Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Do Público de hoje, não resisto a reproduzir uma passagem de um artigo sobre diferentes acções de campanha, comparando a organização, logística, características sociais, etc. dos militantes do Sim e do Não - ou, na passagem em questão, sobre o beijo. É que textos jormalisticamente inspirados como este, para além de não aparecerem todos os dias, dizem muito mais do que todas as outras coberturas jornalísticas juntas...
"Diz-me como beijas, dir-te-ei quem és"
"Tecnologia à parte, outros indicadores dão a medida da diferença de estilo, de classe social, relativamente à comunidade do "sim", mais heterogénea e desmazelada. O beijo, por exemplo. Entre os grupos do "sim" prevalecem largamente os dois beijos na cara, sendo excepções um ou outro socialista beirão deslumbrado com o trato do jet set de Cascais e, de forma irregular, Paula Teixeira da Cruz.
No "não", pelo contrário, só é admissível o beijo unifacial. Sem excepções. Sempre.
Posto isto, se o cumprimento do "sim" representa a tradição mais vulgarizada em Portugal, nesta matéria, que significado tem o beijo unifacial? É ele um beijo elitista? Serão as pessoas do "não" elitistas?
Ora, não é a primeira vez que o beijo unifacial é usado para definir um dos lados da barricada, numa campanha eleitoral. Ele já foi referido nas campanhas do CDS-PP e do PSD, em anteriores referendos (regionalização e IVG), bem como em cerimónias várias envolvendo Santana Lopes. Na sequência desses textos, já houve quem se insurgisse contra estas generalizações, chamando-lhes sociologia de algibeira, preconceito ferroviário (contra a linha do Estoril) ou religioso.
É certo que faltam estudos que permitam extrapolações mais rigorosas sobre a origem social e a conta bancária de quem assim beija. E que beijar assim não condena ninguém. Mas uma coisa parece indesmentível. Esse não é o cumprimento tradicional dos sindicalistas, nem dos utentes dos barcos da Soflusa, nem das empregadas domésticas, nem das lojistas do centro comercial de Odivelas, nem dos agricultores de Sobral de Monte Agraço."
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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
Sempre fui, desde tenra idade, um apaixonado por estatísticas, gráficos, sondagens. O meu lado matemático sempre me levou a procurar, em todas as eleições, o maior volume de informação possível a este respeito, para tentar descortinar certezas, incertezas, tendências - às vezes até auxiliar decisivamente na decisão de voto.
Foi por isso que, tomando como base o interessantíssimo trabalho realizado por Pedro Magalhães no blog
Margens de Erro, o qual desde que o descobri há alguns anos sempre consulto avidamente antes de quaisquer eleições - e que vai agora, mui merecidamente, para esse "espaço de (muito reduzida) glória" que é a barra direita do Altermundo - tomando como base, dizia, os dados de todas as sondagens referidas pelo Margens de Erro (apenas com alguns, porventura inexactos, cálculos por mim efectuados com base na própria sondagem, sempre que os dados disponibilizados pela empresa em causa o permitia), tomei a liberdade de fazer a minha própria análise da evolução da tendência de voto e abstenção para o referendo de 11 de Fevereiro.
É, volto a frisar, uma análise muito mais superficial do que a de Pedro Magalhães e sem quaisquer pretensões de rigor, mas que aqui deixo para a vossa consideração.

Reconheço que as linhas de tendência se vêem bastante mal, mas foi o possível com os meus limitados conhecimentos informáticos... É visível no entanto a tendência para a descida do voto no Sim (
linha a azul, que representa a média das 3 últimas sondagens de todas as empresas - Católica, Marktest, Aximage, Intercampus, Eurosondagem - disponíveis a cada momento), seguida de uma aparente estabilização em redor dos 60% (a análise de Pedro Magalhães, muito mais aprofundada, sugere uma tendência de queda do Sim sem estabilização à vista). A tendência do Não,
a vermelho, é mimética desta, chegando aos 40%.
Há também umas linhas a tracejado que infelizmente mal se vêem na imagem, pretendendo projectar as abstenções máxima e mínima reflectidas nas sondagens. Dos poucos dados avançados normalmente a este respeito nas sondagens, decorre que o valor mínimo projectado para a abstenção (em regra, se os que dizem que "de certeza" que não vão votar mantiverem a intenção e se todas as pessoas que ainda não decidiram se votam ou não acabarem por o fazer) é estável em redor dos 25%, enquanto a abstenção máxima (se todos os "abstencionistas indecisos" caírem para o lado da preguiça) apresenta uma tendência de crescimento que roça já a barreira dos 50%.
Portanto, várias razões para alarme...
Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
Em jeito de efeméride, aqui fica a transcrição de dois testemunhos da altura, feita no destaque dado pelo Público de hoje.
Para nos lembrarmos por que é urgente votar a 11 de Fevereiro, e votar
SIM!!
"E.F., agora com 34 anos, estava grávida de quatro semanasHá-de "amenizar" a dor "um dia", mas "jamais" esquecerá o julgamento da Maia. "Foi um julgamento conhecido em todo o mundo" e ela estava lá, a responder pelo crime de aborto. "É das piores coisas que podem acontecer... Foi a maior humilhação... Ainda hoje me custa falar... Tentei mesmo... aquela estupidez que se faz quando não se consegue ver mais nada..."O seu nome constava na agenda da parteira. A polícia chamou-a para a interrogar. E ela descoseu-se. Ao receber a notificação para comparecer no tribunal, "nem queria acreditar". "Fiquei burra para a minha vida!" O advogado oficioso, com quem nunca chegou a trocar duas frases, não apareceu no julgamento. Um causídico, ali presente, ofereceu-se para tomar conta do seu caso (e do de outras que, como ela, não tinham quem as representasse). Aconselhou-a a guardar silêncio. "Esse silêncio matou-me um bocado. Queria falar. Só pensava: "Já não basta o que aconteceu?""Não diz aborto nem interrupção voluntaria da gravidez (IVG). Protege-se com termos pretensamente neutros, como "aquilo" ou "isso". Ia fazer 30 anos, tinha três filhos, um emprego "incerto". O companheiro aguentava "dois trabalhos e perdeu um". "Não tinha escolha". Quando, "meio anestesiada", saiu da casa da enfermeira, "só queria esquecer". Mas roía-se o sentimento de culpa e a culpa agudizou-se com o julgamento. "Sentia-me tão pequena e não cabia em lado nenhum. Os juízes, ali sentados, a acusarem todas por igual. Puseram-nos todas juntas, como se fôssemos animais, para dizer: "Fizeram um pecado". Não nos conheciam de lado algum e julgaram-nos por uma coisa tão séria, tão íntima. Porque fazem isto às mulheres?"Depressa se concentrou, à porta do improvisado tribunal, um grupo do Direito de Optar - Plataforma pela Despenalização do Aborto, empunhando cartazes com os dizeres "Aborto: O crime está na lei". Houve um inicial erro de interpretação, talvez pela fraca literacia de umas tantas. "Algumas achavam que elas queriam dizer que nós tínhamos cometido um crime", lembra. "Duas até lhes fizeram frente, armaram zaragata". Depois, "entenderam". "Acho bem que tenham estado ali. Tinham voz, diziam o que nós não podíamos dizer, o que era de direito". Passaram cinco anos, o julgamento ainda a assombra. "Há um clique que, de vez em quando, dispara. Há aquela mágoa. Quando me lembro daquelas pessoas a olharem para nós, a apontarem o dedo. Às vezes, apetecia-me dizer: "Tenho crianças em casa!" Outras vezes: "Fi-lo! E agora? Vão-me prender?" Mas, se abrisse a boca, ia mesmo presa e o que ia ser dos meus filhos?". Não repudia a enfermeira - "Ela ajudava as pessoas que a procuravam. Enriqueceu? O nosso Estado obriga a isso. Isso não acontecia se o Estado legalizasse [a IVG]". E "se o Estado apoiasse" a maternidade, E.F. não teria abortado. O seu sentido maternal é denso - "Acho que tive mais três filhos para compensar. Se não os tivesse, acho que não conseguia suportar isto." Só ao engravidar do sexto, agora com 15 meses, laqueou as trompas."D.R., agora com 23 anos, estava grávida de dez semanasEncarou o julgamento como "uma invasão da privacidade". Não acredita que antes das dez semanas haja vida humana - "Se há mazela, é em nós. Tinha vergonha de estar ali a ser acusada de um crime que para mim não existe". E aquilo acabou por ser menos pesado do que supunha no início, "graças" a quem se mobilizou para a porta do tribunal para as "apoiar", para lhes dar "força". Ultrapassado o mal-entendido do princípio, "sentimos um apoio enorme de todo o mundo", lembra. Ainda guarda "um livro com assinaturas de pessoas de todo o mundo". Noam Chomsky e Pierre Bourdieu estão entre os 1104 subscritores dessa declaração de solidariedade. E outro com "versos, poemas, frases, testemunhos". O interrogatório policial não a "assustou muito". "Ainda não sabia o que vinha a seguir". Tinham fotos suas a entrar em casa da enfermeira, o seu nome figurava na agenda da grande protagonista do megaprocesso, e havia uma carta de agradecimento assinada por si. "Eles falavam e eu dizia: "sim", "não". Só no fim me disseram que eu tinha sido constituída arguida". Em frente ao seu nome não constava qualquer referência a dinheiro. A enfermeira comoveu-se. Como acontecia com outras mulheres que, tal como ela, ali entraram pela mão de um assistente social e que ali pagavam menos do tabelado ou nada (ver texto ao lado). Morava numa roulotte com a mãe e quatro irmãos (um com paralisia cerebral e outro com insuficiência renal). A mãe estava desempregada, ela também. A família sobrevivia a custo com o Rendimento Mínimo Garantido. "Não tinha dinheiro para abortar, quanto mais para criar um filho sozinha...". A sua estrutura emocional também não a encorajava - "Estava triste. E desde miúda que tenho depressões". Como engravidara? "Quando uma pessoa de 16 anos se apaixona, pensa que é amor para toda a vida". O namorado tinha 15 anos e perdera o pai havia pouco, queria "muito ter um filho". E ela, embalada pela sua "ilusão", decidira fazer-lhe a vontade. Ao sabê-la grávida, o rapaz anunciou-lhe que não iria "acompanhar o crescimento do filho", porque, afinal, "não estava preparado". "Cresci sem pai e sei quanto isso custa, decidi interromper a gravidez". Se fosse hoje, "faria o mesmo". Magoou-a mais o fim da relação amorosa do que o abortamento. Refez a vida com outro rapaz com quem tem já dois filhos. "Correu bem.... Já não basta a minha vida ser um down!?"No julgamento, a rapariga tinha vontade de falar - "Não para me defender, para defender a parteira, para dizer: "Isto é ridículo! Tudo bem que há coisas para evitar [uma gravidez indesejada], mas pode acontecer a qualquer uma!" Não o fez, seguindo a orientação da advogada oficiosa que a representou. "Sabia que falar me prejudicava e a prejudicava...". "
A.C.P.
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Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
Mais uma sondagem a dar ampla e aparentemente confortável ao Sim: desta vez são 60% contra 29%, a pouco menos de um mês do referendo.
Se estes números dão algum conforto ao campo do Sim e, sobretudo, confiança na vitória a 11 de Fevereiro, não é ainda motivo para festejos antecipados: não sejamos como o Sporting dos tempos do jejum de 21 anos, em que todos os anos se pensava "desta vez é que é" - só que depois nunca era...
Arregacemos pois as mangas e, de ego refrescado por esta apenas putativa goleada, vamos ao trabalho!
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Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006
O aborto é uma realidade.
Eu pensava que todos o sabiam, mas parece que, mesmo com a publicação do primeiro estudo de base populacional do aborto, alguns defensores do Não continuam a preferir enterrar a cabeça na areia. Na sua deturpada forma de ver as coisas, como o estudo foi pedido por uma entidade conotada com o Sim, não é credível, e portanto os seus resultados não existem.
Elucidação a essas - conscientes ou não - avestruzes: o aborto existe.
Eu admito perfeitamente que haja enviesamentos decorrentes da parcialidade de quem pediu o estudo. Mais, estou convencido de que eles existem (embora provavelmente se anulem com os enviesamentos contrários decorrentes do factor vergonha, mesmo com garantia de anonimato).
No entanto, noto que foram realizadas 2000 entrevistas, segundo a ficha técnica em condições que permitiram, minimamente, a quem já tinha abortado sinalizá-lo sem se sentir exposta. Noto também que, para a dimensão da população portuguesa, 2000 entrevistas é estatisticamente muito relevante, como prova o reduzido intervalo de erro.
Sendo assim, eu posso admitir que não haja 350.000 mulheres que já tenham feito um aborto. Posso admitir que haja muitas menos. Mas se forem 200.000, ou 100.000, mesmo assim a dimensão do fenómeno é enorme e o problema continua a ser extremamente sério.
Agora, proclamar que, como o número poderá estar inflacionado é o mesmo que ele ser zero, como já fez a associação de nome caricato que pretende defender as famílias "numerosas", isso é intelectualmente desonesto.
Para esses, nenhum número, nenhum estudo nunca servirá, pois no seu mundo debaixo da areia eles não fazem sequer sentido. Deveríamos pensar em chamar-lhes "negacionistas"...
Para as mentes honestas - para a meia dúzia delas que lerá este post - aqui ficam os dados relevantes:
14,5% das mulheres entrevistadas já fez um ou mais abortos
73% dos casos foram realizados até às 10 semanas
[mais um argumento do Não que leva uma machadada, o de que a maior parte dos abortos são efectuados depois do limite das 10 semanas e por isso continuaria a ser crime]
46% das mulheres que abortaram não usavam qualquer método contraceptivo
[muito preocupante, denunciando a debilidade do planeamento familiar em Portugal, área em que com ou sem legalização muito tem imperetrivelmente de ser feito]
39% fez o aborto numa casa particular, e 85% foram realizados em Portugal
[a provar também a realidade do "aborto de vão de escada" e que as "Clínicas Los Arcos" espanholas não são um mito...]
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006
Como era inteiramente previsível, Cavaco Silva decidiu convocar o referendo sobre a despenalização do aborto. Já está marcado na minha agenda o dia - 11 de Fevereiro. Agora falta o mais difícil, fazer com que nessa data poucos estejam em dia Não...
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006
É uma discussão muito pertinente, dilema que já me assaltou mas ainda não tinha visto explanado em nenhum sítio. Entrei agora no blog
Pelo Sim (vai também para a barra direita, secção relativa ao referendo: "olha o peixe fresco!"), onde um dos autores, EPB,
levanta o assunto para se mostrar favorável à realização da IVG, caso a sua despenalização seja aprovada, no Sistema Nacional de Saúde (SNS). Sem ter ainda a minha opinião consolidada quanto a isto, pendo mais para o lado do SNS, embora também já tenha ouvido partidários do SIm oporem-se à realização de IVGs no sistema público... mais uma discussão com pano para mangas.
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O
Diário de Notícias publica hoje uma
sondagem onde "a diferença entre os apoiantes do «sim» e do «não» é nesta altura de dois para um (61%-30%)."
Embora o
blogue do não se congratule com a "recuperação de 5 pontos do Não" (em relação a outra sondagem de há um mês), há elementos muito encorajadores para o campo do Sim :
"Os jovens, ou seja, os eleitores entre os 18 e os 34 anos, assumem nesta sondagem um papel particularmente importante: são eles que mais dizem que vão votar (85,7%) e são eles que mais dizem que vão votar "sim" no referendo (73,7%). Por oposição aos mais velhos (mais de 55 anos), que são quem menos vontade tem de ir votar e quem mais opta pelo "não" no referendo."
Ou seja, e até ver, o campo do Sim - maioritariamente jovem - para além de largamente maioritário está muito mais motivado para ir votar. Só não percebi se nos resultados da sondagem estão integrados apenas os que disseram que iam votar, ou todos os que responderam ao inquérito, caso em que a percentagem do Sim subiria ainda mais.
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006
O YouTube retirou o video que tinha escolhido como ilustração da minha campanha pelo Sim. Parece que "this video has been removed due to terms of use violation"... Se calhar até fui eu ao colocá-lo no Altermundo, parece que eles só prevêm a utilização em blogs do blogpost... Alguém me esclarece sobre este ponto?
Para substituir o video, vou colocar uma das imagens do blog Vota Sim - e assim aproveito para lhe fazer aqui um pouco de publicidade. E como eu gosto de "contraditório", como está na moda dizer, e gosto de pelo menos tentar compreender os argumentos da parte contrária (bastante difícil neste caso), aqui fica também a publicidade a um blog que milita pelo não, e que ao menos tem a vantagem de argumentar de forma intelectualmente honesta. Portanto aqui fica:
Porque nem tudo é sagrado... vota Sim!
(e usa
uma das imagens no teu blog)
Porque não devemos ser hipócritas... não votes Não!
(mas ao menos tenta compreender
o que dizem)
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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Pronto, é oficial, o Altermundo junta-se à campanha pelo Sim no referendo sobre a despenalização do aborto!
Ontem, na SIC Radical, passou um filme dos Monty Python - como todos genial e hilariante - chamado
The Meaning of Life. Para os que conhecerem, evoco aqui uma das partes mais brilhantes, que logo pensei que daria um excelente sketch na campanha a favor do Sim no referendo para a despenalização do aborto, onde um pai católico explica aos filhos (dezenas deles, incluindo um que uma cegonha acabou de deitar pela chaminé...) que ficou desempregado, e por isso terá de os vender para experiências científicas - tudo porque a Igreja proíbe o uso do preservativo e, para ela, "o esperma é sagrado"...
Vejam e digam lá que não calha a matar na campanha pelo Sim!... Mesmo que não tenha directamente a ver com o aborto, o sketch é uma boa sátira à opinião e ao imiscuir da Igreja Católica (por oposição aos protestantes, que "respeitam os direitos do indivíduo" e, logo, o "direito a tomar precauções"...), e às consequências de tal política... Pelo Sim no referendo, vivam os Monty Python!
PS - Como a campanha é algo que se pretende permanente e o que é bom nunca é demais, o video ficará no topo da coluna da direita. Para ver e rever!
Terça-feira, 3 de Outubro de 2006
Ontem, escrevi isto em comentário a um post do armadilhas acerca do aborto:
"Os portugueses têm uma particularidade (não sei se isto se verifica noutros povos): não querem que lhes digam coisas desagradáveis; fogem como podem de verdades desagradáveis; mesmo quando no seu íntimo sabem a verdade desagradável, escondem-na de si mesmos; em suma, tornam-se avestruzes. E os portugueses acham que o aborto é uma coisa desagradável. Sabem que é uma questão premente que é preciso resolver, mas não querem que lho digam frontalmente."
Deparei-me hoje com um artigo do Público da passada quinta-feira que, à luz deste, chamemos-lhe assim, "princípio da luso-avestruz", ganha nova relevância.
A relevância da minha reflexão é a aplicação deste princípio não só ao referendo sobre o aborto, como no comentário anterior, mas às elevadas taxas de infecção de HIV em Portugal e ao fracasso das campanhas de sensibilização e alteração de mentalidades.
O artigo fala de um livro lançado a semana passada, onde se chega à conclusão que os portugueses negam para si mesmos a probabilidade de contrair SIDA tem e a importância de se protegerem - porque é algo que "só acontece aos outros", aos "drogados", aos "maricas", às "putas". Acima de tudo, é desagradável que lhes digam que não é assim, que o que é relevante são comportamentos de risco onde se inclui as relações sexuais desprotegidas.
É desagradável que lhes digam "vocês também podem contrair o HIV". E como é desagradável, gera-se um mecanismo mental que remete essa informação para um cantinho ignorado do cérebro - o "cantinho da avestruz", de elevadíssimas proporções nos portugueses.
Excertos do artigo:
"Sida desencadeou mecanismo psicológico de negação"
"Que um homem nascido na década de 1950-60 - quando a iniciação sexual se fazia muitas vezes com uma prostituta - desconheça as formas de contágio da sida e tenha comportamentos de risco entende-se; que "jovens nascidos da era da sida" façam o mesmo é motivo de estranheza, defendem os autores de A sida em Portugal e o contexto sociopolítico, que hoje é lançado em Lisboa.
O livro tenta explicar por que razões falharam as campanhas de prevenção da epidemia. Portugal mantém-se como um dos Estados-membros da União Europeia com piores índices da infecção. Isto mais de 20 anos depois do primeiro caso no país, em 1983.
Os autores pegam num exemplo. Num estudo de 2004 provou-se que o risco de contágio associado aos serviços de saúde é sobrevalorizado pelos portugueses. Na realidade, "o risco é mínimo mas a população não se convence disso", lamenta um dos autores, Fausto Amaro, sociólogo e professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
Desde o início da epidemia houve uma associação entre o HIV/sida e grupos de risco: homossexuais, toxicodependentes e prostitutas. Embora a epidemia esteja hoje a crescer sobretudo entre os heterossexuais, a associação a grupos estigmatizados permaneceu. Os inquéritos foram revelando que, muitas vezes, é ignorado o risco de contágio pessoal por pessoas que se julgam invulneráveis por não pertencerem a estes grupos.
As autoridades de combate à epidemia decidiram, há cerca de uma década, mudar o vocabulário, para tentar criar a ideia de que todos correm risco: passou-se a falar de "comportamentos de risco" em vez de "grupos de risco". Mas a "bem intencionada alteração" não veio contrariar crenças arreigadas. "A sida desencadeou em Portugal um mecanismo de negação da doença que deu origem à deficiente percepção do risco de infecção pelo VIH", defendem.
"Os autores passam em revista as várias campanhas anti-sida levadas a cabo pelo Estado e associações como a Abraço. O tom variou entre o informativo, dramático e até humorístico. Ora, são já vários os estudos - no campo do tabaco, obesidade, álcool ou drogas - que demonstram que a informação não basta para mudar comportamentos. E o medo também não, explicam os autores. A pessoa evita captar mensagens que lhe são incómodas. E campanhas para assustar "podem levar a mecanismos de negação da doença ou de estigmatização dos indivíduos atingidos", lê-se na obra.
(...) Fausto Amaro afirma que existe "falta de um plano sistemático e de campanhas de sensibilização contínua". (...) Os autores passam em revista o processo de desenvolvimento do indivíduo desde a infância, quando se começa a desenvolver a identidade pessoal e social, que vai influenciar comportamentos futuros. "A educação da criança é um todo. A educação para a saúde deve começar nas escolas primárias", incutindo-se desde o início, por exemplo, "o sentido de responsabilidade individual, a promoção do respeito entre rapazes e raparigas", sublinha Louise Cunha Teles. É nesta fase que se começa a mudar comportamentos."
(Catarina Gomes)
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006
Há algum tempo que aguardava a oportunidade de introduzir o
blog da Macambúzia Jubilosa na minha lista "companheiros, amigos, palhaços". Os meus "critérios editoriais" obrigam-me a fazer aqui alguma publicidade a algo que julgue particularmente pertinente que lá tenha encontrado, e a oportunidade surgiu a propósito de um post sobre a ridícula Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN).
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