Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Capella (1)

O ponto de encontro que tinham combinado com os outros era a placa de metro que agora viam já à sua frente, vetustamente verde, decadentemente degradada mas ainda irradiando uma espectral simpatia, como se aquela simples pequena placa, à entrada daquela estação de metro agora como em tempos raramente utilizada, como se pudesse ser o ex libris daquele anacrónico bairro…
 Não podia, pensava Lisa, já suficientemente próxima para ler a palavra “Métropolitain” escrita em letra que outrora se designara como art nouveau. Nenhum ponto era o ex libris porque aquele bairro valia pelo seu conjunto, nada se destacava acima do resto, tudo, até o mais ínfimo pormenor (como aquela modesta placa) se encaixava na atmosfera do mais onírico bairro de Paris.
Afinal ainda conseguimos chegar antes deles, disse Vince ao chegarem. Era uma bem disposta indirecta a Lisa que, caminhando sempre à frente, os havia feito perderem-se por ruelas que nem os dois parisienses conheciam.
De certeza que eles também se perderam, disse Lisa, olhando para Vince, como que dizendo que não era a única, não era menos “parisiense” que os outros.
No metro não se perdem, é impossível seja quem for perder-se no nosso metro, disse André com (por uma vez) acertado chauvinismo. Mas ao contrário, no Louvre é impossível não se perderem…
Por sobre as águas-furtadas e os telhados baixos, o céu começava a escurecer, o sol brilhando por momentos nas clarabóias.
Bom, serve para estarmos na loja de noite, é bem mais interessante…
Também nunca ninguém lá aparece de dia. Vince, corroborando o namorado, afagava-lhe o louro cabelo. Raramente abrimos antes disso.
Estou tão curiosa… estamos todos, vocês não param de falar em vermos a vossa loja de antiguidades, mas estão sempre a adiar o momento.
Como vos disse, era preciso perderem-se em Paris primeiro, conhecê-la, senão nunca seria a mesma coisa.
E já não vais esperar muito, aí vêm eles!
Encontrámo-nos nos Champs Elysées, por acaso! Subindo as escadas do metro, os quatro sorriam já abertamente, também eles ansiosos por verem a loja de Vince e André e de como raio eles conseguiam sobreviver à custa da venda de antiguidades… e que antiguidades seriam? A explicação que lhes tinham dado não era completamente convincente… Não podiam acreditar que havia assim tantos insones, tanta gente naquela cidade que quisesse comprar antiguidades, recordações do tempo em que o Tempo fazia sentido… A opinião de André era que algo do antigo esprit des arts parisiense subsistia ainda e, inconscientemente, atraía a si muitos insones vindos de todo o mundo. Era por isso que a maior parte dos clientes da loja aparecia de noite, o que fazia pensar que eram como eles sonhadores, e que como tal procuravam sinais de outros que como eles haviam ousado. E que sítio mais adequado a essa busca que uma loja que vendia produtos da era em que o Homem ainda sonhava?
Tamara concordava com o seu irmão em espírito, mais por sentir, como ele, que a resposta passava por aí, do que por propriamente acreditar na explicação. Mas a verdade é que Lisa chegava agora a uma conclusão semelhante, sentindo um arrepio nas costas à medida que o próprio pensamento era formulado, recordando todas as sensações que a haviam literalmente atravessado no seu périplo por Montmartre. Talvez aquilo que em si ficara depositado andasse de certa forma à solta pelo ar, talvez de forma mais débil outros sonhadores, noutras cidades próximas ou longínquas, sentissem um certo apelo que não sabiam explicar e viessem – como eles acabaram por vir – ter a Paris… Era apesar de tudo uma teoria encorajadora: significava que havia afinal de contas muitos colegas de insónia, companheiros de angústia que não iriam participar directamente na expedição mas que teriam um papel preponderante a desempenhar numa fase posterior. Seriam esses insones os primeiros a saber e a ver Zooropa, a apreender o que realmente significava aquela viagem, aquela descoberta. Seriam por isso os primeiros a emulá-los, a tentar eles também chegar a Zooropa – a mesma ou qualquer outra Zooropa… Seriam eles que, sem o saber ainda, ficariam encarregues de ajudar a acordar o mundo. Eles os sete apenas estavam a dar o primeiro passo, a encorajar e a propiciar as condições para que os outros caminhassem – mas teria de ser cada um a aprendê-lo por si.
Bom… André suspendeu a frase, mantendo todos em suspenso. Vamos?
Iam lentamente caminhando, contando uns aos outros as impressões daquele dia sobrenatural, Tamara abraçada a André falando sem cessar do grande insecto da Défense enquanto o seu irmão anjo a beijava repenicadamente na testa, Lisa e Penélope discutindo quem se tinha perdido mais, Romeo e Ramón tentando decidir se a placa de metro era verde clara ou verde escura – todos, no fundo, tentando-se distrair da irrequieta curiosidade que já não conseguiam calar.
É aqui, proclamou Vince.
Do outro lado da pequena praça, por entre as ramagens das árvores que as povoavam, um letreiro brilhava já na derradeira luz do crepúsculo:
“Le Bouquiniste de Montmartre”
Todos pararam de súbito, imobilizados pela surpresa. Um bouquiniste! As antiguidades de que André e Vince falavam com desmesurado carinho nada mais eram que escritos registos dos pensadores e sonhadores de eras antigas!
Livros! Penélope, de boca aberta, sorria em êxtase. Vocês vendem livros!
Antiguidades… claro… estas são as coisas antigas que mais vale a pena preservar!
Enquanto o dia adormecia, os nocturnos candeeiros iam-se iluminando nas ruas, ofuscando as estrelas que no céu se iam estivalmente acendendo. Vince rodou a chave na fechadura da porta e a loja abriu-se enfim. Atrás de Vince e André, os outros cinco entraram naquele mundo…
Penetrando a obscuridade crepuscular, da entrada nada mais se via que não um extenso corredor crivado de mesas onde se amontoavam, numa aparente desordem de lombadas de variáveis grossuras e comprimentos, centenas de sonhos outrora encadernados, páginas e páginas que só juntas fariam sentido a quem, lendo-as, partilhasse e penetrasse no sonho do criador daquelas histórias… Dos lados do corredor que constituía a quase totalidade da loja, prateleiras ininterruptas acondicionavam ainda mais livros, poeirentos volumes enfileirando-se, como que constituindo um pelotão aguardando revista, impacientando-se porque todos se julgavam dignos de ser distinguidos por quem os revistasse – de verem uma mão erguer-se, retirá-los da prateleira, folheá-los com prazer e então talvez fechá-los com carinho, segurando-os contra si como quem abraça o filho recém-nascido, com a certeza de que não mais se separarão… Iluminados pelos derradeiros raios de sol, quase pareciam mover-se imperceptivelmente, quais soldados em sentido equilibrando-se de um pé para outro, esperando secretamente ser recrutados por alguém para o seu exército de sonhos particular…
André e Vince limitavam-se a sorrir, imóveis de braços atrás das costas, enquanto os amigos muito lentamente se iam espalhando pelas prateleiras e mesas, tacteando com cuidado como se receassem que um simples toque fizesse o livro esfumar-se em pó – fizesse todos os livros esfumar-se, afastarem-se subitamente, então apenas resquícios de um sonho… Mas era o receio que se desvanecia, pois rapidamente todos cederam ao maravilhamento que os assaltara deste o primeiro momento em que tinham entrado na loja.
 Tamara e Romeo olhavam as prateleiras da direita, ora para um lado, ora para outro, incapazes de retirarem qualquer volume e o segurarem nas suas trémulas mãos. Lisa quase não se via, acocorada em frente à mesa mais distante, contemplando reverentemente antigos códices de leis.
Encontrei um!
Eu encontrei mais dois!
Olha este! Penélope e Ramón, aparentemente esquecidos um do outro, deambulavam entre as prateleiras do lado esquerdo e as mesas mais próximas, exclamando em sussurro um para o outro os autores ou os títulos que reconheciam e que assim partilhavam, não conseguindo conter o entusiasmo. Os volumes que iam segurando e empilhando formavam uma coluna que selectamente ia crescendo enquanto as suas exclamações se perdiam no espaço da livraria, dado que ninguém na realidade os estava a ouvir…
Sem que nenhum dos amigos tivesse reparado, a noite caíra já há muito, aprofundava-se, insensivelmente ia penetrando cada canto, cada livro das cinco enormes pilhas que se amontoavam, partindo do chão até quase à altura de cada um deles. Penélope, Ramón, Tamara, Lisa, Romeo estavam extasiados, enfim saciados de novos sonhos, folheando os volumes que cada um deles havia prudentemente seleccionado como seus. Quando Penélope procurou com os olhos os dois anfitriões, Vince e André estavam sentados a um canto, agarrados a um volume mal tratado, a capa quase a cair, a lombada já meio caída deixando ver a encadernação de má qualidade. Se não fossem as letras na lombada pareceria ainda mais antigo que os restantes, mas provavelmente o aspecto do livro devia-se apenas ao facto de ninguém habitualmente pegar nele… A capa erguida contra si permitia-lhe ler o título: Todas as Estrelas do Céu.
Tomás Marinho? Quem é?

(continua...)
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Arcturus (2)

(cont.)
Tamara e Romeo passeavam de mãos dadas rumo ao enorme arco rectangular, indiferentes à amálgama de pessoas de todas as nações que, como abelhas cheirando pólen, se movimentavam incessantemente, pousando por momentos num sítio para logo voarem rumo a outro local onde então se detinham nunca por mais de um minuto. Os dois olhavam por vezes para trás, em linha recta na direcção do outro arco dois séculos mais velho, para logo olharem novamente em frente, como se as estruturas entre os dois lados do arco fossem alienígenas olhos que os hipnotizassem…
Seriam eles os únicos a pensar que aquele arco bizarro era verdadeiramente belo? Seriam os únicos a contemplá-lo, abstraídos do seu histórico significado que todos pareciam simplesmente ignorar? Num silêncio absoluto, não pensavam sequer, como quase sempre durante quase todos os dias, nessas questões: por ora, e enquanto estivessem sob a influência daquela construção multiforme, nada mais importava.
Se tivesse asas, seria um insecto gigante. Sem tirar os olhos do estranho edifício cada vez mais próximo, Tamara atrevia-se assim a falar.
É um insecto gigante, só que sem asas… para não voar para longe, para ficar sempre aqui, à nossa mercê e nós à dele… se voasse, já teria partido há muito tempo, encontrá-lo-íamos de certeza ao chegar a Zooropa…
La Défense.. é por isso que não voa, está-nos a defender…
Sim… quem quiser, por ele será defendido… quem souber, nele encontrará abrigo… contra este enxame de gente irrequieta e cega, que olha para ele como uma coisa…
Romeo e Tamara eram forçados a olhar cada vez mais para cima, pescoços torcidos, mãos ainda dadas… cada vez mais para cima… de forma a olharem ao mesmo tempo o arco e o céu, cada vez mais céu…

Olhando através de uma janela, Penélope e Ramón conseguiam ver, ao longe, a enigmática pirâmide de vidro. Olharam-na ainda por alguns momentos, depois um para o outro. Trocaram um breve e saboroso beijo e voltaram-se de novo para dentro, começando a caminhar pelos corredores sem fim.
De cinco em cinco metros eram forçados a parar, para verem mais um quadro, outra estátua ao mesmo tempo igual e diferente das centenas que já tinham visto. Mais cinco metros, outro quadro, outros cinco metros e um quadro maior, outros cinco e um mais pequeno. Outro corredor, mais arte, mais prazer estético, mais beleza… Corredores atrás de labirínticos corredores, câmaras após antecâmaras, escadarias que levavam a todo o lado e a lado nenhum… Retratos de damas já milenares, deuses ancestrais, olhos hipnóticos fitando quem contempla de todos os ângulos possíveis… overdose dos sentidos…
Admite, estamos perdidos, disse Penélope em ar de gozo.
Completamente perdidos… Já estou farto de ver arte, tenho arte em todos os meus poros, mas ao mesmo tempo não me consigo fartar de estar perdido aqui… é tudo tão belo… tão excessivamente belo que se torna quase banal…
Podíamos estar semanas perdidos aqui, amor, sem nunca pisarmos duas vezes o mesmo corredor. Voltaremos aqui muitas vezes, temos tempo para isso. Agora era bom encontrarmos a saída, temos de ir a Montmartre ter com os outros.
Ver finalmente a loja de antiguidades do Vince! Ramón, até ali por completo imerso no espírito da Musa, recordava de súbito o que seria o culminar daquele intenso dia. Já estamos em Paris há uma semana e ele insiste que até agora não estávamos preparados…
Mas compreendo-o… Achei estranho quando ele nos fez perder pela cidade fora, cada um para seu lado, porque era assim que iríamos descobrir Paris…
E é verdade, sei agora que só assim a podíamos ter descoberto, a Cidade da Luz, a cidade e a Luz…
Estava a pensar há pouco como é engraçado como a palavra “arte”, há tantos séculos esquecida, não impede esta gente de se atafulharem num museu repleto de arte… Não compreendem, mas mesmo assim não deixam de se sentir atraídos…
Como moscas para o mel… É um instinto ancestral do homem, pode ser remetido para o inconsciente, pode deixar de racionalmente ser entendido, mas nem por isso deixa de fazer parte de nós enquanto seres humanos… A civilização durou demasiado tempo para se poder assim eliminar um conceito que bebe tão fundo na alma humana…
Olha, aqueles japoneses já não estão a tirar fotografias, de certeza que é porque se vão embora! Vamos atrás deles!

No topo da colina, a alva catedral parecia silenciosamente aguardar quem até ela chegasse, quem subindo as escadarias a ela ascendesse… Silenciosa mesmo no rumor da citadina inquietação, parecia um virginal bastião do espírito…
Sacré Cœur… o coração sagrado da cidade… Lisa, ofegando com o esforço da subida, mal conseguia falar, mudamente maravilhada com a quietude que a imponente basílica impunha a quem dela se ia aproximando… André e Vince, cúmplices conhecedores dos segredos da cidade, mantinham-se em silêncio, caminhando dois passos atrás.
Não entraram na catedral – não ousaram, era preferível espicaçar a reverencial atracção para apenas a satisfazer mais tarde – antes passaram ao lado dela, iniciando um mergulho no bastião onde, com atenção, se podia ainda sentir os espíritos de escritores e artistas mortos há muito, há demasiado tempo.
E mergulharam… Vince e André, de mãos dadas, trocando enamorados beijos, iam olhando para aqui e para ali, relembrando, despertando doces memórias… Lisa deixava-os, percebia que num certo sentido aquele bairro era o seu mundo, que nele muito haviam partilhado… De qualquer forma, nenhuma palavra conseguiria articular o que sentia, assombrada como estava, sentindo absínticos poetas, boémios pintores e carnavalescos dançarinos perpassar-lhe a carne, atravessar-lhe o corpo, causando um frio arrepio à sua passagem mas deixando para trás algum precioso resquício, algum pequeno tesouro dentro de Lisa guardado como lembrança da sua passagem… Sentia-se assim também artista, também escritora, pintora, escultora, dançava num cabaret repleto de montmartrianos espíritos que a aclamavam como uma deles, sentia-se também ela uma habitante daquela era, misturando o tempo presente com o espírito daquele  bairro de há sete, oito, nove séculos atrás…
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

Arcturus (1)

A sombra era enorme. No céu, um azul vítreo parecia espelhar tudo o que em baixo se passava, reflecti-los novamente – luz, ruídos, pensamento, tudo estava enclausurado no interior da enorme cúpula celeste. O próprio chão parecia irradiar luz… Talvez por esse contraste a sombra da Torre parecesse mais nítida, enorme, quase ameaçadora. Ao caminhar pelo chão irradiante, escaldante, e ao entrar na sombra, tinha-se a sensação de que se podia respirar de novo, pensar mais livremente. Imóveis na enorme sombra do sol poente, sete pessoas, de mãos dadas, estavam imóveis há alguns minutos, incapazes de um só movimento, de um só som… Imóveis, olhavam o reflexo insolitamente nítido da Torre centenária nas águas do Sena. Para cinco dessas pessoas era a primeira vez que viam aquela silhueta, o modo como se projectava no rio. Talvez precisamente por ser a primeira impressão lhes fosse tão difícil falar, pronunciar uma palavra que fosse acerca das sensações que a cidade lhes transmitia… Verdade seja dita que, como duas das pessoas já o sabiam e os restantes cinco aprendiam agora, Paris é sempre, em primeiro lugar, uma experiência interior…
Sempre imóveis, contemplavam a cidade em seu redor enquanto o sol se punha lentamente, imóveis ainda enquanto escurecia, o céu mudando de tons de azul para violeta, enfim para a cor da noite, azul-quase-negro…
É a minha hora preferida do dia, depois do pôr-do-sol… esta cor do céu… Quebrado o encanto, desaparecida a imagem flutuante da Torre, o transe findava e Romeo fora o primeiro a quebrar o silêncio.
Sim… retorquiu Tamara, apertando mais a mão do companheiro, fitando ainda, como todos os outros, algum ponto indefinido entre as águas do Sena e o horizonte, para lá das casas e da outra margem do rio. A esta hora nada mais interessa, só a cor do céu, e o mundo a acalmar-se, preparando-se para a noite, silenciando-se…
Começaram a caminhar aos pares e aos trios pelas margens nocturnas, ainda em silêncio, ainda a interiorizar todas as poderosas sensações que Paris lhe estava a oferecer. Era-lhes agora fácil compreender o motivo pelo qual o Impressionismo, à semelhança de todos os grandes movimentos da pintura dos últimos séculos de vida da Arte tal como aqueles sete a concebiam, por que motivo tudo isso tinha germinado em Paris…
Apesar do silêncio, André e Vince sabiam o que o outro sentia apenas por caminharem de mãos dadas; Tamara e Romeo trocavam carícias e sabiam-no também, e Lisa, Ramón e Penélope tudo partilhavam através dos olhares sempre fixos uns nos outros… A cidade anoitecera, esvaziara-se já da turba imensa que a povoava de dia, deixando apenas os seres noctívagos – insones, espíritos vagabundos e pares de namorados, recém-renascidos para Paris ainda em êxtase. Os sete caminhavam lentamente pelas margens, passando por barracas à beira-Sena plantadas vendendo tudo o que só de noite podia ser vendido: música, livros, filmes, tudo o que cheirava à Era do Fim do Mundo (última época em que tais objectos haviam sido concebidos) e a “arte”, esse palavrão depois disso erradicado por completo da sociedade e de quase todos os vocabulários…
Paris é fria de noite, queixou-se Penélope, apertando-se mais entre os braços de Lisa e Ramón, logo corroborada por André, que cerrou mais o braço em torno de Vince.
Estamos quase a chegar. Temos whisky, arranjo um copo para cada um. Mas só um copo, que amanhã vai ser um dia muito preenchido e não podemos correr o risco de estarmos de ressaca. Sobretudo vocês vão precisar de todos os vossos sentidos alerta para desfrutarem ao máximo de tudo o que vão visitar.
Não percebi essa da ressaca… Ramón, brincalhão, fazia-se desentendido. Todos, mas sobretudo ele, sabiam perfeitamente do que Vince falava…
Ainda não nos explicaste onde é que arranjas o whisky, nem porque é que chamam isso àquele líquido incolor misturado com sumos doces… Na garrafa não diz whisky, diz outra coisa qualquer em letras cirílicas… kodva, ou algo do género…
O nome é um segredo nosso, respondeu Vince. Chamem-lhe uma piada privada se quiserem.
Lá que é bom é… disse Penélope com um sorriso brincalhão, olhando com ar cúmplice para Ramón.
Não sei o que queres dizer. Ramón fingia-se desentendido.
Pois, Ramón, intrometeu-se Tamara, no outro dia parecias estar a gostar muito…
Não me lembro de nada.
Isso sabemos nós, no estado em que acordaste! Melhor, no estado em que todos acordámos… Todos, incluindo Ramón, se riram. A verdade era que naquele dia, a primeira vez que experimentaram aquela bebida proveniente dos rigores polares misturada com sumos de sabores tropicais, aquele gosto amargo e doce ao mesmo tempo, todos – e de facto, sobretudo Ramón – se haviam rapidamente convertido aos prazeres do álcool… Todos tinham adormecido nos sofás da sala, pelo chão, abraçados uns aos outros, fraternalmente beijando nem sabiam quem, semidespidos do calor com que a música e a báquica dança enchia os seus corpos…
Naquela noite, porém, o resultado não se repetiria. Todos projectavam já intimamente o dia seguinte, tudo aquilo que iriam ver, tentavam antecipar o que iriam sentir. O prometido copo de whisky seria mesmo só um, e depois todos se iriam deitar. Todos ficariam alguns minutos ainda acordados, demasiado excitados para adormecer, tentando adivinhar se o que iriam ver bateria certo com as expectativas e como cada um intimamente sonhava serem os principais pontos de atracção de Paris. E com esse sonho, com uma determinada imagem na mente, todos adormeceriam, não mais podendo esperar pelo dia seguinte…

(continua...)
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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

Pollux

Sob um céu completamente negro, apenas o vago luar, por trás de um manto de nuvens, iluminava os edifícios da praça, que assim ganhavam contornos ainda mais fantasmagóricos. De dia aquelas pedras impunham o respeito que se tem pelas coisas místicas, carregadas de um simbolismo que apenas se pode pressentir. De noite, aquela catedral anciã, as arcadas sob as colunas a toda a volta da praça ganhavam uma vida espectral, como que habitadas por espíritos noctívagos…
Semi-oculto por uma dessas colunas, um vulto invisível espreitava, aguardava. Olhava fixamente para o espaço aberto no meio da praça histórica – amplo mas sobrenaturalmente claustrofóbico naquela noite de silenciosos espíritos, como que encerrada por uma cúpula de inclinados telhados, pináculos e campanários que pareciam inclinar-se sobre os espíritos que nessa praça se encontravam.
No meio da praça, todos vestidos de negro por uma subconsciente combinação com o próprio espaço, cinco vultos discutiam em voz baixa. Pareciam planear algo, pensava o vulto sob a arcada. Há algum tempo que ali se tinha imobilizado, suspendendo a sua solitária e quotidiana deambulação pela Firenze vampírica… Tentava ganhar coragem para se dirigir a eles, apresentar-se, incluir-se no grupo, pôr cobro à sua solidão. Aqueles seres eram noctívagos como ele, não deviam sequer dormir… Estariam a traçar algum plano para acabar com as suas insónias? Talvez o pudessem ajudar a redescobrir também o sono… Era um passo arriscado, considerava o vulto. Se as suas impressões estivessem erradas, se aqueles seres fossem apenas fantasmas, se o silêncio ritual da noite florentina fosse rompido, poderia ser desmascarado, quem sabe até detido pelas autoridades nos calabouços do desespero… e aí tudo estaria para ele perdido, nunca regressaria para o seu amado…
Vincent… suspirou, talvez algo mais alto que um sussurro, porque sem dar por isso tinha avançado pela praça dentro e estava a escassos passos dos fantasmas vestidos de negro, que num sobressalto de temor se viraram para ele.
Ficaram alguns segundos imóveis. O vulto no meio da praça sentia-se um anjo caído (como numa ancestral e melódica imagem do tempo do
Fim da História), observado por cinco pares de olhos cheios de uma temerosa curiosidade que os tornava afinal humanos.
Tamara, lentamente, avançou dois passos e tocou-lhe ao de leve no braço.
És de carne e osso… És real…
Vocês também…
Tínhamos a estranha sensação de que alguém nos observava, mas pensámos que fossem os espíritos deste lugar… Enquanto falava, os outros aproximavam-se, rodeando-o, sem dar por isso, fraternalmente. Estavas a olhar-nos há muito tempo?
Sim… Via-vos aqui a conversar, mas também eu tinha a impressão de que eram espíritos… Queria aproximar-me, mas tinha medo…
Agora estamos aqui contigo, disse Ramón. E como vês somos tão humanos como tu.
Sim, tão humano como vocês… humanos, sim, vejo-o agora, mas há tão poucas pessoas humanas que não ousava… Mas algo subliminar aproximou-me, porque sem dar conta estava a dois passos de vocês…
Como te chamas, anjo caído? Na boca de Tamara, as palavras “anjo caído” fizeram-no tremer… eles também conheciam aquela imagem… eles também sonhavam…
André. Sim, sou um anjo caído, e ao chamarem-me assim sei que são como eu, insones.
Sim… cinco insones à procura de sonhos… de um sonho… Penélope tinha a impressão de estar a falar demais – afinal, tinham conhecido aquele anjo triste minutos atrás – mas de alguma forma sentia – e sentia que todos o sentiam – que podia falar, podia dizer tudo. E sentia-se estranhamente impelida a fazê-lo…
Ao vê-los ao longe, pareciam estar a planear algo… uma conjura…
Podes chamar-lhe isso, se quiseres… Conta-nos o teu mundo, André, rapaz anjo, disse Lisa com tanta vontade como os outros de logo ali o abraçar, de o confortar de uma mágoa desconhecida mas premente. Tenho a impressão de que acabámos de ganhar o sexto membro da nossa Sociedade.
André ficou admirado, quase assustado, como se julgasse que não era possível naquela era existir uma sociedade fosse do que fosse. Vocês… têm uma associação? Formaram um grupo para sonhadores?
Sim… não sei se existem outros grupos como nós, mas temos sempre a sensação de sermos os únicos. Por isso temos sempre de ter imensas cautelas, por isso somos apenas cinco (tenho a  certeza de que poderíamos ser muitos mais – bastaria procurar – mas seria demasiado arriscado, estaríamos demasiado vulneráveis a sermos descobertos).
Não sei se querem ou se podem falar… Mas eu também não durmo. Também sonho. Fiquei sozinho nesta cidade há duas semanas, e desde aí que não posso falar, desde então que procuro com quem partilhar, mesmo que fugazmente, a minha insónia.
Ficaste sozinho? Aconteceu algo? Tamara receava a resposta, por intimamente já a saber (sentia já que entre ela e André se formara uma estranha ligação, que nunca precisaria de perguntar para saber algo, porque sempre antes de o fazer saberia… será que acontecia também o contrário, que André sabia as suas perguntas antes dela as formular?), mas não conseguiu evitar ser directa na pergunta.
Não sei se vocês vão compreender… (mas, intimamente, sabia que pelo menos Tamara, que apesar de mal conhecer sentia ser a irmã que nunca teve, compreenderia) Eu tenho um namorado…
Percebo o teu receio em assumir essa posição… Não o podes fazer abertamente mas, acredita, connosco estás completamente à vontade. Tamara, enquanto falava, abraçava André, visivelmente abalado pela falta de incompreensão daquele grupo.
Vocês sabem do que estou a falar?
Claro que sim, anjo André, meu irmão. Nenhum de nós é homossexual –nem conhecíamos antes de ti alguém que o tivesse assumido perante nós – mas isso não faz qualquer diferença. Estás apaixonado, nota-se nos teus olhos tristes.
Estou… o Vince é a minha alma gémea… Ao olhar Tamara nos olhos, ao sentir o carinho que deles irradiava na sua direcção, ao sentir que também ele devia estar a emanar as mesmas ondas de afecto pela sua irmã recém-encontrada, sentia que aquelas palavras já não eram exactamente verdadeiras… a partir daquele momento, tinha outra alma gémea… E ao fitar os seus olhos era como se também os olhos dela ficassem tristes, não por empatia ou simples conforto, mas genuinamente partilhando da mesma tristeza. Ao olhar André, Tamara mergulhava na tristeza dos seus olhos, ela tornava-se parte de si…
Também Romeo o sentia, de alguma forma ao apertar a sua mão essas lágrimas não choradas transmitiam-se também a ele… Sabia que de uma estranha forma estava a ser deixado de fora, a relação entre aqueles os dois, anjo e protectora, não tinha lugar para si. Apesar disso, não se sentia excluído: a sua relação com Tamara não sairia minimamente afectada daquele encontro com um anjo. Os laços que tão subitamente haviam sido estabelecidos eram mais como os de irmãos – irmãos espirituais, sim, mas por isso mesmo unidos na mais pura fraternidade. Tamara e André juntos eram como dois anjos que acabavam de se conhecer – e, Romeo sabia-o bem, os anjos não têm sexo…
Todos nós sabemos o que isso é, maninho, todos o sentimos. Enquanto falava, Tamara dirigia o olhar para os olhos de Romeo que fitavam os dela, enquanto os olhares de Penélope e Ramón se encontravam também e Lisa os olhava carinhosamente, apertando nas suas as mãos de ambos.
Moramos em Paris, contou André. Estávamos de viagem, vagabundeando pela Itália, conhecer esta terra com tanta história, este país por quem tantos se sentem atraídos sem saber porquê, porque não sabem nada de História.
Como disse um sonhador outrora, aqui aprende-se a beleza outra vez, interrompeu Ramón.
Exactamente. Mas o Vince teve de voltar para Paris, problemas com a nossa loja de antiguidades. Pediu-me para não ir com ele, para ficar em Firenze, pelo menos até acabar o livro de poemas que secretamente escrevo. O Vince tinha a certeza de que iríamos descobrir o Sonho aqui. E estava certo…
O Sonho ainda não… mas sonhadores encontraste. O Sonho, que na nossa “Planetary Society” chamamos Zooropa, é o nosso objectivo, o nosso projecto.
Zooropa, como…
Sim, como cantavam antigamente, naquele grupo de derradeiros sonhadores.
Um grupo de seis espectros começou então a caminhar pela praça, seis vultos negros trocando sonhos. André falou-lhes de Vince, de Paris, da Luz, baça mas ainda Luz. Os cinco amigos contaram-lhe tudo. A “Planetary Society”. Sagan, o pioneiro. Os Quatro de Dublin. Os sonhadores de há sete séculos atrás e a profunda inspiração que para todos representavam. O seu sonho, o seu projecto, Zooropa. Disseram passagens do Livro dos Sonhos que sabiam de cor. Tamara e Romeo, abraçados, falavam embevecidos da sua relação, Penélope e Ramón da sua e, olhando ternamente para Lisa, da sua irmã. (Naquele momento, André soube o que todos eles souberam, a certeza de que ele e Vince seriam verdadeiramente mais dois naquele grupo de enamorados.) Falaram de tudo o que partilhavam juntos – aos pares, em trio ou em quinteto. Avançavam pela noite escura. A Lua desaparecia, e enquanto caminhavam foram-se gradualmente unindo num só abraço, transformando-se em sexteto. De vez em quando olhavam em vão o céu em busca de estrelas, que dormiam para além das nuvens. A madrugada caminhava com eles, o seu nevoeiro envolvia-os, e então eram apenas seis espectros observados pelos edifícios que sobre eles pendiam, eram seis espíritos mergulhando no labirinto das ruas, rodeados por uma bruma que, quando enfim amanhecesse, os faria desaparecer da vista de todos excepto deles mesmos…
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Domingo, 15 de Outubro de 2006

Vega

“Primeira página. Escrevo as primeiras palavras deste livro que substitui o que na “Era do Fim da História se designava como livro de actas (cheio de formalismos que não saberíamos aplicar e que consideramos supérfluos) e que chamaremos Livro dos Sonhos ou, simplesmente, Zooropa ou, em família, “o livro”. Nesta era em que o acto de ler um livro pelo simples prazer de o ler é considerado vão e, até, desprezível, este livro-Zooropa pretende demarcar-se dos demais.
O que é Zooropa? É o planeta que decidimos fundar, nós que ousamos sonhar? É apenas o nosso petit nom para o segundo satélite de Júpiter, vulgarmente conhecido (para os que ainda o conhecem) por Europa? É o nome de uma canção escrita na era das últimas canções por um punhado de sonhadores? É um poema velho de sete séculos? É um desabafo, uma confissão de desilusão com os outros e consigo mesmo? É um sopro, uma tentativa de redenção? É uma promessa de não quebrar, de não ceder? Zooropa é tudo isto e é, ao mesmo tempo, muito mais. Zooropa é a junção de tudo isto, é o todo tornado maior que a soma das partes, é uma profecia, é um objectivo, é um caminho. Zooropa é o sonho. Zooropa somos nós.
Aqui reunidos, nós (eu, Ramón, Lisa, Tamara e Romeo), companheiros de longa data, almas gémeas ou simplesmente amigos, tornámo-nos camaradas, comparsas de uma conspiração de esperança. Queremos que o nosso sonho seja uma profecia, a reabilitação da condição humana e o retorno da promessa da Humanidade – a promessa de crescer, crescer sempre, de através do espírito vencer os ditames da matéria, de perdurarmos no tempo, de não esquecer a nossa missão: viver, conviver, pensar e por isso ser, sonhar. É uma profecia porque é um caminho que incessantemente temos percorrido, sabendo que existe sempre uma luz que brilha mais além, tentando sempre alcançá-la sabendo que nunca a alcançaremos, sabendo que o importante é o caminho por onde andamos, sabendo que caminhar sempre significa a busca de nós próprios e, por isso, o assumir de que somos nós próprios, e que é através disso que somos Homens, que formamos, juntos na partilha da condição humana, a Humanidade.”

Penélope Cruz (fotógrafa)
7 de Novembro de 2707, Firenze


“Serviu esta primeira reunião para pela primeira vez nos encontrarmos todos e juntos trocarmos opiniões. Simbolicamente, foi o acto inaugural da nova “Planetary Society”. Em substituição da que há sete séculos existiu sob a sombra da memória do sonhador Carl Sagan, pretendemos adoptar do que a pioneira “Society” fez e sonhou o que pensamos adaptar-se à nossa era sem História, em geral, e ao nosso sonho de, pela restauração desta Sociedade, restaurarmos o que ela de mais importante teve, o sonho.
A designação de “Planetary Society” é em certa medida arbitrária, uma entre várias possíveis, mas é por outro lado também ela simbólica. Restaurá-la é, ambicionamo-lo, restaurar o sonho. É uma designação, como nenhuma outra, adequada a este grupo de amigos que decidiu sonhar e que definiu como sonho as estrelas e os planetas. Nós que agora nos reunimos somos, por isso, uma sociedade: porque decidimos agrupar-nos com um objectivo comum, partilhando um sonho; e porque o fazemos fraternalmente, enquanto amigos e porque o sonho comum esses laços vem reforçar. Sociedade Planetária porque, como disse, sonhamos com as estrelas, com o planeta que pretendemos fundar e com o espaço que nos separa dele.
Talvez um dia, se o nosso projecto se concretizar, este livro sirva de guia a quem pretende seguir as nossas pegadas – a quem quiser sonhar – rumo ao farol por enquanto longínquo, perdido no espaço, rumo a Zooropa. Agora, enquanto o escrevemos, servirá apenas de diário de bordo, como registo do nosso sonho e como reflexão sobre o que formos fazendo e tivermos feito para trás, como guia dos passos que formos dando.
Embora chegar a Zooropa seja o nosso objectivo último, não é o nosso objectivo primeiro: esse é, apenas, sonhar. Sonhar que é possível uma nova sociedade, um novo planeta, e que o nosso sucesso acorde o mundo da sua letargia e o faça, como nós, sonhar. Que o faça juntar-se a nós, sob a sombra do gigante joviano, num astro que rebaptizámos, entre nós, de Zooropa, ou então que, decidindo ficar neste planeta, aqui acordem para o sonho, para a vida, reencetando o caminho da Humanidade onde ele ficou bloqueado há setecentos anos. Terão, então também, chegado a Zooropa.”

Ramón Goya (professor de Astrofísica na Universidade de Firenze)
7 de Novembro de 2707, Firenze


“É justo que Penélope e Ramón aqui tenham escrito após a nossa primeira reunião. Lançámos então a primeira pedra da materialidade do nosso sonho, e por isso apenas os primeiros a acordar foram os primeiros a escrever.
Agora, findo o segundo encontro da “Planetary Society”, a reflexão começa a adquirir diferentes moldes. Os meus amigos de longa data (mais que isso, companheiros e irmãos) ocuparam as primeiras páginas deste nosso livro de bordo com o sonho. As palavras de um de nós os três são, quase sempre, as palavras dos outros, e por isso nada mais tenho a acrescentar.
Zooropa, a canção… foi a nossa inspiração, o “clique” que nos permitiu pôr fim ao nosso desassossego, dormir sonhando, sem insónias. É uma canção que critica o estado das coisas – o cinzento e a confusão (daí o título, “Zoo+Europa”), não só da sociedade mas também interior…Ao mesmo tempo, promete não desistir de sonhar, e pede que o Outro acorde, que sonhe de novo. “Let’s go overground!” é um pedido e uma promessa… Pedido e promessa que volvidos tantos séculos aqui retomamos. Por isso, Zooropa é mais que o leit motiv que preside à nossa Sociedade, é a sua própria razão de ser, que poderia  justamente ter esse nome. Mas não quisemos confundir conceitos, e por isso decidimos destacar a importância do sonho (Zooropa) mas também a importância de sonhar em conjunto (a “Planetary Society”).
A canção, que não conseguimos tirar das nossas mentes, começa com uma guitarra que parece chorar… Formada esta Sociedade, não choramos já – estamos a meio da canção, quando uma bateria simboliza o despertar, o empenho em não desistir. Cumpre-nos, agora, ouvir o resto da canção: projectar a nossa nave, construí-la, entrar nela, descolar deste planeta, mergulhar no espaço e nas estrelas, chegar à nossa Zooropa joviana. Estamos a caminho… Estamos a sonhar… a meio da canção… no fim, o ruído cessará, e faremos nossas as palavras finais da canção centenária… Dream out loud…”

Lisa Sabatelli (advogada)
10 de Novembro de 2707, Firenze


“Três reuniões. Apenas três reuniões. O suficiente, contudo, para termos a convicção de que conseguiremos, pelo menos, levantar voo. Em sentido figurado, já o estamos a fazer. Em sentido concreto, assalta-nos a certeza que o faremos. Assentámos os nossos sonhos, unimo-los, agora construímos. Por isso estas palavras não são de sonho como as da Penélope, do Ramón e da Lisa, mas antes de alegria. Escrevo o prazer de sonhar, o prazer de esta convosco, camaradas de sonho!
Os nossos planos começam a tomar corpo, e por isso sentimos que já estamos a caminhar, que não poderemos ser parados. Não, encetado o caminho, esboçado o primeiro gesto, erguido o primeiro martelo sobre a primeira estaca, não nos poderão mais parar. Não somos no entanto loucos ao ponto de considerar que não nos impediriam de levar avante o nosso projecto. Não poderiam deixar de o fazer… simplesmente seremos suficientemente cuidadosos para que não sejamos descobertos a não ser quando for demasiado tarde (e aí faz parte do nosso plano sermos descobertos, para que se fale de nós e se saiba o que vamos fazer; só assim nos poderão dar atenção se chegarmos ao fim com sucesso).
Infelizmente, essas precauções implicam fazermos sacrifícios, tomarmos decisões que muito nos custam, pois mexem com uma das partes mais importantes do nosso sonho, que é a divulgação: mostrarmos aos outros, ao mundo, que eles também podem sonhar… Chegámos hoje à conclusão que teremos de ser muito poucos a levantar voo deste planeta rumo às estrelas. Um projecto de grande envergadura, em que muitas pessoas tomassem parte (não temos dúvidas de que não nos seria difícil encontrar suficientes insones com vontade de sonhar) seria também muito mais fácil de descobrir. Tomámos por isso uma decisão dolorosa, mas que será vital para nos fazer chegar a Zooropa: limitar o número de membros da “Planetary Society” ao mínimo indispensável.  Todos vertemos lágrimas quando chegámos a essa conclusão, mas temos a consciência de que quando decidimos, ditámos talvez o sucesso do nosso projecto – pelo menos da primeira parte… Somos neste momento cinco. Para que fique registado (este livro é também, como já foi dito pela Penélope, o nosso único registo oficial), o nosso objectivo será mantermo-nos apenas cinco. Só em casos muito especiais poderemos admitir que sejamos mais. Todos juntos seremos dramaticamente poucos… mas por isso mesmo demasiado insignificantes para que nos dêem a devida importância. A nós bastar-nos-á que nos vejam quando partirmos e que se lembrem de nós quando chegarmos. Se tal acontecer, teremos vencido a batalha.”

Romeo Garibaldi (estudante)
13 de Novembro de 2707, Firenze


“Li, antes de começar a escrever estas linhas, as primeiras que inscrevo neste nosso diário de bordo (será por isso que a minha mão tanto treme?), o que foi aqui dito pelo Romeo. Ele tem razão: se chegarmos a Zooropa, teremos vencido a primeira batalha – mas não, temo, a guerra. E foi esse o medo que hoje surgiu ao de cima. Foi porventura a nossa reunião menos produtiva, por dois motivos (sou a primeira a aqui escrever como se fosse um diário na verdadeira acepção do termo…). Primeiro, já sabemos o que queremos construir, que funcionalidades deverá ter e como as instalar. Chegámos então a um muro: não temos o que usar, nada que possamos adaptar à nossa medida. Um carro seria demasiado pequeno, um autocarro teria demasiados pequenos mecanismos de voo, condução aérea e no solo, etc., que seria necessário desmantelar completamente e então montar de novo… Uma nave não precisaria de adaptações, mas é impossível arranjar uma a não ser que a roubássemos – e todos concordámos que nada faremos de ilegal enquanto estivermos neste planeta (depois da partida, claro, e talvez também durante a partida, será impossível não desrespeitar as autoridades… mas que autoridade terão então elas sobre nós?). Não temos nenhuma ideia… Espero que o sol que lá fora enfim desponta nos possa inspirar…
Em segundo lugar, sermos tão poucos coloca-nos sérios problemas de sobrevivência uma vez chegados a Zooropa… Penso ter sido a primeira a colocar a questão em termos tão práticos e duros. Os olhares dos meus companheiros (e até o meu próprio olhar) pareciam recriminar-me por me atrever a formular semelhante pensamento. A verdade é que, aqui, quantos mais formos mais hipóteses temos de ser descobertos, mas na nossa lua quantos menos formos menos hipóteses temos de sobreviver. Começo a imaginar: cinco pessoas sozinhas numa lua imensa, desconhecida, inóspita, fria. Ou temos uma nave extremamente bem apetrechada (é aqui que os dois problemas começam a juntar-se) e temos muita sorte ou morremos rapidamente. Todos (e eu mais que todos) se assustaram quando disse isto – ficámos em silêncio, nem sequer ousando olhar uns para os outros… foi o final de reunião mais triste da Sociedade… todos naquele momento nos sentimos sós… mas é preciso pensarmos nisto, termos esta abordagem prática, antes de levantarmos voo.
O sol, o primeiro que temos em Firenze há várias semanas, pouco durou. A noite começou a cair. Bom. A noite sempre foi a minha melhor companheira.”

Tamara Dović (estudante)
20 de Novembro de 2707, Firenze
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Sábado, 14 de Outubro de 2006

Altair

Escuridão. No quarto totalmente escuro, de súbito uma chama. Apagada a chama, um pequeno clarão alaranjado, depois um segundo e um terceiro. Do lado de fora da persiana cerrada até acima, a chuva continuava a cair, como lágrimas de estrelas…
Penélope, Lisa e Ramón, deitados na mesma cama, ficaram silenciosos por um momento. Depois da longa conversa, de todas as impressões trocadas e planos traçados, de sentirem que a sua ideia louca ganhava os primeiros contornos, que Zooropa deixava de ser a estrela vermelha da utopia e começava a tornar-se tangível, depois da loucura das ideias e da loucura inebriante dos corpos, os três, nus sob os cobertores, experimentavam o primeiro momento de silêncio daquele dia – pausa necessária para que se apercebessem, como que olhando de fora, das dimensões e dos contornos do seu projecto.
Intermitentemente, os clarões alaranjados tornavam-se mais vivos, quando um deles levava o cigarro aos lábios, fazendo os olhos fixados uns nos outros brilhar por momentos. Abraçavam-se ainda, regressavam lentamente à terra depois do voo esfusiante dos sentidos.
Carl Sagan… disse enfim Lisa. O que faria ele se vivesse no nosso século?
Provavelmente, respondeu Ramón depois de uma pausa, algo de parecido com o que nós queremos fazer… A “Planetary Society” não pretendia apenas a divulgação. Também financiou alguns projectos que para o séc. XXI eram bastante loucos…
Acho que fizemos bem em chamar à nossa organização “Planetary Society”. Somos tão loucos, visionários, sonhadores, como os que no séc. XXI receberam a herança de Sagan. E também nós, como ele, pretendemos que todos compreendam o nosso sonho.
Não te esqueças de falar amanhã com os teus amigos. Lisa, interrompendo Penélope, olhava com cumplicidade para o amigo. Com a Tamara e o Romeo já somos cinco. Para começar, já dá para muita coisa.
Estamos os três ansiosos por começar a trabalhar nisto. Nem mais um dia podemos perder… Falo com eles amanhã, com o primeiro café. Da outra conversa que tive com eles deu para perceber que não nos ficarão atrás em empenhamento.
Tenta combinar uma reunião, para nos encontrarmos os cinco. Saber as impressões deles e definirmos o que cada um vai fazer.
Não é difícil, interveio Penélope, olhando ternamente Lisa, acariciando-lhe a pele. Tu tratas da parte legal: os financiamentos para começarmos, a parte mais administrativa. O Romeo trata da engenharia – tratas dos esboços de naves, para depois mostrares a quem na universidade concluirmos que estará disposto a juntar-se a nós. E eu… sou uma espécie de relações públicas. Vou tentar no meu meio underground procurar mais insones.
Também nisso nos completamos… Um professor de Astrofísica, uma advogada e uma fotógrafa. Para começar, cobrimos praticamente tudo o que precisamos.
O Romeo e a Tamara também nos podem dar uma ajuda com os primeiros desenhos. Sem contar que nos meios estudantis não falta quem sonhe com estrelas…
É verdade. Apenas eles, como nós, dão tanto interesse àqueles anos em que o legado de Carl Sagan conseguiu sobreviver, aqueles poucos anos em que o Homem atingiu o apogeu. Agora a sociedade considera loucos os que se interessam por aquela era… Penélope fechava os olhos, sentindo os dedos de Ramón acariciarem levemente os seus seios.
É a loucura dos insones. Lisa, a sua pele colada à de Ramón, olhava a cumplicidade entre o seu amigo e irmão e Penélope.
Como adorava aquele casal, como se embevecia sempre que, embora como que de fora (a sociedade, apreciadora intemporal de etiquetas, diria passiva), tomava parte na sua intimidade – que então se tornava uma intimidade partilhada a três, etapa última de uma amizade tão avassaladora que se tornava amor, e por isso aquela intimidade dos corpos era o culminar da perfeição. Amor… fazer amor… como até isso podia ser tão relativo… Poucos – por ventura ninguém – compreenderia a sua maneira de fazer amor com aqueles dois… Não podia nem queria “foder” com eles, que seria o que qualquer um a quem tentasse explicar aquela intimidade lhe diria. Não, Lisa nunca iria foder com Ramón e Penélope, nem sequer só com Ramón, trocando de lugar com Penélope. Foder – como odiava a palavra, tão restritiva, tão inadequada! – faziam-no os seus amigos. Ela ficava de fora, observava-os, envolvia-os nos seus braços, estimulava-os e a si (e quantas vezes não precisava sequer de se estimular nem que a estimulassem, quantas vezes abraçá-los era o suficiente para se sentir tão próxima deles, tão dentro da sua carne e da sua loucura que atingia também o orgasmo, não com os sentidos, mas um êxtase quase ascético, envolvendo o êxtase deles…). Era o terceiro elemento daquela trindade que assim, completa, se tornava imaterial, um limbo. Era a perfeição dos sentidos que então se compunha, sentia-se então perfeita. E como antes de pela primeira vez terem assim partilhado a sua união absoluta, antes de essa união absoluta ser deles os três, como tantas vezes invejara a relação de Penélope e Ramón, como desejara ter alguém como eles se tinham um ao outro, pôr fim a uma sucessão vazia de amantes solitários… E a sua amizade tão íntima com Ramón a sua irmandade, fazendo-a por vezes baralhar as coisas, e por isso aquele desejo vivido a três lhe era duplamente querido, era enfim também para ela o fim do caminho, a sua Ítaca. Como era bom haver espaço para três naquela ilha… Sometimes it can take three to tango…
Escuridão. Os cigarros apagavam-se, os três tocavam de novo a terra. Lisa, nos seus pensamentos, no seu carinho por Penélope e Ramón acariciando-se, entrelaçando os dedos das mãos, retomava o fio perdido da conversa.
A loucura dos insones… Nunca compreenderão por que nos interessamos tanto por aqueles anos.
Quando estivermos em Zooropa, quando nos virem, talvez também percebam isso. Ramón acariciava-lhe a face enquanto falava.
Antes e depois de 2000, disse Penélope virando-se também para Lisa, apoiando-se no corpo de Ramón enquanto falava por sobre o seu corpo, foi a era que chegaram a designar por fim da História. Antes dos radicalismos e da primeira não-guerra viveu a geração que conheceu o grau máximo de civilização – de Humanidade – a que o Homem chegou. A partir daí, inaugurou-se a era das não-guerras, e fomos sempre a descer. Como não nos interessarmos por essa época quando o nosso objectivo é voltar a subir, ao menos, à mesma altura que eles? E como nos poderiam compreender se a nossa é também a era da não-História? Lá fora a História, como o resto, deixou de contar… pelo simples facto de nos interessarmos por História já somos uns esotéricos!
Do lado de fora daquele quarto, escuro como se fosse secreto, a chuva continuava a cair, levemente, insidiosa, penetrando a noite. Lá fora, sabiam-no, todos à excepção de outros insones dormiam, despreocupados, inconscientes, nem consciência nem pensamentos… No quarto subitamente invadido pelo silêncio Lisa levantou-se e pôs música a tocar… música-Zooropa, música dos tempos que uma vez designaram por fim da História…
In a little while this hurt will hurt no more… I’ll be home, love…
Na vaga luz surgida no quarto, Ramón contemplava o corpo de Lisa, nua, que regressava à cama. Olhando as suas formas, despojado de erotismo, pensava
When the night takes a deep breath
“minha irmã…”
Como se tivesse escutado o seu pensamento, Lisa, de novo deitada, olhava para os olhos do amigo, suavemente beijou-o nos lábios.
Amo-te, sussurrou. Amo-vos. Amo-vos por terem partilhado estes sonhos comigo. Amo-vos por fazerem amor comigo, por fazer amor com vocês. Amo-vos por serem tão bonitos. Amo-nos aos três por sermos tão bonitos… Amo-vos, irmão e irmã, por me terem falado de Zooropa, porque sei que vamos conseguir, porque sei que amanhã começaremos a sonhar em pleno dia e daremos corpo a estes sonhos. Amo-vos, Ramón, Penélope, irmão, irmã, partes de mim e eu de vocês, amo-vos. Amo-vos porque esta noite vou dormir com vocês… deixámos de ser insones, irmãos, camaradas refundadores da “Planetary Society”… Amo-vos…
Lisa beijou longamente Penélope na boca, depois Ramón. Os três, abraçados, fecharam juntos os olhos e dormiram, sonhando estrelas vermelhas, embalados pela música…
Slow down, my beating heart… A man dreams one day to fly, he takes a rocket ship into the skies… He lives on a star that’s dying in the night and follows in the trail, the scatter of light… Turn it on…
Abraracourcix o chefe falou sobre:
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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2006

Procyon

Zooropa. O mundo podia voltar a girar. O mundo girava de novo, o pequeno mundo daquele quarto girava, rodopiava, perdia sentido. As dimensões físicas deixavam de existir, submergidas também elas por aquela vertigem, aquela torrente de emoções enfim libertadas. Os corpos libertavam-se também, perdiam o seu elemento corpóreo, mais não eram do que meros testemunhos de uma partilha, de uma fusão que não poderia caber em nenhum corpo. Abraçados, unidos, Penélope e Ramón deixavam de ser indivíduos, os seus nomes deixavam de marcar a sua identidade, eram apenas partes, duas partes, ou uma só, porque ambos eram o mesmo…
Não deixavam de se abraçar, de se beijar, enquanto perdiam noção do seu próprio corpo, enquanto ele deixava de existir. Vertigem… O mundo girava de novo, sem dúvida. Os lençóis enrodilhados e abandonados, os cigarros fumados não eram despojos, mas testemunhas de algo mágico que perdurava para além dos corpos. Um alívio, um imenso alívio intangível como éter, fluía dos corpos cada vez mais cansados para as mentes, fazendo-as transbordar, fazendo o mundo voltar a ter sentido. E enfim a vertigem derradeira, os gritos não suprimidos. Enfim os cigarros, os olhos um do outro, a contemplação, a constatação de que algo, de facto, mudara. Ainda eram capazes de sonhar. Eram, de novo, capazes de sonhar. Sabiam, antes mesmo de o saberem, que as insónias não mais voltariam, os pesadelos não mais os assombrariam.
Zooropa. Um sonho. Um sonho de início imperceptível, depois apenas murmurado. Um sonho enfim sonhado.
Zooropa… Ramón segredava baixinho.
Be all that you can be, respondeu Penélope.
Overground.
Overground. Overground!
As suas mãos unidas cerraram-se mais, vagas sucessivas de beijos selando aquele segredo por enquanto partilhado apenas por eles. Haviam de o estender… Haviam de fazer outros compreender, mostrar-lhes aquela saída possível, mostrar que era possível sonhar. Primeiro aos amigos, persuadindo-os para a aventura que sonhavam. Se conseguissem, se um punhado de insones conseguisse voltar a sonhar, se conseguissem gritar ao mundo “Nós sonhámos! Nós conseguimos!”, então as pessoas não mais poderiam manter-se cegas. E o mundo voltaria a girar também para eles, a era glaciar terminaria, o homem voltaria a merecer o seu nome, deixaria de ser uma curiosa espécie de urso em hibernação.
Com quem vamos falar primeiro? Os planos jorravam, exigindo ser concretizados.
Com a Lisa, propôs Ramón. Acho que seria o ideal ela ser a primeira. Conhece imensa gente, tem imensos amigos, alguns deles de certeza insones como nós.
E talvez tenha melhor noção da dificuldade que vamos ter em falar com as outras pessoas, como devemos abordar o assunto, os melhores argumentos… Vamos combinar um café com ela, hoje à noite?
Sim! Estou ansioso por poder contar os nossos planos a alguém, por poder partilhar isto tudo. Enquanto falava, Ramón deitava-se por cima de Penélope, cobria-lhe o pescoço de beijos, sentindo as suas mãos percorrendo-lhe as costas. Vamos telefonar já!
Merda, exclamou Penélope. Vamos esperar pela hora de jantar. Tenho de me despachar, já estou atrasada para as fotografias.
É verdade, tens os nus para acabar! Que desgraça a de um homem, sujeitar-se a que a mulher esteja com outros homens nus…
Tolo! Sabes que depois te compenso sempre… disse Penélope com um sorriso maroto, beijando-lhe os lábios.
Vais ter de me compensar, e muito! Estou roído de ciúmes… Sou muito ciumento, sabias?
Tens ciúmes de tudo… Anda cá, meu ciumentozinho… Penélope continuava a brincadeira, beijando-o sem parar.
Socorro! Ajudem-me! Já chega, já chega, já estou compensado! Sai de cima de mim, chata! Também tenho de me despachar, senão não tenho tempo para o Romeo e a Tamara antes da aula. É espectacular aquela turma, os olhos deles brilham quando estou a falar, também são sonhadores…
Não podes falar também com alguns deles? Com o Romeo e a Tamara, por exemplo? Também são insones, não são?
Falo… Sim, claro… Eles entusiasmam-se, tenho a certeza… Mas primeiro falamos com a Lisa, precisamos de ajuda para concretizar isto tudo.
Claro! Mas vai apalpando o terreno, vê que tal…
É, vou fazer isso. Vamos lá, senão não tenho tempo para falar com eles, depois da aula é complicado.

A chuva caía, indiferente a todos os males. Firenze molhada era ainda mais especial. Todos os edifícios, os arranha-céus do mesmo modo que os palacetes do centro histórico, todos pareciam envoltos numa transparente película, como se a chuva os quisesse proteger. Sob o céu de um cinzento uniforme, também a cidade era uniforme. Os séculos, a História nada significavam…
Ramón caminhava rapidamente pelas ruas, como que indiferente à chuva que o molhava cada vez mais. Não usava guarda-chuva – há muitos anos que deixara de utilizar aquele artefacto que considerava pouco mais que inútil, e de qualquer forma bem mais incómodo que a chuva. Se não fosse, apesar de tudo, o desconforto que lhe causava, ficaria parado no meio da rua, contemplando a rua encharcada, ouvindo os veículos passarem sobre a película de água que se ia formando. Adorava os sons da chuva… sempre o tinham fascinado. O tamborilar rítmico da chuva miudinha contra a janela atraía-o como se de música se tratasse. No fundo, sempre considerara a chuva como música, a melodia da Natureza num mundo que já não lhe pertencia. E, no entanto, mantinha-se como natural, algo que simplesmente acontece, moldando tudo à imagem da sua humidade. Ou talvez moldasse apenas a visão de tudo…
Tudo parecia uniforme e cinzento como o céu. Não eram as nuvens, era a própria chuva que filtrava a luz, criando a sua própria luminosidade particular, coando o quotidiano, as pessoas, os edifícios, precipitando-se sobre tudo e tudo alterando. O mundo à chuva era, em definitivo, diferente, pelo menos na aparência, pelo menos no modo de ser visto pelas pessoas. Talvez, naquela manhã, fosse mesmo diferente…
Enquanto se aproximava da universidade, ia pensando. Sim, falaria com Romeo e Tamara. Era só uma questão de escolher a melhor forma de abordar o assunto com eles, porque de certeza que adeririam de imediato ao sonho de Zooropa e nele se empenhariam como em tudo o que acreditavam profundamente. Adorava aquele par! Para além de, no seu entendimento perfeito – diria quase simbiose – lhe fazerem lembrar ele mesmo e Penélope quando estudavam, eram os membros mais activos do colectivo da Amnistia Internacional da qual os quatro faziam parte – colectivo que, como tudo o que cheirava a pensamento livre – a pensamento tout court – se tinha de reunir clandestinamente… Tamara e Romeo eram, para além disso, os alunos mais interessados do curso, tudo o que dizia respeito às estrelas ia-lhes direito à alma… sem dúvida, pareciam a réplica, dez anos mais nova, de si e de Penélope.
Absorvido como sempre nos seus pensamentos, o mundo exterior penetrando na sua mente mas mantendo-se assim mesmo, exterior, subira já a escadaria da universidade. Apenas tomou disso consciência ao passar entre as colunas que ladeavam a entrada e se perguntar por que razão parara de chover: “ah, já cheguei!”
Dirigiu-se ao bar dos alunos, bem mais agradável que a elitista cafetaria dos docentes, onde toda a gente parecia estar constantemente a avaliar o comportamento, as palavras, de todos. Não se importava de ser visto como um estranho entre os alunos que menos vezes estavam no bar, pois os restantes já estavam habituados a vê-lo ali – e, de resto, com o seu ar jovial e semi-lunático, facilmente o tomavam por um aluno mais velho – falando como um dos seus, e naturalmente tratavam-no como camarada e não como professor.
Tamara e Romeo já ali estavam, sentados numa mesa junto à parede.
Olá, chegaram há muito tempo?
Não, mesmo agora. Oh, professor, está completamente encharcado! Quando se decide a comprar um guarda-chuva? Sabe que eles são magnéticos, não tem sequer de segurar no cabo…
Que mania que vocês têm, tratem-me por tu, pelo nome. Chamo-me Ramón, e não Professor. Somos amigos aqui, não professor e alunos. Entre nós os três, isso é só quando entramos na sala de aula.
Ok, pá, não te chateies, pá! Tamara gozava com ele. É o hábito, já sabes.
Esperaram por mim para o café?
Claro, mas estamos desesperados… completamente coffeeless.
Somos todos uns cafeinómanos… Eu vou buscar.
Enquanto esperava pelo vital primeiro café matinal, ansiava por poder puxar de um cigarro, como todos os dias religiosamente aguardando pelo primeiro gole de café. Para se distrair, olhava pela janela, a chuva caindo sem cessar… Ouvindo as gotas a martelar nos vidros ecoaram dentro de si palavras ancestrais…
On and on the rain will fall like tears from a star… On and on the rain will say how fragile we are…
Abraracourcix o chefe falou sobre:
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006

Sirius

O tecto. A escuridão. O tecto. As paredes. As sombras. A escuridão. O tecto. A janela. As luzes. As sombras. A escuridão. O tecto. A janela. O céu. A lua. A janela. O céu. Todas as estrelas do céu.
A insónia. A frustração, a raiva de não conseguir dormir. Penélope já estava habituada. Quando não eram pesadelos, era aquela lucidez irreal. Querer dormir e não conseguir, pensamentos sucedendo-se a uma velocidade alucinante, caos mental sem solução possível. Não sabia o que era pior, se a vigília, se os seus pesadelos recorrentes, de que acordava sem se conseguir mexer, como se uma qualquer criatura nocturna a tivesse imobilizado durante o fatigante sono.
Dormindo, lutava contra fantasmas, doenças de que não sabia o nome, a morte iminente de Ramón, a prisão no espaço, as estrelas à sua volta infinitamente rodando sobre si, vertigem onde se enredava e de onde não conseguia escapar. Com frequência, nem mesmo acordando esconjurava os espíritos, quando ficava presa sobre os lençóis, sem se conseguir mexer. Procurava então o conforto de Ramón, invariavelmente preso à sua própria insónia, imóvel perscrutando o firmamento. Acordados então os dois, tinham pelo menos o conforto dos braços, o calor fugaz dos beijos. Ficavam depois lado a lado, abraçados, olhando juntos o mundo lá fora, olhares que, juntos, se transformavam num único, esperando assim que a madrugada surgisse e os libertasse.
Insone, os fantasmas continuavam lá, perdendo em onirismo, ganhando em realidade. Bastava olhar por aquela janela para o mundo lá fora. Insones, Ramón e Penélope raramente trocavam palavras, tornadas desnecessárias por um destino também nessa penosa lucidez partilhado. Abraçavam-se apenas, os braços que não conseguiam distinguir o único calor possível daquelas longas noites.
A insónia, os pesadelos partilhados… (porque quando Penélope dormia, Ramón sonhava com ela, sofriam ambos da mesma forma aqueles sonhos tristes, alucinados, desesperados, labirínticos…) Fosse de uma forma ou de outra, os fantasmas não podiam ser esconjurados. Estavam demasiado prementes, demasiado próximos, rodeavam-nos, a cada momento apertando mais as suas tenazes. Era apenas por juntos resistirem que não haviam ainda sucumbido à loucura.
When the night has no end and the day yet to begin, as the room spins around I need your love.
A loucura… A loucura do mundo em que viviam, tão diferente do que um dia tinham sonhado, tão oposto àquele por que tinham lutado… Insanidade… Noite e dia eram irrelevantes, guerra e não-guerra a mesma coisa, realidade à qual ninguém sabia dar nome… O mundo estava em guerra? Ninguém sabia ao certo, ninguém queria saber – porque era impossível responder. Não havia guerra? Mas o que era a “guerra” afinal? Conflito bélico, duas facções tentando mutuamente subjugar-se pela força das armas? Isso não era guerra… Isso havia acabado nas gerações anteriores… Guerra era dominação, e dominação era não poder pensar… O domínio dos que alteravam a realidade do que os outros pensavam… dos que decidiam o que se podia ou não pensar, e o faziam da forma mais insidiosa mas por isso mesmo terrivelmente mais eficaz… Não se tratava de proibir, não se tratava de coagir, nem sequer de convencer… A manipulação era tão silenciosamente pérfida precisamente porque partia de cada um… ninguém objectivamente manipulava ninguém, todos se manipulavam a si mesmos, se convenciam de que era errado formular determinado pensamento, que era melhor agir de determinada forma… E tudo isso resultava sempre, invariavelmente, para proveito dos mesmos, dos que por esta via se apoderavam da realidade… os que decidiam o que essa realidade podia ou não ser…
Guerra era pesadelo, aquele pesadelo… A insónia era a derrota… Se dormissem venceriam, porque as suas mentes, enfim tornadas sãs, não mais tolerariam aquela surda opressão. Assenhoreando-se dos sonhos de forma que talvez nem eles próprios esperariam, os senhores do mundo – os inomináveis senhores do mundo, as mãos invisíveis que puxavam os cordéis – garantiam a sua vitória. Aquela guerra não era por território, por poder, como as do passado. Era a luta de cada um pelo domínio de si. Era a luta pela libertação dos fios invisíveis que tolhiam cada um, pelo fim do marasmo, da inacção, da conformação. Fios que não existiam sequer, que por isso não podiam ser combatidos.
A noite… A noite que não terminava… Porque quando nascesse o dia, o pesadelo terminaria. De dia os fantasmas dormiam. Toda a gente partia para o seu quotidiano: os que de noite dormiam descansados, que não conseguiam conceber a existência de uma opressão invisível, os que se cegavam a si mesmos, não podendo ou não querendo ver; e os insones, que em vão procuravam encontrar a via para a sanidade, os que viam e que eram cada vez menos porque muitos preferiam passar a não ver…
Enfim, a madrugada… Enfim Ramón e Penélope poderiam falar, animadamente discutir os planos para mais um dia de combate. Porque só de dia podia haver combate. A noite apagava tudo, estrelas vermelhas, ilhas da Utopia, pombas brancas, mãos dadas, punhos erguidos, flores, branco, vermelho, tudo a noite cobria… Tudo se tornava noite… Apenas as estrelas, no céu, subsistiam, indiferentes…
Agora, de manhã, tudo voltava a ter sombras, combater voltava a ter sentido. Mas como se combate um inimigo que não existe? Como acordar os que também de dia dormiam? Como fazer ver aos que os acusavam de perturbar o bem-estar público, aos que os perseguiam e apenas lhes deixavam a luta clandestina como opção, como os fazer ver que o mundo deles era a negação de tudo, a negação do homem? Como os fazer despertar da letargia em que se refugiavam para obter conforto? Como os fazer voltar a ser Homens, a reapropriarem-se de si, escolherem o seu próprio destino, mudar o mundo e torná-lo melhor?
É preciso um grande acontecimento, disse Penélope nessa manhã, entre dois goles de café. É preciso um acontecimento tão bombástico que ninguém o possa negar. Só então as pessoas acordarão, só então voltarão a olhar uns para os outros, a dar as mãos, a pensar realmente.
Ramón não respondeu, fixando os olhos de Penélope entre a neblina dos cigarros.
É preciso descobrirmos Zooropa.
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

Alpha Centaurus

Corria, corria sempre, cada vez mais depressa. A escuridão do corredor apertava-a, corria sempre mais depressa, mas ao fundo nada mais que uma vaga luz.
Corria, Penélope corria sempre, tentava aproximar-se da luz, mas ela continuava difusa e distante. O corredor era negro e comprido, esvaziado de sentido, nada mais importava que aquela luz. Na mão apertava um frasco com um líquido azulado, era a cura, ela sabia-o. E sempre aquelas palavras martelando-lhe a cabeça: Miss Penélope Cruz, é favor dirigir-se com urgência ao posto médico. Com urgência… Era Ramón, ela sabia-o, ele estava a morrer e ela era a única que o poderia ajudar.
Penélope continuava a correr… Agora a luz parecia aproximar-se dela, tornava-se mais nítida. Cada vez mais depressa… Na mão apertava o antídoto, corria para o salvar. Ele estava a morrer, ela sentia-o, uma dor dilacerando-lhe o peito, cada vez mais forte à medida que se aproximava da luz.
A cada passo se sentia mais cansada, exausta, incapaz de prosseguir, mas sabia que não podia parar. Seria o fim de tudo… Miss Cruz, é favor dirigir-se com urgência ao posto médico.
A luz aproximava-se. Podia já distinguir a porta alguns metros à sua frente. Mais um esforço e conseguiria. Apertava cada vez com mais força aquele líquido precioso, ao ponto de fazer doer todos os músculos da mão. Uma melodia invadia-lhe o espírito, uma espécie de banda sonora que caracterizava aquele corredor, a sua corrida contra o tempo, a escuridão atrás de si.
Hold on. Hold on tightly. Hold on and don’t let go of my love.
Talvez demasiada força, ou talvez apenas o suor que lhe escorria pelas mãos… O frasco escapava-se-lhe da mão, caía, rolava na direcção da porta.
NÃÃOOO!! As palavras pareciam-lhe distantes, como se tivessem sido proferidas por alguém que não ela, como se tudo aquilo fosse apenas um sonho.
Penélope atirava-se para o chão, deslizava, tentava agarrar de novo a salvação. O pequeno frasco continuava a rolar, até se imobilizar contra a porta, perdido na penumbra, entre a luz que brilhava à sua frente e a escuridão devastadora atrás de si. O líquido continuava intacto… Agarrou-o rapidamente e, antes de abrir a porta, não conseguiu evitar olhar por cima do ombro, ver uma vez mais aquela escuridão que não se limitava a apertar o coração à sua volta, aquela escuridão que parecia persegui-la, quase alcançá-la, agarrá-la, impedindo-a de abrir a porta, aquele frio que a rodeava, lhe tolhia os movimentos, cobrindo-a como um cobertor do qual não se conseguisse livrar.
Despertando daquele cenário hipnotizante, olhou de novo a luz e relembrou a sua missão. Entrou rapidamente no posto médico, onde um cenário desolador a esperava. Todas as macas disponíveis estavam ocupadas com corpos inanimados, alguns cobertos por um lençol negro, outros à espera dessa cobertura, mas não havia ninguém para o fazer. Duas enfermeiras jaziam por cima de uma das macas, cobrindo o corpo de um rapaz. Agarrado ao intercomunicador, um dos médicos gemia ainda, balbuciando algumas palavras dificilmente compreensíveis momentos antes de desistir desse derradeiro esforço. Envolvendo todo o compartimento, uma luz difusa que não podia ser descrita nem como claridade nem como penumbra, uma espécie de bruma que filtrava a luz proveniente das lâmpadas que, por cima de Penélope, ainda funcionavam.
As suas emoções eram confusas, dividida entre o horror perante aquele cenário semi-dantesco e a obrigação de o achar. E sempre aquele frio que rodeava todos os objectos, que emanava das paredes, parecendo ter nela o seu único alvo. Tudo aquilo era irreal, os objectos não eram nítidos, pareciam afastar-se dela, ao mesmo tempo que as paredes pareciam tornar o compartimento cada vez mais pequeno. A sua mente corria com rapidez, mas os pensamentos atropelavam-se, não conseguia fixar-se numa só ideia. Uma figura apareceu-lhe de repente no espírito, uma silhueta apenas, mas que ela reconheceria entre mil. Era o suficiente para a fazer reagir: tinha de o encontrar, nada mais lhe restava.
Aqueles corpos imóveis… Estariam todos mortos? Não… Não podiam, tinha de haver sobreviventes, pelo menos um, pelo menos ele. Nenhum dos corpos descobertos era o dele, por isso começou a destapar os lençóis negros que encobriam as feições de homens, mulheres, crianças, os escondiam, ocultando-os da visão de Penélope, como se já não fizessem parte deste mundo…
No meio daquele silêncio sepulcral, um gemido. Ergueu rapidamente a cabeça, imobilizando-se, à procura daquele som. Um novo gemido, desta vez mais longínquo, fê-la aproximar-se de um dos cantos da sala, do lado oposto à porta por onde tinha entrado. Mais um som, não era exactamente um gemido, era quase uma palavra, um pedido de ajuda cada vez mais distante. Ao lado de um homem cujas feições revelavam a agonia dos seus últimos momentos de vida, duas enfermeiras cobriam completamente uma das macas, como que uma protecção perante o indefensável… Era dali que provinham os gemidos, cada vez mais fracos à medida que Penélope tentava retirar os corpos das duas mulheres de cima de um lençol que não era negro, nem branco, nem de nenhuma cor, derradeiro bastião da vida no meio da bruma que apertava as suas garras sobre ela, tentava extingui-la finalmente. Num derradeiro esforço, conseguiu arrastar os dois cadáveres, que caíram no chão com um baque surdo revelando as faces horrorizadas de duas jovens que tentavam fugir a um destino que as tinha envolvido cedo demais… Por debaixo do lençol, um último gemido, antes de descobrir o corpo.
Ali deitado, todos os seus músculos tensos, uma máscara de sofrimento-quase-horror, já não era um ser humano, era a esperança que se desvanecia, a vida que cedia, a luz que dava lugar às trevas. Era provavelmente tarde demais… Com a cara coberta de lágrimas, Penélope acariciou-lhe a cara coberta de suor, afagou-lhe o queixo, fê-lo abrir a boca, vertendo nela o líquido que tão ciosamente transportara. Talvez ainda fosse possível… Não conseguia sequer avaliar se o líquido fora engolido, pois o corpo continuava imóvel, nem um músculo se movia, apenas mais um gemido débil, como se estivesse já longe, arrastado pela escuridão irresistível, cada vez mais longe.
Penélope segurava-lhe ainda a mão, acariciava-lhe a face, sussurrava-lhe palavras que nem ela sabia quais seriam, recusava-se a desistir, tinham de resistir, tinham de sobreviver, expulsar aquela bruma, iluminar de novo aquele corredor…
Hold on tightly…
Um último gemido, não mais que um som dificilmente articulado. Penélope olhava-o fixamente, como se desviar os olhos das suas feições por um momento sequer significasse o fim, reduzisse a nada todo o seu esforço, todo o seu desespero… E no entanto era o nada que se aproximava, ela sentia-o, a mão que agarrava ainda subitamente esvaziada de sentido, não era já o corpo daquele que ela tão desesperadamente amara, era uma coisa inerte, depósito de coisa nenhuma. Olhar aquelas feições já nada significava, os olhos de Penélope aperceberam-se disso antes dela, enchendo-se de lágrimas enquanto o corpo soluçava. Agarrava-se então àquele corpo inerte, aquele não-ser, agarrava-o com força, fechava os olhos para suster as lágrimas, escuridão que a rodeava agora também a ela.
A cara mergulhada no seu peito, soluçava, chorava convulsivamente, gritava sons inarticulados, de repente incapaz de se mover, deitada ao lado daquele corpo, partilhando aquele leito, o derradeiro leito. Os olhos fechados, a maca já não estava ali, fora transportada para longe. O corpo completamente tenso, Penélope chorava ainda, sem consciência do local onde estava, da sua situação, sequer das suas lágrimas. Gradualmente começou-se a aperceber de que não conseguia mexer um músculo, aflitivamente queria correr para longe mas não conseguia. Cerrando as pálpebras com força, moveu um braço, tentou abraçar o corpo que jazia ao seu lado.
Ramón já não estava lá. A realidade atingiu-a com um golpe seco, duramente premente. No lugar do corpo que deveria estar ao seu lado, apenas o lençol frio.
Ramón, gritou, enquanto se levantava de um movimento só da cama. Com um rápido menear de cabeça, percorreu todo o quarto. Ele não estava ali… Penélope correu para a porta, fechou-a atrás de si, e de repente o sonho fora transportado para a realidade. Aquele corredor escuro de novo à sua frente, aquela escuridão oprimindo-a de novo, a sua garganta sufocava, não conseguia respirar, incapaz de reagir. Tacteou a parede e encontrou uma saliência familiar: premindo o interruptor, o sonho desvaneceu-se de vez. As sombras fugiam rapidamente, levadas pela luz artificial do corredor, as paredes alargavam-se, já não era um corredor opressivo, era um mero ponto de passagem…
Em pé, imóvel, braços cruzados em frente de grande janela, os olhos fixando o firmamento que os rodeava, Ramón não reagiu. Continuava a perscrutar o céu, sem se mover, apenas um contorno, um vulto depois de Penélope apagar de novo a luz. Dirigiu-se para ele e abraçou-o, acariciando-lhe as costas, abraçava-o com mais força do que desejaria, último vestígio do sonho que a abalara.
Tive tanto medo, amor, disse finalmente, depois de alguns minutos de silêncio, também ela contemplando o firmamento à sua frente, uma paisagem que se estendia até ao infinito.
Medo de quê? Nenhum deles olhava o outro, ambos fixavam ainda as estrelas à sua frente, não era necessário olharem-se, contemplar as estrelas era como verem-se um ao outro.
Que não estivesses aqui, que não estivesses em lado nenhum… Acordei de repente, não me conseguia mexer, não estavas ao meu lado, pensei que tivesses desaparecido, como…
Como no teu sonho?
Sim. Não te vi, assustei-me, depois descobri-te aqui, imóvel, tu e o universo… Amo-te.
Ramón descruzou enfim os braços, abraçou-a, na escuridão olharam-se sem se ver, nenhum deles vendo os lábios do outro aproximarem-se mas sentindo-o, um beijo apaixonado, como todos, diferente no entanto de todos os outros… como sempre.
Abraçados ainda por um momento, depois apenas de mãos dadas, olharam de novo o espaço. Como em tantas ocasiões antes daquela, o mesmo pensamento surgiu-lhes simultaneamente, emergindo do silêncio. Uma imagem, uma frase, uma mistura única de som e imagem que alguém criara séculos atrás. Um homem contemplando o universo à sua volta, subjugado pelo infinito, uma frase apenas proferida antes do fim.
Meu Deus, tantas estrelas...
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Todas as estrelas do céu

Na ausência do meu amigo chefe Abraracourcix, fico encarregue do Altermundo, com autorização para divulgar algo que tenho vindo a escrever, um livro chamado "Todas as Estrelas do Céu". Vou aqui deixar pequenos capítulos diários, em jeito de folhetim venezuelano. Hoje, fica já o início, para abrir o apetite, e espero que fiquem a ansiar pelas "cenas dos próximos capítulos"...

Zooropa

Chamsu

Os passos ecoavam pela nave onde entrava, solitário… A partir daquele momento estava só, nada do que existisse fora do compartimento onde mergulhara contava… Sentou-se aos comandos e ultimou os preparativos para a descolagem, os derradeiros vestígios de ansiedade percorrendo-lhe as entranhas… Dentro de poucos minutos, tudo aquilo desapareceria, a nave, o impulso gravítico puxando-o para trás, o céu azul à sua frente escurecendo à medida que se libertava do jugo da atmosfera terrestre, as estrelas surgindo aos poucos à sua frente, essa realidade passaria a ser, dentro de momentos, todo o seu mundo…
Base chama major Tomé. Base chama major Tomé. Contagem decrescente preste a ser iniciada. Põe o capacete. Não te esqueças de tomar os comprimidos para o enjoo.
(dez…)
Com gestos estudados, Tomé obedeceu às ordens do seu comandante. Tinha chegado o momento. A partir dali, o mundo tal como o conhecera, o planeta Terra e a sua vida nele, desapareciam. Começava a sua segunda vida, a missão que para sempre o passaria a acompanhar, uma vida para e pelas estrelas…
(nove… oito… sete… seis…)
Base chama major Tomé. Contagem decrescente iniciada, motores em fase de arranque.
Tomé estava preparado, acompanhando mentalmente a contagem decrescente daqueles derradeiros e tão lentos segundos…
 (cinco… quatro… três… dois…)
Ignição. Que Deus te acompanhe.
(um… descolagem)

Base chama major Tomé. Mereceste o teu posto. Finda toda a turbulência, ouvia aquelas palavras de felicitação enquanto desapertava os cintos de segurança e tirava o capacete, todos os músculos do seu corpo relaxando agora que terminara a fase mais delicada da viagem.
Os jornalistas querem saber que camisas vestes. Agora é altura de abrires a porta. Tens de inspeccionar o exterior da nave para te certificares de que não há danos a registar. Vais dar o teu primeiro passeio no espaço… se te atreveres…
Tomé levantou-se, vestiu o fato espacial e, como tantas vezes ensaiado, dirigiu-se lentamente para a porta exterior.
Major Tomé para Base. Sabia exactamente o que tinha de fazer, mas nada o podia ter preparado para o que sentia… Estou a passar a porta… Estou a flutuar no espaço, o peso é uma coisa estranha… E as estrelas parecem tão diferentes…
Era um sentimento maravilhoso, que nenhumas palavras poderiam descrever apropriadamente… o seu planeta natal flutuando ao longe, a enorme velocidade da nave colocando-o já suficientemente longe para poder esticar o braço e fazê-lo caber na palma da sua mão…
Tomé terminou rapidamente a sua inspecção e voltou para a nave, virando-se para trás uma última vez antes de fechar a porta, pensamentos soltos vagueando na sua mente…
“Aqui estou, dentro de uma lata, flutuando acima do mundo… O Planeta Terra é azul e não há nada que eu possa fazer…”
Uma ideia resoluta tomou-o então de assalto. De repente, sabia perfeitamente o que tinha de fazer. Fechou a porta, dirigiu-se ao rádio e falou para a Base.
Major Tomé para Base. Apesar da velocidade estonteante sinto-me estranhamente imóvel… Acho que a minha nave sabe para onde ir… Digam à minha mulher que a amo muito…
Base chama major Tomé, deixámos de ouvir, o que se passa? Consegues-me ouvir, major Tomé? Consegues-me ouvir? Consegues…
“Aqui estou, viajando na minha lata… muito acima da Lua… o Planeta Terra é azul, não há nada que eu possa fazer…”
Abraracourcix o chefe falou sobre:
um discurso de Abraracourcix às 17:00
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Discurso de despedida do chefe

Este é o último dia na gaulesa aldeia. Descansem os amigos irredutíveis gauleses, o céu não me vai cair em cima da cabeça! Vou apenas de férias... durante uma semana ainda em Portugal, mas farei apenas uma gestão muito deficiente do blog; depois, duas semanas noutras paragens, e sem qualquer gestão do Altermundo.
Para isto não ficar parado, e para que o punhado de irredutíveis gauleses não comece a arrancar cabelos, aceitei o pedido de um amigo meu e vou divulgar aqui algo do que ele tem escrito.
Assim, será o meu amigo Tomás Marinho - aqui no mundo deste canto irredutível da blogosfera conhecido como Zebigbos (para quem se lembrar, era o chefe da aldeia bretã do primo do Astérix, Jolitorax, em "Astérix e os Bretões", álbum que pela sua pertinência parafraseio abundantemente no blog), que ficará até ao meu regresso encarregue da gestão do Altermundo.
O que ele vai aqui colocar serão, em partes de tamanho "digerível" num blog, capítulos de um livro que está a escrever, chamado "Todas as Estrelas do Céu". Pelo que já me deu a ler, é interessante, e dará um tom algo diferente ao Altermundo... mais... distinto e culto :) De qualquer forma, sintam-se à vontade para comentar, ou mesmo armarem-se em críticos literários!
Até ao meu regresso então... e que o céu não vos caia em cima da cabeça, por Toutatis!
:
Abraracourcix o chefe falou sobre:

Os melhores javalis


O chefe viu:
   "Nightwatchers", Peter Greenaway

  

 

   "The Happening", M. Night Shyamalan

  

 

   "Blade Runner" (final cut), Ridley Scott

  


O chefe está a ler:
   "Entre os Dois Palácios", Naguib Mahfouz

O chefe tem ouvido:
   Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

   Radiohead, In Rainbows
 

por toutatis! que o céu não nos caia em cima da cabeça...

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