Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006

Resolver o atoleiro do Iraque - dos bons e maus xadrezistas

Após a derrota nas eleições intercalares, o governo Bush e o seu correligionário Blair parecem ter percebido finalmente aquilo que desde sempre esteve à frente dos seus olhos: que o problema do Iraque - que foi por ele criado - não pode ser resolvido olhando apenas para o próprio Iraque, como se ele estivesse isolado do resto da região, como se não houvesse interacções óbvias entre os vários actores geoestratégicos do xadrez do Médio Oriente.
Propõem-se agora, em gestos de suposta magnanimidade, propor à Síria e ao Irão uma participação no futuro do Iraque - como se, agindo como até agora, elas não estivessem já a desempenhar tal papel... Mas isto os Estados Unidos e o Reino Unido sabem-no; trata-se, portanto, de chamar estes dois actores ao palco certo, ou seja, a uma actuação conforme aos planos de Washington para a região.
No Público de ontem faz-se uma tentativa de análise do que poderá estar em cima da mesa, num ainda putativo diálogo diplomático entre Washington e Londres, de um lado, e Damasco e Teerão, do outro:

"O preço que Teerão e Damasco pediriam em troca da ajuda no Iraque seria muito alto, concordam vários analistas. Aparentemente, os dois países querem negociações genuínas e não limitadas a determinados temas. E exigem debater a questão israelo-palestiniana para obter uma "paz justa".
Isto parece-me lógico. Não é expectável obter qualquer concessão se não se negociar seriamente, e isso implica que não haja dossiers não negociáveis.

"A Síria, pelo seu lado, ambiciona recuperar a sua influência no Líbano, negociar a devolução dos Montes Golã, conquistados e anexados por Israel. Estará também interessada num compromisso quanto ao tribunal que julgará os suspeitos da morte do antigo primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri. O processo deve incluir responsáveis de Damasco e libaneses aliados do Presidente sírio, Bashar al-Assad, que nega envolvimento."
Penso que uma negociação franca das duas partes deveria obter como resultado uma ajuda síria em troca da devolução dos Montes Golã, já que um compromisso em torno da questão Hariri seria moralmente nefasto para o Ocidente. Tendo dito isto, estou convencido de que os ditames da realpolitik levarão a que se recuse negociar a devolução dos Montes Golã - que a Síria legitimamente reclama a Israel, mas que este país por intermédio do seu grande amigo americano nunca aceitará - e se aceite um compromisso espúrio em torno do futuro julgamento dos supostos envolvidos na morte de Hariri. E os americanos têm experiência em julgamentos politicamente enviesados...

"O Irão, por seu turno, não deverá contentar-se com menos do que uma normalização das relações com os Estados Unidos - uma reversão completa do antagonismo actual - e o direito de prosseguir o seu programa nuclear."
Aqui, penso que a normalização das relações diplomáticas com Washington - e por arrasto com os restantes países ocidentais - é algo de perfeitamente razoável e a utilizar sem dúvida como moeda de troca. Duvido no entanto que tal seja suficiente para que Teerão (cujo poder de influência é grande, por oposição ao limitado papel que a Síria, mesmo que o queira, poderá desempenhar)  venha a ter um papel preponderante na estabilização do Iraque tal como a desejam os Estados Unidos.
Como não me parece que seja viável um acordo quanto à pedra de toque, o dossier nuclear - de que Teerão só muito dificilmente, sob pressões que o Ocidente não está em condições de colocar, abdicará - veremos apenas um papel limitado do Irão no refreamento dos amigos xiitas iraquianos. Porque é óbvio que, com os xiitas no poder e de rédeas razoavalmente livres (tendo Teerão as mãos nessas rédeas para casos de emergência), o Irão ganha um inestimável aliado na região e estende mais o seu poder e o seu peso político-diplomático.
É isto que neste momento me parece inevitável e constitui certamente um quebra-cabeças a fazer lembrar aqueles problemas de xadrez que aparecem em certos jornais, o qual os diplomatas americanos quase certamente não saberão ou não conseguiram resolver... Também nisto, neste "pensar muito  à frente", Bush, enquanto presidente da mais poderosa nação do mundo - e qualquer um nessa posição tem de ser um excelente jogador de xadrez político, e qual Kasparov saber antecipar o movimento do adversário várias jogadas à frente - também nisto, repito, Bush devia ter pensado quando, 5 jogadas atrás no tabuleiro do Médio Oriente, avançou os seus peões sobre o adversário...
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