam tomava conta deles, tornava-se também o seu medo… imaginavam cenários de pesadelo para o que não sabiam mas podiam já pressentir, viam-se prisioneiros de alguém ou algo sem forma mas que sabiam que seria, mais tarde ou mais cedo, a sua morte…
As ruas continuavam vazias, o vento continuava a soprar, indiferente ao novo corpo que se atravessara no seu caminho e contra o qual já começara a erguer pequenos diques de areia… Unidos no mesmo abraço, continuaram à espera, aguardando que alguém chegasse para os saudar… grãos de areia iam-se colando contra as janelas, turvando gradualmente a visão do exterior, como se os prédios e as ruas estivessem a ser lentamente imergidos num estranho nevoeiro ocre…
Esperavam, em silêncio, no meio do deserto-cidade… esperavam, unidos pelo abraço, juntos no silêncio… no medo…
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 07:07
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!


Neste blog é permitido fumar





Be an Ocean Defender

Os melhores javalis


O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

As odisseias de Abraracourcix



create your own visited countries map

Abraracourcix o chefe falou sobre

11 de setembro(18)

aborto(28)

admirável mundo novo(5)

aeroporto(3)

afeganistão(1)

alemanha(1)

altermundo(9)

ambiente(14)

amnistia(1)

austrália(1)

birmânia(1)

brasil(1)

camarate(1)

cambodja(1)

cartoons(31)

chile(4)

china(4)

cinema(15)

coreia do norte(4)

cuba(1)

cultura(29)

dakar(1)

democracia(10)

desporto(29)

economia(13)

educação(2)

egipto(1)

espanha(3)

frança(8)

futebol(4)

gaulesa aldeia(20)

h2homo(7)

holanda(4)

hungria(1)

igreja(6)

imigração(3)

incêndios(2)

índia(1)

indonésia(1)

internacional(151)

irão(7)

iraque(18)

irredutíveis gauleses(16)

japão(1)

kosovo(1)

laos(1)

líbano(16)

lisboa(1)

literatura(3)

madeira(2)

mauritânia(1)

media(8)

méxico(1)

música(7)

nacional(102)

nuclear(7)

odisseias(4)

palestina(4)

paquistão(1)

peru(3)

política(13)

polónia(2)

porto(1)

prémios(13)

reino unido(1)

religião(7)

rússia(6)

saúde(13)

síria(1)

sociedade(37)

sócrates(4)

somália(5)

srebrenica(5)

sudão(1)

tailândia(2)

tchetchénia(2)

tibete(5)

timor(2)

todas as estrelas do céu(26)

turquemenistão(1)

turquia(4)

ue(10)

uk(6)

ulster(2)

usa(21)

videos(6)

vietname(1)

zimbabwe(2)

todas as tags

procurar nos discursos

 

discursos recentes

Abraracourcix e a sua ald...

O fim do petróleo - cenár...

Não às detenções secretas

Razões antropológicas par...

Altermundo reaberto

Vive la France

Bem vindos ao Turquemenis...

Break my arms...

Editors

O PCP e o Tibete: a minha...

O PCP e o Tibete: respost...

Mais um pouco de luz para...

Luz ao fundo do túnel par...

Mail por mim enviado ao P...

Eleitoralismo precoce

discursos antigos

Julho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Janeiro 2005

Outubro 2004

Setembro 2004

habitantes: