É este o título, provocador, de um artigo de opinião de Rui Ramos no Público de hoje, de que citarei partes:
"Foi há cinco anos, lembram-se? Fomos então todos americanos, ou pelo menos era assim que se dizia. No princípio do mês passado, em Londres, o slogan da manifestação anti-israelita era outro: We are all Hezbollah now . Estava lá, vi-os desfilar. Não eram os personagens barbudos ou velados que associamos à militância islâmica. Eram o resto persistente do radicalismo estudantil de 1968 (...) Eram os jovens profissionais da guerra à globalização (...)
...nos países ocidentais mais comprometidos na "guerra ao terror", esta transformou-se no principal pretexto de polémica e debate. No Reino Unido (...) é a política para o Médio Oriente que tem servido aos adversários de Blair , à esquerda e à direita, para o isolar e demolir. Até os conservadores passaram a criticar os EUA e Israel, logo que perceberam que era aí que estava o ponto fraco do Governo trabalhista.
Os conservadores britânicos, apesar de tudo, provaram que é possível criticar a Administração americana sem chegar ao "hoje somos todos do Hezbollah ". Por que é que a esquerda contestatária e revolucionária britânica passou essa linha? (...)
Na Grã-Bretanha, uma parte da extrema-esquerda parece tentada a servir-se dos militantes islâmicos como um sucedâneo para as massas revolucionárias que a sociedade ocidental deixou de produzir. Em Londres, nas últimas eleições legislativas, a coligação Respect , de George Galloway , explorou isso: graças ao lastro da votação islamista , os velhos marxistas elegeram um deputado pela primeira vez. Ajudou-os muito, de resto, o facto de a candidata oficial do Partido Trabalhista ser de origem judaica. (...) Aqueles que exigem liberdade de expressão, direito ao aborto e diversidade sexual condenam as sociedades onde há essa liberdade e direitos, e dão a mão a movimentos que condenam tudo isso como pecado e sacrilégio.
Alguns, como Baxter , detectam aqui uma contradição bizarra. (...)
A esse respeito, a história de David Myatt (...) é ilustrativa. Myatt era o líder de uma das mais violentas organizações neonazis britânicas (...) Hoje, Myatt dá pelo nome de Abdul Aziz Ibn Myatt . O neonazi explica a sua conversão, argumentando que o Islão, tal como ele o entende, é hoje a única força capaz de atingir os alvos que, enquanto nazi, já eram os dele: o capitalismo, a democracia e a "corrupção" dos costumes. Myatt convenceu-se que a "nação" e a "raça", na medida em que já não incutem nos indivíduos uma razão para matar e morrer, nem despertam simpatia na sociedade, deixaram de servir para criar uma "situação revolucionária" no Ocidente. (...) Não há aqui qualquer contradição, nem é necessário imaginar filiações espúrias entre os credos. O objectivo, para Myatt , é o mesmo, só os meios mudaram.
Quando veremos gente, à esquerda , a fazer o mesmo (...)? Em França, o velho estalinista Roger Garaudy já abriu o caminho, com a sua conversão ao Islão e um livro a negar o Holocausto. Foi um best-seller quando traduzido em árabe. Para alguns dos cidadãos do Ocidente, dado o ódio que lhes inspira a sociedade em que vivem, faz todo o sentido "ser do Hezbollah "."
Em suma, Maquiavel continua vivo e de boa saúde. Fazendo jus ao adágio de que o inimigo do meu inimigo meu amigo é, haverá sempre gente para quem o fim justifica os meios, quaisquer meios.