Assunto: Carta de repúdio de um militante à posição do PCP na questão do Tibete
Camaradas,
No final da semana passada, foi votado na Assembleia da República um voto de protesto contra a recente irrupção de violência no Tibete, ao qual o PC foi o único partido a opor-se. Escrevo-vos para vos manifestar a minha veemente discordância e o meu repúdio face à vossa posição.
Independentemente de justificações, espúrias ou não, independentemente de alegados ataques à realização dos Jogos Olímpicos, de teorias da conspiração, de campanhas de desinformação (as quais, camaradas, podem ser alegadas pelos dois campos), o que está em causa é a coragem de assumir a defesa de uma posição mesmo que incómoda, mesmo que contrária a afinidades de outra índole. O que está em causa é não se refugiar em teorias da conspiração para não ter de se assumir algo incómodo: que possíveis afinidades ideológicas ou amizades políticas não podem sobrepor-se, nunca, aos mais básicos e absolutos dos direitos - os Direitos Humanos.
São estes os Direitos que devem valer, e estes, quaisquer que sejam os olhos com que se vejam (desde que se queira ver), foram - e são continuadamente desde a ocupação chinesa há mais de 50 anos - barbaramente violados no Tibete.
Do meu ponto de vista, camaradas, perderam toda a legitimidade moral para protestar e opor-se a tantos casos de ilegais invasões de países terceiros, grosseiras violações do Direito Internacional e violações dos Direitos Humanos por esse mundo fora. A questão do Tibete é-me demasiado clara para poder deixar passar em branco mais esta vossa agressão (não, não é a primeira...) àquilo em que mais profundamente acredito.
Camaradas, perderam com este acto o meu afecto e a minha militância. O meu cartão de militante do PCP, nº 36402, que com orgulho ostentava na minha carteira, foi colocado na gaveta. A minha militância também.
Hei-de continuar a chamar-me, a considerar-me, comunista, pois isso tem a ver com aquilo em que se acredita, e não com a pertença a um grupo ou partido. Hei-de ser para sempre comunista. Não posso, neste momento, continuar a ser e a considerar-me membro do PC.
Cumprimentos,
António Rufino
PS - Esta carta será também colocada no meu blog, altermundo.blogs.sapo.pt, como parte da minha manifestação de repúdio.
Os meus parabéns pela coragem. Depois de ler o que li durante duas semanas nas caixas de comentários de vários blogues, já começava a pensar que o comunismo português é sinónimo de fidelidade cega e de anti americanismo absoluto.
Obrigado pelo comentário, heliocóptero.
O comunismo enquanto grupo organizado (ou seja, o PC) é, acredita, do mais cegamente fiel que possas imaginar (mais ainda que o anti-americanismo). Também mais que este último, é um defeito que eu tendo a perdoar, em virtude do que ideologicamente perfilho no que defendem.
No entanto, não perfilho da tal fidelidade canina, e nisso me distingo da esmagadora maioria dos militantes do PC. E se a minha tendência tem sido a de "olhar para o lado" quando não concordo com uma posição do PC, há coisas mais fortes que uma simples discordância.
Esta questão do Tibete não foi sequer a primeira, foi apenas a última de uma longa série, e a mais grave para mim.
A coragem que me elogias mais não é que o recusar-me a que alguém me diga como ou o que pensar, o obstinar-me a pensar pela minha cabeça e não ir com a "carneirada", seja o rebanho comunista seja outro qualquer.
Como frisei na carta, continuo, na minha cabeça, a ser comunista, no sentido em que defendo princípios que o são. Não sou certamente comunista no sentido de defesa cega de uma ideoogia apesar dos seus defeitos, e sobretudo apesar do que em nome dela foi feito - e que para mim não é comunismo, antes uma subversão deste - e do princípio, aparentemente dogmático no PC, de que o fim justifica os meios. Para mim, há meios (estou a pensar em termos sobretudo de Direitos Humanos) que nenhum fim justifica.
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