Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

Entre liberdade individual e saúde, o Estado português é que sabe - Big Brother is watching you

A semana passada, pelo meio do ruído da campanha para o referendo, passaram praticamente despercebidas declarações de Cavaco Silva que são muito mais graves do que o destaque que tiveram e que merecem a nossa maior consternação.
Numa sessão da Academia Portuguesa de Medicina para que foi convidado, Cavaco aproveitou o tema da saúde dos portugueseses para pedir à Assembleia da República que se debruçasse sobre "a necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vida sedentários".
Teremos então dentro de pouco tempo, a fazer fé no zelo legislador dos deputados e na sua vontade de cair nas boas graças presidenciais, a proibição total de fumar. Com um pouco de sorte, haverá bares autorizados a serem excepções à Lei Seca que será decretada. Tudo em nome da saúde dos portugueses, claro, e porque estes, sabendo que o tabaco e o álcool são prejudiciais, precisam que o Grande Irmão os faça deixar de consumi-los, pois por si só nunca conseguiriam - e que cidadão responsável e ajuizado poderá querer continuar e a fumar sabendo que isso é mau para a sua saúde? Ajudemo-lo portanto e proibamos o tabaco e o álcool!
Claro que os nossos restaurantes, churrasqueiras e outros estabelecimentos especializados em feijoadas, rodízios, cozidos à portuguesa, rojões à minhota, chanfanas, tripas à moda do Porto, morcelas assadas, alheiras de Mirandela e demais patuscadas tipicamente portuguesas terão também de sofrer restrições, em nome do combate à obesidade. Quem consegue imaginar que um responsável e ajuizado cidadão português possa preferir um prato saboroso, típico e servido nas doses cavalares da praxe, quando sabe que a nossa comida típica engorda tanto?
Arriscamo-nos mesmo a ver batalhões de portugueses a correr disciplinada e militarmente pelas ruas, ar cabisbaixo e t-shirt do Clube do Stress - em nome, claro está, de um estilo de vida saudável e do fim do sedentarismo? Pois qual seria o cidadão português responsável e ajuizado que preferiria ficar alapado no sofá a ver a bola ou os Morangos com Açúcar, de cerveja na mão (proibidíssima claro!!), quando sabe que isso aumenta os riscos de morrer de ataque cardíaco?
Isto parece uma ficção exagerada - e é - adaptando fantasiosamente a trama de 1984. Mas se tão canino zelo legislativo não corre o risco de se tornar realidade, são estas as liberdades que estão em causa. De momento regozijamos com uma liberdade recém-conquistada, senão para todos pelo menos para as mulheres, mas isso não nos pode nem deve impedir de nos alarmarmos com o caminho, que já começou a ser trilhado, para que outras fundamentais liberdades sejam cerceadas.

Voltando a Cavaco , confesso que só fui alertado para estas declarações por uma amiga, que me disse que apenas Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá, em crónicas distintas no Público, falaram disto. Confesso não apreciar as personagens, mas fui à procura das crónicas para melhor perceber o que estava em causa.
E é de facto grave, sobretudo por tudo isto ter passado por entre as gotas da chuva... e como Constança Cunha e Sá (VPV também) o diz melhor que eu - colocando a tónica não só na restrição das liberdades individuais, mas também na sacralização da saúde que está por trás deste zelo big-brotheriano - aqui ficam os excerto da crónica mais relevantes:
"A religião do Estado

"A intromissão do Estado nos hábitos privados dos cidadãos tornou-se um lugar-comum das sociedades contemporâneas.
O Estado, que tanto incomoda em questões morais como o aborto, transforma-se, consensualmente, num polícia de costumes, quando o que está em causa é a saúde dos cidadãos.
Mantendo o seu silêncio de Estado sobre o referendo ao aborto, o Presidente da República aproveitou uma sessão da Academia Portuguesa de Medicina para se debruçar, com inexcedível zelo, sobre a saúde dos portugueses. Entre o direito à vida, a dignidade da mulher e o alarido inconsequente deste estafado debate, o prof. Cavaco Silva optou prudentemente por um tema mais consensual, defendendo - e passo a citar - "a necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vida sedentários". Como é natural, as palavras do Presidente passaram mais ou menos desapercebidas. A intromissão do Estado nos hábitos privados dos cidadãos tornou-se um lugar-comum das sociedades contemporâneas. O Estado, que tanto incomoda em questões morais como o aborto, transforma-se, consensualmente, num polícia de costumes, quando o que está em causa é a saúde dos cidadãos.
(...) Aparentemente, ninguém acha estranho (ou sequer levemente suspeito) que o Presidente nos queira obrigar, através de "procedimentos administrativos claros", a trocar o almoço pelo ginásio e o conforto do sofá pelo esforço de uma corrida diária.
Depois do antitabagismo primário que invadiu a Europa a partir dos Estados Unidos e do combate mais recente contra a obesidade infantil e a má alimentação das criancinhas, só faltava preencher esta lacuna legislativa e obrigar os cidadãos a abandonar os seus "estilos de vida sedentários" (...)
... é difícil prever os extremos a que chegará este culto recente pela saúde que faz da longevidade um bem em si mesmo e transforma a forma física num valor universal e absoluto. Por razões misteriosas, o Estado que não tem dinheiro para nos pagar a reforma obriga-nos a ter uma vida longa e saudável e a morrer tarde e a más horas, com os pulmões limpos e os músculos em forma. Para eliminar a doença e não sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde com intervenções desnecessárias, decorrentes dos vícios dos utentes e dos seus irreparáveis maus hábitos? Infelizmente, a doença não se elimina: a crença numa espécie humana saudável e asséptica, livre das fraquezas que a caracterizam, é um mito contemporâneo que abre a porta aos mais perigosos delírios.
Mas, nos tempos que correm, o medo do inferno foi substituído pelo horror à doença e a crença na eternidade deu lugar ao sonho de uma longa e saudável vida na terra. A saúde é que nos resta, num mundo donde o sagrado desapareceu, deixando em seu lugar uma crença alimentada pelo medo da morte e pelos progressos da medicina. No Ocidente laico e tolerante, onde as religiões tradicionais foram remetidas a uma esfera puramente privada, a saúde transformou-se na religião oficial do Estado, que impõe coercivamente os seus valores através, como diria o prof. Cavaco Silva, de "procedimentos administrativos claros". Ninguém põe em causa os dogmas da saúde - porque só na saúde se encontra ainda uma verdade única e universal, regulamentada por um Estado que tem o dever de zelar pelos hábitos dos seus cidadãos.
Não admira que numa sociedade dominada pelo culto da saúde, promovido e imposto pelo Estado, os hospitais se encham de multidões de "crentes" que entopem as Urgências perante o mais leve sintoma e que não prescindem dos últimos avanços da medicina. O que já é de admirar é que o Estado, que impulsiona esta fé e este insustentável estado de coisas, se sinta depois no direito de impor taxas moderadoras - fingindo não perceber que a necessidade de moderação decorre do desespero que é por si próprio impulsionado. Se o Estado exige que os seus cidadãos vivam até aos cem anos, livres de achaques e de mazelas, não pode depois esperar que estes não se deixem contagiar por esta dolorosa fantasia. Os hospitais são as igrejas dos nossos dias."

:
Abraracourcix o chefe falou sobre: ,
um discurso de Abraracourcix às 12:04
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
9 comentários:
De Macambuzia Jubilosa a 13 de Fevereiro de 2007 às 16:24
1 passinho em frente...
3 passinhos atrás..

e assim vai portugal

O tabagismo, o alcolismo, a obesidade não se combatem, proibindo. Mas sim sensibilizando, prevenindo, educando...

Qualquer dia proibem-me de trimestralmente comer a minha latinha de leite condensado...
De Abraracourcix a 13 de Fevereiro de 2007 às 16:34
Toda a razão, macambúzia, como é óbvio estes problemas - que o são - só se podem combater, numa sociedade ocidental, que por definição devia ser democrática e garante das liberdades individuais (foi para isso que se fez a Revolução Francesa, foi para isso que se combateu a Segunda Guerra Mundial, só para dar dois exemplos simplistas e simplificados), num país da Europa Ocidental esses problemas deviam ser combatidos mas sim evitados - através de uma correcta sensibilização nas escolas, por exemplo. Proibições nunca foram exemplos, excepto para os que as querem quebrar.
OOh... e tu comes uma lata de leite condensado de 3 em 3 meses?!? Pecaminosa!! Pessoas como tu vão acabar a fazer trabalho comunitário (qualquer semelhança com argumentário de uma certa campanha recém-terminada não é mera coincidência), ou em campos de reeducação!... Por enquanto ainda vai dando para rir com isto, receio que um dia não tenhamos vontade o de o fazer...
De Hopes a 14 de Fevereiro de 2007 às 16:50
Ainda mal acabei de proferir o meu discurso do «acreditamos na liberdade e na responsabilidade», e alguém se encarrega logo de me lembrar «Acorda, isto é Portugal, pá!»... Chega a ser desagrádavel, já nem uma pessoa tem direito a mais de dois dias de optimismo...
De Macambuzia Jubilosa a 14 de Fevereiro de 2007 às 18:02
Oh António, tu que és um atento e um interessado destas coisas, não me sabes dizer se está disponivel e onde, dados e estatisticas do referendo no que concerne a idades, sexo, etc.? Se calhar ainda é prematuro esse tipo de informações estar disponivel.... Só consigo ter acesso a informações relativas às freguesias (sim/não/abstenção).

É que para além de ter curiosidade geral acerca disso, andam para aí umas más linguas a dizer que os homens votaram muito mais que as mulheres, mas dados concretos nem ve-los.

E gostava tb de ver as idades. Para ver se os jovens são assim tão conservadores ou se até foram eles que deram a vitória ao sim. Eu penso e já ouvi dizer algures que sim, mas é como digo, fontes oficiais não consigo chegar a nenhuma.
De Abraracourcix a 15 de Fevereiro de 2007 às 10:01
Dados oficiais sobre isso não há, nem tenho ideia de costumarem ser divulgados. Seja como for, ainda seria demasiado cedo. O que sei é que a Intercampus fez uma sondagem para a TVI, Rádio Clube (e Público), em paralelo à tradicional sondagem à boca das urnas, onde auscultou o perfil do votante (sexo, idade, etc.). Sobre isso só consegui descobrir a notícia que o Público colocou no jornal de dia 12, do qual cito o início:

"Foram os homens, e não as mulheres, os que mais terão contribuído para a vitória do "sim" no referendo de ontem, revela uma sondagem telefónica da Intercampus para a TVI e o Rádio Clube Português a cujos dados o PÚBLICO teve acesso. Este dado, coincidente com o de algumas sondagens realizadas antes das eleições, é em parte explicado por o número de mulheres com mais 55 anos ser superior ao número de homens e os eleitores mais idosos tenderem a votar "não" enquanto os mais novos se inclinaram, de forma quase esmagadora, para o "sim". Os eleitores com filhos, os casados, os que vivem em união de facto e os viúvos também se inclinaram proporcionalmente menos para o "sim" do que os solteiros e os separados ou divorciados."

Já agora, isto:

"esta sondagem detectou o interesse dos eleitores para se pronunciarem em referendo sobre a eutanásia, a liberalização do consumo de drogas leves, a reintrodução da pena de morte, o casamento homossexual e a adopção de crianças por homossexuais."

Os outros ainda vá, mas... pena de morte?!? Aqui se vÊ um dos perigos e limites da chamada democracia directa...
Se quiseres ver a notícia toda, pesquisa em http://jornal.publico.clix.pt/ a edição de 12 de Fevereiro e vê, na secção Destaque, a notícia ao lado do mapa da distribuição dos votos por concelho.
De Macambuzia Jubilosa a 15 de Fevereiro de 2007 às 13:39
Obrigado Abraracourcix :)

Quanto ao referendo para a pena de morte, na altura tambem fiquei surpreendida, mas depois lembrei-me que vivemos num país onde Salazar foi votado para melhor português de sempre....
De Abraracourcix a 15 de Fevereiro de 2007 às 14:11
Eu não fiquei surpreendido, porque reflecte o pensamento do português típico: "é enforcá-los!" (a propósito de violadores, pedófilos, etc.). Fiquei no entanto chocado, como apesar de ser expectável não consigo deixar de me sentir acerca de algo tão profundamente enraizado em mim como a oposição à pena de morte.
Quanto a Salazar: li hoje que também foi votado como O Pior Português de Sempre, em despique renhido com Mário Soares...
Ainda a respeito dessa figura, passou anteontem na RTP o documentário "defensor" de Salazar, à semelhança do que está a ser feito com as outras figuras do "top 10", que me surpreendeu pela qualidade, em geral boa. Claro que é parcial e omite ou mascara muito do que de mal há a dizer sobre ele, mas penso que deverá ser esse o objectivo de cada documentário acerca da respectiva figura. Não obstante, apresentou algumas perspectivas interessantes e, em geral, faz-nos reflectir sobre o seu papel na História Portuguesa do séc. XX... nessa perspectiva, penso, foi um bom programa.
De Macambuzia Jubilosa a 15 de Fevereiro de 2007 às 15:12
A verdade é que existe uma grande capacidade de mobilização e de organização por parte de grupos de extrema direita para votarem através destes mecanismos. Daí a contradição de salazar ser eleito o pior e o melhor portugues. É por isso que, para mim, votações, só mesmo as das urnas, que só podem ser dadas uma vez pela mesma pessoa. O resto é palhaçada e não reflecte rigorosamente nada. Mas enfim... são as tipicas formas subvertidas que estes grupos utilizam. Sendo certo nem todas as pessoas que votaram em salazar para melhor portugues sejam de extrema direita, mas estou em crer que em grande parte deve-se a isso, daí depois a contradição. Já aconteceu mais vezes em votações pela internet. Lembro-me no Arrastão em que havia nesse blog, uma votação para o referendo do aborto e a determinada altura o Não ganhava de longe. Os grupos de extrema direita, que vão ao arrastão desaguar toda a sua ravia assumiram inclusivamente que se tinham organizado nesse sentido. A sorte é que eles não primam pela inteligência e acabam por se auto-denunciar...

Quanto ao programa de Salazar, não vi (reconheço que cada vez vejo menos televisão portuguesa, praticamente nenhuma aliás), mas pelo que tenho lido por aí, parece que foi um programa muito pouco neutro.

"Claro que é parcial e omite ou mascara muito do que de mal há a dizer sobre ele. Mas penso que deverá ser esse o objectivo de cada documentário acerca da respectiva figura"

Pois...mas isso não é o correcto. O correcto e mostrar factos. Se os omitem está mal. E é tão fácil manipular, basta meter a tónica nas coisas boas e eliminar as más, apesar de estas terem sido superiores e assim se cria uma imagem. Já dizia Goebbels: uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade. Enfim, mais uma vez a RTP esquece que é serviço publico e que portanto, devia ter funções e competências acrescidas.

E este populismo mediático com resultados tudo menos fidedignos, disfarçado de serviço publico, irrita-me profundamente.
De Abraracourcix a 15 de Fevereiro de 2007 às 17:12
É verdade que são os grupos "extremistas" (nos dois extremos) que habitualmente mais se mobilizam, mas também acho que há muita gente não-extremista a votar, porque também aqui o voto é anónimo. Aliás, apesar de isso não impedir que uma pessoa vote várias vezes, a RTP limita a votação (por televoto) a um por cada nº telefone... Mas também sei que andaram a circular SMS a enganar as pessoas dizendo que para eleger já não sei quem (não era o Salazar) deviam ligar um certo número, que era o do voto em Salazar... São métodos torpes e lnfelizmente já habituais.
Mas penso, acima de tudo, que se está a dar uma importância muito superior à devida a esta coisa dos Melhores Portugueses. Afinal, e repetindo, é apenas entretenimento. Concordo que a RTP devia ter preocupações de maior imparcialidade, mas os critérios foram claros desde o início e, tendo o programa sido parcial, não acho que ninguém vá deturpar a imagem que tem do homem por causa daquele programa. Simplesmente quem já se revia na faceta "benigna" vai continuar a fazê-lo, quem se revê mais na "maligna" vai continuar a indignar-se. Salazar ainda é demasiado conhecido para que se formem novas opiniões. Claro que é mau omitirem factos, mas como disse é um critério claro desde o início. E lá porque é um programa do canal público, não quer dizer que seja serviço público... nem tudo o que passa na RTP o tem de ser. ISto é entretenimento, e concorde-se ou não foi assim que foi vendido pela RTP. Já quanto ao excessivo populismo, aí concordo a 100% - na ânsia de ganhar audiências, a RTP fez tal alarido e publicidade a isto que ganhou repercussões desmesuradas e imerecidas.

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