Sexta-feira, 23 de Março de 2007

Muhammad Yunus, o paladino dos pobres

Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank, inventor do microcrédito, paladino dos pobres e da luta contra a pobreza, está em Portugal para uma conferência - que pena não morar em Lisboa...
Yunus, sobre quem já aqui escrevi e deixei o admirável discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz, em Dezembro passado, deu uma entrevista ao Público, que eu desconstrutivamente decidi divulgar aqui (destaques meus):

"Muhammad Yunus não responde a perguntas sobre o seu actual projecto de entrar na política. Receia que as subtilezas da língua nas respostas em inglês sejam mal interpretadas na turbulência em que vive o seu país - o Bangladesh. Mas isso não significa que esteja a reconsiderar a decisão tomada há poucos meses. O inventor do microcrédito e Prémio Nobel da Paz de 2006 está apostado em transpor o sonho de pôr fim à pobreza no mundo - que motivou a criação do seu Grameen Bank - para o centro das decisões políticas a partir de onde se pode, lentamente, mudar e melhorar o mundo.
Para já, comprometeu-se a tirar da pobreza, até 2015, 35 milhões de pessoas - o número dos clientes e accionistas do "Banco dos Pobres" - contribuindo para os Objectivos para o Desenvolvimento do Milénio fixados para esse ano e definidos em 2000 pela ONU. "Enquanto cidadãos, todos somos responsáveis pela realização desses objectivos. Não só os governos", disse nesta entrevista, ontem, em Lisboa. Essa é a sua primeira contribuição.
A outra é acreditar que é possível colocar o lucro das empresas ao serviço das pessoas e revolucionar a ideia, ainda muito presente, de que apenas o dinheiro deve motivar os empresários. Para ele, é possível introduzir nas empresas a ideia de "levar o bem" ao maior número possível de pessoas - que define o conceito de social business para o qual Yunus se virou depois de mais de 30 anos dedicados ao microcrédito.

PÚBLICO - Criou um partido político, ao mesmo tempo que critica o sistema. É possível entrar na política sem entrar no sistema?
Muhammad Yunus - A política é o processo da mudança. É onde as mudanças ocorrem. É onde se organizam as pessoas e, de certo modo, se tenta mudar alguma coisa. É a via através da qual se podem introduzir as mudanças.

A mudança não pode surgir apenas pela via dos negócios?
Também é possível mas é um processo lento. A política é o topo do processo de tomada de decisão e é representativa de todas as pessoas. Se se conseguir chegar lá, tudo se torna mais fácil. Mudam-se leis, criam-se outras, para apoiar o tipo de actividade que queremos apoiar. E se um país conseguir mudar alguma coisa, influenciará sempre outros países.

No futuro, como gostaria de ser lembrado: como Nobel da Paz, inventor do microcrédito ou político?
Ficarei feliz se o meu legado, e todo o trabalho que estou a fazer, conseguir convencer as pessoas de que é possível criar um mundo sem pobreza, apenas imaginar que podemos fazer isso, que é possível um mundo em que nenhuma pessoa seja pobre. E acreditar nisso. Porque acreditar é percorrer metade do caminho. Quando acreditamos, fazemos.
Hoje, pelo contrário, a maioria das pessoas acredita que a pobreza é parte da vida. A partir do momento em que se aceita isso nunca se pensa em eliminá-la. Eu coloco a questão de outra forma: a pobreza não é parte da vida, não pertence à humanidade, é-lhe imposta de forma artificial pelo sistema. Sendo assim podemos eliminá-la e libertar as pessoas dela. Se pudermos todos globalmente acreditar nisso, então é possível mudar isso e, globalmente, um dia eliminar a pobreza.

Acredita então, como uma vez disse, que a pobreza só terá lugar no museu?
Acredito nos objectivos do milénio para o desenvolvimento, adoptados por todas as nações juntas, nas Nações Unidas em Nova Iorque, como promessa de reduzir para metade o número de pobres no mundo até 2015. Não queriam com isso enganar-nos, espero. Acreditámos nisso, por isso tomámos a decisão. Se alguns países não conseguirem atingir esse objectivo até 2015, consegui-lo-ão em 2016. Quando vemos que um país conseguiu, ficamos mais entusiasmados, acreditamos. E se um país conseguir reduzir a pobreza para metade até 2015, levará outros 15 anos, ou menos, a eliminar a outra metade.

Nalgumas zonas do planeta ainda se está muito longe disso.
Não estamos longe. não no meu país. No Bangladesh estamos na via certa para reduzir para metade os pobres até 2015. Em média, todos os anos reduzimos em dois por cento a pobreza. Começámos em 2000. Em 2005, já tínhamos reduzido 10 por cento. Se continuarmos por esta via, em 2015 teremos reduzido 30 por cento em 15 anos. O Bangladesh é um dos países que alcançará os objectivos.

Mas não tem estado de acordo com as políticas de desenvolvimento do Banco Mundial e FMI...
Tenho questionado o facto de o Banco Mundial não dar atenção suficiente ao microcrédito nos seus programas. Não chega a um por cento do seu financiamento internacional aquilo que vai para o microcrédito. Estão a fazer do microcrédito uma nota de rodapé, quando a nossa ideia é que o microcrédito deve ser uma das políticas principais para permitir às pessoas pobres mudar as suas vidas.

Os programas do FMI e Banco Mundial falharam?
Não diria que falharam. Diria que, de forma geral, podiam ter sido muito melhores. Falhar é uma palavra muito forte. Fizeram-se muitas coisas. Mas com o dinheiro aplicado podia ter-se alcançado muito mais do que aquilo que se alcançou na área da luta contra a pobreza.

Depois do microcrédito, a sua convicção é que o futuro da luta contra a pobreza passa pelo conceito de social business [negócios sociais]. Em que é que consiste?
É um negócio que contribui para trazer o bem às pessoas, sem a intenção de ter ganhos pessoais, de fazer dinheiro a título individual. Quando coloco um milhão de euros neste negócio, não espero ter um retorno extra de um milhão de euros. Não preciso disso. Tudo o que quero é recuperar o milhão de euros que investi, ao mesmo tempo que criei uma empresa que resolve um problema social definido, que pode ser, por exemplo, a saúde, através de uma empresa farmacêutica. Produzem-se os medicamentos que são usados pelas pessoas pobres para as suas doenças. Hoje são tão caros que ninguém consegue comprar. A ideia é fazê-los baratos para que os comprem. Como não têm qualquer intenção de fazer lucro, podem baixar os preços.
Além disso, é possível baixar os custos na comercialização porque, quando se está à procura do lucro, investe-se muito nas embalagens, na publicitação. Neste caso, podemos dispensar isso - as pessoas não são curadas pela embalagem. O social business consiste numa empresa sem dividendos, mas sem prejuízos.

Não é difícil convencer as empresas a incorporar esse tipo de preocupação que está subjacente ao conceito de social business?
O problema não está nas empresas. As empresas são meras executoras. O problema é ao nível intelectual, da teoria. Se, amanhã, incluirmos o conceito de social business nos livros, no dia seguinte muitas coisas começarão a acontecer.
Porque vamos tomar consciência de que somos capazes de o fazer. Neste momento, apenas estamos a ver o que diz a teoria e a adaptarmo-nos a ela. E a teoria diz que negócio significa, não só que temos que fazer dinheiro, como também que temos de maximizar o dinheiro. É essa mentalidade que temos estado a construir nas salas de aula. E quando as pessoas saem da escola é isso que fazem. Não tem que ser assim.
Há um outro tipo de abordagem, que em vez de olhar para o lucro, olha para quantas pessoas é que se pode influenciar e que benefícios lhes podemos trazer, como saúde, alimentação, ou qualquer outra coisa que se possa fazer e não está a ser feito. É possível concretizar isso num formato empresarial. Se conseguirmos incorporar este pensamento e se as nossas crianças forem treinadas a pensar assim, então as coisas vão acontecer muito depressa.

Desde o início da ideia do microcrédito que é muito crítico em relação ao papel desempenhado pelos bancos convencionais. O que é que não gosta neles?
Nunca disse que não gostava. Apenas acho que não estão a fazer o trabalho que é suposto fazerem: fornecer serviços financeiros às pessoas, a todo o tipo de pessoas. Os bancos param lá em cima e não chegam cá abaixo. Dois terços da população mundial não têm acesso aos seus serviços. É uma falha muito grande, um grande vazio para completar.
Se o método utilizado pelos bancos não funciona, então temos de encontrar outro método. O Banco Grameen demonstrou que isso é possível. Se damos acesso ao crédito aos pedintes, é porque outra forma de fazer as coisas é possível.

E, mesmo assim, como é que conseguem que tantas pessoas paguem os seus empréstimos? Seleccionam os vossos clientes?
Não escolhemos ninguém. Nós queremos chegar a 100 por cento das pessoas pobres do Bangladesh. Queremos chegar a toda a gente. Não andamos a escolher os melhores e deixar de lado os piores. Todos são bons. Temos, por exemplo, um projecto com os pedintes e toda a gente dizia que isso seria impossível. Estamos a verificar que não é.
Neste momento já atingimos 80 por cento dos pobres do Bangladesh, que representam metade dos 145 milhões de habitantes do país. O nosso objectivo é chegar a todos. Para que ninguém seja esquecido.

É isto que os distingue da banca tradicional?
Os bancos convencionais olham para o passado das pessoas, para o seu rating, para os empréstimos que já pediram. No nosso sistema não olhamos para o passado, estamos apenas interessados no futuro, no potencial da pessoa, não no que fez no passado. Pode ter enganado muita gente, mas não é isso que nos vai impedir de negociar com essa pessoa. Este é o nosso ponto de partida.

Para que as pessoas devolvam os empréstimos também é preciso que todas sejam capazes de iniciar algum negócio e terem sucesso...
Mas eu acredito nisso. Todas as pessoas são empreendedoras. Faz parte do ser humano. Se começarmos a pensar que só algumas são, então não estamos na via certa.

Mas prefere escolher dar os empréstimos às mulheres...
Sim, é verdade. Nos anos 70, quando eu criticava o sistema, dizia que os bancos estavam errados por rejeitarem os mais pobres. E dizia que estavam errados porque rejeitavam as mulheres, fossem elas ricas ou pobres.
Claro que os bancos negavam, mas os números mostravam que o peso das mulheres no total das pessoas a quem eram concedidos empréstimos não chegava sequer a um por cento em nenhum dos bancos do Bangladesh.
Por isso, quando comecei fiz questão de garantir que metade dos empréstimos fosse dado a mulheres. Foi apenas como reacção à situação. Eu não tinha qualquer ideia se as mulheres eram ou não cumpridoras. Quando chegámos junto das mulheres não foi fácil. Elas diziam-nos para não lhes darmos o dinheiro, para darmos antes ao marido porque nunca tinham tido dinheiro na vida.
Foram precisos seis anos a tentar convencê-las, a criar coragem, até que conseguíssemos que elas recebessem o dinheiro. E só aí começámos a notar que o dinheiro que ia para as famílias através da mulher gerava muito mais benefícios do que o dinheiro que ia para as famílias através dos homens. E achámos melhor focarmo-nos nas mulheres.

Encontraram muitas resistências a essa política num país muçulmano como o Bangladesh?
Muitas resistências. O primeiro grande ataque que nos fizeram foi exactamente por emprestarmos dinheiro às mulheres. Eles acreditavam que, fazendo isso, se destruiria a nossa religião.

Conseguiram de certa forma mudar isso?
Fomos em frente. Sabíamos que iam perceber o seu erro. E perceberam.

Ao atribuir-lhe o prémio Nobel da Paz, a Academia de Oslo disse que o fazia porque promover a paz não era apenas resolver conflitos mas prevenir as causas da guerra.
Acredita que sem pobreza deixará de haver guerras?
A pobreza é uma ameaça à guerra, porque muito facilmente se pode transformar na semente do descontentamento, da violência e do terrorismo.
Se temos fome e não temos nada, e alguém nos dá comida e armas, combatemos qualquer guerra que quiserem. Podemos facilmente ser transformados em todo o tipo de fanático. Mas isso não acontece se estivermos bem alimentados. Nesse caso, se nos derem uma arma, colocamos uma série de coisas em questão."
:
Abraracourcix o chefe falou sobre: , ,
um discurso de Abraracourcix às 11:51
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
2 comentários:
De sofi a 23 de Março de 2007 às 16:03
Descobri o teu blog num comment sobre o PEPAP, também sou estagiária e tenho um percurso profissional parecido com o teu ( ou seja, tudo pode acontecer e acontece): sou licenciada em CiÊncias da Educação, é a primeira vez que trabalho na minha àrea, e durante um ano- parece muito tempo, não é?
Gostei desta tua morada virtual, voltarei!
Também tenho um blog, podes espreitar, www.mapadocais.blogspot.com
Desejo-te sorte e alegria!
De Abraracourcix a 27 de Março de 2007 às 15:50
Um ano, no meu caso, passou a voar...
Obrigado pelo comentário e pela gentileza, volta sempre!

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