Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

Os libaneses pedem: Deixem o Líbano respirar

Retirado do Público de ontem:

"O Torino é um pequeno bar em Beirute. O único onde Mazen Kerbaj ainda vai. Há uma semana, sentado na mesa do fundo, com o seu mais recente auto-retrato em cima da mesa, Mazen disse: "Hoje é a mesma coisa que na véspera de 1975. Parece que não aprendemos com os nossos erros. Todos os que são líderes agora participaram na guerra civil e ninguém quer admitir que errou, toda a gente tinha razão. Nada mudou e nada mudará."
O DJ estava a passar Bob Dylan. Uma rapariga que podia ter 14 anos mas tem 28 entrou e deu um beijo a Mazen, antes de acender um cigarro. Não lhe ocorreria dizer tal, mas é xiita. Tão xiita como Mazen é cristão maronita (no que depende deles, nada). Mazen nasceu em 1975 e nunca viveu fora do Líbano, o que quer dizer que de certa forma já viu tudo e reconhece o que viu: "Acho que estamos na véspera de uma nova guerra civil. Estou totalmente pessimista."
Três dias depois Mazen partiu em digressão para a Europa levando a sua trompete (e alguns dos desenhos que fez durante a última guerra, como aquele em que está na varanda de casa a improvisar entre as bombas israelitas - registo em mp3 na Net). [trata-se do mesmo Mazen que possui um blog onde coloca os seus desenhos, comentários e algumas impressões avulsas, que em Agosto aqui destaquei... aqui fica de novo o destaque porque os seus desenhos de alguma forma alusivos à situação do seu país se tornam de novo relevantes...]
Estaria em Bruxelas à hora a que Pierre Gemayel foi assassinado.
(...) É um nome cheio de ecos, Gemayel. Naturalmente, cada um o ouve do lugar em que está. Dizer que são cristãos maronitas é sobretudo dizer que pertencem a uma tribo. Como todos (sunitas, xiitas, drusos) entre 1975 e 1990 cortaram cabeças, abriram valas comuns, cuspiram por cima. E, ocasionalmente, morreram. Bashir Gemayel (tio do agora assassinado Pierre) era o líder da milícia falangista que massacrou centenas de palestinianos em Sabra e Shatila depois dele ter sido assassinado.
Serem (cada vez mais) uma minoria, nunca impediu os maronitas de se verem como os melhores. Ainda recentemente, quando o Hezbollah e os xiitas vinham com exigências políticas em nome da maioria demográfica, o jovem Pierre Gemayel resumia assim este espírito: "Eles ameaçam com a quantidade. Nós temos a qualidade."
Isto enfurece Mazen. Sobranceria, tribalismo, um país em que engravatados de hoje são ex-carniceiros e os principais órgãos de poder continuam a ser divididos por religiões (o Presidente para os cristãos, o primeiro-ministro para os sunitas, o presidente do parlamento para os xiitas...). "Não se pode viver numa democracia com sectarismo e confessionalismo. Aqui não há esquerda nem direita, todos os partidos se relacionam com religião."
Como muita gente da geração de Mazen - os filhos da guerra civil - Sandra Dagher partilha esta repulsa em identificar as pessoas pela religião. A sua família é cristã maronita de Bekfaya, a mesma terra dos Gemayel, mas ela não sabe qual é a religião de vários dos artistas que acolhe no Espace SD, uma espécie de centro cultural privado em Beirute. É preciso alguém perguntar-lhe para ela se pôr a pensar se aquele será druso ou xiita - e no Líbano isso pode querer dizer que primos de ambos se chacinaram em algum momento.
(...) De resto, Sandra está onde Mazen e muitos mais desta geração parecem estar, num lugar que não é do Governo e não é do Hezbollah. O lugar onde esta história acabaria, se a deixassem."
(Alexandra Lucas Coelho)

Sempre pensei que a tensão inter-confessional no Líbano é algo de artificial - como por exemplo na Bósnia - algo que vem de cima e faz parte integrante do discurso político, mas não da vida das pessoas. Os libaneses - pelo menos e a fazer fé na repórter, os "filhos da guerra civil" - não se preocupam com a confissão religiosa de cada um. No dia a dia, ser xiita, sunita, druso ou maronita é pouco mais que irrelevante.
Os políticos, oprtunistas aqui como em qualquer parte do mundo (mas aqui é mais grave porque jogam com a vida das pessoas, e não apenas com quem está no poder), utilizam um discurso sectário como forma de obtenção de benefícios, políticos e pessoais. O que leva a que quem tenha mais sucesso seja quem de forma mais eficaz consiga arregimentar a sua comunidade e, mais que isso, a situações como a vitória democraticamente legítima de um movimento como o Hamas - e que a haver novas eleições se arrisca a acontecer com o Hezbollah no Líbano.
E assim, em vez de se traçarem linhas divisórias baseadas nas diferentes ideias de cada partido, traçam-se fronteiras baseadas exclusivamente num só elemento, a religião, que é irrelevante para o quotidiano daqueles que é suposto darem o seu voto.
Reitero a ideia com que termina a reportagem do Público:

"
um lugar que não é do Governo e não é do Hezbollah. O lugar onde esta história acabaria, se a deixassem."
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Líbano na direcção errada

Foi ontem assassinado o ministro da Indústria libanês, Pierre Gemayel, cristão maronita do histórico partido Falange e membro do clã Gemayel - que em princípios da guerra civil já deu um presidente ao Líbano.
Não penso, até pelas declarações do pai de Gemayel (irmão do defunto presidente) e do líder druso Walid Jumblatt a apelar a que não se procure a vingança para não fazer "o jogo dos perpetradores", que se esteja (para já...) à beira de uma guerra civil, nem penso que fosse essa directamente a vontade dos assassinos de Gemayel. É no entanto um sinal claríssimo e indubitável da Síria - sem sombra de dúvida por trás deste acto - em como pretende impedir o julgamento que já se anuncia sobre os responsáveis pela morte de Rafiq Hariri (outro assassinato político a mando sírio) e, mais que isso, manter o Líbano sob o seu jugo.
Como explica o director dos Cahiers de l'Orient, Antoine Sfeir, em entrevista ao Le Monde, "Il faut chercher à qui profite le crime. On est bien obligé de constater que ceux qui pouvaient souhaiter la mort de Pierre Gemayel sont tous ceux qui veulent le retour de la Syrie sur la scène libanaise et la désintégration de l'Etat libanais (...) La construction d'un Etat libanais fort et indépendant est ce qui peut arriver de pire à la Syrie, qui peut pour l'instant agir au Liban comme si elle était chez elle." [se precisarem de tradução digam...]
Ao mesmo tempo, Damasco dá sinais ambivalentes, ao pretender contribuir para a pacificação no Iraque. Por um lado, fica patente a crescente influência de Teerão sobre o seu aliado sírio, pois é ao Irão que mais interessa mostrar-se, neste momento, como elemento estabilizador da região (posto que os seus actos recentes já demonstraram a todos que se pode tornar desestabilizador sempre que quiser...). Por outro, é uma boa forma de tentar mascarar ou, pelo menos, tornar mais aceitável ao Ocidente as suas eternas manobras no Líbano. E nos meandros da realpolitik esta troca é bem capaz de funcionar...
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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2006

Líbano passa o ponto de não-retorno para a paz?

É verdade, parece que nos últimos tempos não consigo escrever o título de um post que não termine com um ponto de interrogação. Porque o que hoje é verdade amanhã poderá não o ser - afinal uma velha máxima da política - digo-me intimamente. Ou porque já não consigo ter a certeza de nada, nestes tempos de cada vez mais vincadas incertezas...
O fim do bloqueio naval e aéreo ao Líbano por parte de Israel é o clássico caso ilustrativo disso mesmo. O L'Orient Le Jour entusiasma-se: "Le Liban s’ouvre à nouveau au monde".
Em si, é uma boa notícia, que só peca por muito tardia. Nestes primeiros tempos de cessar-fogo, refreei-me a mim mesmo quanto às expectativas de uma resolução pacífica do conflito, pois parecia-me que a qualquer momento uma pequena pedra poderia encravar a frágil engrenagem da paz e tudo resvalar para novo e mais violento conflito. A verdade é que, felizmente, tal não aconteceu, e o cessar-fogo, não sendo definitivo, conseguiu instalar-se como status quo. Com o passo de hoje, parece-me estar atingido o ponto de não-retorno em direcção a uma resolução pacífica. Ou, pelo menos, para a estabilização do Líbano no curto e médio prazo. Quanto ao longo prazo... apetece-me dizer, como Keynes (aqui aplicada a frase é de uma mordaz ironia), "no longo prazo estamos todos mortos"...
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

Portugal e os outros caracóis a caminho do Líbano



(Agora republicado, a ver se a imagem fica visível para todos)

Este cartoon, que encontrei no Infoalternativa Cartoon, é dedicada à partida dos soldados portugueses para o Líbano. Partida com a qual concordo, digo desde já, e que acontecerá quando o caracol da imagem chegar ao topo da bomba...
Sendo totalmente a favor do envio de tropas portuguesas (embora desconfie que um batalhão de engenheiros não seja a melhor opção), fico perplexo com a data de partida: 14 de Outubro! Isto quando a constituição da força de intervenção, a UNIFIL , era supostamente urgente...
Aliás, o que me leva a escrever este post é também o atraso no envio mesmo dos primeiros contingentes . Mete-me aflição tanta demora. Quando tanto há por fazer no Líbano e quando cada dia a mais é um dia em que o conflito pode rebentar outra vez, a UNIFIL já devia estar no terreno há muito tempo.
Até parece que, para além das nossas tropas e do seu ridículo e costumeiro atraso em chegar ao lugar da acção (normalmente dizemos "aqui estamos!" quando o pior já está feito), também os outros países estão com medo do que há por fazer, medo legítimo porque se arriscam a levar um tiro no capacete azul, mas a partir do momento em que decidem participar, e em que a constituição da própria força é decidida, há que assumir responsabilidades. Reciclando um velho slogan: para o Líbano, rapidamente e em força.
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2006

O pesadelo libanês visto de dentro

Deparei-me no Pópulo com uma menção ao Kerblog, um blog de um desenhador libanês onde ele conta a sua experiência pessoal de guerra, pelo meio de muitos desenhos. É pedido que o divulguemos, e como merece aqui fica o link e um desenho a título de exemplo (é o mesmo do Pópulo, mas é sem dúvida o mais significativo):

from under the lebanese earth
more than 1500 persons are asking
themselves


why?







time remains

and we pass.


time passes

and beirut remains.






Pronto, dois desenhos, mas é difícil escolher...
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Hezbollah e o "eixo do terror": a suprema ironia

Esta dá mesmo vontade de rir... e agora, sr. Blair?

British kit found in Hezbollah bunkers

(notícia do The Times)

AN URGENT investigation was launched last night after Israel accused Britain of indirectly supplying Hezbollah terrorists with military night-vision equipment that helped them to target Israeli soldiers in Lebanon.
The equipment was found by Israeli troops in Hezbollah command bunkers in southern Lebanon. Each set was stamped “made in Britain”.
The Israelis made representations to the Foreign Office after it was revealed that Britain had sold 250 night-vision systems to Iran in 2003 for use against drug smugglers.
Foreign Office officials said early indications seemed to suggest that the night-vision equipment found by the Israelis was not part of the batch sold in 2003 to Iran. However, thorough checks were being made to compare serial numbers on the equipment found in the Hezbollah bunkers with those on the ones exported legitimately to Iran.
The Iranians are the prime sponsor of Hezbollah, and the Israeli authorities are demanding to know whether the equipment sold to Iran three years ago ended up in the hands of Hezbollah, which killed 117 Israeli soldiers during the month-long clashes in Lebanon.
A Department of Trade and Industry official said night-vision equipment of military specification required an export licence. The investigation will look into whether any British company might have breached export regulations.
The batch of 250 night-vision systems were given a special export licence in 2003 because they were intended to be used by Iranian police trying to stem the flow of heroin and opium from Afghanistan into Iran. Although there is what amounts to an arms embargo against Iran, aimed principally at stopping the export of equipment that could benefit Tehran’s suspected nuclear weapons programme, the request for night-vision equipment was approved in recognition of the counter-narcotics work.
When the export was agreed, Mike O’Brien, then Junior Minister at the Foreign Office, told the Commons: “The goods are for the use on the Iran-Afghanistan border against heroin smugglers.” He said there was “no risk of these goods being diverted for use by the Iranian military”.
If any of the equipment has been diverted to Hezbollah, it would be a serious embarrassment for the Government. Hezbollah’s “external security”, the military wing of the militant organisation, is proscribed as a terrorist group. The Government has also made clear its support for Israel’s struggle with Hezbollah and has approved the transit of bunker-busting bombs and missiles for the Israelis from the US through British airports.
Liam Fox, the Shadow Defence Secretary, said: “If this turns out to be true, and Iran supplied backing for Hezbollah, it will have consequences for any future military exports to Iran. And it points the finger all the more strongly at Iranian involvement in destabilising the Middle East.”
One set of the equipment was found by Israeli forces in the southern Lebanon village of Mis-a-Jebel on August 10, in a house belonging to a 60-year-old man whose four sons are all Hezbollah fighters.
One was described as a Thermo-vision 1000 LR system with a serial number 155010, part number 193960. Other equipment, including radios also thought to be British, and sophisticated recording and monitoring devices, were found.
Israeli commanders had complained that night-time operations in the border region had been hampered by the ability of Hezbollah fighters to observe and counter their moves. In more than six days of fighting around the village of Mis-a-Jebel, the Israelis lost six soldiers and 20 more were injured.
Lieutenant-Colonel Olivier Radowicz, an Israeli commander, said: “The night-vision unit was used to observe the movement of troops. You can also record what you are watching. Then it is connected to a computer. You can obtain a perfect intelligence picture in real time. It is then connected to firing systems.”
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006

A novidade (?!?) do Hezbollah

Alguns analistas políticos parecem, no rescaldo - por ora provisório, mantenho - do conflito Israel-Líbano, terem descoberto a pólvora: é o caso do Público (mais uma vez, não deixo link por se tratar de um site de acesso pago), que na edição de hoje lança a questão da "originalidade" do modelo Hezbollah.
Falsa originalidade quanto a mim. Em primeiro lugar, por o Hezbollah ser um movimento que já existe há pelo menos duas décadas, e com ele o pretenso novo modelo. Em segundo lugar, por não ser caso único. No mundo árabe, não o consideraria sequer como excepção: temos o igualmente famoso Hamas na Palestina, que segue exactamente o mesmo modelo de ajuda social-doutrina extremista-guerrilha - a única diferença sendo os superiores meios ao alcance do Hezbollah por via do seu apadrinhamento, que lhe permitem ter um mais completo armamento (e mais eficaz no tipo de combate a que se propõe) - mas não na eficácia da sua rede de suporte social, tão importante na Faixa de Gaza e Cisjordânia como no sul do Líbano. Aliás, foi precisamente com base nessa rede que o Hamas conseguiu ser eleito (de forma completamente democrática, o que toda a gente, particularmente diplomatas, parecem ou querem ignorar).
De resto, existem outros exemplos no mundo árabe, apenas com menos meios e visibilidade, como por exemplo a Irmandade Muçulmana e até os taliban... Ou seja, a pretensa fórmula da pólvora já existe há muito tempo, e já há muito que os líderes islamistas - pelo menos os que têm alguma inteligência - perceberam o poder desta fórmula.
Estou de acordo, no entanto, com a premissa de que é um modelo que ameaça espalhar-se... e é este um dos principais motivos, não apreendidos por Israel ou pelos Estados Unidos (e interrogo-me se o terá sido pela Europa), que faz com que, após este conflito no Próximo Oriente, os tempos vindouros venham a ser, a níveis que ainda iremos descobrir, tempos perigosos...
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

(ainda) o peso da História

Depois da prometida ajuda francesa à força multinacional que irá ocupar o sul do Líbano, e que em princípio constituirá o grosso da força, é a vez da Alemanha se mostrar interessada em participar. Não sem grande polémica interna: é que se soldados alemães forem destacados para o sul do Líbano, arriscam-se a ter de disparar contra israelitas... contra judeus portanto...
A História ainda tem todo este peso, mais de 60 anos depois.
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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2006

Quem disse que as guerras não acabam empatadas? (cont.)

Esta é a resposta ao post do Max no Devaneios Desintéricos, e que funciona como complemento ao que mais abaixo escrevi.
Jjulgo que Teerão - e isto será quase consensual - é o grande vencedor desta partida de xadrez que jogou por interposto jogador; quanto a Damasco, não ganhou, penso, o mesmo protagonismo, mas também não o perdeu. Mantendo o mesmo peso relativo na região e, sobretudo, mantendo a sua pesada pata no vizinho Líbano, garante o "status quo" anterior ao conflito. Tenho dificuldade em colocar a Síria como vencedora, mas fora esta questão de semântica parece que também aqui concordamos, caro Max.
Quanto ao resto, o Max escreve, citando o Ha'aretz que "poucos acreditarão na capacidade do governo libanês de efectivamente assegurar a tarefa que lhe foi imposta", e eu não acredito com certeza. Se o cessar-fogo depender das capacidades do exército libanês até chegar a tal força multinacional de que ainda se discute a composição, está condenado desde já ao fracasso. É bom, portanto, que se apresse a constituição da dita força, e que esta se muna da maior quantidade de armamento pesado possível... porque vai seguramente precisar dele...
Também plenamente de acordo, como também escrevi no meu blog desde o início, que do ponto de vista israelita esta guerra foi um erro geopolítico tremendo, fruto do tal facilitismo israelita (que já tem um largo historial, só que nunca tinha corrido tão mal como agora... vide a anterior invasão do Líbano por exemplo, onde a atitude do Tsahal esteve na raiz mesmo da criação do Hezbollah...), em que Olmert pareceu, mais que manipulado, contagiado pelo mesmo tipo de facilitismo acéfalo e inculto que Bush propugna. E destes erros colossais não será só Olmert a pagar as consequências (o seu governo não durará muito mais tempo), será o próprio Israel a pagar, e durante muito tempo...
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Líbano: quem disse que as guerras não acabam empatadas?

Como confessei em post anterior, não tenho acompanhado com a devida atenção o conflito no Líbano, em boa parte por me ter cansado de me indignar, de os meus gritos caírem em saco roto... Nesta altura em que se verifica, se não o fim das hostilidades, pelo menos um intervalo, impõe-se a reflexão: quem saiu ganhador e perdedor destes 30 e tal dias de guerra?
Li outro dia no jornal um comentário de alguém (israelista, penso) que dizia que nenhuma guerra jamais pode terminar empatada. Esta parece, pelo menos até ver, ter de facto culminado num empate, embora um empate, a meu ver, mais inclinado para um dos campos (daqueles que os comentadores de futebol costumam dizer "a haver um vencedor, teria de ser...").
Israel, apesar de ter feito vincar o seu bruto ponto de vista, não conseguiu nenhum dos seus grandes objectivos, nem o desarmamento nem aparentemente o enfraquecimento do Hezbollah. Conseguirá, pelo menos a curto prazo (embora tenha dúvidas que isso se mantenha a longo prazo, o afastamento do Hezbollah da sua fronteira - embora o raio de acção dos Katyushas e outros rockets permita o seu lançamento de lá do rio Litani...
O Hezbollah, como já se adivinhava desde o início, tem o direito de se sentir como vencedor e de o proclamar. Embora se veja para já afastado do seu território privilegiado, mantém as suas armas (não vislumbro no cessar fogo nem na força internacional a destacar para o Líbano forma de proceder ao seu desarmamento) e não só não diminuiu como aumentou a sua popularidade e, logo, legitimidade popular e, logo, força política interna face ao débil governo libanês. Portanto, apesar de não ser vencedor no campo de batalha, é-o de certa forma fora dele, como já tinha adivinhado desde o início desta estúpida guerra... por arrasto, também o Irão sai fortalecido, ao afirmar-se como potência regional e nesta fase único baluarte no Médio Oriente contra a hegemonia americana. Também ganhou tempo precioso para prosseguir a seu bel prazer o dossier nuclear... Quanto à Síria, se não ganha propriamente prestígio nem força diplomática, também não perde, ou seja, no contexto de um Estado cada vez mais enfraquecido mantém o "status quo", o que para Damasco não é de desprezar.
No final, o que sobra então? Israel não é um país muito mais seguro (é-o apenas marginalmente e, ressalvo, apenas no curto prazo); o Hezbollah não é um movimento mais fraco: o que perdeu em armas (e que Teerão, obviamente, não terá problemas em colmatar) ganhou em força popular e apoio moral; o Líbano é um país ainda mais instável, e continuará a ser um barril de pólvora prestes a explodir; a Síria mantém a sua espada de Dâmocles sobre Beirute; o Irão ganha força diplomática e tempo e argumentos para prosseguir o seu programa nuclear... Ou seja, tudo ficou praticamente na mesma, e o mundo não só não é um lugar mais seguro como provavelmente é agora mais perigoso...
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2006

Desastre humanitário no Líbano... e também ecológico



Esta imagem já tem um par de semanas, mas só agora soube as suas reais implicações. Trata-se de uma central eléctrica algures no Líbano, cujo depósito de combustível foi bombardeado pela aviação israelita. O resultado, segundo notícia do Público de ontem, foi o derrame de 10 mil toneladas de crude no Mediterrâneo, com as consequências a nível da ecologia que todos já conhecemos deste tipo de acidente - correcção, neste caso não foi sequer um acidente... antes mais um "dano colateral"...
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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2006

Nada de novo a Oriente

Estou a ficar cansado de me indignar.. confesso que nos últimos dias não tenho prestado muita atenção ao conflito no Próximo Oriente... Mas também me parece que tudo está na mesma: Israel a bombardear posições onde acha, geralmente mal, que o Hezbollah se esconde; este a enviar uma chuva de Katyushas mal direccionados sobre Israel; o governo libanês impotente; os Estados Unidos reféns das suas marionetas israelitas e das opções de políticas externa...
A opinião pública portuguesa também parece, como eu, gradualmente anestesiar-se face a um conflito que parece não só estagnado em termos de xadrez político, mas que também ameaça (para mim é quase uma evidência) terminar mantendo tudo na mesma - com a "ligeira" diferença de uns quantos actos hediondos a mais na "folha de serviço" de Israel - nada que lhes perturbe a consciência...
Sim, estou cansado de me indignar... tão cansado...
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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

Breves sobre a guerra - porque ainda compro o Público

Uma vez que o acesso ao site do Público é pago (nem sequer vou deixar o link), reproduzo aqui parte de uma crónica que li na edição de hoje, da autoria de Fernando Belo, intitulada «Israel e a Lei da Guerra», e que me parece interessante e merecedora de debate:

"(...) só quando as sociedades árabes chegarem à modernidade é que poderá desaparecer o síndroma do 'choque das civilizações' (o qual só tem sentido do ponto de vista da impotência deles, da raiva que esta dá)...
A contradição deste tipo de guerras é visível a qualquer espectador de telejornais, quer a mortandade absurda de gente civil, quer a destruição de estruturas civis de modernidade de todo o género que haverá em seguida que reconstruir, sabendo-se que os meios para tal faltam cruelmente. Isto é, estas guerras matam gente inocente, geram jovens com ódio e impedem a modernidade dos países que não podem contar ainda com gente suficientemente escolarizada. Enquanto a estratégia for de guerra, esta eternizar-se-á. A questão do fim da contradição do Médio Oriente pode colocar-se, em termos teóricos, da seguinte maneira, difícil, senão utópica: que Israel colabore decididamente na construção da modernidade palestiniana, crie uma rede de instituições e práticas de tal maneira forte que nenhuma das partes, capital e empregos, possa querer guerra.  (...) Utopia hoje, é certo, mas estrita condição de possibilidade da paz. (...)"

Deixo também outra notícia curta que me parece merecer atenção:

Israelitas falham alvos deliberadamente

"Pelo menos dois pilotos israelitas falharam deliberadamente os alvos civis que lhes foram destinados no Líbano, quando aumentam as dúvidas sobre a eficácia das informações militares, referiu ontem o semanário britânico Observer. De acordo com o periódico, os pilotos temiam que os alvos fossem erradamente identificados como estruturas do Hezbollah: «tinham medo que lá estivessem pessoas e não confiam mais nos que lhes dão as coordenadas e os alvos.» (...)"

  Aqui está uma atitude rara entre os Israelitas, mas exemplar em termos de consciência!
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Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

Stop destroying Lebanon

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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

Quando o telefone toca...

   ...poderá ser um observador da ONU a avisar o Exército israelita da sua localização exacta no sul do Líbano. Do outro lado, poderá obter a segurança de que nada lhe acontecerá. Com as bombas a continuar a cair, o observador poderá não se sentir totalmente tranquilo e repetir o telefonema. Quando o telefone toca, do outro lado poderá novamente obter garantias de segurança. Ao longo de várias horas de bombardeamento, o observador da ONU poderá por 10 vezes contactar o Exército atacante. Quando o telefone toca em Israel, por 10 vezes obterá a mesma resposta tranquilizadora.
Qualquer um, mesmo no meio das bombas, se sentiria pelo menos um pouco tranquilo. Talvez os quatro observadores da ONU se tenham sentido tranquilos. Talvez tenha sido esse o seu último pensamento.

A verdade é que isto aconteceu mesmo, fazendo lembrar os piores momentos da guerra no Iraque: Israel bombardeou a posição onde se encontravam quatro obsevadores da ONU e simultaneamente, em efeito borboleta, bombardeando todas as hipóteses de um cessar-fogo no conflito, pois enquanto isto acontececia, em Roma as várias partes envolvidas em conversações tomavam conhecimento de mais esta escalada e afastavam-se cada vez mais.
A guerra continuará. As bombas continuarão. As mortes, militares e civis, não pararão. Na capa do Público de hoje, a interrogação de um colunista se poderá estar a iniciar-se a Terceira Guerra Mundial. Tenho medo. Não quero ter medo. Mas tenho.
:
: Quando o telefone pecca, GNR
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Neste blog é permitido fumar





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O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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