Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007

Assiduidades, impressões digitais, insultos ministeriais: o fim do SNS tão próximo...

O Hospital Pedro Hispano - onde conheço muitos médicos, para ficar desde já claro o meu "registo de interesses" - está em ebulição, devido ao anunciado controlo de assiduidade dos profissionais por meio da sua impressão digital, medida a que os médicos se opóem veementemente por verem nela uma afronta à qualidade - e quantidade - do seu trabalho, e por pensarem que esta medida apenas levará todos os médicos a cumprirem escrupulosamente os horários; como há muito mais médicos que trabalham horas a mais do que os que trabalham a menos, isto levará à degradação dos cuidados prestados.
Concordo com a necessidade de os horários dos médicos serem monitorizados. No entanto, concerteza por influência de quem conheço, sou bastante sensível ao que a Sofia Loureiro dos Santos apelida de "reverso da medalha", e que não só é sub-valorizado (ignorado até, na ofensiva do ministro na opinião pública) como é "sabotado" pelos próprios médicos, que ao falar não se cansam de dar tiros nos pés.
E o que é então para mim o reverso da medalha? Falo do que conheço por experiência próxima, naturalmente, mas do que sei asseguro que, por cada médico que trabalha menos que as contratualizadas 42 horas semanais (isto em relação aos que têm vínculo à função pública; quanto aos contratos individuais de trabalho, que são cada vez mais comuns, essa é outra questão), há pelo menos 3 que trabalham mais, muito mais, que as horas "normais".
De tal forma que, para mim, o problema não é no controlo da assiduidade "per se", mas antes na absoluta certeza que tenho que, se todos os médicos sem excepção trabalharem as horas devidas, nem a mais nem a menos, com todos os deveres (assiduidade, pontualidade) e direitos (folgas) a que têm direito, se isso acontecer os hospitais passarão a funcionar muito pior do que até agora.
Exemplos há bastantes. As consultas para começar: há imensos doentes com consultas marcadas para as 8h00, por exemplo, que só são atendidos às 10h00; afirmo com conhecimento de causa que isso acontece porque as consultas são muitas vezes marcadas com intervalos de 10 minutos, às vezes havendo até várias marcações para a mesma hora. Ora como muitos doentes demoram mais que 10 minutos na consulta, o que acho perfeitamente razoável, é natural que as consultas vão atrasando... os doentes não têm culpa, obviamente, mas os médicos também não.
Este problema só será agravado se os médicos forem compelidos a cumprir horários: porque, pelo menos no hospital que conheço melhor, o limite de doentes por médico é de 12. Cada médico vê, no mínimo, 20 - muitas vezes 30 ou 40 (e isto é rigorosamente verdade), implicando sair do hospital às 20h00 em vez de às 17h00... ora se passarem a cumprir o horário, saindo à hora certa e vendo o número certo de doentes, as listas de espera de consultas (muitas delas importantes, urgentes até) vão engrossar insuportavelmente. E o mesmo para as cirurgias, se os médicos deixarem de operar por isso implicar sair bem depois do horário estipulado...
Este é o ignorado reverso da medalha, com potencial suficiente para levar o SNS até novos abismos de desencorajamento, para médicos ou futuros médicos, e para doentes que cada vez menos quererão ir aos hospitais e se conformarão com a elevada conta do médico privado. Isto é o que na realidade está por trás de decisões aparentemente "justas" como a de controlar a assiduidade dos médicos. Quando o ministro diz, como ontem, que até é positivo que os médicos deixem de dar "borlas" aos hospitais, fá-lo na certeza de com isso beneficiarem o sector privado, de onde o sr. Correia de Campos é oriundo e para onde voltará quando deixar de ser ministro.
Volto a frisar que, de uma forma ou outra, deve haver controlo, aliás nem acho que os próprios médicos tenham assim tanto contra isso. O problema é que está a ser insinuado na opinião pública - ou, como ontem, dito com todas as letras pelo ministro - que é a classe médica, como um todo, que não trabalha porque não quer, e é isso que passa sempre para a opinião pública.
Os médicos que conheço não são contra o controlo de assiduidade, mas vêm este discurso como uma afronta, um insulto (embora não o saibam dizer para a opinião pública e a sua opinião, incorrectamente expressa, passe como corporativismo). Muito mais quando o ministro insinua, como ontem, que os casos de sobrelotamento das urgências (a da Feira, no caso) não são verdade e diz aos médicos, claramente, que "chega de patriotismo barato" e que "quem não queira trabalhar que se vá embora".
Mais grave ainda, disse aos internos - os especialistas de amanhã, os que supostamente vão suprir as necessidades que existem - que "se sentem que não lhes dão as condições para uma correcta aprendizagem, que vão para Espanha". Isto é que é um discurso de quem se preocupa com o SNS? Isto é um discurso de quem não quer saber, porque a perda de uns (público) será sempre o ganho de outros (privado).
E é fácil ver como tudo isto poderá beneficiar o sector privado: mesmo se nenhum médico sair do público (os quais iriam obviamente para o privado), se os hospitais públicos reduzirem a qualidade do serviço que prestam, como estou convencido de que acontecerá se TODOS os médicos cumprirem o que têm a cumprir (volto a repetir, há muito mais médicos que fazem horas a mais do que os que fazem a menos), se o serviço público piorar, mais e mais doentes optarão, ou ver-se-ão obrigados, a recorrer ao sector privado.
Está à vista de todos, e não é de agora, é de há muitos anos, simplesmente agora é gritantemente visível...

PS - Também é revelador dos interesses em jogo que nenhum partido - com a excepção do recorrente grito de alerta do PCP, que infelizmente por vir do "partido da cassette" não tem praticamente destaque (afinal, é só mais uma cassette) - que nenhum partido, dizia, se levante contra esta lenta - agora já não tão lenta - degradação do SNS...
:
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um discurso de Abraracourcix às 09:24
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