Quarta-feira, 18 de Abril de 2007

Religião, a semente da intolerância

"(...) É mais fácil, no entanto, optar pela versão "cornos e cauda". Ver o diabo naqueles que não compreendemos nem queremos compreender e dar-lhes combate. A história está cheia desses exemplos, a começar na velha caricatura do forasteiro que mata o indígena só porque este avançou para abraçá-lo. Outra história, ainda com o humor de [Amos] Oz: inquirido sobre qual a fé verdadeira (judaica, católica, protestante, muçulmana), Deus responde: "Para te dizer a verdade, meu filho, não sou religioso, nunca fui, nem sequer estou interessado na religião". Os humanos, pelo contrário, até matam por ela."

(excerto do artigo de opinião de Nuno Pacheco, no Público de ontem, a propósito da oferta, com a edição de hoje do jornal, de um livro de Amos Oz com três textos de opinião sobre o conflito israelo-palestiniano)
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Quarta-feira, 14 de Março de 2007

O futuro da Igreja está assegurado

(este post tem o alto patrocínio de Sua Diabolidade Bento XVI)

O Papa Bento XVI acabou de publicar uma exortação apostólica (traduzindo para português laico, é uma espécie de documento com linhas de orientação), Sacramentum Caritatis (tradução para português não recomendada, como se verá adiante), onde faz diversas recomendações que, estou certo, finalmente porão a Igreja no caminho certo.
Assim, sugere-se "não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja".
Partindo do princípio de que todos os padres serão terão a divina iluminação de distinguir, de entre todos os seus fiéis, aqueles que estão nesta condição, isto não pode deixar de ser visto como um grande passo em frente: afinal, as igrejas são locais de meditação e oração, onde o silêncio deve imperar, e missas com mais de vinte fiéis perturbam esse ideal silêncio. Por isso, quanto menos pessoas, melhor será a celebração.
Aliás, suspeito que em próximas recomendações o Papa também excluirá da eucaristia todos os que não tiverem efectuado a primeira comunhão e o crisma, etc. Na sequência de tal salutar diminuição de frequentadores das missas, outros grupos se perfilam para serem liminarmente excluidos:
  • quem tenha abortado (como em Portugal já sabemos desde a campanha para o referendo);
  • quem nunca tenha feito peregrinação a Fátima ou a Santiago (a pé, claro);
  • quem não cumpra rigorosamente os 40 dias de jejum da Quaresma;
  • quem tenha relações sexuais com fins (cruz credo) de mero prazer libidinoso e egoísta, sem tentar a reprodução;
  • quem utilize métodos contraceptivos, esses artefactos do demo;
  • quem não tome a iniciativa de chamar Bento a pelo menos um dos seus filhos;
  • claro que dos homossexuais(eze) nem se fala...
Quando todas estas directivas estiverem em vigor, a missa poderá então ser uma ocasião de celebração perfeita, em que o sacerdote terá todas as condições para que as belas palavras eucarísticas ecoem no silêncio, para que possa contemplar a sua bela igreja vazia e comungar sozinho.

Mas Sua Diabolidade vai mais longe, e num rasgo de ousadia, aconselha aos sacerdotes um maior uso do latim e do canto gregoriano. Se do canto gregoriano não é preciso frisar a enorme popularidade (basta ver os milhares de discos vendidos de qualquer álbum edição de cantos gregorianos), já a maior utilização do latim é o necessário passo avant garde para colocar a missa em linha com a arte pós-moderna.
Eu aqui no Altermundo associo-me desde já a este moderno desígnio, pelo que o resto do post será escrito em latim:

Tandem vaticanus habeo audentia et expedio intro semita rectus, semita Ecclesia sine fidelia (tantum impedimentum, ut videor), et vivere per siglo rectus, siglo qui vivemus, nimirum, siglo XVI.

Perceberam alguma coisa? Não?!?
Pois bem, também não perceberão as missas, como ninguém perceberá. Mas como os católicos adoram ficar uma hora num sítio a ouvir alguém falar uma língua morta de que não entendem nada, continuarão entusiasticamente a ir à missa, e até a obrigar os seus filhos que querem tirar direito - afinal, que melhor forma de aprender o b-a-ba do ramo?
O futuro da Igreja, o milagre da multiplicação dos fiéis, está pois assegurado.

(para os leigos que não percebem latim - como eu, que só consegui escrever umas míseras palavras  à custa de muito suor e do Internet Dictionary Project, o único que encontrei com tradução online para latim - e que portanto não poderão frequentar a igreja, a tradução do que escrevi acima:
Finalmente o Vaticano tem a coragem e a lucidez de caminhar no rumo certo, o de uma Igreja sem fiéis (só atrapalham, como vimos), e de viver no século certo, aquele em que vivemos, obviamente, o séc. XVI.)

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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

O Vaticano ainda percebe de política

Continuando a senda de notícias perfeitamente expectáveis, o Papa pronunciou-se ontem na Turquia a favor da integração deste país na União Europeia, inflectindo a sua posição pessoal de quando ainda se chamava Ratzinger.
Apesar de afirmar que esta é uma visita pastoral, e não política, ninguém acredita que a verdadeira motivação é bem política e prende-se com a necessidade de pacificação da turba islâmica, sinal de que a violenta polémica quando do tristemente famoso discurso de Ratisbona tocou num qualquer nervo do Vaticano.
Para essa pacificação acontecer, tudo tem de acontecer rigorosamente como planeado - de acordo com os exactos detalhes naturalmente combinados a priori pelas duas diplomacias - o que não tenho dúvidas que vai acontecer, e afirmações como esta do Papa favorável a uma Turquia europeia têm de ser proferidas.
Noto no entanto que tal não significa que Bento XVI tenha mudado a sua opinião pessoal: a afirmação não foi feita pessoalmente, tendo o Papa apenas anuído no "diz que disse" do primeiro-ministro turco em como o primeiro revelou querer a Turquia na UE. Não tendo mudado de opinião, no entanto, rendeu-se aos ditames da realpolitik, sinal de que algo mexe, ainda, para os lados da Catedral de S. Pedro...
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

O Papa, a Turquia e a União Europeia

Vem no Público de hoje:

"Numa entrevista à agência de notícias turca Anatolia, a partir de Roma, o porta-voz do Vaticano esclareceu que o Vaticano não é contra a entrada da Turquia na União Europeia. "Se a Turquia cumprir as suas obrigações e os requisitos europeus, por que não haveria de tornar-se um membro da UE?", disse Federico Lombardi sobre esta questão, depois de Bento XVI ter dito em 2004, antes do início do pontificado que seria "uma grande erro englobar a Turquia na União Europeia" porque "historicamente e culturalmente" tinha "pouco a partilhar com a Europa"."

Pergunto eu: alguém lhe perguntou a opinião, agora ou em 2004? O Vaticano, embora para muitos efeitos associado politicamente a Itália, não é um Estado-membro da União Europeia e não tem, portanto, voto na matéria.
Uma das coisas que mais me indigna na postura diplomática do Vaticano é esta "mania" de darem opiniões sobre assuntos que não lhes dizem respeito, para desta forma tentarem condicionar terceiros segundo a agenda que mais lhe convém.
E o actual Papa, esse Maquiavel de mitra, não se incomoda minimamente em fazê-lo, mesmo que tenha de dizer algo e o seu contrário - a respeito da polémica citação do discurso, em que dizia que «Maomé apenas tinha trazido "coisas más e desumanas"», e depois dizendo calmamente (como se alguém acreditasse) que ela não correspondia à sua opinião pessoal; e agora acerca da entrada da Turquia, primeiro "contra", agora "a favor" para tentar apaziguar a efervescente opinião pública turca - de novo, como se alguém acreditasse que esta posição é motivada por algo mais que mero tacticismo político barato e de consumo rápido...
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

Habemus Papam incendiarius

Regresso ao tema depois de ter a Sofia (@ Defender o Quadrado) me ter enviado o link para o discurso completo de Bento XVi. E como - já o disse anteriormente - acho que é importante opinar sobre os próprios factos, e não sobre a impressão que se tem após ter lido a descrição dos factos por alguém feita, aqui fica o link, para que leiam também o discurso e só depois opinem. Lido o discurso (algumas partes na diagonal confesso), algumas correcções se impõem face ao que escrevi anteriormente.

Primeiro, o que pensei ser apenas uma nota de alguma forma marginal e enterrada algures no meio de um longo discurso foi afinal proferido logo no início do mesmo e foi mesmo o ponto de partida de toda a argumentação que se seguiu.
Segundo, o Papa foi tudo menos ingénuo, e o "separar de águas" de que falei foi totalmente explícito. Terceiro, se não fala explicitamente em superioridade da fé católica, afirma que esta é a única que tem a Razão (no sentido que a cultura clássica grega lhe dá, o "logos").
Portanto, sou obrigado a concluir que eu é que fui ingénuo, quando concluí que mesmo tendo errado, a intenção do discurso papal era inerentemente benévola. Retiro o que disse. Continuando a achar as reacções islâmicas excessivas (mais uma vez o paralelo com a questão dos cartoons), a indignação é absolutamente compreensível.
É oficial (latim propositadamente macarrónico): "Habemus Papam incendiarius". E mais um prego no caixão da Igreja.
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Bento XVI, "o rotweiller de Deus"... e agora o seu incendiário de serviço

Nestes dias em que muito se tem escrito sobre a última polémica papal (porque é que "polémica papal" já é uma força de expressão? porque é que os sucessivos papas, e este parece querer fazer jus à fama, não evitam cair na ratoeira implícita na dita expressão?), andei à procura do texto original lido por Bento XVI, porque não gosto de opinar sobre opiniões, antes sobre os próprios factos. Procurei, mas não encontrei (se alguma das cinco almas caridosas que ler este post souber, mande-me o link please ) e, assim, apenas escrevo sobre o que sei do que se passou.
E o que sei, ou julgo saber, é que o Papa não procurou criar qualquer polémica. A citação tão discutida ("Mostra-me que de novo nos trouxe Maomé. Não encontrarás outras coisas que não maldade e desumanidade, como a sua ordem de defesa da Fé através da Espada", palavras de Manuel II Palaialogos , imperador bizantino, a um sábio persa em 1391), quanto a mim, não pretendia ser polémica. Querendo ser benévolo, concederei que o Papa foi ingénuo nesta parte do discurso - o que não abona em seu favor, porque o detentor de um cargo de tão alta responsabilidade não se pode dar ao luxo de ser, ou pretender ser, ingénuo. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser significativo que como bem afirmou o Max no seu post "alguém pediu mais uma acendalha?", «pela primeira vez na contemporaneidade católica, se assiste a uma lógica "nós" versus "vocês" sem pudor». 
Não penso que Bento XVI tenha querido afirmar qualquer superioridade da fé católica em relação às restantes e em especial em relação à islâmica.  Mas concordo com o Max na medida em que o Papa quis, isso sim, de forma mais implícita que explícita, afirmar diferenças entre fés - "separar águas", se assim se quiser - e ao mesmo tempo em relação ao seu antecessor no cargo, João Paulo II, "o grande ecumenizador ".  E essa separação, nos tempos que correm, não sendo perigosa  per se (embora possa como tal ser qualificada qualquer declaração papal que, como parece já ser o caso desta, leve à morte de pessoas...), não deixa de prenunciar perigos futuros...
Mantenho, por isso, a minha "nostradâmica profecia" quanto ao fim anunciado do Igreja Católica e quanto ao autor do seu epitáfio - Bento XVI. Só espero que tal fim não surja por meio de uma incontrolável espiral de violência, como as exacerbadas reacções ao discurso papal (paralelos com a recente questão dos cartoons não são seguramente coincidência...) pela primeira vez me fazem recear...
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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2006

A Igreja moribunda?

Vem hoje na capa do Público, não sei se de outros jornais também, um destaque para uma reunião do Papa com os alunos de Teologia da universidade onde costumava dar aulas, onde se irá discutir a teoria da evolução, e especulando se o Papa se prepara para aceitar o criacionismo ou, até, pura e simplesmente rejeitar o evolucionismo. Espero sinceramente que neste caso exista fumo sem fogo. Se se confirmar, é demasiado mau, demasiado ridículo, deixa-me demasiado perplexo para conseguir encontrar as palavras para o qualificar.
Reitero apenas e desde já a conclusão a que cheguei com a minha mulher quando o sucessor de João Paulo II foi escolhido: a Igreja morreu. Se se confirmar a especulação, estará escrita a sua certidão de óbito.
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O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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