Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Gacrux (1)

O vento. Parados em frente à nave, sozinhos no meio do que outrora parecia ter sido uma avenida, nada mais existia que o vento. À sua frente, em seu redor, dentro de cada um deles, um vento rodopiante, dominador, fustigador, enchia tudo, cada partícula de ar, cada pequeno orifício, nada mais podia existir que não o vento. Nos breves minutos passados desde que tinham saído da nave, uma pequena duna de areia tinha-se já formado em frente à porta. Tinham a forte impressão que se voltassem dali a umas horas não encontrariam o seu veículo espacial, mas simplesmente uma duna de curiosa forma, curiosa também porque plantada no meio de uma rua, no meio de uma cidade deserta…
Continuaram imóveis durante largos minutos, por um lado rendidos ao poder simultaneamente tirânico e sedutor do vento, por outro indecisos sobre o que fazer. Como habitualmente, o simples som da voz de um deles foi o suficiente para quebrar a letargia geral.
A mim isto parece-me uma cidade de facto deserta. Se há pessoas aqui, estão escondidas e bem escondidas. Ao falar, Penélope olhava em seu redor, não fixando o olhar em nada nem em nenhum dos seus companheiros, a sua própria voz parecendo mais dirigir-se ao ar à sua volta do que a alguém em particular.
Pois, o problema é escondidas de quê…
Ou de quem… Ao completar o receio de Romeo, Tamara abraçava-lhe instintivamente o braço ao mesmo tempo que olhava todos em seu redor, apenas confirmando que as suas palavras verbalizavam aquilo em que todos pensavam.
Seja como for, não temos muitas alternativas. Penélope retomava o fio do raciocínio interrompido. Temos de encontrar alguém. Proponho entrarmos nos edifícios, um por um, revistar cada compartimento. Cada pequena sala pode estar a servir de refúgio, mesmo os mais recônditos cantos.
Sobretudo os mais recônditos, completou Vince, como sempre pronto para entrar em acção e a liderar o grupo, o seu ar resoluto – mesmo que apenas camuflagem do mesmo medo que todos sentiam – servindo de exemplo. Não nos esqueçamos que se esta gente se está de facto a esconder, o mais provável é escolherem locais abrigados, o mais discretos e escondidos possível.
Proponho dividirmo-nos em dois grupos. Se formos todos juntos demoramos muito tempo, e também acho que ninguém quer andar por aí sozinho ou mesmo aos pares… Ramón,  enquanto homem da ciência, tentava também encontrar a solução mais lógica para os tirar rapidamente  daquela situação e ao mesmo tempo vencer o receio que os tolhia.
Boa ideia. Vince ladeava Ramón enquanto defensor de uma rápida solução. Cada grupo fica com um dos lados da avenida. Eu, o André e vocês os dois ficamos com o lado direito. Pen, Ramón, Lisa, vocês ficam com o lado esquerdo. Começamos com estes edifícios aqui ao lado e depois vamos subindo naquela direcção. Vince apontava o final da rua à sua frente, no final de um declive ligeiramente ascendente. Estão todos de acordo?
Sim. Ramón falava por todos, observando o afirmativo menear dos outros. Encontramo-nos mesmo no fim da rua, aquilo parece ser uma espécie de praça, é perfeito como ponto de encontro. Vamos! Sem querer perder mais tempo, avançou em direcção ao edifício mais próximo do seu lado esquerdo, seguido por Penélope e Lisa, de mãos dadas tentando sacudir os temerosos arrepios pelos três partilhados. Sentiam o silêncio impondo-se, os passos de Vince, André, Tamara e Romeo cada vez mais difusos por entre as rajadas de vento, à medida que cada um dos grupos se aproximava dos lados opostos da rua.
Lisa caminhava mesmo nos calcanhares de Ramón, observando os músculos tensos do companheiro, admirando a resolução que o seu corpo transmitia, os seus braços acompanhando o andar, mesmo que um ligeiro tremor das mãos o traísse… Apertava com força a mão de Penélope, sentia que esta também apertava a sua com força. Tentavam que a coragem das duas, assim unidas, fosse suficiente para as fazer avançar, mas sabiam que era apenas a inércia do andar que as mantinha em movimento… À medida que o edifício mais próximo crescia à sua frente, as janelas, as portas deixavam transparecer um enorme vazio, combatendo o insuportável zunir do vento que ia ficando para trás… Apertando a mão da amiga ainda com mais força, sentia que ela fazia o mesmo. Instintivamente caminhavam cada vez mais próximas, sentia o braço gelado de Penélope junto ao seu. Pensamentos soltos atropelavam sem controlo a sua mente, ora a assustando mais, ora a confortando. Pensava em fantasmas saltando-lhes ao caminho, formas fátuas de enormes bocas que os engolissem. Imaginava-se abraçada a Penélope, as duas juntas perecendo, esfumando-se fantasmaticamente, tornando-se num único fátuo ser. Estranhamente, confortava-a esse pensamento, de que ela e Penélope ficariam unidas para a eternidade, o fantasma de Ramón abraçando-as ambas…
Quando retomou o sentido da realidade, abraçava ainda a amiga. Sentia os braços de Ramón envolvendo-as às duas e a sua cara, consternada, quase preocupada, muito próxima.
Vocês estão bem? Pergunta apenas retórica, Ramón sabia-o, pois a palidez de Penélope e Lisa respondia por elas. Uma porta enorme – ou antes, o espaço do que havia sido uma porta – abria-se à sua frente, um rectângulo de luz projectando-se no interior, um tapete de areia marcando a fronteira entre o espaço dominado pelo vento e a escuridão… Vamos entrar? Ou querem parar um pouco para respirar, ganhar coragem?
Por fora, o edifício era em tudo semelhante aos que o rodeavam, constituindo aliás parte de uma fachada única, toda ela construída no mesmo tipo de pedra – uma matéria durável mas que ao mesmo tempo era facilmente erodida pela acção do vento: havia curvas irregulares cavadas nas paredes nos locais onde o vento tinha corroído mais fundo. Para além da força irregular da erosão, cada edifício apenas se distinguia dos seus vizinhos pela diferente forma e ordenação de portas e janelas, pois a tinta, a ter existido, tinha já sido totalmente arrancada pelo vento, deixando apenas a cor da pedra, ocre como a areia – como se os próprios edifícios fossem feitos de areia, como se com o seu ar instável se fossem desmoronar a qualquer momento.
Vamos entrar já. Embora continuasse pálida, a voz de Lisa transmitia a sua repentina certeza, tentando ao falar daquela forma sacudir para longe o medo. Se esperarmos apenas vamos perder a pouca coragem que temos. Mas por favor, Ramón, dá-me a mão e não a largues… Antes mesmo de poder corresponder ao pedido da amiga Penélope agarrava-lhe uma das mãos, olhando ternamente para ele, silenciosamente formulando o mesmo pedido.
De mãos dadas a ambas, Ramón ajudou-as a darem alguns cautelosos passos, vencendo a areia que se acumulava contra a parede interior do átrio do edifício. Parecia ter sido utilizado como um qualquer tipo de recepção, talvez a entrada de um prédio de escritórios, pois era semelhante aos que na Terra serviam esse propósito. A desolação era total. Dos lados da porta, duas janelas – o espaço alongado do que outrora haviam sido janelas – não ofereciam também qualquer protecção ao vento, dunas de areia formando irregulares rectângulos do lado de dentro do prédio. À medida que o vento se deixava de sentir, também o seu chicoteante assobio se ia desvanecendo, deixando no seu lugar um ainda mais insuportável silêncio. Acentuando ainda mais o contraste com o exterior, nenhum som, nenhum pequeno movimento se discernia naquela divisão.
Não vos parece que isto foi abandonado há pouco tempo? Ramón fazia os possíveis por pensar logicamente, mantendo-se dessa forma ligado à realidade, evitando o assalto de quaisquer pensamentos terríficos, de quaisquer assombrações…
Realmente não parece assim muito degradado. Penélope corroborava o companheiro: aquele átrio tinha de facto o ar de ter sido recentemente utilizado, embora não conseguisse perceber porquê.
À velocidade a que a areia invade tudo, acho que já devia haver autênticas dunas aqui dentro. E apenas se vê quadrados de areia mais ou menos definidos junto à porta e às janelas… como se até há bem pouco tempo algo as tivesse tapado…
Ou como se alguém tivesse deixado de limpar o chão! Isto parece-se com uma recepção de uma empresa, pela lógica devia estar sempre limpo enquanto houvesse alguém a utilizá-lo. Lisa aderia também ao pensamento racional, única forma de manter a lucidez por entre toda aquela desolação.
Isso quer dizer que a fuga das pessoas foi recente… Percorrendo com o olhar as arestas do átrio e as fronteiras entre o chão e a areia, Ramón limitava-se a pensar em voz alta. Pelo menos de quem trabalhava aqui.
Mas isso não quer dizer que não haja ninguém escondido numa das salas. Penélope olhava para o longo corredor atrás do átrio que parecia levar ao resto do edifício, tentando imaginar quantas salas haveria. Seria um bom esconderijo.
Tens razão. Lisa avançava já cautelosamente em direcção ao corredor. Convém darmos uma espreitadela em cada uma das salas.
Vamos então. Mas vamo-nos separar, para ser mais rápido. Ramón chegava já à primeira sala e abria lentamente a porta… Se as salas estiverem vazias não percam tempo. Temos uma rua inteira de prédios destes para revistar…
Enquanto entrava pé ante pé na sala, sentia Lisa e Penélope fazendo o mesmo na divisão contígua. Todos desejavam encontrar algo – alguém – mas ao mesmo tempo tinham um imenso medo de que qualquer surpresa lhes saltasse em cima.
A sala em que Ramón entrava não tinha luz própria. Era apenas iluminada pela claridade que vinha do exterior, o que lhe dava um ar ainda mais tenebroso. O coração rufando de medo, Ramón sentia vagas de sangue gelado percorrendo-lhe o corpo uma após outra. Sabia que não podia vacilar, sabia que só conseguiria resistir ao temor, só conseguiria evitar que as suas pernas o levassem a correr dali para fora e o trancassem, tremendo na nave, se se mantivesse concentrado em pensamentos racionais – por exemplo, intuindo a função de cada uma daquelas salas para perceber onde seria mais lógico um hipotético fugitivo esconder-se.
Do lado direito da porta, uma secretária de madeira e uma cadeira de estofo pareciam ter sido deixadas minutos antes pelo seu utilizador. As paredes da sala estavam despidas, com excepção de um armário de metal do lado esquerdo da porta que se prolongava por trás desta. Aparentemente, aquela tinha sido uma espécie de arquivo, onde se guardavam qualquer tipo de ficheiros que Ramón não teria tempo de examinar. Só para ter a certeza de que a sala estava vazia, espreitou lentamente para o recanto escuro atrás da porta…


(continua...)
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