Terça-feira, 31 de Outubro de 2006

Gacrux (2)

(cont.)
Sentindo os passos cautelosos de Ramón atrás de si enquanto ele entrava a medo na primeira sala, Penélope caminhava pesadamente até à porta seguinte. Cada passo que dava era mais penoso que o anterior, os seus pés mais tolhidos pelo medo… Lisa permanecia do seu lado esquerdo, estendia-lhe a mão numa oferta de apoio mútuo, silenciosamente dizendo que também ela seria incapaz de prosseguir sozinha, que as duas entrariam juntas em cada sala que encontrassem. Penélope apertou com toda a força de que era capaz a mão da companheira e sentiu-a retribuir da mesma forma. Ficaram assim imóveis por momentos, sentindo incomensuráveis vagas de carinho aquecerem os seus assustados corpos, sossegarem os seus acelerados corações.
Lisa e Penélope olharam-se nos olhos por um fugaz instante e, numa manifestação de empatia, deram ao mesmo tempo o derradeiro passo em direcção à sala à sua frente. A porta estava escancarada, deixando um rectângulo de luz baça desenhar-se no chão. Entraram hesitantemente na sala e olharam em seu redor. Era um compartimento de aspecto desconfortável, impessoal, as paredes imaculadamente brancas – quem quer que a utilizasse não podia tê-la abandonado há muito tempo. A única mobília era uma secretária e uma cadeira estofada, também elas impecavelmente limpas.
Isto só pode ter sido o escritório de alguém, disse Lisa baixinho, verbalizando a óbvia dedução que ambas tinham rapidamente feito.
Sim, e tão limpo que não pode ter sido deixado há muito tempo… Mas o que terá acontecido para fazer toda a gente fugir?
Não sei… Seja como for, não está ninguém aqui. É melhor passarmos à próxima sala.
Quase a medo, as duas amigas viraram costas à sala, tentando rejeitar um medo absurdo de que algo ou alguém as poderia de repente atacar pelas costas. Caminharam pelo corredor até à porta seguinte, que ficava bastante mais afastada. À medida que se aprofundavam no edifício a luz ia-se esbatendo. O átrio por onde tinham entrado, a única fonte de luz, estava cada vez mais longe, tornando os contornos das portas mais baços, cada vez mais difíceis de distinguir, desvanecendo-se numa penumbra crescente quando olhavam a sucessão de portas ao longo do corredor.
Estranhamente, a curta caminhada até à porta seguinte fazia-as sentirem-se mais seguras, como se o efeito tranquilizador de andarem sempre de mãos dadas estivesse a dar os seus frutos, como se ambas tivessem inconscientemente concluído que se algum perigo ali houvesse ele já teria ocorrido. Também esta porta, bastante mais longa que as anteriores, estava aberta. De mãos sempre dadas mas agora menos apertadas, entraram num enorme salão onde filas e filas de cadeiras se sucediam à sua frente, num declive acentuado que culminava, do lado oposto da sala, num pódio que abrangia toda a largura da divisão.
Isto parece uma sala de conferências ou algo do género, arriscou Penélope, examinando atentamente toda a sala que, em toda a aparência, estava também deserta.
Sem dúvida… e sem dúvida que aquele pódio ao fundo parece um bom abrigo para alguém se esconder… embora isto tenha um ar tão desolado como tudo o resto que já vimos aqui dentro.
Tens razão, mas não custa nada descermos e darmos uma espreitadela àquele pódio, disse Penélope enquanto, impulsionando o corpo para a frente, convidava a amiga a descerem as escadas.
Desceram ao mesmo tempo o primeiro degrau, apenas para de súbito se imobilizarem, o sangue gelando-se-lhes rapidamente ao ouvirem um ruído ininteligível vindo da entrada do edifício, uma espécie de restolhar, gritos, passos apressados. Viraram-se ao mesmo tempo para saírem da sala mas mais uma vez o medo deteve-as após os primeiros passos: parada à porta da sala de conferências, uma silhueta recortava-se contra a penumbra. Alguém olhava para elas.

O espaço por trás da porta estava completamente escuro. A cabeça de Ramón foi emergindo lentamente, a medo tentando distinguir o que quer que fosse – tarefa impossível, pois a difusa luz que emanava do átrio de entrada era bloqueada pela porta e pelo seu próprio corpo. Sentia-se ridículo, ali parado, olhando para um canto escuro de uma sala deserta, mas ao mesmo tempo obcecado, como se algo dentro dele soubesse que havia coisas ali à espera de serem descobertas… Ramón agachou-se por trás da porta e tacteou hesitantemente o chão, quase sentindo o contacto com um qualquer objecto desconhecido, quase antecipando o frio contra os seus dedos…
Não havia nada. Aquele recanto, como o resto da sala, estava vazio. Perguntou-se então por que motivo aquele sítio preciso o havia atraído, não o tinha deixado seguir em frente, abandonar a sala. Abandonar a sala… seria então isso? Estaria o seu instinto a dizer-lhe que havia algo ali que merecia a pena examinar? Olhando para a direita, distinguia, a contraluz, a fila de gavetas do armário prolongando-se até à parede oposta. Tinha o aspecto de uma qualquer espécie de arquivo, pensou Ramón, decidindo contrariar a sua ideia inicial e examinar o conteúdo do armário.
Ainda infantilmente receoso, como se temesse que um monstro saltasse de dentro do armário, abriu lentamente a gaveta mais próxima, ao nível dos seus braços, o deslizar dos rolamentos rasgando o sepulcral silêncio. A gaveta estava de facto repleta de fichas de arquivo, pequenas pastas que pareciam registos de dados de pessoas. Se cada ficha correspondesse a uma pessoa, calculou por alto, aquele armário poderia conter os dados de todos os habitantes da colónia… O mais estranho era, contudo, o facto de o próprio arquivo existir, o facto de alguém se ter preocupado em reunir por escrito todas aquelas informações quando elas eram guardadas informaticamente. Ramón nunca tinha visto nenhum tipo de registo que não projectado num écran de computador. Sabia que era possível imprimir dados, mas sempre pensara que era apenas uma reminiscência de tempos antigos, tempos em que as pessoas, por receio de alguma avaria informática ou até por preferência, escolhiam manusear papel em vez de simplesmente consultarem um computador. Não conseguia imaginar, de resto, nenhum motivo para, no século em que viviam, alguém se ter preocupado em obter registos escritos fosse do que fosse… a não ser que tivesse motivos fundados para recear que os computadores deixassem de funcionar…
Sem conseguir imaginar que motivos poderiam ser esses – a última avaria informática historicamente registada fora já há mais de cem anos – Ramón retirou ao acaso um pequeno molho de fichas da gaveta e abriu a capa da primeira. Tratava-se aparentemente de um registo médico: identificação do paciente, resultados de exames, observações… todas as folhas tinham sido impressas a partir do computador clínico, as letras a preto imaculadamente recortadas contra o branco do papel, perfeitamente alinhadas… com excepção, notou Ramón, de uma anotação manuscrita no fim do processo.
Isso corroborava a tese de que algo tinha impedido a utilização dos computadores, pois era o único motivo que levaria alguém a dar-se ao trabalho de escrever o que quer que fosse à mão. Tentou ler as breves linhas, mas a caligrafia era totalmente ilegível. Talvez o médico escrevesse assim normalmente, ou talvez o tivesse escrito apressadamente. Não conseguiu reprimir um arrepio que lhe invadiu todo o corpo enquanto a sua imaginação dominava de novo o seu lado racional e o fazia mentalmente enumerar possíveis cenários dantescos que explicassem o que tinha nas mãos…
Não chegou a qualquer conclusão, pois o seu raciocínio foi interrompido: ruídos estranhos, gritos, passos apressados irrompiam na rua, perto da entrada do edifício. Deixando a gaveta aberta, Ramón precipitou-se para fora da sala e correu, o molho de fichas ainda nas mãos, na direcção oposta à entrada. Tinha de encontrar Lisa e Penélope, saber se estavam bem. Escassos segundos tinham passado quando Ramón, depois de sem parar de correr ter entrado na primeira sala, verificado que estava vazia, tornado a sair e percorrido o espaço até à segunda sala, se imobilizou à entrada do que lhe pareceu ao primeiro relance uma sala para grandes reuniões. À sua frente, ao nível da última fila de cadeiras, Penélope e Lisa, de mãos dadas e imóveis, olhavam assustadas na sua direcção mas não para ele – como se ele fosse um intruso, um agressor, como se tivesse sido ele o causador daqueles perturbadores ruídos.
Ramón distinguiu-lhes o impulso de se virarem para trás e correrem em busca de um refúgio, os músculos contraídos preparados para a fuga. Ficaram no entanto ali, imóveis como ele estava imóvel, frente a frente, ninguém conseguindo fazer o primeiro gesto. Sons abafados, indistinguíveis, interpunham-se no silêncio do espaço que os separava, tornando a situação ainda mais irreal: três companheiros, sem se reconhecerem mutuamente, parados, em silêncio, sem sequer ouvir os sons que até eles chegavam da rua, ruídos que prenunciavam perigo.
Pen, Lisa, sou eu. Após o longo silêncio, Ramón falou enfim, com uma voz calma, fria, como se nada se passasse. Não sei o que está a acontecer lá fora.
Ramón, assustaste-nos! Penélope corria para os braços do companheiro, precedendo Lisa na busca de algum conforto.
Eu percebi. Não me estavam a reconhecer. Abraçando Penélope com um braço e Lisa com o outro, sentindo-as contra os seus ombros, percebia como estavam assustadas – como ele próprio estava assustado… Não serve de nada ficarmos aqui. Vamos ver o que se passa.
Lado a lado, cada passo dando-lhes coragem para o seguinte, os três percorreram o espaço que os separava da entrada do edifício, preparando-se para o cenário mais inesperado possível. Tentando não hesitar, chegaram à porta da entrada do edifício e foram detidos pelo espanto do que na rua estavam a ver: nenhum pensamento os podia ter preparado para uma cena tão surreal…
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um discurso de Abraracourcix às 07:07
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