Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Vive la France

De forma negramente simbólica do que realmente significa a conjugação destes Jogos Olímpicos com a questão tibetana, a chama olímpica chegou a ser apagada à sua passagem por Paris. Tinha que ser em França...

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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

O PCP e o Tibete: a minha resposta à resposta de Bernardino Soares

  Caro Bernardino Soares

(espero que não estranhes o tutoiement, é a minha norma blogosférica, bem como penso ser a norma comunista)

Obrigado antes de mais pela resposta, que sinceramente não esperava.

Muito folgo que, pelo menos, o PCP manifeste o seu pesar pelas vítimas e apele ao fim da violência e a uma resolução pacífica da questão.

Não sou no entanto ingénuo ao ponto de pensar que não existe manipulação da informação veiculada. Eu frisei isso na minha carta: sei que ela existe, e que existe dos dois lados (na tua resposta só referes a manipulação "ocidental"); tal como sei - porque isso também passou nos media ocidentais - que os protestos iniciais por parte de tibetanos assumiram também contornos violentos. Não estou como é óbvio de acordo com qualquer tipo de violência, possa ela ser justificada ou não, e julgo que o que escrevi antes deixa claro este meu ponto de vista.

Não compreendo no entanto as aspas relativas à "ocupação chinesa há mais de 50 anos". É um facto que a China ocupou o Tibete há cerca de 50 anos. Ou o facto de haver militares chineses e orgãos de soberania chineses, contra a manifesta vontade dos Tibetanos, não é ocupação? E se é verdade que durante a maior parte da sua história o Tibete não foi independente, é igualmente um facto que o foi (pelo menos de facto) no período imediatamente anterior à ocupação chinesa.

O que está em causa, de resto, nem sequer é a questão da independência, pelo que nem sequer faz grande sentido levantá-la. Como bem dizes, os próprios Tibetanos não se opõem à soberania chinesa; opõem-se isso sim à sistemática aniquilação da sua cultura. O que está em causa é o princípio da auto-determinação, tal como o Dalai Lama repetidamente insiste (embora raramente seja ouvido neste aspecto), princípio que aliás está inscrito na Carta das Nações Unidas. Este não equivale necessariamente a independência, apenas, como é aqui o caso, do direito de cada povo a decidir de si próprio - e o Tibete não se importa de ser chinês, desde que isso permita a livre expressão da sua cultura e religião (que também não é tolerada pela China).

Quanto às tuas alegações em relação a feudalismos e formas de escravatura, não deixas de ter razão: são sistemas contrários aos Direitos Humanos. A sua abolição, porém, pode ser efectuada de múltiplas formas, e não exlusivamente pela força da bota chinesa. De resto, este é uma linha argumentativa perigosa: sob ela alicerçaram os Estados Unidos a sua invasão do Iraque, por exemplo, à qual (e bem) o PCP se opôs.

Alegro-me pelo facto de te teres dado ao trabalho de visitar o meu blog. Espero que talvez o visites novamente (não é preciso concordar com um blog para o ler), e até quem sabe deixar comentários, que seráo sempre bem vindos, concordantes ou não comigo. Quanto à questão do Kosovo, é outro assunto em que discordo com a linha adoptada pelo PCP (mais uma vez as antigas fidelidades a ditarem as suas regras...). O meu ponto de honra é a auto-determinação dos povos, não necessariamente dos países. A inviolabilidade das suas fronteiras deve ser sempre que possível adoptada como ponto de partida para a resolução de questões de auto-determinação (casos na Europa não faltam), mas quando tal não é possível há que avançar para alternativas. No Kosovo é patente que seria impossível a manutenção das fronteiras sérvias, com interferências externas, é certo, mas a partir do momento em que sucederam não se pode retirá-las de cena.

A minha nota final é para o teu argumento de que "é evidente que o apoio a movimentos separatistas por parte de potências ocidentais, é um reflexo do avanço de pretensões de ingerência directa e indirecta no território da China.". Elas existem, como é óbvio - não sou ingénuo como te parece decorrer da minha carta - mas também existem por parte da China, por exemplo no Sudão. Chama-se realpolitik. Não gosto dela, seja por parte de quem for - Estados Unidos, China, Rússia, UE - mas existe. Dos dois lados, como tudo nesta questão (em todas as questões).


                Cumprimentos,


                       António Rufino
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O PCP e o Tibete: resposta de Bernardino Soares ao meu mail

O líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, respondeu - e em pessoa, sem recurso a gabinetes ou secretários, o que muito me lisonjeia - ao mail que enviei em relação à posição comunista face à violência no Tibete:

"Caro António Rufino

 

Com todo o respeito pelas opiniões expressas sobre a posição do PCP em relação ao voto sobre os acontecimentos no Tibete, não posso estar de acordo com elas.

 

Penso mesmo que são injustas em relação ao que realmente é a posição do PCP. Envio por isso a intervenção proferida por ocasião desse debate.

 

Desde logo em relação à questão dos Direitos Humanos nela se afirma clara e inequivocamente: “Não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas, o seu desejo de que os conflitos tenham uma resolução rápida e pacífica, bem como os seus princípios de defesa da democracia e dos direitos humanos.”.

 

Mas independentemente disso é impossível, ou pelo menos de uma grande ingenuidade, não compreender todo o alcance do que se está a passar.

 

Dizer que há deturpação de informações, como no caso das imagens sistematicamente difundidas como sendo no Tibete, de cargas policiais que afinal eram no Nepal, ou no constante esquecimento de que os protestos na origem dos acontecimentos também foram violentos, não significa negar que existem situações para as quais entendemos dever haver uma solução pacífica, como afirma a nossa intervenção.

 

E não pode significar qualquer dúvida de que o PCP não abdica dos seus princípios de defesa da democracia e liberdade, de que são testemunhos eloquentes a nossa história, o nosso programa e a nossa actividade política diária. São esses que nos responsabilizam. É por esses que respondemos e não por quaisquer outros.

 

Chamo também a atenção para as deturpações históricas sistematicamente feitas sobre a história do Tibete, pense-se o que se pense sobre a sua situação actual ou sobre a China. É o caso das referências à “ocupação chinesa de há mais de 50 anos”, tese sistematicamente repetida e que não tem adesão à realidade. Para além de não se conhecerem quaisquer questionamentos formais à integração da região do Tibete na China, nem sequer das potências que visivelmente ao longo dos anos têm apoiado e até armado movimentos separatistas, a verdade é que o Tibete é uma das regiões da China, com maior ou menor autonomia, desde há 700 anos. O próprio Dalai-Lama não defende a independência do Tibete. Mesmo no período após a revolução popular chinesa essa integração não foi questionada, até pelo próprio Dalai-Lama, que aliás integrou a primeira Assembleia Nacional Popular da China e teve funções de governação no Tibete nesse período.

 

Seria interessante aliás analisar as razões para a divisão que entretanto aconteceu por parte da nobreza e de dirigentes religiosos tibetanos, e a sua ligação com as iniciativas de abolição da servidão e da escravatura vigentes até a essa data naquela região, bem como de um acesso mais justo à terra e aos meios de subsistência.

 

Uma nota final para a questão do respeito pela soberania dos países e dos povos e pelo direito internacional. É que esse princípio está crescentemente ameaçado nos tempos que correm, como bem se verifica na questão do Kosovo (em que verifico que assume no seu blogue como natural o reconhecimento por Portugal da independência deste território), e do Iraque, entre outras. No caso concreto essa é também uma realidade relevante, porque é evidente que o apoio a movimentos separatistas por parte de potências ocidentais, é um reflexo do avanço de pretensões de ingerência directa e indirecta no território da China.

 

Espero com isto ter contribuído para uma melhor compreensão da nossa posição em relação ao voto apresentado.

 

Cumprimentos,

 

Bernardino Soares"

 

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Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Mail por mim enviado ao PCP em relação à questão do Tibete

Assunto: Carta de repúdio de um militante à posição do PCP na questão do Tibete


Camaradas,

No final da semana passada, foi votado na Assembleia da República um voto de protesto contra a recente irrupção de violência no Tibete, ao qual o PC foi o único partido a opor-se. Escrevo-vos para vos manifestar a minha veemente discordância e o meu repúdio face à vossa posição.
Independentemente de justificações, espúrias ou não, independentemente de alegados ataques à realização dos Jogos Olímpicos, de teorias da conspiração, de campanhas de desinformação (as quais, camaradas, podem ser alegadas pelos dois campos), o que está em causa é a coragem de assumir a defesa de uma posição mesmo que incómoda, mesmo que contrária a afinidades de outra índole. O que está em causa é não se refugiar em teorias da conspiração para não ter de se assumir algo incómodo: que possíveis afinidades ideológicas ou amizades políticas não podem sobrepor-se, nunca, aos mais básicos e absolutos dos direitos - os Direitos Humanos.
São estes os Direitos que devem valer, e estes, quaisquer que sejam os olhos com que se vejam (desde que se queira ver), foram - e são continuadamente desde a ocupação chinesa há mais de 50 anos - barbaramente violados no Tibete.
Do meu ponto de vista, camaradas, perderam toda a legitimidade moral para protestar e opor-se a tantos casos de ilegais invasões de países terceiros, grosseiras violações do Direito Internacional e violações dos Direitos Humanos por esse mundo fora. A questão do Tibete é-me demasiado clara para poder deixar passar em branco mais esta vossa agressão (não, não é a primeira...) àquilo em que mais profundamente acredito.

Camaradas, perderam com este acto o meu afecto e a minha militância. O meu cartão de militante do PCP, nº 36402, que com orgulho ostentava na minha carteira, foi colocado na gaveta. A minha militância também.
Hei-de continuar a chamar-me, a considerar-me, comunista, pois isso tem a ver com aquilo em que se acredita, e não com a pertença a um grupo ou partido. Hei-de ser para sempre comunista. Não posso, neste momento, continuar a ser e a considerar-me membro do PC.

          Cumprimentos,
      
                António Rufino

PS - Esta carta será também colocada no meu blog, altermundo.blogs.sapo.pt, como parte da minha manifestação de repúdio.
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Tibete ainda menos livre

Ponto prévio: como os mais atentos da meia dúzia de irredutíveis gauleses que a espaços vai povoando esta aldeia já deve ter reparado pela seriação de links da coluna direita, o Tibete é uma das minhas causes célèbres. É-o por vários motivos, que resumidamente poderei caracterizar como a minha indignação pelo destino de um povo e uma nação com uma história tão antiga como a própria China e com uma cultura igualmente rica e com alguns princípios que me são particularmente caros.
Sendo uma minha cause célèbre, nem por isso deixei de ser suficientemente realista para a considerar uma causa mais ou menos perdida. A China, fazendo jus ao epíteto "paciência de chinês", vai paulatinamente "destibetanizando" o próprio Tibete, onde na capital Lhasa já pouco resta da cultura autóctone e tudo foi substituído por objectos, edifícios, práticas "tipicamente chineses".
Considero o Tibete como território um caso perdido, mas sempre mantive uma esperança infundamentada, alumiada por algumas declarações ocasionais do Dalai Lama, em como o território onde a Índia vai permitindo a cerca de 120.000 tibetanos a quem deu asilo viver e até constituir um governo pudesse um dia servir de base a um qualquer tipo de autonomia mais alargada, a um qualquer tipo de autodeterminação.
Todas estas vãs esperanças vão no entanto caindo por terra quando se lê coisas como a que retirei da notícia de ontem relativa à visita de estado de Hu Jintao à Índia:

"A forte relação comercial desenvolvida mais recentemente - o comércio bilateral aumentou de 260 milhões para quase 20 mil milhões em 16 anos - abre espaço a uma aproximação política, considera a BBC (...) A Índia continua a dar asilo a cerca de 120 mil tibetanos incluindo o Governo no exílio e o líder espiritual, Dalai Lama. Mas reconhece desde 2003 o Tibete como parte da China, e nesta visita reiterou uma promessa antiga de não permitir no seu território actividades políticas hostis contra a China."

Uma etapa mais na longa e dolorosa queda em desgraça do povo tibetano...
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um discurso de Abraracourcix às 10:07
link do discurso | comentar - que alegre boa ideia!


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por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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