Domingo, 29 de Outubro de 2006

Regulus

O medo… No meio do mais profundo dos silêncios, o medo tornava-se quase palpável, como se uma qualquer criatura surgida das profundezas daquele planeta inóspito fosse a qualquer momento arrancar a porta da nave e sugá-los um a um para o exterior, onde de súbito desapareceriam sem deixar rasto, tornados eles também um dos invisíveis seres, também eles assim condenados a para sempre assombrar quem naquele planeta aparecesse…
Intimamente imaginavam tais seres dançando em redor da nave, executando uma qualquer dança ritual cuja mensagem era a de que aqueles estranhos no interior do círculo eram agora também parte da mesma tribo assombrada. Imaginavam a silhueta de cada um deles esbatendo-se gradualmente, tornando-se fluida, até nada mais ser senão a fronteira de seres incorpóreos… Desta forma transformados, olhavam os que os haviam condenado a tal destino e, fitando os ocos globos oculares, o que outrora havia sido os seus olhos, reconheciam nesse vazio que também aqueles seres tinham um dia tido um corpo, tinham um dia caminhado naquelas areias. Os olhos vazios que os aterrorizavam eram, descobriam-no então, apenas o derradeiro traço de que aqueles seres haviam sido, numa época pretérita, os habitantes daquele rubro planeta, de que também eles tinham, antes da chegada daqueles forasteiros, sido da mesma forma sugados para aquele eterno destino, condenados por um qualquer impenetrável desígnio a destruir os corpos e prender as almas de todos quantos pisassem as areias do planeta vermelho…
Todos imaginavam cenários semelhantes a este, olhavam-se nos olhos como que pedindo aos outros que dissessem que não era verdade, que não existiam fantasmas, que nada lhes iria acontecer, que era apenas a sua imaginação incontrolável que transformava o desconforto que aquele cenário lhes transmitia numa história de terror…
Este é o tipo de sensação que se tem no deserto, disse Romeo muito baixinho. Este abandono, as presenças, os espíritos que quase nos parecem sussurrar ao ouvido… Parece que o deserto, aquilo que eu mais amo na Terra, foi transportado para aqui, quase me pergunto se vocês estão a ver o mesmo que eu, ou se cada um de vocês está a ver o vosso cenário terrestre preferido, aquilo que de mais querido se recordam na Terra…
Não, Romeo, disse Tamara quase em murmúrio, segurando-lhe levemente a mão. Nós também vemos um deserto… uma cidade-fantasma no meio do deserto…
Só que na Terra, prosseguiu Romeo, as presenças que sentia eram confortáveis, como se me quisessem dizer que tudo estava bem, que eu não era mais que um entre eles, e eu sentia-me por isso verdadeiramente em casa… Aqui sinto o mesmo, mas há algo nas presenças que sinto que as deturpa, as torna o exacto contrário do que era suposto serem… sinto que elas nos vêm como invasores, como seres estranhos que nunca deviam estar aqui e que devem desaparecer, de uma forma ou de outra… suponho que todos estamos a sentir o mesmo, pergunto-me se seria a isto que se referia a mensagem que recebemos…
Não sei, pode ser tudo fruto da nossa imaginação… Ramón tentava racionalizar o que sentia, mas sem por isso se conseguir sentir mais confortável. Este silêncio, esta desolação… o que eu me pergunto é onde estão as pessoas, porque é que não vieram ter connosco… pergunto-me se…
Se ainda há pessoas… Ao completar a frase de Ramón, Penélope sentiu um arrepio incontrolável que contagiou os companheiros, uma vaga de frio gelando-lhe o sangue…
Será que eles nos viram, será que os detectores deles funcionam? É possível que se tenham avariado, e que por isso não tenham forma de saber que estamos aqui…
É possível, Ramón. Vince tentava também racionalizar as coisas, propondo possíveis explicações, tentando encontrar soluções que lhes permitissem agir. Na sua forma de ser era sempre a acção que o fazia desbloquear e vencer o medo, a angústia. Ou se calhar estão demasiado longe e não têm forma de rapidamente chegarem aqui… se calhar até já estão a caminho…
Ou então estão escondidos algures e a mesma presença que nós estamos a sentir não os deixa abandonar o esconderijo… Penélope juntava-se também à luta contra aquele medo paralisador, esforçando-se em agir. Não me parece que sirva de algo ficarmos aqui parados, por isso eu proponho sairmos da nave, explorarmos as ruas, ver se encontramos qualquer coisa.
Há um problema, Pen. Não sabemos se a cúpula atmosférica está a funcionar, e se não estiver não podemos sair… os fatos espaciais que trouxemos estão preparados para as condições de Zooropa, em Marte não nos serviriam de nada.
Mas não podemos calibrá-los para a atmosfera marciana? André olhava Vince com um pedido de que respondesse que sim estampado na face.
Podemos, claro, mas demora tempo… e era preciso sabermos exactamente as condições da atmosfera lá fora… ninguém se lembrou de reunir informação sobre isso, porque obviamente ninguém pensou que iríamos ter de estar aqui…
Há uma solução, propôs Ramón para um grupo que o olhou avidamente. Sei mais ou menos as características da atmosfera marciana, afinal leccionei essa matéria vezes e vezes sem conta. Infelizmente não sei os valores de cor, por isso não podemos calibrar os fatos. Mas o que eu sei, e é um princípio geral, é que mesmo que a cúpula da colónia não esteja a funcionar, neste momento os nossos geradores de ar estão a funcionar. Se entreabrirmos a porta só por um momento, vai entrar um pouco de ar marciano, que é irrespirável mas que se dilui no ar que temos aqui dentro e que é bom para nós. É possível que nos sintamos asfixiados por uns momentos, mas só isso, os nossos filtros limpam o ar impuro rapidamente.
Tens a certeza do que estás a propor?
Sim, é bastante simples, não acham, Tamara, Romeo?
Claro, professor… desculpe… desculpa… Ramón! Todos se riram com aquele pequeno lapso de formalismo linguístico, uma pequena lufada de bom humor que serviu para descomprimir o ambiente e para que todos se sentissem novamente prontos para o que fosse preciso.
Bom, Ramón, acho que é a única alternativa razoável que temos… ou isso ou sentamo-nos e ficamos eternamente à espera… vou abrir a porta… só um bocadinho…
Tem cuidado! André caminhou instintivamente na direcção de Vince que, junto à porta, se preparava já para rodar a fechadura.
Não, fiquem desse lado, é melhor ficarem o mais longe possível. André recuou obedientemente, juntando-se aos outros no canto oposto do compartimento. Vou abrir agora…
Todos olhavam apreensivos para Vince à medida que reflexos avermelhados projectavam uma estreita coluna de luz que começava na porta. Mantinham-se completamente imóveis e em silêncio, aguardando uma reacção, que algo acontecesse. Um sopro gelado percorreu toda a nave, alguns grãos de areia ocre conseguiram penetrar pela frincha da porta, mas para além disso nada mais sucedeu. Ainda imóveis, viram a cara de Vince aproximar-se lentamente da porta entreaberta, parar por uns momentos e depois a coluna projectada pelos reflexos do exterior tornando-se lentamente mais larga, até desenhar um claro rectângulo ocre no chão da nave, à medida que jactos de areia lhes eram lançados contra o corpo e ficavam agarrados às roupas.
Não aconteceu nada. A cara de Vince virou-se para eles, um largo sorriso desenhando-se nas faces. Podemos sair!
E depressa, esta areia dá cabo dos circuitos se entrar nalgum orifício. Ramón, dando o exemplo, dirigiu-se a passos largos para a porta, seguido nos calcanhares por todos os outros.
O vento assobiava-lhes nos ouvidos enquanto, imóveis, olhavam tudo em seu redor, as ermas avenidas, os abandonados edifícios… Ramón virou-se para os outros para se certificar de que todos tinham saído e fechou a porta da nave. Um ruído seco produziu nas expressões de todos o mesmo efeito: estavam sozinhos agora, estavam por conta própria… Olhando em seu redor, a paisagem da cidade-deserto impunha-se, expulsava tudo o resto até só ficar ela, a cidade abandonada ao furioso vento. Quase parecia que não tinha habitantes simplesmente porque se habitava a ela própria, e o vento nada mais era que o seu amante, rodopiando em redor dos seus contornos, preenchendo todos os ângulos da sua silhueta, a cidade habitada pela cidade era quase plausível, quase… se não fosse por uma indizível sensação de que pessoas tinham usado aquela cidade, tinham também namorado com ela até terem sido expulsos pelos intempestivos avanços do amante vento…
Não sei como é possível pessoas terem sobrevivido num sítio destes…
Também me custa a acreditar, Lisa. Penélope afagava o já poeirento cabelo de amiga para a reconfortar, mostrar-lhe que partilhava a mesma incredulidade, a mesma sensação de abandono… Mas a não ser que tenham sido fantasmas a enviar-nos aquela mensagem, e acho que nenhum de nós acredita minimamente nisso, existem mesmo pessoas por aqui… É difícil imaginar como sobreviveram, mas tenho a sensação de que muito rapidamente vamos saber…
Também sinto o mesmo. Algo me diz que vamos ser surpreendidos… Enquanto falava, Tamara punha a mão no ombro de Penélope, como que selando a tríade feminina daquele grupo, as três juntas naquele momento simbolizando a presença da intuição feminina.
Concordo contigo, Tamara. André, abraçado por Vince, dava a mão à sua amiga-irmã. Tenho a estranha sensação de estarmos a ser vigiados…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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