Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

A farsa russa de Putin - segunda série estreia domingo

A Rússia está prestes a mudar de dono, embora só formalmente. Vladimir Putin, impedido constitucionalmente de se candidatar a um terceiro mandato como presidente - e sem vontade de alterar a constituição, embora tal estivesse perfeitamente dentro do seu omnipotente poder, para manter uma mínima aparência democrática - desencadeou há meses uma complicada e tortuosa farsa em que endossou o seu apoio - traduzindo, "fez presidente" - a Dmitri Medvedev, figura suficientemente fraca e não conotada com nenhuma das facções da clique de Putin para evitar lutas fratricidas dentro do regime.
Assim, e como na democrática Rússia não são necessárias sondagens para saber quem vence eleições, já no domingo a era Putin aparentemente chegará ao fim. E esta aparência nem sequer é particularmente credível, pois Medvedev afirmou desde logo que pretende nomear Putin como seu primeiro-ministro.
Tudo na mesma a Oriente, pois. A pseudo-democracia russa tornar-se-á gradualmente ainda mais pseudo-. A retórica belicista será a mesma, transmitindo aos russos a ideia de que o seu país está de regresso aos gloriosos dias de potência mundial (nada importa que isso não seja - ainda - verdade) como forma de os fazer esquecer e aceitar (e os russos esquecem e aceitam assim de bom grado, com uma preciosa ajuda dos alpinos preços do petróleo) a realidade interna de brutalidade ditatorial.
Assim seguirá a Rússia, e muito pouco de bom daqui poderá sair...
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um discurso de Abraracourcix às 11:19
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

A nova guerra fria

Extractos seleccionados de um artigo do Público de ontem, que sumariamente inventaria os passos da recente escalada de tensão entre os colossos geopolíticos americano e russo, e que prenuncia que, depois do mundo bipolar da guerra fria e do período unipolar que lhe sucedeu, vivemos hoje os primeiros passos rumo a um mundo como nunca multipolar : Estados Unidos, uma Rússia "putinizada" e que renasce das cinzas, mas também China, talvez Índia, Irão...
E se o adjectivo "multipolar" era habitualmente utilizado como positivo (pensava-se há 15 anos que seria desejável que à divisão do mundo entre Estados Unidos e União Soviética sucedesse um mundo dominado por múltiplos pólos, nenhum deles com supremacia sobre os restantes) hoje ele é cada vez mais visto como uma sombria incógnita...


"O ministro checo dos Negócios Estrangeiros, Karel Schwartzenberg, declarou ontem que o seu país não se deixaria "intimidar" e que falharão as tentativas de "chantagem" russa para impedir a instalação de um sistema de radar no seu país e de uma bateria de mísseis antimísseis americanos na Polónia. "Os checos sabem agora que o "escudo" é cada vez mais necessário".
(...) É o mais recente episódio duma "guerra fria" de palavras, iniciada em Janeiro pelo pedido americano de instalar dispositivos do escudo nos dois países. Seguiram-se as declarações do secretário da Defesa americano, Robert Gates, que, a 8 de Fevereiro, no Congresso, tratou a Rússia como inimigo potencial, logo seguidas do virulento discurso de Vladimir Putin na conferência de segurança de Munique.
"Um país, os Estados Unidos, sai das fronteiras nacionais em todos os domínios. É muito perigoso: já ninguém se sente em segurança, porque ninguém encontra refúgio no direito internacional."
(...) o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, general Iuri Baluevski, afirmou que "a Rússia e a China são os verdadeiros alvos do escudo antimísseis americano" e não ameaças vindas do Irão ou da Coreia do Norte.
O mesmo ministro Serguei Ivanov declarava ao Kommersant: "O aparecimento do escudo antimísseis americano na Europa de Leste não nos agrada, mas não terá impacto na segurança da Rússia, pois temos novos mísseis móveis Topol-M que suplantam qualquer sistema antimísseis." Exactamente o que dizem os americanos: a ameaça não é militar.
O Nezavissimaia Gazeta põe o dedo na ferida: "A Rússia e os Estados Unidos reconheceram que deixaram de ser parceiros estratégicos." (...) o que provoca a exasperação de Putin é o novo teor das relações entre a Rússia e o Ocidente.
A Rússia teme fundamentalmente duas coisas. Primeiro o regresso da pressão americana no seu "estrangeiro próximo", da Ucrânia à Ásia Central. E, em segundo lugar, a ruptura do actual equilíbrio de forças na Europa em seu desfavor.
(...) O jogo não está definitivamente consumado. Abre fissuras na União Europeia. A questão suscita... divergências na Polónia e na República Checa, onde a opinião pública desaprova a decisão dos governos (...)
Cerca de 30 países dispõem já de mísseis balísticos, o que levou a uma procura geral de sistemas de defesa antimíssil, não só entre as grandes potências, mas também em países que se sentem vulneráveis, como o Japão, Israel, os do Golfo, Coreia do Sul ou Taiwan (clientes dos EUA) ou o Irão, China, Síria e Argélia (clientes da Rússia)."
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

Cartoon da semana

Mais uma vez surripiado ao Max... Já estou mesmo a abusar... Mas vale a pena porque a imagem é muito reveladora do que se vai passando na Rússia do czar Putin-Staline, sobre a qual já não escrevia há demasiado tempo.
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Post da semana

Esta semana, destaco uma citação que o sempre atento Max lanou no Devaneios Desintéricos, o meu/vosso blog de referência. "a liberdade de pensar na Democracia possível" deixa pistas e faz-nos pensar nisso mesmo, em quanta democracia, e qual democracia, será afinal possível...
Para não abusar do surripianço descarado, deixo aqui apenas parte da tal citação. Para o resto, vão ao Devaneios, e aproveitem para apreciar o novo e arejado layout - esta nota de publicidade é para evitar a censura do Max por lhe ter "roubado" a citação...

"Pensar sempre conduziu a suscitar a questão da ordem do Mundo. Ora, o Mundo é dirigido pelo Poder, e aquele que pensa coloca em causa o Poder. Pensar é, pois, uma actividade perigosa (...) O que está a acontecer na Rússia não é um caso isolado. Aquilo que lá se passa é um presságio de uma tendência crescente no seio dos poderes que hoje decidem a ordem do nosso Mundo: a de calar, por diferentes métodos, aqueles que ponham em causa a ordem vigente."
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Quinta-feira, 13 de Julho de 2006

Coincidências à moda russa

Foi anunciado há dias a morte de Chamil Bassaev, líder do movimento independentista-terrorista tchetcheno. Se nada há a apontar de mau ao acto em si (os jornais russos uniram-se numa rara unanimidade para aplaudir), não deixo de pensar na feliz "coincidência" de esta boa notícia para Putin ocorrer dias antes do importante, para ele, encontro dos líderes do G8 em S. Petersburgo, que servirá antes de mais para tentar legitimar Putin como líder de uma potência mundial, ao mesmo nível político dos restantes 7 países mais industrializados do mundo. Não consigo deixar de pensar que esta boa notícia possa não ser uma coincidência, mas antes fruto de um muito russo cinismo que propositadamente terá feito coincidir esta acção com o encontro do G8...
Eu não acredito em teorias da conspiração... mas é como as bruxas, "pero que las hay, las hay"...
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um discurso de Abraracourcix às 09:17
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004

Quando um bruto encontra um bruto

O primeiro assunto a abordar neste blog teria inevitavelmente de ser o que aconteceu em Beslan a semana passada. Para começar, quero deixar bem claro que, enquanto pacifista, condeno totalmente qualquer tipo de violência. Estou perfeitamente consciente de até que ponto a minha posição é utópica (mas Gandhi também o era...), mas considero que qualquer conflito pode e deve ser resolvido de modo pacífico. Para tal, basta os homens mostrarem ser razoáveis. É precisamente da irrazoabilidade e irracionalidade humanas que partem todos os conflitos.
No entanto, ao mesmo tempo que condenor veementemente todo e qualquer conflito armado, penso que há conflitos que, embora inaceitáveis, são mais compreensíveis que outros - não por serem de alguma forma legítimos, mas por partirem de um ponto de vista legítimo. Há uma diferença fulcral entre os meios empregues e o fim a alcançar. Se para mim o fim não justifica os meios, faz alguma diferença como factor de compreensão o facto de o fim ser para mim legítimo ou não. Embora condenando-os a todos, compreendo melhor os bombistas palestinianos do que a intervenção americana no Iraque; é-me mais compreensível a luta pela autodeterminação da Tchetchénia ou de Euskadi do que a violência no Darfur.
Agora, mesmo simpatizando com as causas elas perdem toda a razão ao recorrer à violência. "O que não vai à palavra não vai à pancada", dizia a minha mãe quando era nova à minha avó.
Posta esta longa introdução, e concretamente falando do que aconteceu na Ossétia do Norte, é exactamente este ponto de vista que quero trazer à reflexão - daí o título. É absolutamente monstruosa a acção dos terroristas, sem pejo em atirar sobre crianças, mulheres, inocentes. Ao mesmo tempo, existem ainda dúvidas sobre a conduta dos militares russos que "libertaram" (já pouco havia a libertar...) a escola. Sabemos que historicamente a acção dos militares russos neste tipo de situação deixa algo (muito) a desejar. Podemos mesmo afirmar, porque é um facto, que todos os casos deste tipo na Rússia redundaram em tragédia, com dezenas ou centenas de mortos - todos se devem ainda lembrar do mais mediático destes casos, o ano passado num teatro moscovita. Neste caso em particular, importantes pontos restam ainda por esclarecer: será que o ataque à escola foi mesmo despoletado pelo facto de os terroristas terem explodido o ginásio? Há quem tenha dúvidas e ponha a possibilidade de terem sido os militares russos a desencadear tudo, só que para prevenir a condenação da opinião pública divulgou a versão de que o primeiro passo foi a explosão do ginásio.
Independentemente disto, a maior parte dos analistas concorda que a acção militar foi mal planeada e pior executada. Mesmo partindo do pressuposto que só em último caso os militares estariam dispostos a recorrer à força, é normal as forças especiais terem planos de contingência - o vulgo "Plano B" - precisamente para quando algo imprevisto ocorre. O que vimos em Beslan foi uma descoordenação gritante. Muitas crianças fugiam da escola sem ninguém que as amparasse, chegavam ao exterior e olhavam em redor, ficavam perdidos porque não havia quem os consolasse, quem os encaminhasse para uma ambulância, quem lhes desse apoio. Em muitos casos tiveram de ser os familiares a levar os feridos para o hospital... Não acredito que tenham sido os militares a dar o primeiro passo. Não consigo imaginar sequer o abjecto cinismo que para tal seria necessário; não que os Russos não tenham esse cinismo, mas depois do que aconteceu no teatro em Moscovo no ano passado duvido a atenção mediática é redobrada, e isso - provavelmente só isso - terá sido o suficiente para evitar a reincidência. Claro que só o facto de se admitir este tipo de possibilidades é suficientemente significativo...
Outro ponto que me suscita bastantes dúvidas é a política do "tiro na nuca": o ano passado, na crise do teatro de Moscovo, todos os terroristas foram mortos no próprio teatro, a maior parte precisamente com um tiro na nuca, ou seja, foram executados sumariamente. Agora parece que o mesmo sucedeu novamente. Apenas sobreviveu um dos terroristas, sendo que a sua versão dos acontecimentos não é totalmente plausível. Acho bastante estranho as forças militares não tentarem capturar pelo menos alguns dos terroristas vivos. Não seria de extrema utilidade tudo aquilo que lhes poderiam contar (mesmo sob tortura, que é algo a que não tenho que os Russos recorreriam...)? Não aprenderiam mais sobre o funcionamente das células terroristas que desenvolvem este tipo de operações? Ou até sobre a guerrilha tchetchena, já que mesmo com a colaboração de nacionais de outras repúblicas vizinhas (Inguchétia, Ossétia - parece-me sem dúvida a tentativa tchetchena de transnacionalizar o seu conflito, no que de resto têm tido pleno sucesso) não há dúvidas que estes ataques são obra da linha dura do nacionalismo tchetcheno. Aparentemente, os responsáveis russos já sabem tudo o que há a saber sobre os terroristas e sobre os guerrilheiros (não é exactamente a mesma coisa)... aparentemente arrogam-se a posição de Deus omnisciente, que plana sobre o território da Tchetchénia - mas parecem ignorar pelo menos o facto de que é precisamente essa arrogância - que aliás já vem dos tempos soviéticos - que está na origem de todo o conflito.
Um último ponto tem a ver com a tentativa russa de "Al-Qaedizar" o conflito. Tentaram-no com o sequestro de Beslan, afirmando que boa parte dos terroristas era árabe - o que era duvidoso porque pouco plausível. Acredito que a Al-Qaeda tenha contactos na Tchetchénia, sim. Já é para mim altamente duvidoso que tenham qualquer papel na orquestração dos planos ou sequer na sua execução. Creio que, quando muito, têm um estatuto de observadores. Mas esta tentativa russa de manipular a opinião pública é significativa em si mesma. Parece por vezes estranho como é que um presidente que, como Putin, toma decisões que levam à morte de centenas de inocentes (independentemente do sucesso do ponto de vista da neutralização da ameaça e dos terroristas), tem tão altos níveis de popularidade, crescentes de resto a cada caso destes. Compreende-se melhor o aparente paradoxo quando se atenta no panorama audiovisual russo, totalmente controlado pelo Kremlin. É Putin ou os seus colaboradores que decidem que notícias podem sair para o público, e de que forma podem sair. Ainda há um par de dias foi demitido o director do "Izvestia" (por ordem emanada das mais altas cúpulas do poder), jornal controlado por Putin mas que tomou a ousadia de utilizar a palavra "guerra" na caracterização da tragédia de Beslan. Assim sendo, e dado que os media considerados independentes - porque os há - têm pouca divulgação no interior da Rússia (somos nós, mundo ocidental, que ironicamente mais lhes dá atenção e crédito), é inevitável que a opinião pública russa fique do lado de Putin e que lhe dê, quando de eleições, maiorias que poderíamos qualificar de soviéticas. É a democracia à russa...
Regresso assim ao ponto inicial: a brutalidade. Temos brutos de um lado - os terroristas - que tentam, ou dizem tentar, tornar a Tchetchénia independente, pressionando Putin directamente ou de forma indirecta, através da simpatia da opinião pública. Quer de uma forma ou de outra, este tipo de acção terrorista só lhes granjeia precisamente o contrário, uma ilimitada antipatia. Quando Putin diz que vai "caçar os bandidos até nas retretes" o povo russo aplaude. Do lado russo da barricada, entretanto, temos também brutos. Brutos quando tentam esmagar pela força a resistência no próprio terreno da Tchetchénia, brutos quando capturam sequestradores. Respondem à brutalidade com mais brutalidade. E perdem a superioridade moral que poderiam eventualmente ter sobre os terroristas. Porque o que fazem é apenas uma outra forma, mais subtil, mais insidiosa, de terrorismo.
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um discurso de Abraracourcix às 09:33
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   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


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   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

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