Terça-feira, 27 de Março de 2007

O Portugal de Salazar

Como já de alguma forma se antecipava há algum tempo, Salazar venceu a votação do Maior Português de Sempre, gongoricamente promovida pela RTP desde há largos meses.
Conheço quem tenha entrado em choque com o resultado. Conheço quem se recuse a acreditar que 82.000 portugueses (41% dos 200.000 que foi dito terem votado) genuinamente pensem que Salazar é o maior português da nossa História de quase 900 anos. Conheço quem faça planos de emigrar para Espanha, ou para outro qualquer sítio onde um ditadorzeco não seja o maior do sítio.
Como conheço quem, não concordando, aplauda a escolha, por ser a manifestação de um descontentamento, um mal-estar, uma malaise indefinida - um spleen, à maneira dos absínticos escritores do séc. XIX -  que perpassa e afecta o mais profundo da sociedade portuguesa.
Aplausos espúrios, penso eu. Se por um lado gosto do facto de a escolha permitir abrir o armário dos esqueletos onde durante tempo se escondeu, como tabu, tudo o que se referia ao Estado Novo, à ditadura, a Salazar (ainda hoje é difícil pronunciar este nome sem tremer, qual Voldemort português, "aquele cujo nome não se pode pronunciar"), e reconheça que se trata, apenas e só, de um programa de entretenimento que teve muitos defeitos mas a virtude de fazer com que se fale do que não é normalmente falado, por outro há algo que brota do mais profundo de mim, do lugar mais recôndito da minha consciência, lá onde se aloja tudo o que faz de mim aquilo que sou, algo que recusa, que não pode aceitar uma escolha destas.
Mesmo admitindo - e até certo ponto concordando - uma necessidade de protesto pelo estado a que isto chegou (o recurso a uma certa citação de há 33 anos é propositado), mesmo partilhando do tal mal-estar geral, mesmo sentindo também eu, e muito, o tal spleen, não posso aceitar que essa necessidade de protesto gere um voto maciço num ditador que representa tanto daquilo que não se quer. É dizer que estamos mal, e que queremos mudar, mas em vez de ansiarmos por algo melhor, ansiarmos a voltar ao estado anterior, que nos esquecemos, ou queremos esquecer, que era pior.
Sim, estamos mal. Sim, é preciso mudar o estado a que isto chegou. Mas antes estávamos pior, e acho fantástica a dimensão do aspecto selectivo da memória. A memória colectiva é curta, sem dúvida, e muito, demasiado selectiva.
Para além disto, há o aspecto, também focado por alguns dos comentadores e defensores das personagens do top 10 abordadas no derradeiro programa, da falta de cultura da população portuguesa, da falta de qualidade do ensino em Portugal. Eu, que me considero bastante mais culto que a média, nunca falei de Salazar, do Estado Novo, do 25 de Abril na escola. Tudo o que sei devo-o aos meus pais e ao meu voraz  apetite por aprender. Ora a maior parte dos portugueses que nasceram depois de 1974, e sobretudo a esmagadora maioria dos que participam em votações como a dos Maiores Portugueses, não beneficia destes aspectos.
Para estes, Salazar é um personagem como outro qualquer, sem nenhum carácter particularmente malévolo ou indesejável. Se lhes dizem que havia alguém que "punha ordem na barraca", olhando para o actual estado das coisas e da nossa democracia essas pessoas sentem-se atraídas por esse personagem e votam nele.
Ao mesmo tempo, também se tornam mais permeáveis à manipulação e à persuasão daqueles que genuinamente acreditam e promovem Salazar, o Estado Novo, o "nacionalismo", e de caminho (esta é a parte que ocultam, ou tentam ocultar, para assim melhor convencer) a xenofobia, a intolerância, o repúdio pelos valores democráticos. São esses, os PNR, FN e afins que promoveram o voto em Salazar, e com estes argumentos o conseguiram alcandorar a "Maior Português de Sempre" - com aspas, muitas aspas...
(prefiro destacar que, facto referido ao de leve no programa, uma sondagem "verdadeira" - isto é, cientificamente preparada - resultou na escolha de D. Afonso Henriques como favorito dos portugueses, uma escolha bem mais consensual, como seria D. João II, ou o Infante D. Henrique, ou Camões).
O que é particularmente grave, em relação a esta promoção do voto em Salazar, é verificarmos que idêntica promoção por parte de um grupo legalmente organizado e com muitos milhares de simpatizantes - o PCP - só resultou em 19% de votos para Cunhal... Ou seja, e sendo a capacidade de organização dos "salazarentos", adjectivemo-los assim para conveniência, bem menor que a do PCP, ou a sua capacidade de persuasão é extraordinarimente boa, ou há muita gente por aí pronta a ser persuadida... Nesta perspectiva o sucesso na escolha de Salazar é o sinal mais alarmante até agora do rumo que as coisas estão a tomar, e do que não está a ser feito, por incapacidade ou, pior, por falta de vontade, para contrariar esse rumo.
:
Abraracourcix o chefe falou sobre: , ,
um discurso de Abraracourcix às 12:04
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!
8 comentários:
De rui a 27 de Março de 2007 às 13:44
tristeza e vergonha
De sofi a 27 de Março de 2007 às 16:44
Como vês, não só me dei ao trabalho de ler,mas também de te adicionar ao meu blog :-)
ok, pode efectivamente ser mais fundo que o problema de educação...embora eu tenha dificuldade em imaginar alguma coisa mais grave e determinante que falta de educação na capacidade de discernimento do ser humano. Referes que tudo o que sabes sobre o assunto o deves aos teus pais e à tua voraz vontade de aprender. Quando digo que existe uma falha na educação, é precisamente a isto que me refiro: à falta de uma vontade autónoma de aprendizagem, à falta de uma promoção da curiosidade e da criatividade no ensino, o que compromete o conhecimento transmitido às pessoas.
E é com este legado de génio que continuamos a ter compaixão pelos nossos líderes. Bravo! Bravissímo!

Abreijos
De Abraracourcix a 27 de Março de 2007 às 17:14
Obrigado pela gentileza redobrada, de resto já retribuída :)
O mais grave e determinante que a falta de educação "per se" é precisamente o efeito que essa falta tem em toda uma sociedade. São defeitos que se têm vindo a agudizar desde há uma geração (desde o 25 de Abril) e que demoram muito tempo a corrigir. E entretanto esses efeitos - o alastramento da intolerância, terreno fértil à extrema-direita, por exemplo, para referir o perigo de que falo no post - só vão piorando...
Claro que isto é muito complexo, nem sequer é um fenómeno unicamente português.
Voltando à educação: concordo contigo, o problema é mesmo a falta de promoção da "ginástica mental", o habituar os jovens de que tudo é fácil, pré-formatado, "ready made". E quando falo de educação não me refiro só à escola, pois o problema já vem de casa.
Mas como te disse, penso que a educação é só um dos problemas que levou à vitória de Salazar - claro que é um problema que só por si já dá pano para mangas, como nesta troca de palavras estamos a ver ;)

Abreijos grandes ;))

PS - já agora aproveita e vota no verdadeiro melhor português/gaulês de sempre ;)
De sofi a 27 de Março de 2007 às 17:34
eu vi!!! Obrigada!
Quanto a votar, caríssimo, na tua lista a única mulher que figura é a Rosa Mota....e a Sophia de Mello Breyner Andresen? A Paula Rêgo? Olha as cotas :-)
Vou pensar...é dificil....
De O Raio a 1 de Abril de 2007 às 19:52
A votação em Salazar foi organizada por grupos da extrema direita como se viu nos blogs destes grupos.
De qualquer forma houve muita gente que nem sequer é salazarista ou mesmo da extrema direita que votou ou em Salazar ou em Cunhal.
O verdadeiro vencedor foi Aristides de Sousa Mendes pois, aparentemente, não tinha grupo organizado a apoia-lo.
Os votos em Salazar ou Cunhal mostraram um sentimento grave, um sentimento de que já estamos por tudo, um sentimento de que não confiamos nesta "democracia" europeia.
E, com razão, actualmente não passamos de uma colónia de Bruxelas!
De Abraracourcix a 2 de Abril de 2007 às 10:19
Aquilo que me chamou a atenção é precisamente ter havido muita gente que não é salazarista (pelo menos não se forma assumida, perante os outros e perante si próprio) a ter votado em Salazar... Houve votação organizada mas o fenómeno estravazou essa mesma organização, e isso é que é o alarmante: o tal "sentimento de que já estamos por tudo, um sentimento de que não confiamos nesta "democracia" europeia", como dizes, e que vai muito para além da tal retorica barata de "não passarmos de uma colónia da Bruxelas...
Faz-me no entanto imensa confusão que o descontentamento face ao "estado a que isto chegou" - e que eu partilho - leve a que se defenda o regresso ao estado anterior, que é em quase tudo muito pior.
Quanto a Aristides: beneficiou do "voto não alinhado", de quem querendo protestar contra "o estado a que isto chegou" e não querendo votar em Salazar ou Cunhal por motivos que deviam ser óbvios (não o foram), o escolheu como "terceira via", paradoxalmente em detrimento de outros mais consensuais (Afonso Henriques, D. João II, Camões...).

Já que não o fiz nas outras respostas, resta-me agradecer os teus pertinentes comentários! Volta sempre!
De rui a 8 de Abril de 2007 às 18:24
a sua falta de cultura é abismal!

a epoca mais fertil em artistas da historia de portugal

passa-se entre os anos trinta e sessenta desta seculo!

surgiram escritores,pintores,pensadores,teatro,cinema,bailado...
sera que nao entende a importancia de um pove ter que ser governado por elites intellectuais e nao

labregos sem cultura apenas de ambiçao enlevados ?

a quem o interesse se fica pelo pessoal ?

leia as mascaras de salazar!! cultive-se! pelo menos!
De Abraracourcix a 13 de Abril de 2007 às 02:08
...e a sua presunção de superioridade - moral, política, cultural - é ainda mais profunda, meu caro rui.
Em primeiro lugar, contrariamente às suas extemporâneas assunções, eu li "As Máscaras de Salazar", que de resto achei interessante.
Em segundoi lugar, em que se baseia para afirmar que as décadas de 30 a 60 foram " a epoca mais fertil em artistas da historia de portugal"? Fez algum estudo comparativo, ou teve acesso a algum trabalho científico nesse sentido? Se sim, gostaria de o ver. É que fertilidade de "escritores,pintores,pensadores,teatro,cinema,bailado" há em todas as épocas da nossa História... até na nossa contemporaneidade, pois existem por aí muito mais "escritores,pintores,pensadores,teatro,cinema,bailado" do que se pensa, e bastante melhores do que o caro rui achará (embora aferições de qualidade sejam sempre relativas, como é óbvio). Tenho orgulho em viver numa era também ela muito fértil culturalmente.
Isso não é, portanto, sinal da "superioridade" da era de Salazar, até porque a maior parte do que havia era um certo tipo de escrita, um certo tipo de pintura, pensamento, teatro, cinema, bailado, encorajado e patrocinado pelo regime como formas eficazes de distrair o povo e o impedir o povo de pensar no resto, no que não era positivo no Estado Novo.
E essa da "importancia de um pove ter que ser governado por elites intellectuais e nao labregos sem cultura apenas de ambiçao enlevados"... até posso concordar, em termos gerais, mas não posso tolerar que não seja o próprio povo a decidir se quer ser governado pela elite intelectual ou pelos labregos, e a decidir se um político em particular faz parte da primeira ou da segunda categoria.
Arrogar-se o direito de julgar a sua opinião superior e por isso ter o direito de decidir o que é o quê é paternalismo, é ditadura, é intolerável.

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