Domingo, 13 de Julho de 2008

O fim do petróleo - cenário não catastrofista

Estava a comentar mais uma interessante análise do Dissidente X quando me apercebi do rumo que o meu comentário levou, e do peso do que estava a escrever. Porque é o assunto da moda, incontornável pelo peso que tem no nosso sistema de vida - o petróleo - decidi adaptá-lo a post.

Ultimamente tenho visto alguns comentários isolados, de pseudo-analistas, de jornalistas e de bloggers (por grau crescente de relevância) que começam por "quando o preço do petróelo baixar...".

Sempre que leio isto não consigo evitar um sorriso triste (como gostava que fosse um sorriso irónico...) e penso como estão iludidos, ou melhor, como querem estar iludidos. O grande problema é que ainda não nos consciencializámos da realidade, melhor, ainda não nos quisermos consciencializar. É o mesmo que quando custa acreditar que um parente próximo está para morrer: é o tipo de má notícia que temos tendência a negar para manter a sanidada mental, e compreendo este mecanismo.

Contudo, por muito que queira acreditar, não consigo. Não creio que o petróleo baixe nem sequer aos 100 dólares, embora gostasse de estar redondamente errado.

 

Não estou a ser catastrofista e sei precisamente o que vou dizer e o peso do que vou dizer. O preço do petróleo não vai baixar, pelo menos não significativamente (gostava de acreditar nos 100 dólares…), e não mais do que no curto prazo (dias, semanas no máximo).
Podem gravar as minhas palavras. O preço do petróleo não vai baixar nunca mais.

 

O que é grave é que como ainda não nos quisemos consciencializar disto, ainda não pensámos a sério, mesmo a sério, em como terá de ser o mundo depois disso.
O petróleo vai acabar, isso é óbvio - por isso se chama recurso não renovável. Em relação a quando vai acabar, suspeito que as petrolíferas tenham uma ideia bem mais nítida do que o que deixam transparecer…

Especula-se muito sobre o “pico do petróleo”, o momento em que a produção petrolífera chegará ao máximo e começará a baixar, alguns dizem mesmo que esse pico já passou e não nos dizem para não criar alarmismo…

Acredito que se não aconteceu (nãio excluo a hipótese), está para acontecer nos próximos anos, o que explica a histeria crescente dos mercados. Mas claro que ninguém nos vai avisar disto… 

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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Eleitoralismo precoce

Está confirmado oficialmente (como se necessitasse de confirmação): o Governo está já em campanha eleitoral. A descida do IVA de 21 para 20% foi anunciada por Sócrates como um "sinal" - só que, em meu entender, um sinal no sentido errado.
Do ponto de vista económico (algo de que eu entendo um pouco), esta descida até faria sentido se se pretendesse estimular a economia, numa altura em que paira o espectro de uma nova crise de que ainda não se sabe muito bem a natureza, duração ou dimensão. Deste ponto de vista, os agentes económicos receberiam um pequeno estímulo (mais em termos de expectativas que outra coisa, mas estas em Economia contam muito) a não reduzirem a sua actividade. No entanto, o discurso de Sócrates não foi neste sentido, mas antes de o "sinal" ser de que as maiores dificuldades já passaram.
Ora isto é duplamente mentira. Para além de ser nesta altura impossível prever com alguma certeza como evoluirá nos próximos tempos a economia (a portuguesa, a europeia, a americana, a mundial), qualquer economista minimamente sério (e menos engagé politicamente...) dirá que a redução de impostos só faz sentido quando o défice atingir um patamar bastante mais baixo.
Em termos de dificuldade de aplicação, o que o Governo fez até agora - baixar o défice além dos 3% - é o mais simples. Difícil mesmo é baixar mais ainda, para um nível que seja sustentado no longo prazo (pelo menos entre 1,5 e 2%). Este défice de 2,6% pode muito facilmente resvalar para cima, como já tantas vezes aconteceu em Portugal nos últimos tempos, mais ainda pela tentação eleitoralista. Seria preciso baixar mais ainda para se poder com segurança aplicar este tipo de medidas estimuladoras da economia.
Como nem Sócrates nem Teixeira dos Santos levaram o seu discurso por aqui, e apesar de classificarem a decisão como "prudente" (e é-o apenas porque a descida terá efeitos pouco mais que marginais sobre os preços, embora nem tanto sobre as finanças públicas), sobra apenas a explicação maldosa para esta medida...
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um discurso de Abraracourcix às 11:35
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

A recessão está aí

Ontem todas as bolsas mundiais tiveram um dia negro. Viveu-se uma atmosfera de autêntico crash, mais ainda que no 11 de Setembro e dias seguintes. Mais do que os investidores, parece que é o próprio capitalismo que está em pânico.
Há alguns motivos de preocupação, mas racionalmente esta queda, e o medo generalizado nos mercados financeiros, não deveria existir. É verdade que a economia americana parece engripada - é provável que tecnicamente já esteja em recessão - mas os indicadores na Europa são muito menos maus, e menos ainda a Oriente - a China, aliás, está a passar intocada por esta crise e respira saúde económica. Por isso, há razões para que as bolsas americanas caiam, embora não para que caiam tanto. Já na Europa e Ásia, tudo aponta para um abrandamento económico, pelo que os mercados financeiros deveriam estar a reflectir esse sentimento, mas em todo o caso não em queda livre como nos últimos dias.
É aliás irónico que esta crise tenha começado porque o capitalismo americano, sob pressão de um constante crescimento para sobreviver - a metáfora da bicicleta, que tem de continuamente rolar para não cair, é aqui válida - engendrou mecanismos para emprestar dinheiro a quem não o podia pagar; depois, com a descida do preço das casas, que funcionavam como garantia, essas pessoas que à partida não tinham condições para pagar um empréstimo (surpresa)...  não pagaram.
O que é para mim mais preocupante em tudo isto é o facto de uma crise económica eminentemente americana poder fazer todo o mundo, se não entrar em recessão pelo menos quase estagnar, apenas releva do carácter intrinsecamente muito pouco racional do capitalismo como sistema económico...
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Comércio justo - por um consumo responsável, por um mundo melhor

Ontem tive o meu primeiro contacto directo com uma loja de comércio justo, algo que há muito procurava - infelizmente só agora descobri a localização das lojas (já há duas) no Porto.
Imbuído desde logo do espírito de justiça social e económica do conceito, coloquei já na barra direita dois links para associações que promovem o comércio justo em Lisboa e Porto, a Cores do Globo e a Reviravolta.
Para quem não esteja familiarizado, o comércio justo é definido como «uma parceria entre produtores e consumidores que trabalham para ultrapassar as dificuldades enfrentadas pelos primeiros, para aumentar o seu acesso ao mercado e para promover o processo de desenvolvimento sustentado.

O Comércio Justo procura criar os meios e oportunidades para melhorar as condições de vida e de trabalho dos produtores, especialmente os pequenos produtores desfavorecidos. A sua missão é a de promover a equidade social, a protecção do ambiente e a segurança económica através do comércio e da promoção de campanhas de consciencialização».

Alguns dos seus princípios fundamentais são (retirado da wikipedia):

  • A preocupação e o respeito pelas pessoas e pelo ambiente, colocando as pessoas acima do lucro;
  • A criação de meios e oportunidades para os produtores melhorarem as suas condições de vida e de trabalho, incluindo o pagamento de um preço justo (um preço que cubra os custos de um rendimento aceitável, da protecção ambiental e da segurança económica);
  • Abertura e transparência quanto à estrutura das organizações e todos os aspectos da sua actividade, e informação mútua entre todos os intervenientes na cadeia comercial sobre os seus produtos e métodos de comercialização;
  • Envolvimento dos produtores, voluntários e empregados nas tomadas de decisão que os afectam;
  • A protecção dos direitos humanos, nomeadamente os das mulheres, das crianças e dos povos indígenas;
  • A consciencialização para a situação das mulheres e dos homens enquanto produtores e comerciantes, e a promoção da igualdade de oportunidades;
  • A promoção da sustentabilidade através do estabelecimento de relações comerciais estáveis de longo prazo;
  • A educação e a participação em campanhas de sensibilização;
  • A produção tão completa quanto possível dos produtos comercializados no país de origem.
Como pessoa atenta aos mecanismos económicos (pela minha formação) e como chefe de aldeia altermundialista (cujo lema é precisamente o mesmo do comércio justo, "por um mundo melhor"), não podia deixar de divulgar este interessantíssimo - mais do que simples ideia - princípio norteador de um consumo responsável, ideias simples que todos podemos e devemos seguir, lojas também elas simples mas merecedoras pelo menos de uma visita.
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007

Muhammad Yunus, o paladino dos pobres

Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank, inventor do microcrédito, paladino dos pobres e da luta contra a pobreza, está em Portugal para uma conferência - que pena não morar em Lisboa...
Yunus, sobre quem já aqui escrevi e deixei o admirável discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz, em Dezembro passado, deu uma entrevista ao Público, que eu desconstrutivamente decidi divulgar aqui (destaques meus):

"Muhammad Yunus não responde a perguntas sobre o seu actual projecto de entrar na política. Receia que as subtilezas da língua nas respostas em inglês sejam mal interpretadas na turbulência em que vive o seu país - o Bangladesh. Mas isso não significa que esteja a reconsiderar a decisão tomada há poucos meses. O inventor do microcrédito e Prémio Nobel da Paz de 2006 está apostado em transpor o sonho de pôr fim à pobreza no mundo - que motivou a criação do seu Grameen Bank - para o centro das decisões políticas a partir de onde se pode, lentamente, mudar e melhorar o mundo.
Para já, comprometeu-se a tirar da pobreza, até 2015, 35 milhões de pessoas - o número dos clientes e accionistas do "Banco dos Pobres" - contribuindo para os Objectivos para o Desenvolvimento do Milénio fixados para esse ano e definidos em 2000 pela ONU. "Enquanto cidadãos, todos somos responsáveis pela realização desses objectivos. Não só os governos", disse nesta entrevista, ontem, em Lisboa. Essa é a sua primeira contribuição.
A outra é acreditar que é possível colocar o lucro das empresas ao serviço das pessoas e revolucionar a ideia, ainda muito presente, de que apenas o dinheiro deve motivar os empresários. Para ele, é possível introduzir nas empresas a ideia de "levar o bem" ao maior número possível de pessoas - que define o conceito de social business para o qual Yunus se virou depois de mais de 30 anos dedicados ao microcrédito.

PÚBLICO - Criou um partido político, ao mesmo tempo que critica o sistema. É possível entrar na política sem entrar no sistema?
Muhammad Yunus - A política é o processo da mudança. É onde as mudanças ocorrem. É onde se organizam as pessoas e, de certo modo, se tenta mudar alguma coisa. É a via através da qual se podem introduzir as mudanças.

A mudança não pode surgir apenas pela via dos negócios?
Também é possível mas é um processo lento. A política é o topo do processo de tomada de decisão e é representativa de todas as pessoas. Se se conseguir chegar lá, tudo se torna mais fácil. Mudam-se leis, criam-se outras, para apoiar o tipo de actividade que queremos apoiar. E se um país conseguir mudar alguma coisa, influenciará sempre outros países.

No futuro, como gostaria de ser lembrado: como Nobel da Paz, inventor do microcrédito ou político?
Ficarei feliz se o meu legado, e todo o trabalho que estou a fazer, conseguir convencer as pessoas de que é possível criar um mundo sem pobreza, apenas imaginar que podemos fazer isso, que é possível um mundo em que nenhuma pessoa seja pobre. E acreditar nisso. Porque acreditar é percorrer metade do caminho. Quando acreditamos, fazemos.
Hoje, pelo contrário, a maioria das pessoas acredita que a pobreza é parte da vida. A partir do momento em que se aceita isso nunca se pensa em eliminá-la. Eu coloco a questão de outra forma: a pobreza não é parte da vida, não pertence à humanidade, é-lhe imposta de forma artificial pelo sistema. Sendo assim podemos eliminá-la e libertar as pessoas dela. Se pudermos todos globalmente acreditar nisso, então é possível mudar isso e, globalmente, um dia eliminar a pobreza.

Acredita então, como uma vez disse, que a pobreza só terá lugar no museu?
Acredito nos objectivos do milénio para o desenvolvimento, adoptados por todas as nações juntas, nas Nações Unidas em Nova Iorque, como promessa de reduzir para metade o número de pobres no mundo até 2015. Não queriam com isso enganar-nos, espero. Acreditámos nisso, por isso tomámos a decisão. Se alguns países não conseguirem atingir esse objectivo até 2015, consegui-lo-ão em 2016. Quando vemos que um país conseguiu, ficamos mais entusiasmados, acreditamos. E se um país conseguir reduzir a pobreza para metade até 2015, levará outros 15 anos, ou menos, a eliminar a outra metade.

Nalgumas zonas do planeta ainda se está muito longe disso.
Não estamos longe. não no meu país. No Bangladesh estamos na via certa para reduzir para metade os pobres até 2015. Em média, todos os anos reduzimos em dois por cento a pobreza. Começámos em 2000. Em 2005, já tínhamos reduzido 10 por cento. Se continuarmos por esta via, em 2015 teremos reduzido 30 por cento em 15 anos. O Bangladesh é um dos países que alcançará os objectivos.

Mas não tem estado de acordo com as políticas de desenvolvimento do Banco Mundial e FMI...
Tenho questionado o facto de o Banco Mundial não dar atenção suficiente ao microcrédito nos seus programas. Não chega a um por cento do seu financiamento internacional aquilo que vai para o microcrédito. Estão a fazer do microcrédito uma nota de rodapé, quando a nossa ideia é que o microcrédito deve ser uma das políticas principais para permitir às pessoas pobres mudar as suas vidas.

Os programas do FMI e Banco Mundial falharam?
Não diria que falharam. Diria que, de forma geral, podiam ter sido muito melhores. Falhar é uma palavra muito forte. Fizeram-se muitas coisas. Mas com o dinheiro aplicado podia ter-se alcançado muito mais do que aquilo que se alcançou na área da luta contra a pobreza.

Depois do microcrédito, a sua convicção é que o futuro da luta contra a pobreza passa pelo conceito de social business [negócios sociais]. Em que é que consiste?
É um negócio que contribui para trazer o bem às pessoas, sem a intenção de ter ganhos pessoais, de fazer dinheiro a título individual. Quando coloco um milhão de euros neste negócio, não espero ter um retorno extra de um milhão de euros. Não preciso disso. Tudo o que quero é recuperar o milhão de euros que investi, ao mesmo tempo que criei uma empresa que resolve um problema social definido, que pode ser, por exemplo, a saúde, através de uma empresa farmacêutica. Produzem-se os medicamentos que são usados pelas pessoas pobres para as suas doenças. Hoje são tão caros que ninguém consegue comprar. A ideia é fazê-los baratos para que os comprem. Como não têm qualquer intenção de fazer lucro, podem baixar os preços.
Além disso, é possível baixar os custos na comercialização porque, quando se está à procura do lucro, investe-se muito nas embalagens, na publicitação. Neste caso, podemos dispensar isso - as pessoas não são curadas pela embalagem. O social business consiste numa empresa sem dividendos, mas sem prejuízos.

Não é difícil convencer as empresas a incorporar esse tipo de preocupação que está subjacente ao conceito de social business?
O problema não está nas empresas. As empresas são meras executoras. O problema é ao nível intelectual, da teoria. Se, amanhã, incluirmos o conceito de social business nos livros, no dia seguinte muitas coisas começarão a acontecer.
Porque vamos tomar consciência de que somos capazes de o fazer. Neste momento, apenas estamos a ver o que diz a teoria e a adaptarmo-nos a ela. E a teoria diz que negócio significa, não só que temos que fazer dinheiro, como também que temos de maximizar o dinheiro. É essa mentalidade que temos estado a construir nas salas de aula. E quando as pessoas saem da escola é isso que fazem. Não tem que ser assim.
Há um outro tipo de abordagem, que em vez de olhar para o lucro, olha para quantas pessoas é que se pode influenciar e que benefícios lhes podemos trazer, como saúde, alimentação, ou qualquer outra coisa que se possa fazer e não está a ser feito. É possível concretizar isso num formato empresarial. Se conseguirmos incorporar este pensamento e se as nossas crianças forem treinadas a pensar assim, então as coisas vão acontecer muito depressa.

Desde o início da ideia do microcrédito que é muito crítico em relação ao papel desempenhado pelos bancos convencionais. O que é que não gosta neles?
Nunca disse que não gostava. Apenas acho que não estão a fazer o trabalho que é suposto fazerem: fornecer serviços financeiros às pessoas, a todo o tipo de pessoas. Os bancos param lá em cima e não chegam cá abaixo. Dois terços da população mundial não têm acesso aos seus serviços. É uma falha muito grande, um grande vazio para completar.
Se o método utilizado pelos bancos não funciona, então temos de encontrar outro método. O Banco Grameen demonstrou que isso é possível. Se damos acesso ao crédito aos pedintes, é porque outra forma de fazer as coisas é possível.

E, mesmo assim, como é que conseguem que tantas pessoas paguem os seus empréstimos? Seleccionam os vossos clientes?
Não escolhemos ninguém. Nós queremos chegar a 100 por cento das pessoas pobres do Bangladesh. Queremos chegar a toda a gente. Não andamos a escolher os melhores e deixar de lado os piores. Todos são bons. Temos, por exemplo, um projecto com os pedintes e toda a gente dizia que isso seria impossível. Estamos a verificar que não é.
Neste momento já atingimos 80 por cento dos pobres do Bangladesh, que representam metade dos 145 milhões de habitantes do país. O nosso objectivo é chegar a todos. Para que ninguém seja esquecido.

É isto que os distingue da banca tradicional?
Os bancos convencionais olham para o passado das pessoas, para o seu rating, para os empréstimos que já pediram. No nosso sistema não olhamos para o passado, estamos apenas interessados no futuro, no potencial da pessoa, não no que fez no passado. Pode ter enganado muita gente, mas não é isso que nos vai impedir de negociar com essa pessoa. Este é o nosso ponto de partida.

Para que as pessoas devolvam os empréstimos também é preciso que todas sejam capazes de iniciar algum negócio e terem sucesso...
Mas eu acredito nisso. Todas as pessoas são empreendedoras. Faz parte do ser humano. Se começarmos a pensar que só algumas são, então não estamos na via certa.

Mas prefere escolher dar os empréstimos às mulheres...
Sim, é verdade. Nos anos 70, quando eu criticava o sistema, dizia que os bancos estavam errados por rejeitarem os mais pobres. E dizia que estavam errados porque rejeitavam as mulheres, fossem elas ricas ou pobres.
Claro que os bancos negavam, mas os números mostravam que o peso das mulheres no total das pessoas a quem eram concedidos empréstimos não chegava sequer a um por cento em nenhum dos bancos do Bangladesh.
Por isso, quando comecei fiz questão de garantir que metade dos empréstimos fosse dado a mulheres. Foi apenas como reacção à situação. Eu não tinha qualquer ideia se as mulheres eram ou não cumpridoras. Quando chegámos junto das mulheres não foi fácil. Elas diziam-nos para não lhes darmos o dinheiro, para darmos antes ao marido porque nunca tinham tido dinheiro na vida.
Foram precisos seis anos a tentar convencê-las, a criar coragem, até que conseguíssemos que elas recebessem o dinheiro. E só aí começámos a notar que o dinheiro que ia para as famílias através da mulher gerava muito mais benefícios do que o dinheiro que ia para as famílias através dos homens. E achámos melhor focarmo-nos nas mulheres.

Encontraram muitas resistências a essa política num país muçulmano como o Bangladesh?
Muitas resistências. O primeiro grande ataque que nos fizeram foi exactamente por emprestarmos dinheiro às mulheres. Eles acreditavam que, fazendo isso, se destruiria a nossa religião.

Conseguiram de certa forma mudar isso?
Fomos em frente. Sabíamos que iam perceber o seu erro. E perceberam.

Ao atribuir-lhe o prémio Nobel da Paz, a Academia de Oslo disse que o fazia porque promover a paz não era apenas resolver conflitos mas prevenir as causas da guerra.
Acredita que sem pobreza deixará de haver guerras?
A pobreza é uma ameaça à guerra, porque muito facilmente se pode transformar na semente do descontentamento, da violência e do terrorismo.
Se temos fome e não temos nada, e alguém nos dá comida e armas, combatemos qualquer guerra que quiserem. Podemos facilmente ser transformados em todo o tipo de fanático. Mas isso não acontece se estivermos bem alimentados. Nesse caso, se nos derem uma arma, colocamos uma série de coisas em questão."
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Sexta-feira, 16 de Março de 2007

A semana em cartoon: o primeiro (mini-pseudo-) crash das bolsas ditado pela China

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um discurso de Abraracourcix às 09:55
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Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Morreu a OPA, vive o corporativismo

Vive, e de boa saúde.
Enganei-me redondamente na contagem de espingardas da assembleia-geral da PT... aliás, mesmo com essa contagem que admito demasiado optimista, já se antevia quão difícil seria a tarefa de Belmiro & filho...
Morreu então a OPA, ou antes, foi interrompida voluntariamente. A minha surpresa não foi o resultado final, que já era expectável, mas mais a posição assumida directa (golden share) e indirectamente pelo Estado (Caixa Geral de Depósitos), pois se embora não concordando é admissível o argumento de que ao abster-se o Estado, directamente, estava a deixar o mercado funcionar (mas esta era a fase "pré-mercado" - só passado este crivo o mercado propriamente dito falaria...), dado essa ser uma posição objectivamente neutra, já o mesmo não aconteceu com a CGD. Ninguém duvida de que o seu voto contra a desblindagem foi instruído ou influenciado por um Governo - provavelmente mais que qualquer um que o antecedeu - whistle-blower.
Importa então compreender as razões pelas quais Sócrates se desinteressou do sucesso da OPA, exactamente ao contrário do que se deduzia das suas palavras quando do anúncio pela Sonae, no início do ano passado (onde era possível distinguir a visão de que uma operação destas envergadura daria sinais de dinamismo ao mercado e seria, portanto, positiva para a economia), e apostou mesmo no seu fracasso.
Ora para mim essas razões têm que ver com o triunfo da forma tradicional de fazer negócios em Portugal, à qual Sócrates - ou a sua clique, pelo menos - parece ter-se rendido. Como li em mais de um sítio, Belmiro de Azevedo é, desde há muito, o político mais incómodo para o Governo, não só para os socialistas (dadas as conhecidas convicções políticas do "homem-Sonae") mas também para os governos de cor laranja.
Isso acontece porque Belmiro despreza a tal forma "tradicional" de fazer grandes negócios em Portugal, em que o Governo, qualquer governo, é sempre parte interessada e é-o sob variados prismas, uma forma corporativista em que é necessário dar uma "palavra amiga" aos governantes, uma forma feita de cunhas e rodriguinhos, de amiguismos, de palmadinhas nas costas.
Não representando essa forma de negociar, antes fazendo sua a força do mercado - sempre foi assim que Belmiro actuou, é daí que vem a força do único império empresarial construído depois do 25 de Abril em Portugal a partir do nada, e também como se vê as suas fraquezas - acaba precisamente por isso por se colocar na posição de maior conveniência para ser derrotado por políticos - digamos - empresarialmente interessados ou empresários tout court, todos interessados apenas em defender a sua coutada.
A concorrência, nomeadamente no mercado das telecomunicações móveis, pode estar de parabéns, tal como o mercado das comunicações de forma mais lata - dada a inevitabilidade de mesmo sem OPA as redes de cobre e cabo da PT virem a ser separadas -  mas a idade adulta (é um elogio, só aqui falo do lado positivo) do mercado português ficou mais longe...
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um discurso de Abraracourcix às 14:06
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

It's OPA time!

Começa daqui a pouco, às 15h, a reunião-maratona (prevê-se que acabe madrugada dentro) que decidirá a desblindagem, ou não, dos estatutos da Portugal Telecom, e assim decidirá se a OPA da Sonaecom chega, ou não, ao mercado. Os meus sentimentos face a este processo já são conhecidos dos meus leitores de há alguns meses. Quanto a prognósticos... faço minhas as palavras de um dos mais célebres pontapeadores da bola e da gramática portuguesas...
Segundo a listagem dos maiores accionistas da PT que retirei do próprio site da empresa e a notícia do Público de hoje, eis a minha expectativa para o que se passará:

A favor:
  • Telefónica (9,98%)
  • Brandes Investment Partners (7,67%) - é um fundo de investimento, os quais em princípio se guiarão pelas "melhores práticas" e deixarão a OPA ser decidida no mercado; até porque o objectivo destes fundos é realizar mais-valias, não passando pelo longo prazo
  • CGD + Estado (7%) - a CGD tem uma posição desconhecida, mas tenho a certeza que o Estado quer que a OPA seja o mercado, porque na visão de Sócrates isso é bom e estimula a economia portuguesa, e também tenho a certeza de que irá off the record instruir a Caixa - que supostamente decide de forma independente - a votar nesse sentido
  • ABN Amro (menos de 2%)
  • Sonaecom (1%) - evidentemente

Contra:
  • BES (8,08%)
  • Telmex (3,41% segundo a PT; 4,3% segundo a notícia do Público)
  • Fundação Berardo (2,07%)
  • Barclays (2,07%) - são acções próprias da PT detidas em regime de troca de acções, e que a Sonaecom diz que a PT irá utilizar na assembleia de hoje, embora a lei o proíba
  • Nuno Vasconcelos (Ongoing + Insight, 3%)
Contagem de espingardas: perto de 20% do lado de Belmiro & filho, entre 16,56 e 17,45% , consoante as fontes, do lado da administração da PT (sem contar com as tais acções próprias detidas pelo Barclays).
Claro que a desblindagem só será aprovada com pelo menos dois terços do capital presente (face à participação prevista, cerca de 23% deverão ser suficientes para a bloquear), pelo que se afigura como uma tarefa espinhosa e uma grande incógnita, face aos numerosos accionistas cujo sentido de voto não é possível descodificar.
A lista de accionistas do site da PT refere, para além dos indicados acima, o Grupo Citadel (2,37%), o Crédit Suisse (2,34%), Paulson & cia. Inc. (2,34%), Stark % Roth (2,21%), Grupo Fidelity (2,09%), UBS AG (2,02%), de que não prevejo o sentido de voto, embora em princípio os fundos de investimento votem a favor da desblindagem.
Tudo junto, dá cerca de 50% do capital da PT, sendo que o resto está na mão de pequenos accionistas, dos quais se prevê que 20% estejam presentes na assembleia de hoje.
Estes pequenos accionistas serão por isso determinantes para o sucesso da desblindagem, não admirando por isso a agressiva campanha de publicidade que a Sonae tem feito apelando ao voto destes, e que até já mereceu reparos da própria CMVM...
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Cartoons da semana




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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Sonae - 2, PT - 1: com mais um euro por acção se escreve a palavra OPA

Quase de surpresa (ontem já era possível desconfiar de que algo ia suceder), a Sonae anunciou que vai aumentar o preço por acção oferecido na OPA em curso sobre a Portugal Telecom, de 9,5 euros para 10,5 euros. Desta forma, praticamente assegura o sucesso da operação, que ao preço anterior estava a ser crescentemente dificultado pela administração da PT e pelas pressões dos accionistas, ansiosos em realizar mais-valias significativas (não é por acaso que a cotação da PT tem andado sempre acima de 10 euros), e que agora vêm bem sucedidos os seus esforços e a intensa pressão que estavam a efectuar sobre a Sonae.
Como já aqui escrevi antes, sou assumida e fortemente favorável a tudo o que seja contra a Portugal Telecom, que é para mim uma das empresas mais mal geridas de Portugal (não que as outras grandes empresas sejam exemplo de boas práticas...).
No entanto, os meus sentimentos em relação à OPA são ambivalentes. Por um lado, aplaudo uma operação que fará, agora quase certamente (a probabilidade é agora tão alta como na altura do lançamento da oferta, tendo vindo entretanto a atenuar-se, fruto das tais pressões accionistas), com que uma empresa que eu detesto mude de donos e de gestão. Por outro lado, acho um erro tremendo a operação ter sido aprovada pela Autoridade da Concorrência, AdC (aprovação que é reveladora da sua falta de independência e permeabilidade às pressões governamentais), sem que a TMN e a Optimus sejam separadas: a solução preconizada, a sua fusão e posterior venda de uma das licenças, em nada serve o interesse dos consumidores e o nível de concorrência no mercado em causa.
Com esta revisão das condições da oferta, volto no entanto a repetir, é praticamente certo o seu sucesso, com mais ou menos concorrência. Sócrates, que desde o início viu a operação como estimuladora da economia portuguesa e por isso fez o possível para garantir o seu sucesso, incluindo as tais pressões sobre a AdC, deve estar a esfregar as mãos de contente...
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um discurso de Abraracourcix às 10:50
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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Plano de negócios da EDP: os trabalhadores como nota de rodapé da História

O Público de hoje traz uma notícia de página inteira sobre o "plano de negócios" até 2010 de uma das maiores empresas portuguesas, a EDP. Os principais tópicos focados são:

  • aumento dos dividendos e não aumento da despesa
  • prioridade para investimentos em energias renováveis e geração, distribuição e, internacionalmente, no Brasil
  • redução da despesa em relação aos fundos gerados
  • parceria com a Sonatrach (empresa argelina de gás natural)
  • aumento da produção de energia
  • investimento na capacidade de geração energética
  • aumento de 50% na facturação de energias renováveis
  • aumento de 10% no gás
  • triplicação da capacidade instalada no Brasil
  • na distribuição de electricidade em Portugal e Espanha, bem como no Brasil, redução dos custos com pessoal e fornecimentos externos

Notam alguma coisa estranha? Sim, refiro-me ao último tópico... Numa notícia de página inteira, a redução de pessoal não merece mais que uma mera referência, submergida por inúmeros anúncios de investimento e crescimento...
A confirmar o mesmo tipo de tratamento que o facto - que eu considero grave pelo facto em si e pelos números envolvidos, já que é uma grande empresa - mereceu da generalidade dos media, uma caixa lateral à mesma notícia refere, numa minúscula linha, que a EDP vai contratar 1200 novos trabalhadores... mas pelo meio vai efectuar uma redução líquida de 1100 trabalhadores!...
Se refiro esta notícia é porque ela é sintomática da atenção relativa que hoje em dia se dá, em Portugal - mas não só - aos vários agentes económicos: para o factor capital, e para os capitalistas, uma página inteira; para o factor trabalho, e para os trabalhadores, uma nota de rodapé. Sic transit gloria mundi.
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um discurso de Abraracourcix às 16:14
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006

Yunus e o Nobel da Paz: um Altermundo é possível

No domingo 10 de Dezembro, adequadamente no dia mundialmente dedicado aos Direitos Humanos, foi entregue em Oslo o Prémio Nobel da Paz deste ano a Muhammad Yunus (também aqui, e artigo da wikipedia aqui) e ao seu Grameen Bank (artigo da wikipedia aqui). Muito resumidamente, Yunus fundou um banco que tem como objectivo retirar as pessoas da pobreza e, para tal, faz pequenos empréstimos a pessoas muito pobres (quase sempre mulheres pois, como ele diz, "emprestando às mulheres obtemos os melhores resultados na melhoria das condições da família") no seu país natal, o Bangladesh, para que elas fundem o seu próprio negócio e assim se tornem bem sucedidas. A empresa tem conhecido um enorme êxito, reconhecido agora não só pela Fundação Nobel mas também pelo facto de terem entretanto surgido, por todo o mundo, negócios muito semelhantes ao do Grameen Bank.
Devido à atribuição deste prémio, muito se tem falado nos últimos tempos do micro-crédito como ferramenta de combate à pobreza, e parece-me extremamente interessante explorar esta possibilidade. Mais interessante me pareceu ainda depois de ler o discurso de aceitação do prémio de Yunus, que podem ler na íntegra aqui e do qual deixarei (largos) excertos. Chamo a atenção particularmente para as partes que destaquei, que mostram precisamente as limitações do sistema capitalista - e, acessoriamente, o motivo pelo qual me desencantei com o curso de Economia que tirei...
É longo, eu sei, mas leiam com atenção e verão uma nova perspectiva emergir...


"(...) I believe terrorism cannot be won over by military action. Terrorism must be condemned in the strongest language. We must stand solidly against it, and find all the means to end it. We must address the root causes of terrorism to end it for all time to come. I believe that putting resources into improving the lives of the poor people is a better strategy than spending it on guns.

Peace should be understood in a human way in a broad social, political and economic way. Peace is threatened by unjust economic, social and political order, absence of democracy, environmental degradation and absence of human rights.
Poverty is the absence of all human rights. The frustrations, hostility and anger generated by abject poverty cannot sustain peace in any society. For building stable peace we must find ways to provide opportunities for people to live decent lives.
The creation of opportunities for the majority of people − the poor − is at the heart of the work that we have dedicated ourselves to during the past 30 years.

I became involved in the poverty issue not as a policymaker or a researcher. I became involved because poverty was all around me, and I could not turn away from it. In 1974, I found it difficult to teach elegant theories of economics in the university classroom, in the backdrop of a terrible famine in Bangladesh . Suddenly, I felt the emptiness of those theories in the face of crushing hunger and poverty. I wanted to do something immediate to help people around me, even if it was just one human being, to get through another day with a little more ease. That brought me face to face with poor people's struggle to find the tiniest amounts of money to support their efforts to eke out a living. I was shocked to discover a woman in the village, borrowing less than a dollar from the money-lender, on the condition that he would have the exclusive right to buy all she produces at the price he decides. This, to me, was a way of recruiting slave labor.
I decided to make a list of the victims of this money-lending "business" in the village next door to our campus.
When my list was done, it had the names of 42 victims who borrowed a total amount of US $27. I offered US $27 from my own pocket to get these victims out of the clutches of those money-lenders. The excitement that was created among the people by this small action got me further involved in it. If I could make so many people so happy with such a tiny amount of money, why not do more of it?
That is what I have been trying to do ever since. The first thing I did was to try to persuade the bank located in the campus to lend money to the poor. But that did not work. The bank said that the poor were not creditworthy. After all my efforts, over several months, failed I offered to become a guarantor for the loans to the poor. I was stunned by the result. The poor paid back their loans, on time, every time! But still I kept confronting difficulties in expanding the program through the existing banks. That was when I decided to create a separate bank for the poor, and in 1983, I finally succeeded in doing that. I named it Grameen Bank or Village bank.
Today, Grameen Bank gives loans to nearly 7.0 million poor people, 97 per cent of whom are women, in 73,000 villages in Bangladesh. Grameen Bank gives collateral-free income generating, housing, student and micro-enterprise loans to the poor families and offers a host of attractive savings, pension funds and insurance products for its members. Since it introduced them in 1984, housing loans have been used to construct 640,000 houses. The legal ownership of these houses belongs to the women themselves. We focused on women because we found giving loans to women always brought more benefits to the family.
In a cumulative way the bank has given out loans totaling about US $6.0 billion. The repayment rate is 99%. Grameen Bank routinely makes profit.
(...) This idea, which began in Jobra, a small village in Bangladesh, has spread around the world and there are now Grameen type programs in almost every country.

(...) We keep looking at the children of our borrowers to see what has been the impact of our work on their lives. The women who are our borrowers always gave topmost priority to the children. One of the Sixteen Decisions developed and followed by them was to send children to school. Grameen Bank encouraged them, and before long all the children were going to school. Many of these children made it to the top of their class. We wanted to celebrate that, so we introduced scholarships for talented students.
(...) Many of the children went on to higher education to become doctors, engineers, college teachers and other professionals. We introduced student loans to make it easy for Grameen students to complete higher education. Now some of them have PhD's.

(...) Three years ago we started an exclusive programme focusing on the beggars. None of Grameen Bank's rules apply to them. Loans are interest-free; they can pay whatever amount they wish, whenever they wish. We gave them the idea to carry small merchandise such as snacks, toys or household items, when they went from house to house for begging. The idea worked. There are now 85,000 beggars in the program. About 5,000 of them have already stopped begging completely.
We encourage and support every conceivable intervention to help the poor fight out of poverty. We always advocate microcredit in addition to all other interventions, arguing that microcredit makes those interventions work better.

(...) we created a mobile phone company, Grameen Phone. We gave loans from Grameen Bank to the poor women to buy mobile phones to sell phone services in the villages.
(...) The phone business was a success and became a coveted enterprise for Grameen borrowers. Telephone-ladies quickly learned and innovated the ropes of the telephone business, and it has become the quickest way to get out of poverty and to earn social respectability. Today there are nearly 300,000 telephone ladies providing telephone service in all the villages of Bangladesh . Grameen Phone has more than 10 million subscribers, and is the largest mobile phone company in the country.

(...) Capitalism centers on the free market. It is claimed that the freer the market, the better is the result of capitalism in solving the questions of what, how, and for whom. It is also claimed that the individual search for personal gains brings collective optimal result.
I am in favor of strengthening the freedom of the market. At the same time, I am very unhappy about the conceptual restrictions imposed on the players in the market. This originates from the assumption that entrepreneurs are one-dimensional human beings, who are dedicated to one mission in their business lives to maximize profit. This interpretation of capitalism insulates the entrepreneurs from all political, emotional, social, spiritual, environmental dimensions of their lives. This was done perhaps as a reasonable simplification, but it stripped away the very essentials of human life.
Human beings are a wonderful creation embodied with limitless human qualities and capabilities. Our theoretical constructs should make room for the blossoming of those qualities, not assume them away.
Many of the world's problems exist because of this restriction on the players of free-market. The world has not resolved the problem of crushing poverty that half of its population suffers.
(...) We have remained so impressed by the success of the free-market that we never dared to express any doubt about our basic assumption. To make it worse, we worked extra hard to transform ourselves, as closely as possible, into the one-dimensional human beings as conceptualized in the theory [brilhante brilhante brilhante!] to allow smooth functioning of free market mechanism.
By defining "entrepreneur" in a broader way we can change the character of capitalism radically, and solve many of the unresolved social and economic problems within the scope of the free market. Let us suppose an entrepreneur, instead of having a single source of motivation (such as, maximizing profit), now has two sources of motivation, which are mutually exclusive, but equally compelling a) maximization of profit and b) doing good to people and the world.
Each type of motivation will lead to a separate kind of business. Let us call the first type of business a profit-maximizing business, and the second type of business as social business.
Social business will be a new kind of business introduced in the market place with the objective of making a difference in the world. Investors in the social business could get back their investment, but will not take any dividend from the company. Profit would be ploughed back into the company to expand its outreach and improve the quality of its product or service. A social business will be a non-loss, non-dividend company.
Once social business is recognized in law, many existing companies will come forward to create social businesses in addition to their foundation activities. Many activists from the non-profit sector will also find this an attractive option. Unlike the non-profit sector where one needs to collect donations to keep activities going, a social business will be self-sustaining and create surplus for expansion since it is a non-loss enterprise. Social business will go into a new type of capital market of its own, to raise capital.
(...) Many young people today feel frustrated because they cannot see any worthy challenge, which excites them, within the present capitalist world. Socialism gave them a dream to fight for. Young people dream about creating a perfect world of their own.
Almost all social and economic problems of the world will be addressed through social businesses. The challenge is to innovate business models and apply them to produce desired social results cost-effectively and efficiently. Healthcare for the poor, financial services for the poor, information technology for the poor, education and training for the poor, marketing for the poor, renewable energy − these are all exciting areas for social businesses.
Social business is important because it addresses very vital concerns of mankind. It can change the lives of the bottom 60 per cent of world population and help them to get out of poverty.

(...) To connect investors with social businesses, we need to create social stock market where only the shares of social businesses will be traded. An investor will come to this stock-exchange with a clear intention of finding a social business, which has a mission of his liking. Anyone who wants to make money will go to the existing stock-market.
To enable a social stock-exchange to perform properly, we will need to create rating agencies, standardization of terminology, definitions, impact measurement tools, reporting formats, and new financial publications, such as, The Social Wall Street Journal. Business schools will offer courses and business management degrees on social businesses to train young managers how to manage social business enterprises in the most efficient manner, and, most of all, to inspire them to become social business entrepreneurs themselves.

I support globalization and believe it can bring more benefits to the poor than its alternative. But it must be the right kind of globalization. To me, globalization is like a hundred-lane highway criss-crossing the world. If it is a free-for-all highway, its lanes will be taken over by the giant trucks from powerful economies. Bangladeshi rickshaw will be thrown off the highway. In order to have a win-win globalization we must have traffic rules, traffic police, and traffic authority for this global highway. Rule of "strongest takes it all" must be replaced by rules that ensure that the poorest have a place and piece of the action, without being elbowed out by the strong. Globalization must not become financial imperialism.
Powerful multi-national social businesses can be created to retain the benefit of globalization for the poor people and poor countries. Social businesses will either bring ownership to the poor people, or keep the profit within the poor countries, since taking dividends will not be their objective. (...)

We get what we want, or what we don't refuse. We accept the fact that we will always have poor people around us, and that poverty is part of human destiny. This is precisely why we continue to have poor people around us. If we firmly believe that poverty is unacceptable to us, and that it should not belong to a civilized society, we would have built appropriate institutions and policies to create a poverty-free world.
We wanted to go to the moon, so we went there. We achieve what we want to achieve. If we are not achieving something, it is because we have not put our minds to it. We create what we want.
What we want and how we get to it depends on our mindsets. It is extremely difficult to change mindsets once they are formed. We create the world in accordance with our mindset. We need to invent ways to change our perspective continually and reconfigure our mindset quickly as new knowledge emerges. We can reconfigure our world if we can reconfigure our mindset.

I believe that we can create a poverty-free world because poverty is not created by poor people.
(...) Poverty is created because we built our theoretical framework on assumptions which under-estimates human capacity, by designing concepts, which are too narrow (such as concept of business, credit- worthiness, entrepreneurship, employment) or developing institutions, which remain half-done (such as financial institutions, where poor are left out). Poverty is caused by the failure at the conceptual level, rather than any lack of capability on the part of people.
I firmly believe that we can create a poverty-free world if we collectively believe in it. In a poverty-free world, the only place you would be able to see poverty is in the poverty museums. When school children take a tour of the poverty museums, they would be horrified to see the misery and indignity that some human beings had to go through. They would blame their forefathers for tolerating this inhuman condition, which existed for so long, for so many people.
(...) To me poor people are like bonsai trees. When you plant the best seed of the tallest tree in a flower-pot, you get a replica of the tallest tree, only inches tall. There is nothing wrong with the seed you planted, only the soil-base that is too inadequate. Poor people are bonsai people. There is nothing wrong in their seeds. Simply, society never gave them the base to grow on. All it needs to get the poor people out of poverty for us to create an enabling environment for them. Once the poor can unleash their energy and creativity, poverty will disappear very quickly. (...)"


É estúpida e gritantemente optimista e visionário, mas digam lá que não é bom acreditar - como parte de mim secretamente ainda acredita - que um mundo assim é possível...
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

Viva a OPA da Sonae, viva o capitalismo desenfreado!

Como se previa já há muito tempo a Autoridade da Concorrência (AdC) não foi imune às vontades de quem a nomeou, o Governo, e aprovou a OPA da Sonae sobre a Portugal Telecom (PT). Paulo Azevedo bem protesta que os chamados "remédios" prescritos pelo dr. Abel Mateus são demasiado pesados para a patologia a erradicar, mas não evita a impressão de apenas fazer semblante de estar contrariado.
Devo dizer que sempre fiz figas para a que a OPA tivesse sucesso, porque a PT é provavelmente a empresa portuguesa que mais detesto, e de certeza das mais mal geridas. Sempre foi um elefante numa loja de porcelanas que demora uma eternidade a fazer seja o que for, seja decisões de gestão, reagir face à concorrência ou simplesmente responder ou resolver problemas aos clientes...
A Sonae, pelo contrário (e já sei que vou ser impiedosamente espancado pelo Pedro Silva, que discordará em absoluto do que estou a dizer), é uma das empresas portuguesas que mais enfoque coloca na satisfação do cliente como forma de sucesso nos seus negócios, para além de ter uma gestão bastante eficiente.
É claro que como pessoa atenta e que pensa, não deixei de me preocupar com os problemas levantados pela OPA em matéria de concorrência. Aplaudo a OPA e faço votos para que seja bem sucedida, sim, mas não às custas de qualquer perda de concorrência nos mercados em que a Sonae e a PT actuam.
Na rede fixa, o que sempre foi dito pela Sonae (alienação ou da rede de cobre - telefones fixos - ou de cabo - TV Cabo, internet) desde logo assegurou que esse nível de concorrência não só seria mantido mas seria reforçado, e aqui nunca tive qualquer reticência.
No que toca aos telemóveis, parece-me no entanto incrível, absurdo até, que não se veja qualquer problema de concorrência numa operação que faz o número de operadores passar de três para dois e em que um dos dois a fundir já é, no quadro a três, o operador dominante  - pior o será, obviamente, no quadro a dois. E os "remédios" preconizados - a abertura a operadores virtuais de telecomunicações e a um putativo futuro novo terceiro operador  - são apenas areia para os olhos dos desinformados (quase todos infelizmente)...
Resumindo, eu era - e sou - a favor de uma OPA em que uma das redes fixas seja alienada e em que não fosse permitida a fusão Optimus/TMN, e se fosse líder da AdC era o que decidiria. Claro que isto inviabilizaria a própria operação, dado Paulo Azevedo sempre ter dito que era condição sine qua non do registo definitivo da OPA... mas isso não é matéria que devesse preocupar uma AdC verdadeira e genuinamente independente.
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O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


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   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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