Domingo, 13 de Julho de 2008

Não às detenções secretas

Apelo da Amnistia Internacional a Nicolas Sarkozy, enquanto presidente em exercício da União Europeia, para uma condenação à política de "rendição" americana. Podem assinar e enviar o apelo online. Este é o texto:

 

Dear President Sarkozy,                                                       
 

 

In view of France's Presidency of the European Union, I urge you to lead the EU Council to publicly condemn rendition and secret detention as unlawful. I am deeply concerned that the recommendations of the European Parliament and the Council of Europe made after investigations into Europe's role in rendition and secret detention have not been implemented. I further call on you to:

- Ensure that Members States establish independent parliamentary and/or judicial inquiries into allegations of co-operation in rendition and secret detention;
- Promote clear and binding safeguards against the use of the airspace or airports of EU Member States for the purposes of unlawful detention and rendition.

Respectfully,
 
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Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

O inanismo português em relação ao reconhecimento da independência do Kosovo

Até à data, 12 países da União Europeia já reconheceram formalmente a independência do Kosovo, incluindo os "quatro grandes",  França, Reino Unido, Alemanha e Itália.
Apenas 4 se recusam a reconhecê-la: Chipre, Roménia, Eslováquia e Espanha, todos por motivos óbvios ou claramente enunciados.
Dos restantes países, todos se encontram num de dois grupos: os que já desencadearam os processos de reconhecimento e os que ainda não o fizeram por terem dúvidas em relação a vários pontos, também aqui sempre claramente enunciados.
Todos os países têm portanto uma posição clara em relação ao reconhecimento do Kosovo; todos, à excepção de um: Portugal. O nosso Governo é o único sem uma posição clara pró ou contra a independência, sem que faça saber quando (ou se) irá efectivar o reconhecimento do Kosovo e quais os motivos para o timing (ou para a ausência dele) da decisão.
Isto deixa-me perplexo, porque não há nenhum motivo óbvio para Portugal ter dúvidas em relação ao reconhecimento. Neste tipo de situações, normalmente os nossos Governos optam por não fazer ondas e seguir a maioria, o que faria com que já tivéssemos se não formalmente reconhecido, pelo menos desencadeado o processo ou anunciado quando o iríamos fazer. Ora isso não aconteceu, tal como não aconteceu o inverso - o anúncio do não reconhecimento para já, o que seria aliás incompreensível. No entanto, mais incompreensível ainda é a não-posição portuguesa, o inanismo total, pois não vislumbro qualquer razão válida.
Os únicos argumentos que me ocorreram foram a vizinhança com Espanha e as nossas tropas no Kosovo. Será que o Governo não quer "ofender" o nosso grande hermano? Estará à espera das eleições espanholas, para não prejudicar a renhida disputa de Zapatero? Se for o caso, é de uma subserviência absolutamente indigente - mas da lusa política isto não seria de admirar. Ou será que o Governo tem medo de alguma represália contra os militares portugueses ainda no Kosovo? Isto não faz quanto a mim sentido: os grandes países de UE têm muito mais militares que nós e com uma presença muito mais visível, e nem por isso hesitaram no reconhecimento.
Seja como for, dá-se uma curiosa coincidência de datas: o último contigente português deixará o Kosovo a 7 de Março, sexta-feira; a 9, são as eleições legislativas em Espanha. Se estes meus argumentos (que não subscrevo, muito pelo contrário) fizerem algum sentido, prevejo que a 10 de Março seremos o 13º país da UE a reconhecer o Kosovo...
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Por que Sócrates não podia ter optado pelo referendo ao Tratado de Lisboa

Já escrevi algures numa caixa de comentários de um blog irredutível qualquer que a opção entre referendo e ratificação parlamentar do Tratado de Lisboa era uma falsa opção.
A partir do momento em que Sócrates acordou, explícita ou tacitamente, com os restantes chefes de Estado da União Europeia em como o Tratado seria ratificado sempre que possível nos parlamentos nacionais, a partir desse momento, dizia - ainda para mais porque era Sócrates quem presidia às negociações - a escolha estava feita.
Não compreendo por isso as razões que levaram Sócrates a alimentar durante meses este tabu. Menos compreendo por que motivo, justamente quando já se adivinhava o iminente anúncio da ratificação parlamentar e todos estavam a ela resignados, começaram a aparecer notícias de que a balança pendia para a opção referendária.
Foram precisos telefonemas de Merkel, Sarkozy e outros, sem dúvidas dolorosos "puxões de orelhas" ao nosso primeiro-ministro, para que este se decidisse enfim a anunciar a ratificação pelo Parlamento.
Coloco três hipóteses para o que se tornou numa trapalhada de todo evitável:
- ou Sócrates genuinamente preferia o referendo e hesitou entre seguir o seu instinto e cumprir o acordado aquando da finalização do Tratado;
- ou havia sectores do PS e do Governo que pressionaram Sócrates a tal ponto que este começou a vacilar;
- ou, por último, ciente de que não tinha outra opção que não quebrar mais uma promessa eleitoral, orquestrou com a sua equipa uma "cortina de fumo", em que passaria por preferir o referendo mas, falsamente contrariado, acabar por escolher o inevitável, a ratificação parlamentar.
Não sei se por cinismo ou realismo, aposto nesta última explicação. Assim, o ar contrito de Sócrates ao ler na Assembleia da República o discurso que tinha escrito (e eu nunca o tinha visto a ler, sempre o vi a falar sem recurso a papéis!), como que um Calimero a dizer "eu queria o referendo, mas sabem, não me deixam...non è giusto...", terá sido apenas uma performance político-teatral digna de nomeação para Oscares!...
Mas cada um escolha a explicação que lhe parecer mais plausível...
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Sexta-feira, 30 de Março de 2007

A semana em cartoons: Europa quo vadis, paz à la Irlanda do Norte, arca de Noé do aquecimento global

Este é absolutamente certeiro em relação à crise de valores europeia:

Patrick Chappatte, Le Temps (Suiça)



E este em relação à paz desconfiada entre protestantes e católicos no Ulster:



Rainer Hachfeld, Neues Deutschland (Alemanha)



E mais este, um exercício de imaginação da nova arca de Noé, na era do aquecimento global:


Michael Kountouris (Grécia)
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

O Vaticano ainda percebe de política

Continuando a senda de notícias perfeitamente expectáveis, o Papa pronunciou-se ontem na Turquia a favor da integração deste país na União Europeia, inflectindo a sua posição pessoal de quando ainda se chamava Ratzinger.
Apesar de afirmar que esta é uma visita pastoral, e não política, ninguém acredita que a verdadeira motivação é bem política e prende-se com a necessidade de pacificação da turba islâmica, sinal de que a violenta polémica quando do tristemente famoso discurso de Ratisbona tocou num qualquer nervo do Vaticano.
Para essa pacificação acontecer, tudo tem de acontecer rigorosamente como planeado - de acordo com os exactos detalhes naturalmente combinados a priori pelas duas diplomacias - o que não tenho dúvidas que vai acontecer, e afirmações como esta do Papa favorável a uma Turquia europeia têm de ser proferidas.
Noto no entanto que tal não significa que Bento XVI tenha mudado a sua opinião pessoal: a afirmação não foi feita pessoalmente, tendo o Papa apenas anuído no "diz que disse" do primeiro-ministro turco em como o primeiro revelou querer a Turquia na UE. Não tendo mudado de opinião, no entanto, rendeu-se aos ditames da realpolitik, sinal de que algo mexe, ainda, para os lados da Catedral de S. Pedro...
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

O Papa, a Turquia e a União Europeia

Vem no Público de hoje:

"Numa entrevista à agência de notícias turca Anatolia, a partir de Roma, o porta-voz do Vaticano esclareceu que o Vaticano não é contra a entrada da Turquia na União Europeia. "Se a Turquia cumprir as suas obrigações e os requisitos europeus, por que não haveria de tornar-se um membro da UE?", disse Federico Lombardi sobre esta questão, depois de Bento XVI ter dito em 2004, antes do início do pontificado que seria "uma grande erro englobar a Turquia na União Europeia" porque "historicamente e culturalmente" tinha "pouco a partilhar com a Europa"."

Pergunto eu: alguém lhe perguntou a opinião, agora ou em 2004? O Vaticano, embora para muitos efeitos associado politicamente a Itália, não é um Estado-membro da União Europeia e não tem, portanto, voto na matéria.
Uma das coisas que mais me indigna na postura diplomática do Vaticano é esta "mania" de darem opiniões sobre assuntos que não lhes dizem respeito, para desta forma tentarem condicionar terceiros segundo a agenda que mais lhe convém.
E o actual Papa, esse Maquiavel de mitra, não se incomoda minimamente em fazê-lo, mesmo que tenha de dizer algo e o seu contrário - a respeito da polémica citação do discurso, em que dizia que «Maomé apenas tinha trazido "coisas más e desumanas"», e depois dizendo calmamente (como se alguém acreditasse) que ela não correspondia à sua opinião pessoal; e agora acerca da entrada da Turquia, primeiro "contra", agora "a favor" para tentar apaziguar a efervescente opinião pública turca - de novo, como se alguém acreditasse que esta posição é motivada por algo mais que mero tacticismo político barato e de consumo rápido...
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

União Europeia: uma fundamental pausa kit-kat

Vem no Público de hoje, e ao ler o título "Durão Barroso defende pausa no alargamento da UE"  tremi, receando mais uma idiotice do geneticamente cretino "cherne fugidio". Ao ler a notícia, no entanto, sou forçado a concordar.
Citando o artigo, Durão Barroso diz apenas aquilo que eu penso há muito tempo, defendendo que a UE "deverá suspender a entrada de novos membros até à resolução do actual impasse institucional. "Enquanto presidente da Comissão, considero imprudente admitir novos Estados, além da Bulgária e Roménia, antes de a questão institucional estar resolvida", afirmou Barroso, durante uma conferência de imprensa com o primeiro ministro francês, Dominique de Villepin . (...) Barroso deixou no entanto claro que há limites para a capacidade da UE de admitir novos membros com o actual modelo institucional, que, segundo a convicção generalizada entre os responsáveis europeus, rebentará pelas costuras com Vinte e Sete Estados a partir de Janeiro. "Não podemos acolher novos Estados membros sem uma reforma prévia das instituições", insistiu"
Continuo a achar que a última vaga de adesão à UE foi um erro crasso. Admitir cinco países Rep . Checa, Eslováquia, Hungria, Polónia, Eslovénia), como estava definido previamente, já era um sério desafio à capacidade de absorção de uma União sem instituições à altura de uma Europa a Vinte. Sempre foi minha convicção que absorver cinco países vindos do antigo espaço de influência comunista, com todos os problemas decorrentes de uma transição abrupta para uma economia radical de mercado, iria demorar longos anos, mais que em todos os alargamentos anteriores incluindo o "nosso", quando foi necessário integrar três países pobres - na altura - em pouco tempo, Portugal ,Espanha e Grécia), porque os problemas a resolver eram de índole estrutural. O alargamento a dez países em lugar de cinco apanhou-me totalmente de surpresa, e desde logo pensei  - para além de demorar ainda mais tempo a absorver - que era um erro de sérias consequências - que de resto ainda agora começamos a ver...
A reestruturação institucional da UE já há muito tempo que era, mais que uma necessidade, uma urgência. Com uma Europa a Vinte e Cinco ainda o é mais, por isso não posso deixar de concordar com o alerta de Durão Barroso. Até os chernes às vezes dizem coisas acertadas...
Claro que o problema de como será feita a reestruturação, se através da propagada Constituição Europeia, ou de uma diferente, é uma questão totalmente diferente, e que por si só merece um grande e estruturado post ... Quando foi redigida a dita Constituição, achei que não resolvia nada de fundamental. Fiquei de algum modo contente com a rejeição a que foi sujeita porque é uma janela de oportunidade para resolver alguns dos seus problemas - embora pense que já se perdeu demasiado tempo de simples imobilidade, e esteja convencido que não temos actualmente líderes à altura do desafio.
Voltando à questão fundamental: já é tempo de reestruturar, de uma vez por todas, a arquitectura institucional da UE!
(apelo lírico e destinado a cair em saco roto:) Uma nova e radicalmente diferente constituição, já!
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

Da pertinência da adesão da Turquia à UE

É hoje também notícia - e o Max como de costume está em cima do acontecimento e já se pronunciou - a absolvição de Elif Shafak , escritora turca, do crime de "ataque à identidade turca", crime previsto na própria Constituição turca. No caso, Elif Shafak escreveu um livro (The Bastard of Istambul em inglês) em que fala e critica abertamente o genocídio da população arménia no início do século passado na Turquia.
Segundo os cálculos mais fidedignos, pereceram cerca de 1 milhão de arménios, em actos que claramente configuram um genocídio mas que a Turquia furiosamente sempre se negou a reconhecer - uma das utilidades principais da inconstitucionalidade dos "ataques à identidade turca" é precisamente esta...
Para além dos factos propriamente ditos, e de obviamente me congratular com a absolvição de um mero acto de liberdade de expressão, o que me merece aqui reflexão é o facto de, como é habitual sempre que estes casos se passam na Turquia, a absolvição só ter ocorrido sob intensa pressão ocidental para que tal acontecesse.
Isto só reforça os meus argumentos a favor da adesão turca à União Europeia: se, no actual status quo, a Turquia já é permeável a pressões públicas para que respeite "ocidentalmente" a liberdade de expressão, no seio da UE tal permeabilidade - e até influência tendente a mudar tal mentalidade - será naturalmente maior, ou seja, mais facilmente levará a Turquia a "ocidentalizar" a sua forma de pensar.
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

Fortaleza Europa de portas rombas

Eis um assunto que é geralmente esquecido, ou que se prefere esquecer: as sucessivas vagas de imigrantes subsarianos que, através do território de Marrocos ou da Líbia, tentam desesperadamente atingir solo europeu.
Vem hoje na primeira página do Público (não deixo link porque o acesso é pago): 16 mil imigrantes ilegais já chegaram este ano às ilhas Canárias, batendo de longe o anterior recorde. Se a este quase fait divers juntarmos as notícias velhas de alguns meses sobre a desesperada carga colectiva sobre as vedações que separam Marrocos de Ceuta e os pequenos apontamentos que por vezes surgem sobre as prisões (também conhecidas como "centros de acolhimento") para ilegais na italiana Lampedusa, temos mais do que factos isolados, como à força tentamos pensar.
Mais do que discutir o problema em si, interessa-me mais - desde que há um ano ou dois li uma lancinante reportagem de Paulo Moura na revista dominical do Público - a dimensão humana do drama. Paulo Moura é um repórter cujos trabalhos leio avidamente, desde que há largos anos deparei com uma série de reportagens sobre o País Basco e a convivência com a ETA, tão boas que, coisa que nunca faço, me dei ao trabalho de fixar o nome do autor. Desde aí procuro sempre nas reportagens do Público ou da sua revista o seu nome, pois sei que a sua leitura me fará embarcar numa vertigem indizível. Paulo Moura foi depois enviado especial na guerra do Iraque - e quem conhece o seu estilo algo sui generis de escrita saberá que essas suas reportagens são simplesmente imperdível. Depois disso, nunca mais vi o seu nome no meu jornal de eleição, até que algum tempo depois surgiu a tal grande reportagem sobre imigrantes ilegais nas florestas marroquinas, e eu percebi o que o tinha mantido ocupado durante todo esse tempo.
Soube agora que Paulo Moura escreveu um livro sobre essa experiência. Mesmo sem ler qualquer excerto, não tenho dúvidas em recomendá-lo, e comprá-lo-ei assim que possível. "Passaporte para o Céu", de Paulo Moura, pela Dom Quixote, € 14,85 segundo o site da fnac. Não percam. Como aperitivo, deixo-vos uma crónica deste senhor repórter que descobri no Memória Inventada (uma agradável descoberta):

Também Sou um Ilegal

Sou um ilegal. Por exemplo (e isto é uma confissão que faço publicamente pela primeira vez): numa escaldante noite de Agosto, peguei na moto, a minha saudosa Honda VFR 800 FI, e fui de Lisboa ao Porto a 280 km/h. Nem os radares me detectaram. (...)

Magdalene, uma menina de 16 anos, não tinha dinheiro para pagar, aos mafiosos como Karim, a travessia do Estreito e estava a morrer de febre tifóide numa floresta dos arredores de Ceuta. Como era muito boa aluna na Nigéria, acreditava que, mal chegasse à Espanha, teria uma bolsa do Governo para prosseguir os estudos. Quando lhe perguntei porque teria essa sorte, quando todas as outras nigerianas são obrigadas a prostituir-se, deu-me a resposta mais inteligente que eu ouvi em toda a minha carreira de jornalista: "Porque o meu Deus te vai usar a ti para me ajudar".
Eu decidi escondê-la na mala do carro, trazê-la para Portugal e tratar dela. Fui à fronteira investigar as probabilidades de sermos revistados e apanhados, congeminei planos e estratégias, mas decidi não a trazer. Abandonei a Magdalene.

O chefe da floresta, um nigeriano alto com ar de cowboy a quem chamavam o "Americano", fez-me prometer-lhe outro tipo de ajuda. Regressou à Nigéria e pediu-me por email que entregasse na embaixada uma carta de recomendação com um termo de responsabilidade e um convite para visitar Portugal.
O "Americano" era um homem inteligentíssimo que, se tivesse realmente nascido nos EUA, seria um prestigiado professor ou advogado.
Como nasceu na Nigéria, era o chefe da Mafia.
Num outro email, mandou-me fotografias de duas estatuetas africanas do século XII A.C saqueadas num museu. Explicava que pertenciam à sua família e pedia-me que lhe encontrasse comprador. Seria o início da sua vida de homem de negócios em Portugal.
Pensei numa das tiradas Michel Houellebec: nós não odiamos os imigrantes por os considerarmos inferiores. Tememo-los porque achamos que são melhores do que nós.
E menti: escrevi ao embaixador português dizendo que o sr. M. Era um homem de bem e que vinha passar férias a minha casa. Se o plano do "Americano" para obter um visto resultou, cuidado: ele está aí a chegar!

Ao contrário de Magdalene, Aimee conseguiu atravessar. Mal desembarcou em Algeciras, a mafia enviou-a para Lisboa, onde se prostitui na praça do Intendente. Fui lá muitas vezes entrevistá-la, no âmbito dos meus trabalhos sobre imigração. Tornei-me amigo dela e das outras jovens nigerianas. Um dia, soube que ia haver uma grande rusga da Polícia e telefonei a avisá-las. "Aimee, fujam daí rapidamente, a Polícia vai prender todos os ilegais". Salvei-as.
Foi um dos dias mais felizes de que me lembro, confesso-o publicamente pela primeira vez.
Sou famoso no Intendente. Chego lá e um enchame de prostitutas negras corre a abraçar-se a mim: Paulô, Paulô! A Polícia pensa que sou um traficante disfarçado de chulo e deixa-me em paz.

Paulo Moura, Público, 2.4.06

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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004

Turquia na União Europeia: uma questão de horizontes?

Tem-se falado bastante nos últimos dias da Turquia como potencial candidata à entrada na União Europeia, a propósito de dois acontecimentos: por um lado, a proximidade da divulgação do relatório da Comissão Europeia que eventualmente fixará uma data para o início das negociações com vista à entrada da Turquia na UE; por outro, o anúncio de um projecto de lei turco, no âmbito da reforma do código penal em vigor no país, projecto esse que pretendia re-penalizar o adultério.
O que pretendo aqui deixar é tão-só a minha posição pessoal quanto à possível entrada da Turquia na UE, dado que aparentemente há bastante polémica a nível europeu quanto a tal entrada. Polémica essa que, quanto a mim, apenas demonstra a falta de horizontes de muitos políticos europeus. Mais que isso, demonstra, afinal, num tempo em que supostamente a política já superou os ditames da religião, que esses ditames estão mais subliminarmente incrustados no "pensamento europeu" do que se poderia considerar à primeira vista.
Para mim, a Turquia é Europa, e isso chega para fazer dela um potencial membro da UE. Mesmo que não fosse Europa, não seria nunca esse facto, por si só, a impedir a entrada de um país; a vocação da construção europeia não se esgotará neste nosso pequeno continente, e isso ver-se-á possivelmente quando países por exemplo do Magrebe (estou a pensar em Marrocos ou na Tunísia) estiverem, política e socialmente ao nosso nível - o que estou convencido que acontecerá mais cedo do que se julga...
Voltando ao caso turco, mesmo admitindo que só parte do país faz geograficamente parte da Europa, o que é contestável (pois a fronteira do continente mais comummente admitida faz precisamente da Turquia "terra de fronteira"), é incontestável que historicamente a Turquia sempre teve laços tão ou mais importantes com a Europa do que com a Ásia. Achei piada ao comentário de um comissário europeu que se opõe abertamente à adesão turca, quando disse que caso isso acontecesse, a resistência que impediu que Viena (e com ela toda a Europa Central) caísse frente ao Império Otomano teria sido em vão. Achei piada porque esse argumento abona precisamente em prol da minha posição: este tipo de comentário apenas reforça o argumento dos laços históricos da Turquia com a Europa. Para além da História e da Geografia, também culturalmente a Turquia é mais europeia do que se julga. Trata-se de um país relativamente moderno, onde as pessoas têm apreço pelo Ocidente, tanto apreço que é consensual entre os turcos a adesão à UE. Diria mesmo que é praticamente uma obsessão nacional por estes tempos, e não apenas uma ideia política entre outras.
Temos então até agora três argumentos a favor da possibilidade de adesão da Turquia: um histórico, outro geográfico e outro cultural. Quanto ao derradeiro argumento esgrimido pelos adversários da adesão turca, a religião, quase nem valia a pena comentar... Foi mais do que simbólica a tentativa de Giscard d'Estaing e outros em incluir no preâmbulo da futura Constituição Europeia uma referência ao Cristianismo: tal reforçaria a oposição de um país muçulmano numa União que dessa forma se poderia defender como sendo intrinsecamente católica. Felizmente, essa referência ao Cristianismo não avançou. Teria sido um erro crasso a vários níveis. Considero absolutamente ridícula a pretensão da UE de se definir como católica. Acho bem referir a vertente religiosa da História Europeia, pois ela foi importante, mas para se referir o Cristianismo tem-se, para já, de referir a vertente católica, a vertente protestante e a vertente ortodoxa, todas elas já hoje presentes no seio da UE. Tem-se obviamente também de referir o contributo do Judaísmo e, naturalmente, também do Islamismo (já para não falar das cada vez maiores minorias islâmicas em alguns países da UE - França, Reino Unido, Espanha, mesmo Portugal).
Ao longo da nossa história comum, e hoje ainda, estas três religiões foram importantes. Referir apenas parte de uma em detrimento de todas as outras seria uma forma de imperialismo religioso, ao nível do missionarismo do tempo dos Descobrimentos. Para além do contributo islâmico para a Europa tal como ela hoje é, e que naturalmente se veria acrescido com a adesão da Turquia, é para mim absolutamente óbvio - mas parece que não o é para todos - que a UE é uma instituição puramente política, e como tal laica. O princípio da separação dos poderes secular e religioso há muito está instituído em todos os Estados-membros e na UE como um todo, pelo que o argumento de que seria perigoso admitir um país muçulmano é absolutamente falacioso, apenas tentando em vão encapotar um certo fundamentalismo cristão, uma certa xenofobia. Não só acho que a religião não é argumento impeditivo da adesão turca, como acho mesmo que poderá abonar em seu favor: fala-se frequentemente que se pretende uma Europa rica na sua diversidade, autêntico caldeirão de culturas e vivências (com o que atrás escrevi, aliás, apenas quero dizer que a Europa sempre o foi), e a Turquia viria trazer uma diversidade e riqueza inauditas a esse nível.
Resta-me referir um argumento adicional, que tem a ver com geoestratégia. A Turquia, quer a consideremos europeia, oriental ou uma mistura dos dois, é a porta de entrada para o Médio Oriente. É um país enorme que tem grande influência sobre outros em seu redor: Líbano, Síria, o próprio Iraque... Trazer a Turquia para a UE contribuiria sem dúvida para "segurá-la" no grupo dos países ditos ocidentais (i.e., livres e democráticos), impedindo derivas autoritário-religiosas, ao mesmo tempo que poderia trazer uma influência muito positiva nos países da religião, incentivando-os a encetar reformas "democratizantes".
Não quero terminar sem deixar totalmente claro que, enquanto defensor da adesão da Turquia à UE, não advogo qualquer favorecimento deste país; o que digo é apenas que não há nada que "a priori" possa impedir a Turquia de ser candidata à adesão. Se o conseguir, terá de ser com os mesmos critérios que todos os outros: critérios políticos, económicos, sociais. Penso que neste momento, e apesar dos grandes esforços que a Turquia tem feito, muito resta ainda por fazer: estou a pensar, em primeiro lugar, na opressão do povo curdo, inadmissível num país que quer fazer parte do clube europeu. Mas a Turquia é um país muito grande, e reformas desta envergadura não podem ser feitas do dia para a noite. Estou completamente convencido que os Turcos, com todo o seu orgulho, fará absolutamente tudo o que for preciso para fazer parte da UE. Apenas precisa de tempo, por ventura mais tempo que outros países que querem ou que já aderiram à UE. Normalmente o processo de negociações com vista à entrada na UE demora cerca de dez anos. Se no caso da Turquia esses dez anos se tornarem quinze não será de todo escandaloso.
Estou convencido de que em 2020 vamos ter uma União Europeia com a Turquia. Mais ainda, estou convencido de que o futuro e a própria viabilidade da UE como projecto político depende em grande parte dessa adesão. Enquanto acérrimo defensor da abertura de negociações com a Turquia (e friso uma vez mais que abrir negociações não significa fixar uma data para a entrada; esta será fixada em função do progresso das reformas de que já falei), aproveito também para anunciar que, caso o relatório da União Europeia a divulgar proximamente não abra rumo às negociações para a entrada da Turquia, como forma pessoal de protesto irei votar "Não" no projectado referendo à Constituição Europeia.
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O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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