Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Um país que arde: a verdade possível

Tenho-me confrontado nos últimos dias com diversos blogs e notícas mais ou menos alarmistas, sensacionalistas e demagógicos q.b. quanto à vaga de incêndios agora terminada, que variam entre a simples acusação ao Governo e a proclamação de mais um annus horribilis, com os habituais "isto é impossível", "mais vale que tudo arda de vez", "este país não tem salvação", etc.
Apesar de me afirmar, agora e desde sempre, como extremamente preocupado e atento a este problema, estas notícias, para resumir, pessimistas, vão contra aquilo que era a minha sensação em relação à temporada de incêndios deste ano, e que era a de que, estando a ser um muito mau ano, estava muito longe do verdadeiro annus horribilis de 2005 e do inominável de tão mau ano que foi 2003. Neste contexto, fui surpreendido com os últimos números avançados para a área ardida até ao momento (encontrei-os neste artigo do JN, o qual surpreendentemente demonstra qualidade suficiente para eu recomendar que o leiam, para uma leitura transversal dos factos relativos aos incêndios), e que apontam para um total de 50.000 ha ardidos. Surprendido, acrescento, por o número ser mais baixo do que esperava: a minha sensação era de algo entre 80.000 e 100.000 ha.
O que quero dizer é que, mesmo descontando hipotéticas "deflações" estatísticas que habitualmente tentam dourar a pílula do Governo, este está longe de ser um annus horribilis. Para corroborar, ou desmentir, este meu juízo, fui à procura das estatísticas de incêndios dos últimos anos, o que encontrei nesta página do site da Direcção-Geral dos Recursos Florestais.


Incêndios Florestais - Portugal
Totais Nacionais
         
Ano Ocorrências Área Ardida 
Povoamentos Matos Área Total
1980 2.349 29.215 15.036 44.251
1981 6.730 63.650 26.148 89.798
1982 3.626 27.436 12.121 39.556
1983 4.539 32.428 15.383 47.811
1984 7.356 26.578 26.131 52.710
1985 8.441 79.440 66.815 146.254
1986 5.036 58.612 30.910 89.522
1987 7.705 49.848 26.420 76.269
1988 6.131 8.627 13.807 22.434
1989 21.896 62.166 64.071 126.237
1990 10.745 79.549 57.703 137.252
1991 14.327 125.488 56.998 182.486
1992 14.954 39.701 17.310 57.011
1993 16.101 23.839 26.124 49.963
1994 19.983 13.487 63.836 77.323
1995 34.116 87.554 82.058 169.612
1996 28.626 30.542 58.325 88.867
1997 23.497 11.466 19.068 30.535
1998 34.676 57.393 100.975 158.369
1999 25.477 31.052 39.561 70.613
2000 34.109 68.646 90.958 159.605
2001 26.533 45.318 66.532 111.850
2002 26.488 65.160 59.251 124.411
2003 26.195 286.051 139.665 425.716
2004 21.870 56.109 73.430 129.539
2005 35.697 124.745 213.517 338.262




Comparando-as então com o tal número de 50.000 ha ardidos este ano até agora, e tendo em conta que a esmagadora maioria dos incêndios ocorre regra geral até ao final de Agosto, e que face à chuva destes dias pouco mais arderá até ao final do mês, penso ser lícito considerar que, não sendo obviamente bom (nenhum ano é bom em Portugal quando uma área deste tamanho arde), também não poderá ser considerado mau. Aliás (e mesmo considerando o tal "efeito de deflação" por o número vir duma entidade estatal), é preciso recuar a 1999 para termos um número comparável ao deste ano.
Claro que este é um número ainda provisório, e muito há que ter em conta... quero deixar aqui claro que este post não visa defender o Governo nas medidas tomadas de prevenção e combate aos incêndios. Apenas quero dizer que este ano de incêndios até está a correr razoavelmente bem (com a ressalva que já introduzi acima de que mesmo "razoavelmente bem", em matéria de incêndios, ainda é intolerável). No entanto, depois dos anos-catástrofe de 2003 e 2005, e tendo em conta o estado actual dos media portugueses, existe uma hiper-sensibilidade face ao assunto, em que o mínimo pormenor é escrutinado (embora raramente os pormenores certos...), o que este ano causou a sensação de que as coisas estão a correr pior do que na realidade estão.
As responsabilidades para o resultado "final", essas já são discutíveis, bem como qual a quota-parte do Governo no resultado, e qual a que cabe a factores não controláveis, como o facto de este ano não ter sido de seca (o grau de humidade do solo não era por isso tão baixo), de não ter havido períodos tão prolongados como em anos transactos de temperaturas muito altas, etc.
Este, repito, visa ser apenas um post anti-alarmismo e anti-demagogia bota-abaixista, infelizmente tão recorrente na comunicação social como na blogosfera (como, aliás, em todo o país). A discussão dos méritos, ou falta deles, no combate aos incêndios, essas ficarão para mais tarde, que este post já está suficientemente longo e confuso...
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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

Brincar com o fogo

Antes de sair de casa hoje de manhã, ao ouvir que a temperatura máxima para o Porto seria de 35 graus, pensei que seria mais um dia infernal... Quando cheguei à rua, olhei para o céu e constatei com tristeza que seria um dia infernal, sim, mas por motivos bem diferentes: a temperatura sem dúvida será menor que o previsto no Porto, mas à custa das grossas colunas de fumo que se vê erguendo-se do solo à volta da cidade.
Chegado ao trabalho, consulto o site da Lusa e verifico que de facto existe um incêndio grave em Valongo, um entre os sete neste momento por controlar. É sempre assim em Agosto: entra a silly season, onde supostamente não há notícias (embora este ano, à custa de certos sillies que habitam o Próximo Oriente, não seja bem assim) e as pessoas não se preocupam, e eu preocupo-me, talvez em demasia, com os incêndios que inevitavelmente acontecem.
Não consigo também deixar de pensar que existe uma estranha coincidência entre o início de Agosto e o início dos grandes incêndios... Existe sem dúvida uma componente que não se explica somente pelo calor: tivemos uma onda de calor a meio de Julho onde praticamente não houve incêndios, pelo menos não de grandes dimensões. Bastou chegarmos ao dia 1 de Agosto que, mesmo sem temperaturas demasiado elevadas, despontaram vários grandes fogos. Por estes dias, com temperaturas realmente altas, nem se fala...
Cheguei então à conclusão que todos estes incêndios são causados pela estupidez dos portugueses que vão de férias. A minha teoria é que serão causados ou pelos emigrantes regressados às suas maisons no meio do mato que não foi limpo durante o ano, ou por campistas selvagens, piqueniqueiros selvagens, etc. que como é hábito no nosso país gostam de deixar assinalada a sua passagem com vestígios de lixo, ou mesmo pontas de cigarro mal apagadas.
Isto leva-me a concluir que, por muito que o governo faça, por muitos helicópteros que se comprem, por muitos bombeiros que se formem, por muita limpeza que se faça no inverno, por muitos fogos de prevenção e abertura de caminhos que se façam, o nosso país irá sempre arder em larga proporção. Porque, se a minha teoria se comprovar, se a principal causa dos incêndios é a estupidez (uma estupidez tipicamente portuguesa), então não há esperança. Para a floresta portuguesa, e para Portugal.
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um discurso de Abraracourcix às 10:00
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