Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Ondas de choque nuclear

Na primeira vaga da onda de choque perante a confirmada "nuclearização" da Coreia do Norte, eis dois artigos do Público de hoje (continuam a não disponibilizar livremente a totalidade dos conteúdos, pelo que continuarei a não linkar) e que se debruçam sobre a reacção político-diplomática da China - os dilemas que Pequim enfrenta, e como do seu ponto de vista uma Coreia do Norte nuclear talvez não seja tão má assim.. - e sobre os Estados Unidos - como Washington está neste momento de mãos completamente atadas.

Sobre a China:

"China, o Estado "mais embaraçado" do mundo

"Nenhum outro país deve estar hoje mais embaraçado e inquieto do que a China." Ralph Cossa, do Fórum Pacífico CSIS, de Honolulu, resumiu assim à AFP os efeitos do ensaio norte-coreano para Pequim, principal aliado de Pyongyang e o país que mais tem pressionado para uma abordagem branda da crise nuclear. A China tem investido muita diplomacia neste dossier; agora prepara-se para assistir ao seu fracasso.
Não admira, por isso, que as reacções de Pequim tenham sido particularmente duras para os padrões chineses, condenando pela primeira vez o programa nuclear do regime de Kim Jong-il e o seu acto "descarado". "A China exprime a sua firme oposição" ao ensaio, declarou um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros citado pela AP. Pyongayng "desafiou a oposição universal da comunidade internacional".
A agência AFP salientava ontem uma opinião praticamente unânime entre os especialistas: o regime de Kim Jong-il nunca teria ido tão longe no seu desafio à comunidade internacional, se não fosse a sua aliança com a China, encarada como uma garantia de protecção.
Pequim tem cartas importantes a jogar: garante quase metade da ajuda financeira recebida pela Coreia do Norte (que no ano passado recebeu 92 por cento do total de auxílio alimentar chinês). O factor não é minimizável, num dos países mais pobres do mundo, que ciclicamente atravessa períodos de fome severa. Esta seria talvez a única arma eficaz, dizem os analistas, para fazer o regime de Kim baixar a escalada.
Mas dificilmente o descontentamento de Pequim se traduzirá em apoio a operações bélicas. "A possibilidade de uma acção militar contra a Coreia do Norte é mínima", afirma Li Dunqiu, do State Council Development Research Center. A oposição chinesa terá mesmo impedido que a ameaça constasse do comunicado do Conselho de Segurança da ONU que se seguiu aos disparos de mísseis, em Julho.
A AFP avançava ontem com algumas explicações para a resistência chinesa a sanções militares. Aliado do Norte na Guerra da Coreia (1950-53, em que o Sul recebeu o apoio dos EUA), a China não pretende ver o regime desmoronar-se. Isso faria, além do mais, com que um fluxo de norte-coreanos muito difícil de conter atravessasse a fronteira com o país vizinho - um factor de desestabilização que Pequim pretende evitar. "Tenho a certeza que mesmo que a China esteja muito furiosa com a Coreia do Norte, não a vejo a cortar os canais de ajuda financeira, alimentar ou energética", comentou Brian Bridges, da Universidade Lingnan, em Hong Kong.
Novas negociações improváveis
O regime de Pequim tem apostado no dossier coreano uma grande parte das suas energias diplomáticas, pretendendo, entre outros factores, um papel de maior relevo na cena internacional, à altura do seu crescente poderio económico. Desde 2003, quando começaram as rondas a seis (duas Coreias, China, EUA, Rússia e Japão) arquitectadas por Pequim, que os esforços se concentram sobretudo na tentativa de levar ou manter o regime norte-coreano à mesa das conversações. Um cenário que agora parece demasiado distante para permitir optimismos.
Por isso, o teste está a ser visto como um duro golpe na diplomacia de Pequim. No entanto, o Asia Times Online apresentava ontem uma perspectiva diferente: "A emergência da Coreia do Norte como potência nuclear [...] tem sido vista pela China como um mal que pode ser contido e até ser útil no contrapeso à presença militar dos EUA na região."
O mesmo artigo questionava ainda a verdadeira influência que Pequim pode exercer sobre o regime estalinista. E cita um académico chinês, Shen Dingli, da Universidade Fudan de Xangai: "[Pyongyang] não vai abdicar da sua garantia de independência em segurança nacional, ganha através de testes nucleares, só por causa das preocupações chinesas e da possibilidade de a China pressionar."
(Fernando Gorjão Henriques)


Sobre os Estados Unidos:

"E agora, quais são as opções dos EUA?

"Foi o próprio negociador norte-americano do dossier nuclear, Christopher Hill, quem afirmou: "Os Estados Unidos não vão viver com uma Coreia do Norte nuclear. Não o iremos aceitar."A questão agora é: como o impedir?
O país de Kim Jong-il foi incluído no "eixo do mal" em 2001, mas Washington pouco ou nada conseguiu para o aproximar da comunidade internacional e afastar o espectro de um regime obscuro dotado de arsenal atómico.
Este é mais um revés na diplomacia de Washington, a juntar-se à situação do Iraque pós-Saddam e à incapacidade de conseguir do Irão a suspensão do seu programa nuclear.
Não foram traçados planos de transição democrática para a Coreia do Norte, como aconteceu para o Irão e Cuba. E também não se espera uma intervenção militar, esgotados que estão os recursos norte-americanos no Iraque e Afeganistão; para além disso, um ataque poderia desencadear uma resposta imprevisível do regime, que agora entrou para o clube das potências nucleares.
A Administração americana tem mantido ao longo dos quatro anos de crise uma posição quase inflexível face a Pyongyang. À exigência norte-coreana de negociações bilaterais os EUA têm respondido com um constante "não", apontando o caminho para as rondas a seis.
Há quem defenda que Washington deveria ter cedido mais para não atiçar tanto Kim Jong-il. Ivo Daalder, investigador da Brookings Institution, escreveu um artigo em Julho (depois dos disparos de mísseis norte-coreanos) a realçar que a política norte-americana para a Coreia do Norte tem assentado em dois pressupostos: primeiro, não se deve negociar com actores mal- intencionados como Kim Jong-il; "não se pode confiar neles e todos os compromissos que fazem não valem o papel em que são escritos". Tentativas de negociação serão vistas como fraquezas. O segundo é que a Coreia do Norte está num estado tão desesperado que com um pouco mais de isolamento o regime entrará em colapso. "Ambos estão igualmente errados", escreve Daalder. No final, conclui: "Sim, a política de Bush para a Coreia do Norte é um fiasco. Mas não contem com uma alteração em breve."
O cenário adensou-se ontem. Perante a realidade de um ensaio, Washington terá de intensificar as suas pressões sobre a China e os outros países da região para conter Pyongyang, ou mesmo contribuir para uma mudança do regime norte-coreano, salientavam ontem analistas ouvidos pela AFP.
"Os EUA têm duas opções: aceitar uma Coreia do Norte nuclear, ou fazê-la mudar de regime", afirmou Ralph Cossa, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Honolulu. Esta última opção não terá de passar necessariamente por uma intervenção militar, diz. As sanções políticas e económicas poderão ser suficientes.
Mas para isso teria de contar com a ajuda de Pequim, o que poderá ser uma missão quase impossível (ver texto nestas páginas). "Isolar ou não o Norte é uma questão que apenas Seul e Pequim podem decidir, não Washington", adiantou Daalder. "[Os EUA] ficaram sem sanções."
O ano passado, Washington impôs sanções financeiras a Pyongyang e tomou medidas contra os bancos que, em Macau, branqueavam dólares falsos produzidos na Coreia do Norte. Um gesto que teve como resposta do regime de Kim o afastamento da mesa das negociações.
Segundo analistas ouvidos pela AFP, nova restrições poderiam incluir a intercepção obrigatória de barcos e aviões suspeitos de transportar armas de destruição maciça.
Joseph Cirincione, do Center for American Progress, duvida da eficácia destas medidas: "As sanções não serão suficientes para obrigar a Coreia do Norte." "Não os podemos obrigar a renunciar [às armas nucleares]. A história demonstra-o. Nenhum país alguma vez renunciou a um programa nuclear ou às armas nucleares pela força, mas muitos fizeram-no por serem convencidos a fazê-lo."
(Fernando Gorjão Henriques)
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um discurso de Abraracourcix às 14:11
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